sábado, 12 de março de 2022

Efemérides de Março: Estrada - Ponte - Farol

Primeiras estrada que atravessou a Gafanha
Ponte que ligou Ílhavo à Gafanha
Farol começou a ser construído 

Ponte e primeira estrada

Se pensarmos um pouco, descobriremos que uma terra, qualquer que ela seja, tem sempre efemérides que preenchem a sua história. E a Gafanha da Nazaré está carregada de eventos que ouso lembrar de quando em vez. 
Em março, no dia 12 de 1860, foi iniciada a construção da primeira estrada que atravessou a região da Gafanha até ao Forte e que foi batizada, em data posterior, com o nome de Av. José Estêvão. Contudo, é justo lembrar que esta estrada, bem como outras que se construíram naquela época, se ficou a dever à influência de José Estêvão. 

Farol em construção

Curioso será imaginar o movimento que esta longa estrada teve, em épocas de veraneio, com destino às praias da Barra e Costa Nova, sobretudo aos fins de semana. Na altura, dizia-se que era a estrada rural com maior trânsito no país. Será exagero, mas ouvi essa afirmação inúmeras vezes. 
Também neste mês, no dia 24 de 1862, se iniciou a construção da ponte que ligou Ílhavo à Gafanha. E em março de 1885 iniciou-se a construção do nosso Farol, que foi inaugurado em 31 de agosto de 1893.
Interessante seria que nos debruçássemos, de vez em quando, sobre o progresso da nossa terra, a partir de datas marcantes da nossa caminhada na história.

As tentações do poder e a tragédia

Crónica de Anselmo Borges 
no Diário de Notícias 

"Sr. Putin, permita que lhe pergunte: afinal, quem é? Nasceu de pai e mãe? Tem coração que bate? Pensa? Sente? Já alguma vez sofreu? Já chorou? Como é possível sob o seu comando tanta gente perder a vida, perder a paz, ter de abandonar as suas casas, fugir das armas e tanques de guerra, tudo sob o seu comando? Como pode ver crianças a sofrer, a chorar assustadas, crianças mortas? Crianças a nascer em bunkers, mulheres a ver os seus maridos e filhos a morrer? Quem é afinal, Sr. Putin?


Perante os horrores que estamos a viver, escrever o quê? O meu desejo era tão-só pôr como título - Ucrânia: o horror. Depois, pedir para colocarem na página em branco a imagem de uma cruz e, no fundo, à direita, duas palavras: lágrimas e solidariedade. E era tudo.
Mas estamos na Quaresma e, no Domingo passado, o Evangelho narrava as três tentações de Jesus, tentações que, lá no fundo, não são senão uma só: a tentação do poder total enquanto domínio: o poder económico - o diabo disse a Jesus: "Diz a estas pedras que se transformem em pão" -, o poder religioso - levou-o ao pináculo do Templo e disse-lhe: "Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo, os anjos levar-te-ão nas suas mãos" -, o poder total - "o diabo mostrou-lhe todos os reinos do universo: Dar-te-ei todo este poderio e a sua glória; se te prostrares diante de mim, tudo será teu".

sexta-feira, 11 de março de 2022

Escutar Jesus, o Filho Amado de Deus Pai

Reflexão de Georgino Rocha 
para o Segundo Domingo da Quaresma 

A transfiguração faz-nos ver a autenticidade de Jesus, o Filho de Deus, dá lucidez e coragem aos seus amigos e seguidores para verem a outra face da vida, abre horizontes de ressurreição aos acontecimentos “negros” da paixão injusta e da morte aniquiladora

“Diz-me o coração: «Procurai a face do Senhor». A vossa face, Senhor, eu procuro; não escondais de mim o vosso rosto”. É esta a antífona de entrada da celebração litúrgica do domingo da Transfiguração de Jesus, ocorrida no monte Tabor. Antífona que desvenda o íntimo do coração humano desejoso de ver o rosto de Deus e, cheio de confiança, Lhe suplica que se mostre. Antífona que nos predispõe a acolher a mensagem das leituras de hoje. Em sintonia com a Igreja, vamos fazer o percurso dos discípulos eleitos de Jesus para serem testemunhas da sua transfiguração e revigorarmos a nossa fé. Lc 9, 28b-36.
Ao desejo do coração humano responde Deus Pai indicando o caminho seguro de escutar Jesus, seu Filho amado. Escutar é uma constante bíblica que desvenda a relação humana que sintoniza com o preceito divino. Escutar com o coração disponível a acolher e com todas as faculdades humanas despertas e prontas a corresponder. “Quem dera ouvísseis hoje a voz do Senhor” exorta o salmista ao começar a oração da manhã da Liturgia das Horas.

Os Irmãos

Da Ucrânia com amor, crónica 
de Adriano Miranda no PÚBLICO

Fixo um jovem fardado e hirto. Tem consigo a bandeira que jurou defender. É parecido com o meu filho mais velho. Recordo o rosto do João. Recuso-me a imaginá-lo de arma em punho.

O autocarro com militares está estacionado numa rua perto da igreja. Alguns comem. Imagino que o pequeno-almoço no quartel tenha sido madrugador. Uma bandeira da Ucrânia está enrolada num pau grosso e castanho. Fazem um compasso de espera. Chegará em breve o camarada. Ou dois camaradas. Ou três camaradas. Morto, ou mortos, na linha da frente. Será a hora da despedida. De homenagear com flores e lágrimas. São os novos heróis do país. Anónimos com bravura ou sem bravura.
Alinhados, os jovens militares comungam da oração. O que será uma bala? O que será um estilhaço? Como será a dor da pele a estalar e da carne a abrir? Qual o sentido desta guerra? Mas que guerra faz sentido? Fixo um jovem fardado e hirto. Tem consigo a bandeira que jurou defender. É parecido com o meu filho mais velho. Recordo o rosto do João. Recuso-me a imaginá-lo de arma em punho. Vestido de farda e colete à prova de bala. A matar para não morrer. O soldado do outro lado da trincheira também mata para não morrer. Afinal, são ambos soldados e juraram defender uma bandeira. Mas antes do juramento, são filhos do ventre de mães felizes na hora do primeiro choro e na alegria do primeiro banho. Depois virão os vermes. Sentados em luxuosas cadeiras, com dedos grossos e cachuchos reluzentes. As mães terão de dar os seus filhos. Será o juramento da hipocrisia e da vergonha. Os vermes riem de prazer. Terão carne para se defender.
Militares mortos entrarão pela cidade com grande frequência. A cidade ganhará nova rotina. Haverá muitos pais sem filhos e muitos filhos sem pais. Nervos contidos. Impotência devastadora. A guerra continua. As vidas estão suspensas ou desfeitas. A dor tomou conta de tudo e de todos. É a luta de irmãos contra irmãos. De mães contra mães. No horizonte, não se vislumbra o mastro da bandeira branca. Ninguém tem imaginação suficiente para adivinhar o fim. A guerra não é um conto de fadas.

Adriano Miranda no PÚBLICO   de  ontem

quinta-feira, 10 de março de 2022

A Lita celebrou mais um aniversário

Celebrar um aniversário é sempre um motivo, cá em casa, para evocar momentos felizes. E para mim é ainda um desafio para retroceder no tempo e reescrever, na minha memória, tantas horas felizes de partilha de sentimentos e emoções. 
Hoje foi a Lita a aniversariante e para além dos parabéns pelos seus 82 anos de vida, quase 60 comigo a seu lado, dirigi a Deus uma prece para que a conserve lúcida e ativa como sempre a vi, senti e apreciei.
Os filhos e netos também não esqueceram a mãe e a avó, que tem uma habilidade rara para escrever bilhetinhos com recados para tudo e mais alguma coisa e para colher a flor certa para ofertar na hora própria.
Apesar do otimismo que apostamos em cultivar, sentimos o peso da carga dos anos e procuramos, por isso, a entreajuda como paradigma do nosso amor. E a vida, assim, continuará até Deus nos chamar para o seu regaço maternal.

Fernando 

UCRÂNIA - Todos saberemos cooperar


Ainda menino, percebi as consequências da segunda grande guerra e dela ouvi falar imensas vezes na minha vida. Depois vieram outras guerras com Portugal em África a não aceitar o óbvio, por imposição de um ditador “orgulhosamente só”, que sacrificou tantos portugueses para nada. 
Outras guerras envolveram países um pouco por todo o lado, com sofrimentos que nos passavam ao lado sem afetarem grandemente os nossos quotidianos. E os anos foram passando a correr com a paz as marcar os nossos dias. 
Quezílias e guerrinhas domésticas não ensombravam os nossos futuros, neste país de brandos costumes, com o mar a abrir-nos a sonhos de novos e amplos horizontes. Vivíamos em paz, apenas preocupados com pobrezas injustas de muitos compatriotas. Mas a tranquilidade que ao longo de décadas nos embalou, perdeu-se de um momento para o outro pela ação de um louco que lidera uma nação poderosa. 
A guerra, qualquer que ela seja, é sempre destruidora e mortífera. A Ucrânia está a ser massacrada e o seu povo ficará sem futuro à vista. Mulheres, crianças e velhos em fuga procuram refúgio nos países da Europa. Os homens tentam defender a sua pátria enquanto todo o universo das nações civilizadas estabelece uma guerra económica com a Rússia agressora, numa tentativa de a vencer sem armas.
O povo ucraniano contará com a ajuda de todos os países pacíficos. Direta ou indiretamente todos saberemos cooperar. E a Rússia acabará derrotada pela força da razão dos que amam a justiça, a liberdade e a paz.

Fernando Martins

quarta-feira, 9 de março de 2022

Gafanha da Nazaré vai ter “app” que aproxima cidadãos e autarcas

A Junta de Freguesia de Gafanha da Nazaré prevê lançar no final de março uma aplicação para telemóvel (“app”) que permitirá comunicar diretamente com os poderes eleitos da freguesia. 
Através da “app”, os cidadãos podem denunciar o buraco na rua ou o sinal partido, ser avisados do corte da água ou da luz, bem como conhecer os eventos das coletividades locais.
A aplicação está ser desenvolvida pela empresa Smart Citizen.

Nota: Li no Correio do Vouga

terça-feira, 8 de março de 2022

Jeremias Bandarra já nos deixou

Jeremias e  Gaspar Albino - dois amigos que já nos deixaram
(foto do meu arquivo)


Soube agora que faleceu um amigo de longa data, Jeremias Bandarra, um artista multifacetado e representativo da região aveirense e para além dela. Nasceu em 1936 e desde cedo entrou no dicionário ilustrado dos artistas plásticos, tendo sido distinguido com diversos prémios nas áreas da pintura, cerâmica e fotografia, havendo trabalhos seus espalhados pelo país e no estrangeiro.
Gaspar Albino, um artista e amigo que também já nos deixou, disse um dia, na abertura de uma exposição, que Jeremias Bandarra deixa transparecer «um profundo desejo de paz e amor», bem sentido «na tranquilidade das cores e na harmonia das formas», ao jeito de «um homem de corpo inteiro», que é também «um jovem de espírito».
Jeremias Bandarra foi um artista atento ao mundo envolvente, não lhe escapando a natureza, que ele recriou, tantas vezes, de forma perturbadora e irreverente.
Jeremias Bandarra foi discípulo de Júlio Sobreiro e Porfírio Abreu, seus professores ainda na Escola Industrial e Comercial de Aveiro. Contudo, não se ficou por aí, tendo buscado novos horizontes em cursos de pintura, cerâmica e Arte Contemporânea, para além do contacto permanente com outros artistas das mais diversas correntes. Em 2009, foi-lhe atribuída a Medalha de Mérito Cultural pela Câmara Municipal de Aveiro.
As minhas sentidas condolências a sua esposa Margarida, minha colega e amiga, e filhos.

Fernando Martins

Flores para todas as mulheres

 Dia Internacional da Mulher 


Flores colhidas agora mesmo

Como gostaria que hoje e sempre nos habituássemos a celebrar a mulher com uma flor dos nossos jardins. Uma flor colorida, viçosa e perfumada como símbolo do nosso amor, da nossa gratidão e respeito. Em cada mulher que encontrei na vida vi e vejo o símbolo da ternura, do carinho, da bondade, da generosidade e do amor. Mas neste Dia Internacional da Mulher, em pleno século XXI, apesar dos avanços científicos, sociais e tecnológicos, as sociedades dos vários quadrantes do globo ainda menorizam mulheres, escravizando muitas de variadíssimas formas.
As flores do meu quintal vão hoje...

Para todas as que riem e para todas as que choram...
Para todas as que trabalham e para as desempregadas…
Para todas as que foram mães e para as que o não puderam ser…
Para todas as que sofrem injustiças e para todas as justas…
Para todas as perseguidas e ofendidas…
Para todas as que amam e para as não amadas...
Para todas as artistas que fazem o mundo mais belo…
Para todas as que rezam pelas que não rezam...
Para todas as que sofrem com o sofrimento dos outros…
Para todas as que partilham alegrias com os tristes...
Para todas as que lutam por um mundo melhor…
Para todas as MULHERES…

Fernando Martins

João de Deus nasceu neste dia


João de Deus nasceu em São Bartolomeu de Messines a 8 de Março de 1830, filho de Isabel Gertrudes Martins e de Pedro José dos Ramos, modestos proprietários dali naturais e residentes. E naquele dia do ano de 1895, data em que celebrou o seu 65.º aniversário natalício, foi alvo de uma homenagem nacional.
Os jornais aveirenses, “Campeão das Províncias” e “A Vitalidade” dedicaram-lhe as edições daquele dia. Além disso, uma comissão de estudantes do liceu local foi a Lisboa onde, no dia anterior, se associou às festas e entregou uma significativa mensagem, segundo li no Calendário Histórico de Aveiro.


E já agora, permitam-me que transcreva 
um  poema de João de Deus que decorei na minha adolescência 

HINO DE AMOR

Andava um dia
Em pequenino
Nos arredores
De Nazaré,
Em companhia
De São José,
O bom Jesus,
O Deus Menino.

Eis senão quando
Vê num silvado
Andar piando
Arrepiado
E esvoaçando
Um rouxinol,
Que uma serpente
De olhar de luz
Resplandecente
Como a do Sol,
E penetrante
Como diamante,
Tinha atraído,
Tinha encantado.
Jesus, doído
Do desgraçado
Do passarinho,
Sai do caminho,
Corre apressado,
Quebra o encanto,
Foge a serpente,
E de repente
O pobrezinho,
Salvo e contente,
Rompe num canto
Tão requebrado,
Ou antes pranto
Tão soluçado,
Tão repassado
De gratidão,
De uma alegria,
Uma expansão,
Uma veemência,
Uma expressão,
Uma cadência,
Que comovia
O coração!
Jesus caminha
No seu passeio,
E a avezinha
Continuando
No seu gorjeio
Enquanto o via;
De vez em quando
Lá lhe passava
A dianteira
E mal poisava,
Não afroixava
Nem repetia,
Que redobrava
De melodia!

Assim foi indo
E foi seguindo.
De tal maneira,
Que noite e dia
Numa palmeira,
Que havia perto
Donde morava
Nosso Senhor
Em pequenino
(Era já certo)
Ela lá estava
A pobre ave
Cantando o hino
Terno e suave
Do seu amor
Ao Salvador!

In "Cartilha Maternal"

segunda-feira, 7 de março de 2022

GAFANHA: Devoção pelas Almas do Purgatório

Tópicos para uma palestra proferida 
em 28 de Março de 2009

Etnográfico da Gafanha da Nazaré na Igreja Matriz

Perde-se no tempo a devoção pelas Almas do Purgatório. Antes do cristianismo, já os filhos de Abraão rezavam pelos mortos, na esperança de que Deus os conduzisse e aceitasse no paraíso. Depois, com a Boa Nova de Jesus Cristo, intensificou-se esta devoção, sendo certo que ainda hoje se mantém, talvez não tanto como na nossa meninice. A devoção do Povo de Deus, bem alimentada pelas prédicas e catequeses dos sacerdotes, levou ao surgimento de Irmandades, que tinham por missão estimular o culto, participar nos funerais e encomendar a celebração de missas pelas almas, entre outras obrigações.
Mas o culto dos mortos, como é sabido, não existe só no catolicismo. (Há Igrejas cristãs que não aceitam o Purgatório, razão de ser das orações pelos almas dos mortos). Noutras civilizações e culturas também houve e há a crença na vida do além, a que estão ligados muitos actos cultuais.

Permitam-me que lembre hoje as “Alminhas”, junto às estradas ou nas encruzilhadas dos caminhos. Pequenos nichos ou capelinhas que nos recordam os que morreram e que são um convite a que rezemos por eles.

Aqui na Gafanha da Nazaré também havia “Alminhas”, com um postigo para deixarmos as nossas ofertas. O dinheiro era recolhido pelo proprietário, para mandar celebrar missas. Havia dentro um painel que nos recordava o sofrimento dos que estavam no Purgatório. Uma lamparina e flores completavam o quadro.

As Alminhas da Cale da Vila e da Chave, as que conhecemos mais de perto, eram antigas. A da Cale da Vila foi construída em 1864 e a Chave em 1910.
Recordo, com saudade, os tempos em que, na quaresma, as devoções se intensificavam. O sofrimento de Cristo, do tamanho dos pecados do mundo, era sentido pelos fiéis, com especial envolvimento de toda a gente crente. Crente e menos crente, porque de alguns destes ouvi que só participavam nas missas que se celebravam pelas almas, quer no dia dos funerais, quer do sétimo dia, quer nos dias dos fiéis, 2 de Novembro, em que havia três missas seguidas, com as igrejas sempre cheias.

Na quaresma, nas Gafanhas e noutras comunidades religiosas, as devoções pelas almas proporcionavam vivências muito fervorosas, com o povo a reunir-se, para, em grupo, visitar todas as casas, não só para rezar e cantar, mas também para recolher esmolas, para mandar rezar missas. Havia a tradição de “ouvir” missas pelos fiéis defuntos, tarefa que competia a pessoas idosas e disponíveis, mas também pobres, que recebiam esmolas por isso. Substituíam as que trabalhavam ou muito ocupadas.

Sem luz eléctrica que iluminasse caminhos, noites escuras se a Lua estivesse escondida, lá íamos, respeitosamente, rezando e cantando, atrás da claridade frouxa de duas lanternas, que ladeavam o Painel das Almas. O grupo ia engrossando, ou diminuindo, com gente que entrava e saía, porque nem todos podiam caminhar muito, afastando-se demasiado das suas habitações.

Mas ouçamos a descrição que o Padre João Vieira Rezende faz destas devoções, já que, na Gafanha da Encarnação, de que foi pároco, entre 10 de Novembro de 1928 e 1948, as vivenciou e das quais deixou expressivos registos, na sua “Monografia da Gafanha”, conforme se lê na segunda edição que possuo, com data de 1944.

“... Às 9 horas da noite tocava o búzio a lembrar aos fiéis as almas dos seus defuntos. Mais tarde, era o badalar plangente do sino que recordava a devoção pelos defuntos... Foi um século de oração quotidiana em favor dos defuntos e que as leis draconianas de 1910 sufocaram com mordaça inclemente.

“Para os habitantes do lugar à lareira, para os moliceiros e pescadores das aldeias, de Ílhavo, Vagos e Murtosa, que a essa hora mourejavam na faina da ria, e para as almas retiradas no Purgatório, emudecera aquele despertador salutar que a todos levava consolações suavíssimas, restando agora somente a emoção saudosa de tempos que não voltam!

(Nas famílias, à noite, depois da reza do terço, antes ou depois da ceia, era interminável o número de mortos que se recordavam e pelos quais rezávamos um Pai Nosso e uma Ave Maria, e “Dai-lhes, Senhor, o eterno descanso…)

“A par deste costume, um outro do mesmo género se manteve por mais tempo. Em certos e determinados dias da Quaresma, homens e mulheres, em grupo, que a pouco e pouco ia crescendo, percorriam o lugar quando todos se preparavam para descansar das fadigas diurnas.

“Painel de madeira à frente, ladeado de duas lanternas, lá seguia o grupo que ajoelhava a cada porta, de mãos postas, rostos piedosamente inclinados, a rezar, a pedir pelos que tinham partido daquele lar. A treva da noite quebrada pela luz baça das lanternas, a efervescência das preces, a toada fúnebre e plangente dos cânticos, tornavam solenemente lúgubre o cortejo deprecatório.

“E a pintura das figuras resignadas do painel, a sobressair da penumbra das lanternas, com toda a liturgia do coro que deambulava a sufragar a almas que esperavam libertação, tornava o cenário mais emotivo e confrangedor.

“No plano inferior da pintura do painel, Reis, Marqueses, homens e mulheres de mãos suplicantes e envoltas em línguas de chamas, a esperar amorosamente o momento da libertação, olham o Crucifixo nimbado por raios divergentes do Coração do Redentor.

“A sobrepujar no plano superior, S. Miguel, de balança e espada na mão, subjuga sob os pés o dragão alado em cujo arreganho infernal e olhar demoniacamente coruscante se adivinha a raiva de um plano frustrado. E o grupo continua a cantar sentimentalmente, comovedoramente, a elegia dos mortos, com o pensamento no mundo do além.”

O Padre Rezende ainda acrescenta que “A promiscuidade dos sexos, os abusos em actos tão santos, de noite e em tempos de depravação, não abonavam a intenção dos bons, antes aconselhavam a supressão desta tão antiga e simpática devoção. Assim se fez, e hoje [1944] apenas se tira a esmola de dia com o mesmo fim”.

Permitam-me que sublinhe que, durante a minha curta experiência e vivência desta devoção, nunca presenciei qualquer atitude menos correcta, fosse de quem fosse. Pelo contrário, na minha memória perdura a devoção que o Cantar das Almas suscitava em toda a gente que formava o grupo.

Na monografia da paróquia, “Gafanha – Nossa Senhora da Nazaré”, publicada em 1986, diz-se que a Irmandade do Senhor e Almas foi responsável pelo ressurgimento desta última devoção, que o Padre Rezende tão bem descreve:

“Lá vai o painel ladeado pelas duas lanternas, o membro da Confraria, de opa, com a cruz que todos beijavam, de joelhos, dentro de casa ou fora, depois de se estender a esteira.”

E cantavam-se estes versos que aqui vão ser cantados como uma relíquia.

Joélhemos nós in terra
Já nusêmos os premêros
Nossa companhia banha
Jesus Cristo berdadêro.

Atromantadas de dôras
De continu padecer,
Assim são nas almas santas
Nu Prugatório arder

Das almas do Prugatório
É bem que nos alembremos;
Nós havemos de morrer
Sabe Deus pâr donde iremos.

“Se não queriam que cantassem (por ter morrido alguém na família!), então rezava-se um Pai Nosso e uma Ave Maria.

“O da opa levava uma saca para dinheiro e outros levavam sacos para milho, feijão, cebolas, o que dessem. Deixávamos estes sacos em casa de lavradores de confiança e, ao outro dia, íamos lá buscá-los.
Vendíamos tudo e juntávamos o dinheiro. Mandávamos celebrar missas pelas alminhas do Purgatório.

“Era bonito e fazia-se bem.

“Agora, com a televisão...

“Tenho saudades desse tempo...

“E uma lágrima teimosa ia caindo, enquanto nós, admirando a candura destes homens (João Francisco da Rocha e Manuel Soares Sardo) de rostos bem marcados, pensávamos no que de bom vamos permitindo que desapareça, quantas vezes por comodismo e falsos respeitos humanos.”

Assim ficou escrito na monografia da paróquia de Nossa Senhora da Nazaré, de Manuel Olívio da Rocha e Fernando Martins, há 36 anos.

Fernando Martins

O mundo é mau

«Torturamos os nossos irmãos homens com o ódio, o rancor, a maldade e depois dizemos "o mundo é mau"»

Fernando Pessoa

(1888-1935)


Em "Escrito na Pedra" do PÚBLICO

A sementeira da paz

Crónica de Bento Domingues 

A tarefa desta Quaresma, por todo o lado onde se celebra a Páscoa, deve ser a tomada de consciência da fragilidade e devemos lembrarmo-nos do horror das guerras, não só na Europa, mas em todos os países.

1. Há muitos anos, na minha aldeia, a Quaresma era um tempo muito especial. Era marcado pelo ritual das cinzas. Ritual obrigatório, assumido por toda a gente. O padre fazia o sinal da cruz com as cinzas, na cabeça das pessoas, dizendo: “Tu és pó e em pó te hás de tornar”. Agora, a frase que acompanha este ritual pode ser substituída: “Arrepende-te e acredita no Evangelho”.
Em todos os dias da Quaresma, ao fim da tarde, havia um vizinho que, num ponto estratégico da aldeia, gritava: “Alerta, alerta: a vida é curta e a morte é certa”. Observava-se o jejum e a abstinência. Para se ser dispensado, comprava-se a Bula. Os preceitos da Santa Igreja não eram muitos: confessar-se uma vez por ano e comungar na Páscoa da Ressurreição. Era a desobriga. Antes da reforma litúrgica, o sábado anterior era designado como Sábado da Aleluia. Mas era no Domingo de Páscoa que havia as grandes manifestações de alegria. Com música e foguetes, a Cruz iluminada visitava todas as casas. Havia sempre um mordomo que organizava essa visita que, muitas vezes, se prolongava até ao Domingo da Pascoela. Certas particularidades dependiam dos costumes locais.

Etiquetas

A Alegria do Amor A. M. Pires Cabral Abbé Pierre Abel Resende Abraham Lincoln Abu Dhabi Acácio Catarino Adelino Aires Adérito Tomé Adília Lopes Adolfo Roque Adolfo Suárez Adriano Miranda Adriano Moreira Afonso Henrique Afonso Lopes Vieira Afonso Reis Cabral Afonso Rocha Agostinho da Silva Agustina Bessa-Luís Aida Martins Aida Viegas Aires do Nascimento Alan McFadyen Albert Camus Albert Einstein Albert Schweitzer Alberto Caeiro Alberto Martins Alberto Souto Albufeira Alçada Baptista Alcobaça Alda Casqueira Aldeia da Luz Aldeia Global Alentejo Alexander Bell Alexander Von Humboldt Alexandra Lucas Coelho Alexandre Cruz Alexandre Dumas Alexandre Herculano Alexandre Mello Alexandre Nascimento Alexandre O'Neill Alexandre O’Neill Alexandrina Cordeiro Alfred de Vigny Alfredo Ferreira da Silva Algarve Almada Negreiros Almeida Garrett Álvaro de Campos Álvaro Garrido Álvaro Guimarães Álvaro Teixeira Lopes Alves Barbosa Alves Redol Amadeu de Sousa Amadeu Souza Cardoso Amália Rodrigues Amarante Amaro Neves Amazónia Amélia Fernandes América Latina Amorosa Oliveira Ana Arneira Ana Dulce Ana Luísa Amaral Ana Maria Lopes Ana Paula Vitorino Ana Rita Ribau Ana Sullivan Ana Vicente Ana Vidovic Anabela Capucho André Vieira Andrea Riccardi Andrea Wulf Andreia Hall Andrés Torres Queiruga Ângelo Ribau Ângelo Valente Angola Angra de Heroísmo Angra do Heroísmo Aníbal Sarabando Bola Anselmo Borges Antero de Quental Anthony Bourdin Antoni Gaudí Antónia Rodrigues António Francisco António Marcelino António Moiteiro António Alçada Baptista António Aleixo António Amador António Araújo António Arnaut António Arroio António Augusto Afonso António Barreto António Campos Graça António Capão António Carneiro António Christo António Cirino António Colaço António Conceição António Correia d’Oliveira António Correia de Oliveira António Costa António Couto António Damásio António Feijó António Feio António Fernandes António Ferreira Gomes António Francisco António Francisco dos Santos António Franco Alexandre António Gandarinho António Gedeão António Guerreiro António Guterres António José Seguro António Lau António Lobo Antunes António Manuel Couto Viana António Marcelino António Marques da Silva António Marto António Marujo António Mega Ferreira António Moiteiro António Morais António Neves António Nobre António Pascoal António Pinho António Ramos Rosa António Rego António Rodrigues António Santos Antonio Tabucchi António Vieira António Vítor Carvalho António Vitorino Aquilino Ribeiro Arada Ares da Gafanha Ares da Primavera Ares de Festa Ares de Inverno Ares de Moçambique Ares de Outono Ares de Primavera Ares de verão ARES DO INVERNO ARES DO OUTONO Ares do Verão Arestal Arganil Argentina Argus Ariel Álvarez Aristides Sousa Mendes Aristóteles Armando Cravo Armando Ferraz Armando França Armando Grilo Armando Lourenço Martins Armando Regala Armando Tavares da Silva Arménio Pires Dias Arminda Ribau Arrais Ançã Artur Agostinho Artur Ferreira Sardo Artur Portela Ary dos Santos Ascêncio de Freitas Augusto Gil Augusto Lopes Augusto Santos Silva Augusto Semedo Austen Ivereigh Av. José Estêvão Avanca Aveiro B.B. King Babe Babel Baltasar Casqueira Bárbara Cartagena Bárbara Reis Barra Barra de Aveiro Barra de Mira Bartolomeu dos Mártires Basílio de Oliveira Beatriz Martins Beatriz R. Antunes Beijamim Mónica Beira-Mar Belinha Belmiro de Azevedo Belmiro Fernandes Pereira Belmonte Benjamin Franklin Bento Domingues Bento XVI Bernardo Domingues Bernardo Santareno Bertrand Bertrand Russell Bestida Betânia Betty Friedan Bin Laden Bismarck Boassas Boavista Boca da Barra Bocaccio Bocage Braga da Cruz Bragança-Miranda Bratislava Bruce Springsteen Bruto da Costa Bunheiro Bussaco Butão Cabral do Nascimento Camilo Castelo Branco Cândido Teles Cardeal Cardijn Cardoso Ferreira Carla Hilário de Almeida Quevedo Carlos Alberto Pereira Carlos Anastácio Carlos Azevedo Carlos Borrego Carlos Candal Carlos Coelho Carlos Daniel Carlos Drummond de Andrade Carlos Duarte Carlos Fiolhais Carlos Isabel Carlos João Correia Carlos Matos Carlos Mester Carlos Nascimento Carlos Nunes Carlos Paião Carlos Pinto Coelho Carlos Rocha Carlos Roeder Carlos Sarabando Bola Carlos Teixeira Carmelitas Carmelo de Aveiro Carreira da Neves Casimiro Madaíl Castelo da Gafanha Castelo de Pombal Castro de Carvalhelhos Catalunha Catitinha Cavaco Silva Caves Aliança Cecília Sacramento Celso Santos César Fernandes Cesário Verde Chaimite Charles de Gaulle Charles Dickens Charlie Hebdo Charlot Chave Chaves Claudete Albino Cláudia Ribau Conceição Serrão Confraria do Bacalhau Confraria dos Ovos Moles Confraria Gastronómica do Bacalhau Confúcio Congar Conímbriga Coreia do Norte Coreia do Sul Corvo Costa Nova Couto Esteves Cristianísmo Cristiano Ronaldo Cristina Lopes Cristo Cristo Negro Cristo Rei Cristo Ressuscitado D. Afonso Henriques D. António Couto D. António Francisco D. António Francisco dos Santos D. António Marcelino D. António Moiteiro D. Carlos Azevedo D. Carlos I D. Dinis D. Duarte D. Eurico Dias Nogueira D. Hélder Câmara D. João Evangelista D. José Policarpo D. Júlio Tavares Rebimbas D. Manuel Clemente D. Manuel de Almeida Trindade D. Manuel II D. Nuno D. Trump D.Nuno Álvares Pereira Dalai Lama Dalila Balekjian Daniel Faria Daniel Gonçalves Daniel Jonas Daniel Ortega Daniel Rodrigues Daniel Ruivo Daniel Serrão Daniela Leitão Darwin David Lopes Ramos David Marçal David Mourão-Ferreira David Quammen Del Bosque Delacroix Delmar Conde Demóstenes

Arquivo do blogue