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terça-feira, 26 de maio de 2020
UM SONETO DE CAMÕES PARA VARIAR
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
Luís de Camões
quinta-feira, 4 de abril de 2019
Domingos Cardoso e o vento cortante como gume
FOI O VENTO
Foi o vento cortante como gume,
Que me fez companhia nessa espera
Em que só a saudade mais austera
Me falava de ti, como um queixume.
Foi o vento que trouxe o teu perfume
Nessa clara manhã de Primavera,
E, então, eu senti, que antes de quimera,
Eras rosa vermelha em fogo e lume.
E os dias se passaram a correr
Num tempo de alegrias e prazer
Como só haveria em pensamento.
E essa ardente harmonia em nossa vida
Foi repartida ao mundo, a toda a brida,
Por esse arruaceiro que é o vento!
Domingos Freire Cardoso
sexta-feira, 2 de novembro de 2018
Um soneto de Domingos Cardoso para este outono
Sou um cansaço que findou no sono
Narciso Alves in “Para Além do Adeus”, p. 93
Sou um cansaço que findou no sono
Da tarde triste em que morreu o dia
E quando a noite o meu corpo acolhia
O sol desceu do seu dourado trono.
A doce paz nasceu desse abandono
Mistura de mistério e nostalgia
E, aos poucos, o meu ser desfalecia
Como folha que tomba pelo Outono.
A mansidão abraça-se ao sossego
E eu fico numa luz, num aconchego
Como nunca, em meus dias, eu vivi.
O tempo foi passando devagar
E não sendo eu capaz de me acordar
Só então é que eu soube que morri.
Domingos Freire Cardoso
Do livro “Por entre poetas”
terça-feira, 2 de outubro de 2018
Um Olhar… (Sonetos)
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| João Alberto Roque |
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| João Alberto Roque e Hélder Ramos |
João Alberto Roque, docente da Secundária da Gafanha da Nazaré e membro ativo da nossa comunidade, lançou, no dia 28 de setembro, na biblioteca daquela escola, o seu mais recente livro, Um Olhar… (Sonetos), que mostra à saciedade a sua faceta de escritor, multifacetada e premiada, merecedora da atenção de todos. A obra contou com a apresentação de Hélder Ramos, também professor, poeta e amigo de João Roque, desde a juventude, que sublinhou a sua “apetência” especial pela escrita, manifestada nos festivais da Canção Mensagem, realizados há décadas na paróquia de Nossa Senhora da Nazaré, como letrista.
Hélder Ramos referiu que “o soneto não é muito dos nossos tempos”, enquanto evocou famosos sonetistas da nossa literatura, desde Sá de Miranda até Natália Correia, sem esquecer Camões e Florbela Espanca. “O soneto é bicho raro”, disse.
O apresentador frisou a importância de “o criador olhar para o que cria”, esclarecendo que o João Roque “é um poeta-cidadão que olha à sua volta”, porque “o mundo precisa de ser humanizado”. E adiantou que “a poesia nos leva ao encontro da realidade”, cabendo ao poeta “interpelar-nos” no dia a dia. Hélder Ramos salientou que a poesia “é um terreno fechado” que “tem muitas portas abertas”. E garantiu que “em cada soneto há sempre uma porta que o autor nos abre”.
No Prefácio que escreveu, Hélder Ramos afirmou, referindo-se ao autor: “temos um poeta mais maturado e seriamente empenhado em partilhar contributos lírico-reflexivos cuidadosamente lavrados nos versos tratados com o próprio trabalho com palavras capazes de elevar os sentimentos terrenos ao encanto superior que UM OLHAR novo só a Poesia pode oferecer.”
sábado, 11 de novembro de 2017
Camões — Amor é fogo que arde sem se ver
Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que se ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Luís de Camões
NOTA: A coleção de livros de bolso que o EXPRESSO está a oferecer dá-me a oportunidade de regressar a alguns clássicos, que não esqueço mas nem sempre releio, porque outras obras mais recentes me desafiam. Hoje é a vez de voltar a Camões com a satisfação de sempre. Na Contracapa há um texto de Manuel Alegre retirado da apresentação desta obra, que tem por título "O livro mais actual da poesia portuguesa".
Boas leituras.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
Estou sem tempo — um soneto para aliviar
Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta,
Não quis, sobrando tempo, fazer conta,
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo.
Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!
Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo...
Frei António das Chagas,
em Antologia Poética
terça-feira, 24 de maio de 2016
“Por entre poetas”
Um livro de Domingos Freire Cardoso
Li, serenamente e com prazer, o mais recente livro de poemas (sonetos) de Domingos Freire Cardoso, ilhavense, mais concretamente, como faz questão de sublinhar, chousavelhense, desde que nasceu, já lá vão sete décadas, «dez vezes o sete, por muitos considerado um número mágico». Assim se lê em “A origem deste livro”, no qual esclarece que este conjunto de 70 sonetos se destina a assinalar o seu 70.º aniversário. Contudo, o autor acrescenta, como muito importante, que este livro é, acima de tudo, «uma pequena homenagem aos poetas glosados cujos versos serviram de inspiração» ao seu trabalho.
O “Prefácio” de Maria Eli de Queiroz, escritora, jornalista e Mestra em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, enriquece o trabalho do autor de “Por entre poetas”. Reconhece o talento de Domingos Cardoso «como expoente na literatura portuguesa trovadoresca contemporânea, afirmando ainda que, por isso, não constitui para si tarefa difícil prefaciar o terceiro livro do autor.
«As poesias de Domingos Cardoso surpreendem pela brilhante imaginativa», afirma a prefaciadora, acrescentando que «o sonetista demonstra a capacidade de operar a fusão literária com vários parceiros que o inspiraram a compor novas estrofes, valendo-se de um processo artístico pouco usual nos meios culturais».
Maria Eli de Queiroz recomenda aos leitores que «o poeta foi capaz de valorizar ideias de novidade, de originalidade, embora obedecendo a regras impostas pelo entrelaçar de signos poéticos já existentes».
Tal como refere, importa não tardar a nossa surpresa, deixando «que a leitura do livro fale melhor sobre a obra, fale melhor pelo autor, fale melhor pela tradição de sonetar». E citando Cecília Meirelles finaliza assim o “Prefácio”:
«Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.»
Para além do que foi dito e transcrito, permitam-me mais algumas, poucas, considerações, porque gosto de ler Domingos Cardoso, como aprecio o seu labor em prol das artes de escrever, animando e ajudando, quantas vezes, autores e editores. E fá-lo com gosto, tanto quanto sinto e pressinto.
O seu livro, que li de fio a pavio, registando a facilidade de inspiração e domínio da escrita do verso, que nasce dele espontaneamente, merece mesmo ser meditado. Com uma nota curiosa: os seus sonetos remetem-nos para outros tantos poetas, que apetece ler ou reler. Não os cito porque são muitos. E as ilustrações, a preto e branco, são um belo e oportuno complemento dos sonetos do Domingos Cardoso.
E o talvez e o depois e o nunca mais
Vieira da Silva
in “Marginal (Poemas breves e cantigas),
p. 33
E o talvez e o depois e o nunca mais
Vieram adensar os meus porquês
Dessa dúvida mórbida que fez
Não zarpar nunca o meu barco do cais.
Com receios do vento e temporais
E faltando no lastro a intrepidez
Prisioneiro da própria pequenez
Nunca teve o governo de um arrais.
Ficaram por fazer as travessias
Desde as áfricas às oceanias
Da água em turbilhão ou chão de prata.
Fantasma cadavérico no porto
Ninho da rataria é um nado-morto
À espera da mortalha da sucata…
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