Fazer sempre o bem do outro

Reflexão de Georgino Rocha



Jesus continua a desvendar os horizontes novos da mensagem que anuncia. Os discípulos são exortados e fixar o seu coração em Deus Pai e a imitar o seu modo de proceder. Mesmo nas situações mais complexas e intrigantes. Mesmo nos casos de violência e de injustiça, e na relação com os inimigos. Com estas duas concretizações perfaz a lista que antes havia enunciado: o homicídio, o adultério, o divórcio, e o falso juramento. E o rosto feliz do discípulo fiel brilha como a luz do mundo e mantém a integridade do sal da terra.

Jesus define a sua missão em relação à lei e aos profetas como a de não anular ou desvalorizar, mas de elevar à plenitude. Ele dá o exemplo. Umas vezes cumpre e exorta a que se cumpra fielmente, outras reinterpreta, dá-lhes um sentido novo e pleno e recomenda a sua prática: “Eu porém, digo-vos…”. Também nas relações com os violentos e injustos, com os adversários e inimigos. E justifica a sua atitude com o modo de ser e de proceder do Pai que está nos Céus. Mostra assim a beleza exigente da sintonia do agir humano com a vontade divina.

Esta sintonia torna-se força dinâmica para a relação entre as pessoas, chamadas a viver na história e a conviver em sociedade. Com afirma Platão, no seu livro «O Banquete» dirigindo-se a um comensal: “Que bom seria, Ágaton, se a sabedoria conseguisse passar do mais cheio de nós para o mais vazio sempre que estivéssemos em contacto uns com os outros, como a água que desliza nas taças, através de um fio de lã, da mais cheia para a mais vazia”.

As declarações que Mateus, o evangelista narrador, nos apresenta são contundentes: renunciar à rebelião perante a injustiça, praticar a não-violência como estilo de vida e amar o inimigo. Provocam uma verdadeira “revolução” pacífica. Introduzem uma nova escala de valores que dão vida e configuram as relações humanas em todos os âmbitos. Anunciam a tão desejada civilização do amor, onde o humano é espelho polido do divino que há em nós como centelha de Deus na sua comunhão trinitária.

A declaração “olho por olho e dente por dente”, conhecida em muitas culturas pela “lei de talião”, introduziu um avanço grande nas relações sociais, pois definiu a igualdade de medida da retaliação face ao crime praticado. Frequentemente não era assim. E por uma ofensa feita, quantos castigos a mais eram praticados. E de ordem superior como por exemplo: pelo roubo de animal, a morte de uma ou mais pessoas. Visava, pois, pôr cobro à vingança arbitrária.

Jesus, com os quatro exemplos que dá, surpreende e provoca. A injustiça e o mal não se vencem à força de mais violência que gera nova injustiça e fomenta os instintos de morte. Só a força do bem, pode vencer o mal. É preciso humanizar os códigos de vingança sem limiites. E, se dúvidas houvesse, o seu exemplo na cruz do Calvário e as palavras de perdão aos algozes e de confiança filial em Deus Pai seriam suficientes para as dissipar. (Homilética, 2017, 1, 72).

O Papa Francisco na mensagem para o Dia Mundial da Paz, a 2017, afirma: “desejo deter-me na não-violência como estilo duma política de paz, e peço a Deus que nos ajude, a todos nós, a inspirar na não-violência as profundezas dos nossos sentimentos e valores pessoais. Sejam a caridade e a não-violência a guiar o modo como nos tratamos uns aos outros nas relações interpessoais, sociais e internacionais. Quando sabem resistir à tentação da vingança, as vítimas da violência podem ser os protagonistas mais credíveis de processos não-violentos de construção da paz. Desde o nível local e diário até ao nível da ordem mundial, possa a não-violência tornar-se o estilo caraterístico das nossas decisões, dos nossos relacionamentos, das nossas ações, da política em todas as suas formas”.

“Amai os vossos inimigos”, prossegue Jesus, deixando certamente espantados os discípulos já incomodados com as exortações anteriores. E quem não ficaria? E para não haver hesitações, o texto continua: Amar, rezar e fazer bem. Fica destruída a lógica antiga: amar a quem te ama, odiar a quem te quer mal. A novidade surpreende pela positiva. O modelo do nosso proceder é o agir de Deus que trata a todos como filhos, faz nascer o sol e cair a chuva sobre justos e corruptos. Ele é a misericórdia em acção. Bela e inesgotável fonte de energia para a nossa vida quotidiana! Deus é assim. Está definida a medida do nosso amor.

Amar o inimigo é fruto do dom de Deus que vai amadurecendo em nós. Vive-se, quase sempre, como um processo em que, embora se sinta a ferida da ofensa, não se deseja mal nem se alimenta ódio ou vingança; admite-se fazer-lhe bem em caso de necessidade; espera-se e aproveita-se uma oportunidade para dar uma saudação e, talvez, algumas falas; ir provocando ocasiões de encontro; desinflacionar as emoções sentidas e abrir-se ao perdão, se for solicitado; ser condescendente e reganhar uma certa simpatia; rezar como Jesus na cruz e na aparição a Tomé, com a cicatriz ainda viva, dar e aceitar o perdão fruto do amor misericordioso. Percurso exigente, mas redentor. Desabrocha na alegria pascal.

Façamos nossa a oração que um colega de curso me enviou no domingo último: “Senhor Tu vieste revitalizar a nossa história pessoal; vieste potenciar o melhor de nós mesmos; Tu vieste dinamizar a nossa existência; vieste despertar a nossa coerência e fraternidade; Tu vieste falar ao coração de cada um de nós; e vieste pôr as pessoas acima das normas. Obrigado Senhor Jesus! Ámen! Aleluia!

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