domingo, 28 de julho de 2013

Camarinhas






CURIOSIDADE

Ontem, dia de compras na cidade vizinha, deparei com algo que já não via, há séculos! Numa grande cesta, à entrada do mercado, deliciei-me na contemplação de pequenas bagas entre o transparente, o rosa claro e o rosa mais forte. Parecia um saco de pérolas, em vários cambiantes, apetitosas à vista e ao paladar.
Camarinha ou camarinheira (Corema album ou Corema album ssp. azoricum) é uma planta da família das Ericáceas, embora apareça associada à família das Empetráceas. As flores surgem de março a junho, masculinas e femininas em plantas separadas, mas são tão pequenas que passam quase despercebidas, sendo a sua polinização assegurada pelo vento. A ramagem liberta uma intensa e doce fragrância a mel dos deuses! Os frutos surgem em pleno julho, agosto e setembro, pequenas drupas brancas, semelhantes a pérolas, comestíveis, constituindo um apetitoso festim para animais silvestres e para humanos atentos e sensíveis à beleza natural. Noutros tempos, eram vendidos por mulheres, em diversas zonas balneares do país, em cartuchos de papel, às medidas, tal como hoje.

Políticos não sacrificam interesses

Garante António Barreto





"Os partidos políticos portugueses «exigiram à população enormes sacrifícios», mas, chamados a negociar, «foram incapazes de fazerem, eles próprios, o sacrifício dos seus interesses», analisa o sociólogo António Barreto."


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Gafanhões vistos por outros — 5

Quando passei na Gafanha


«Quando passei na Gafanha [1922], vi as cachopas da beira-rio, todas molhadas, sempre metidas na água a rapar o moliço. Feias e ingénuas. A uma calculei-lhe: – Tem para aí treze ou catorze anos. – Tenho vinte e um, e três filhos, respondeu. – Outra tinha ficado a olhar para mim com olhos inocentes de bicho e as mãos postas sobre os seios redondinhos – sobre aquilo, como diz a Ti Ana, que o Senhor lhe deu e ela precisa…
A ti Ana Arneira, com cuja amizade me honro, é um dos meus melhores conhecimentos da Gafanha. Mulher capazona, como por lá se diz. Acompanha-me pelo areal, e conta-me logo à primeira a sua vida. Tipo atarracado e forte, de grossos quadris, vestida de escuro, chapéu na cabeça e aguilhada em punho. O homem foi para o Brasil há muitos anos (— É o rei dos homes!... —), ficou ela e os filhos por criar. Criou-os todos. Netos, doenças, lutos. Nunca desanimou. A força que a sustenta é admirável, profunda e radicada, como a de quase todas as mulheres do povo que conheço. Deitou-se à vida — lavrou campos. Vieram mais aflições e outras mortes.
— Então de que lhe morreram os filhos?
— Sei lá, a morte não se quer culpada. Era preciso sustentar a família. Pegou nos bois e no carrinho e começou a transportar sal da Gafanha para Mira. Fez mais: antigamente no Arião também havia companhas, e quando faltava um pescador a ti Ana agarrava-se ao remo como um homem e ia ao mar no barco. — Nem do diabo tenho medo. Só tenho medo aos cães loucos. 
— A extensa planície que atravessa, duas, três vezes por dia, é um deserto. A Ti Ana vai e vem de noite, sozinha, com os bois que lhe fazem companhia. Agora tem um campo, barcos para o moliço, novos netos para criar — e olha cara a cara o destino sem esmorecer. A sua vida é uma grande lição de energia.»

Raul Brandão, 

in “Os Pescadores”




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