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domingo, 12 de abril de 2020

A HUMANIDADE RESSUSCITARÁ PARA UM ESTILO DE VIDA RENOVADOR

O grupo com a Cruz que nos visitou em 2017 (foto dos meus arquivos)

Neste Domingo de Páscoa, que hoje se celebra no recolhimento interior e no confinamento por força do COVID-19, levantei-me mais cedo. Quis aproveitar o dia todo para o saborear em plenitude, evocando pessoas, familiares e não só, que foram e ainda são, algumas, companheiras de jornada, nos caminhos de oito décadas. Como num filme a cores, ouço as suas vozes e os seus cantares, recordo conversas com histórias que perduram na minha já cansada memória e revivo tradições que se foram alterando no tempo até caírem em desuso. 
No Domingo de Páscoa, logo de manhã, era preciso assinalar que em nossa casa morava gente cristã do rito católico à espera da visita pascal. Uns verdes na porta de entrada que dá para a rua assinalava o desejo de receber a Cruz com o Cristo enfeitado com flores. Já não era o Cristo do Calvário. A Ressurreição, que a Páscoa celebra festivamente, era sinal de alegria e de fé para quem acredita que o Mestre se tornara no Salvador. Este ano, porém, o coronavírus veio ditar leis impensáveis há umas semanas. A visita das Boas Festas anunciadas pela campainha não terá lugar. As famílias não se reúnem, as inquietações abafam convívios tão enriquecedores, os temores fecham portas à alegria, os afilhados não podem visitar os padrinhos, o almoço festivo passa a almoço sem risos e sem expressão. Nuvens negras ameaçam o futuro de todos. Resta-nos a certeza de que a humanidade ressuscitará para um estilo de vida renovador. 

Fernando Martins

sábado, 11 de abril de 2020

COM JESUS RESSUSCITADO, VENCER AS SITUAÇÕES DE MORTE

Reflexão de Georgino Rocha 
para o Domingo da Páscoa

"A Páscoa de Jesus, afirma o bispo de Aveiro, é uma ocasião propícia para pensarmos a sociedade e a nossa vida cristã de uma forma diferente"

A manhã de Páscoa desperta serena com Madalena agitada a correr para o túmulo de Jesus. Era ainda escuro. Mas já raiava o clarão da aurora que se avizinha. Corre para sintonizar com o ritmo do seu coração, com o desejo de prestar os últimos cuidados ao cadáver de Jesus, com a vontade de certificar mais uma vez o sucedido, com o “pressentimento” de que algo de novo pode acontecer, pois o amor é mais forte do que a morte. A saudade revela-se um bom caminho para o encontro da verdade. Jo 20, 1-9.
Chegada ao local, depara-se com o sepulcro vazio e tudo arrumado “a preceito”. Pelo seu espírito perpassa a certeza afirmada: Levaram o Senhor e não sabemos onde O puseram, certeza que transmite a Simão Pedro e ao discípulo amado. Estes partem imediatamente para confirmar a notícia, seguindo cada um a cadência do seu passo. Chegam, aproximam-se, observam, entram no sepulcro e vêem que a realidade condizia com o que lhes havia dito Maria Madalena.

domingo, 28 de abril de 2019

Bento Domingues: Os esquecidos da Páscoa

«A questão da vida depois da morte é comum a muitas religiões. A expressão “ressurreição” não é a descrição de um fenómeno. É a verificação de um facto. Jesus foi morto e umas mulheres testemunham que ele está vivo e que ele continua connosco.»

1. Os profetas bíblicos foram severos com o culto e os seus rituais por causa da injustiça e da hipocrisia que eles encobriam. Jesus de Nazaré nasceu dentro da mesma tradição religiosa e foi o seu crítico mais radical. No célebre diálogo que abriu com uma mulher samaritana, junto ao poço de Jacob – judeus e samaritanos odiavam-se – atreveu-se a dispensar os respectivos lugares sagrados para a relação com Deus: Mulher, chegou o tempo em que os verdadeiros adoradores não vão procurar nem Jerusalém nem Garizim. O que o meu Pai deseja são adoradores em espírito e verdade[1].
Estaria Jesus a negar valor a todos os rituais do culto? Não é Deus que precisa do culto e dos seus rituais, mas os seres humanos. Ele não precisa que o informemos do que se passa connosco e na sociedade. A oração não modifica a sua santa vontade, modifica-nos a nós. Acorda-nos da indiferença perante o sentido mais profundo da vida. Podemos tentar comover a Deus com os nossos pedidos, mas é o próprio Deus que se comove pelo eterno amor que nos tem. Nós é que não podemos deixar de ser quem somos: seres que, para viver na verdade, reconhecem o seu limite e pedem socorro.
As celebrações litúrgicas católicas estão distribuídas em dois ciclos fundamentais: o do Natal e o da Páscoa. Ao resto chamam-lhe Tempo Comum. Estes arranjos dos liturgistas têm bases bíblicas e uma longa história. São uma forma de organizar a oração oficial da Igreja. Seria ridículo pensar que foi Deus que compôs e impôs esta organização ritual. A verdadeira Igreja, a não confundir com a hierarquia eclesiástica, é o voluntariado do Evangelho. Precisa de rezar para não se descuidar de Deus e do mundo. Uma liturgia sem o imperativo do serviço aos mais necessitados, sem a negação do autoritarismo eclesiástico, isto é, sem a simbólica do lava-pés[2], está condenada a ser nada.
Estamos na oitava da Páscoa, mas as celebrações pascais vão até ao Pentecostes.

sábado, 20 de abril de 2019

Anselmo Borges: Entre a Sexta-Feira Santa e a Páscoa: Sábado

Anselmo Borges

Crentes ou não crentes — quem o disse foi George Steiner — é em Sábado que vivemos. Que é que isto quer dizer? Todos, de um modo ou outro, em nós mesmos e no mundo, constatamos e vivemos a Sexta-Feira Santa do sofrimento, do horror, da violência, do silêncio e da noite, e todos, de um modo ou outro, de forma mais explícita ou menos explícita, mais consciente ou menos, é pelo Domingo, o Domingo da Páscoa, que suspiramos e esperamos, a Páscoa da salvação.

O que nestes dias os cristãos celebram é este Sábado, que pertence ao núcleo da existência cristã, como disse São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã também a vossa fé. Se nós temos esperança em Cristo apenas para esta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens. Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”. Evidentemente, a ressurreição implica por si mesma uma meditação sobre a morte e o sentido último da existência. Uma meditação sobre o Sábado, no qual vivemos.

1. Na história gigantesca do universo, com 13.700 milhões de anos, o sinal distintivo de que há Homem, não já simplesmente algo, mas alguém, são os rituais funerários. A partir daí, já não estamos em presença de um animal qualquer, mas do ser humano, que sabe que sabe, que tem consciência de si, consciência de que é mortal, e que, nem que seja de modo confuso, espera para lá da morte. A consciência da morte e a esperança constituem, portanto, na História do mundo, uma novidade essencial e radical.
Perante a morte e a mortalidade, surge a interrogação fundamental, que está na base das artes, das filosofias, das religiões: o que é o Homem? Sabemos que somos mortais, mas ninguém sabe o que é morrer, ninguém sabe o que é estar morto, nem sequer para o próprio morto. Face à morte, a linguagem falha. Assim, dizemos, perante o cadáver do pai ou da mãe, de um amigo: ele/ela está aqui morto/morta. Ora, o que falta é precisamente o pai, a mãe, o amigo, pois o que ali está não passa de restos mortais e lixo biológico. Ou dizemos que os levamos à sua última morada. Ora, quem se atreveria a enterrar ou a cremar o pai, a mãe, um amigo? Também dizemos que os vamos visitar ao cemitério. Ora, nos cemitérios, com excepção dos vivos que lá vão, não há ninguém. O Evangelho é cru: nos cemitérios, só há ossos e podridão. Então, o que há realmente nos cemitérios, para serem considerados lugares sagrados, de tal modo que a violação de uma sepultura constitui, em todas as culturas, uma profanação e um crime nefando? O que há nos cemitérios não é senão essa pergunta radical: O que e o Homem?, o que é ser Homem?

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Patrícia Reis: Sacrifício e Páscoa

Patrícia Reis
Sacrifício e Páscoa
ou como não soubemos ensinar os mais jovens a pescar

 «Celebramos a Páscoa sem perguntar o que celebramos. Diria que festejamos uma possibilidade que as novas gerações encaram com desconfiança e com alguma arrogância: o sacrifício. O sacrifício de Jesus em prol da humanidade, assim nos ensina o credo cristão. Será de pensar nesta palavra em desuso: sacrifício.

Olho à minha volta e vejo jovens incapazes de conceber um plano de vida. Não sabem o que querem, sabem que querem viver bem. Estão dispostos a correr atrás da bola? A fazer sacrifícios? Não me parece. E tão pouco me parece que os façam em prol do Outro. Afinal, a Páscoa é sobre isso mesmo: sacrifício em prol do Outro. Não são ovos de chocolate nem cabritos assados ou promessas infantis de não fazer isto ou aquilo.

Deveria ser uma opção de vida, concreta, no dia-a-dia. A minha geração e a anterior trabalharam muito para pôr peixe na mesa. Não ensinámos os nossos filhos a pescar. É uma pena. Deveríamos ser pescadores. Todos nós.»

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Farol da Barra — A largueza de horizontes


Em conversas informais e em observações naturais tenho reparado na pobreza de horizontes a vários níveis de muita gente. Pensa-se no aqui e agora, no que olhamos sem nada ver, no que projetamos para o imediato e raramente para o futuro.
Alguém me disse há dias que não importa o passado nem interessa pensar muito no futuro. O que virá logo se verá.
Não comungando dos mesmos ideais nem dos mesmos princípios de vida, dei comigo a imaginar que fazia bem uma subida ao nosso Farol da Barra para se perceber que há muito para ver e viver para além do diâmetro curto do circulo em que estamos.
Boa Páscoa com grandes horizontes.

Fernando Martins

Miguel Torga — PÁSCOA




PÁSCOA

Um dia de poemas na lembrança
(Também meus)
Que o passado inspirou.
A natureza inteira a florir
No mais prosaico verso.
Foguetes e folares,
Sinos a repicar,
E a carícia lasciva e paternal
Do sol progenitor
Da primavera.
Ah, quem pudera
Ser de novo
Um dos felizes
Desta aleluia!
Sentir no corpo a ressurreição.
O coração,
Milagre do milagre da energia,
A irradiar saúde e alegria
Em cada pulsação.

Miguel Torga
In Diário XVI

domingo, 1 de abril de 2018

FOI MORTO, MAS ESTÁ CADA VEZ MAIS VIVO!

Frei Bento Domingues 


"Repetem-se as denúncias 
de que estamos a globalizar 
a destruição do nosso planeta, 
quando temos todos os meios 
para fazer dele um paraíso."






1. Quando alguém diz "aquele não é bem acabado", está a falar de si próprio e dos outros, porque o ser humano nunca está bem acabado. Não sabemos quem somos, pois, o que seremos é-nos desconhecido. Não somos só o passado nem só o presente, mas o futuro e esse é filho da esperança. A esperança tem muitos nomes. São frequentes as sondagens de opinião que tentam conhecer os desejos, as espectativas e as esperanças de cada um. Não é novidade nenhuma saber que todos desejam ser felizes. Varia muito, no entanto, o que cada pessoa entende por felicidade. A expressão antiga diz bem a nossa condição animal: "haja saúde e coza o forno". É saudável que todos desejem melhorar as suas condições de vida, avançar na carreira como forma de auto-estima, para além do interesse monetário. Mesmo se o dinheiro não der felicidade, dá muito jeito. Muita gente espera a vida inteira o Euromilhões. O Papa Francisco contenta-se com pouco, mas deseja para todos os três T's, como forma mínima de dignidade: tecto, trabalho e terra. As pessoas gananciosas, para satisfazer os sonhos de riqueza, saltam por cima de tudo e de todos. A lista dos mais ricos de um país ou do mundo não é muito grande. Grande é a distância entre os poucos loucamente ricos e os muitos loucamente pobres e miseráveis. Mas não tem de ser assim.
Conta-se que, quando João XXIII chegou ao Vaticano, perguntaram-lhe: "quantas pessoas trabalham aqui?" "Mais ou menos metade"! A sua primeira medida foi a de aumentar os salários mais baixos, tendo em conta a situação familiar de cada um. Quando expôs esta medida ao gestor financeiro do Vaticano, este disse que era o caminho para a bancarrota. "Não me parece nada, porque desci todos os salários altos. As despesas são as mesmas" [1]. Tinha sido, aliás, a recomendação de S. Paulo. É tudo gente, como Jesus Cristo, que nada sabem de finanças, no dizer do nosso Fernando Pessoa.

A FOLGA DA PÁSCOA

Georgino Rocha



Em busca de horizontes rasgados

O clima social tem novos coloridos em tempo de páscoa. A psicologia humana vibra de modo diferente. As culturas e as religiões, especialmente no Ocidente, definem pautas de comportamento colectivo e estabelecem ritos de reconhecido alcance simbólico. As igrejas cristãs, sobretudo a católica, acolhem ritmos populares de grande riqueza expressiva e organizam cerimónias que, por vezes, são autênticas celebrações comunitárias de fé pascal. Tudo se conjuga para o ser humano redimensionar o melhor de si, recorrendo a vários tipos de exibição que, certamente, serão transparência do coração, da consciência profunda, do húmus que se vai vivificando no interior de cada um/a.
De facto, a folga da Páscoa proporciona uma bela oportunidade para se verificar que o ser humano “está em trânsito”, é peregrino de outras realidades, tem de morrer para se abrir a novas dimensões e dar-lhes vida, experiência a urgência do tempo fugaz e o desejo profundo de ter algo a que se agarrar para sentir segurança, anela por um futuro que saboreia a “conta-gotas”. E a páscoa da humanidade aponta claramente para a Páscoa nova e definitiva.
Embora correndo o risco de alguma ligeireza, o mosaico de manifestações da eterna peregrinação humana faz-nos ver a agitação febril e o turismo de toda a espécie, a procura de espaços de silêncio e de contemplação, as decorações de símbolos floridos e as representações artísticas evocativas de outras realidades, as músicas e as canções com frenesim da nova aurora, os gestos solidários de fraternidade, as acções generosas dos voluntários de causas humanas, o sorriso das crianças e a ousadia confiante dos jovens, a constância paciente dos adultos, a esperança alegre dos idosos. Tudo e todos, estamos a caminho de realidades diferentes que nos desinstalam das nossas zonas de conforto e nos lançam em novas aventuras. E surge o apelo que somos chamados a escutar e a atender: Assumir com consciência lúcida e dar a resposta correspondente à fase em que cada um/a se encontra, gérmen de outras que integram o nosso percurso existencial.

sexta-feira, 30 de março de 2018

HOJE ACORDEI ASSIM…






Hoje acordei assim… com as nuvens ameaçadoras, descarregando, quando menos se espera, a chuva benfazeja, mas incomodativa para quem espera e desespera com a ausência real da primavera. Mas ela há de vir, mais dia menos dia, com a ressurreição de Jesus, que é sempre, desde há 20 séculos, a certeza de vida nova.
Boa Páscoa para todos.

domingo, 16 de abril de 2017

Metamorfoses pascais do desejo (1)


«Um Deus que não é a alegria da vida não é Deus. É um ídolo criado para justificar a dominação económica, política e religiosa.»


1. Os textos do Novo Testamento (NT) não foram encomendados ou ditados, corrigidos por Jesus Cristo. Surgiram em comunidades cristãs, depois da sua morte, para mostrar que o processo que O vitimou não podia ser arquivado. A coligação das autoridades romanas e judaicas, ao contrário das aparências, sob a capa de um julgamento, de facto, tinha decretado o assassinato de um inocente em nome de Deus e do Império [1].
Os autores do NT, ao reabrirem o processo, não pretendiam rever uma questão jurídica do passado, mas testemunhar que estavam completamente enganados os que julgavam que o Nazareno e as suas propostas tinham uma pedra em cima, para sempre. Estava em curso, até ao fim dos tempos, a passagem agitada para uma nova era.
Era difícil o caminho da realização da esperança. Mesmo depois da ressurreição, até os discípulos mais chegados, continuavam a alimentar concepções messiânicas que Jesus tinha expressamente rejeitado durante a sua vida terrestre. O autor dos Actos dos Apóstolos começa a sua obra narrando esse distorcido desejo pré-pascal: “Estando reunidos, perguntaram-lhe: ‘Senhor, é agora que vais restaurar a realeza em Israel?’”[2] 
Jesus não lhes reconheceu competência sobre essa questão. Precisavam de outra lucidez e de outra energia para enfrentar os novos tempos: “Recebereis uma força quando o Espírito Santo tiver chegado sobre vós e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e Samaria, até ao fim da terra.” [3] Os Actos dos Apóstolos desenharam um cenário espantoso desse acontecimento: “De repente, veio do céu um ruído semelhante a um vendaval, ficaram cheios do Espírito Santo, soltou-se-lhes a palavra e cada um os ouvia na sua língua materna.”

sexta-feira, 3 de março de 2017

Jesus recusa dar provas de ser filho de Deus

Reflexão de Georgino Rocha

Jesus no deserto
«A quaresma está em curso. 
A alegria da Páscoa já se pode saborear»

Recém-baptizado, Jesus encaminha-se para o deserto, lugar tradicional de grandes desafios, de êxitos e fracassos. Já o povo de Deus no regresso do Egipto o havia experimentado: percursos cansativos e longos, sede e fome, sensação de abandono, perigos de morte e tantas outras ameaças à vida e à confiança em Moisés, seu guia providencial. As provações da travessia proporcionam um tempo de paciente espera, de atenção solícita e de sentido dos pequenos passos na longa caminhada. Assumindo este “fio” histórico, Jesus vive no deserto uma experiência original: a de provar que é verdade o que declarou a Voz vinda do Céu, aquando do seu baptismo: “Tu és meu Filho amado, em Ti pus as minhas complacências”. (Mt 3, 17).

O tentador insiste por três vezes neste ponto crucial. Não o intima a deixar de ser Filho, mas a dar resposta a três provas vitais que dizem respeito aos meios a usar para fazer aquela demonstração. Seria tão fácil saciar a fome, transformando pedras em pão; credenciar-se na sua filiação, fazendo uma acção espectacular na esplanada do Templo; poder exercer o seu senhorio sobre o mundo, realizando um simples gesto de adoração. Tudo tão fácil e sedutor. Tudo apoiado na força da palavra da escritura. Tudo ao serviço da sua reconhecida missão. E a voz a segredar aos ouvidos da liberdade: “se és filho de Deus, se és”.

sábado, 24 de dezembro de 2016

NATAL OU PÁSCOA?

Crónica de Frei Bento Domingues 



1. O dia 25 de Dezembro não celebra o aniversário histórico do nascimento de Jesus de Nazaré. A Igreja de Roma fixou esta data como réplica pastoral à festa solar pagã do Natalis Invicti, festa de inverno no hemisfério norte. Foi uma bela astúcia. Procurava destronar a heliolatria, o culto do sol, pela celebração do nascimento de Jesus Cristo, o verdadeiro Sol Invencível, a luz da justiça e da graça. Se o Natal é decisão romana, a Epifania, a 6 de Janeiro, é de origem oriental: celebram ambas a mesma realidade, a manifestação do Deus humanado.
A linguagem das Escrituras e da Liturgia não caiu do Céu. Para fazer entender a novidade cristã foram transpostas, muitas vezes, imagens e festas pagãs para o universo católico. Onde hoje alguns podem julgar que houve uma paganização do Cristianismo, outros vêem, nesse esforço, a sua cristianização. A este propósito, as descrições que Epifânio de Salamina[i] fez da festa pagã, de tipo solar, ajudam-nos a perceber os discernimentos que foram necessários para entender a nossa festa de 6 de Janeiro.

domingo, 27 de março de 2016

O Coelhinho da Páscoa

Crónica de Maria Donzília Almeida


Num dia cinzento e frio, 21 de março, o GTUS (Grupo de Teatro da Universidade Sénior) levou brilho e magia a um grupo de criancinhas dos jardins-escola da cidade de Ílhavo, com a dramatização da história do Coelhinho da Páscoa, ali no seu Museu Marítimo.
No imaginário das crianças, a entrega dos ovos de chocolate é feita por um coelho de olhos vermelhos e pelo branquinho. Como se trata de uma historinha ternurenta, passo a transcrevê-la sucintamente.
Perto da casa do Menino Jesus, um passarinho construiu o seu ninho. Todas as manhãs, Jesus era acordado pelo alegre chilrear da avezinha.
Certa manhã, porém, Ele foi acordado pelo piar aflito do passarinho. Jesus espreitou e viu que a mamã passarinho chorava inconsolável, pois a raposa havia roubado os seus ovinhos.
O menino Jesus ficou triste e saiu pela floresta, pedindo aos bichos que passavam que o ajudassem a encontrar os ovinhos roubados.
—Gatinho, queres ajudar-me a encontrar os ovos da mãe passarinho?
—Não posso Jesus. A minha dona encarregou-me de caçar um rato que lhe rouba queijo todas as noites.

sábado, 26 de março de 2016

Esperança enlutada

Crónica de Anselmo Borges 

À memória do meu irmão
Marinho Borges

1 Quando se pensa em Deus e na morte (a dupla face do absoluto), é no abismo da perplexidade que se cai. Pascal disse-o de modo inexcedível: "Incompreensível que Deus exista, e incompreensível que não exista; que a alma seja com o corpo, que não tenhamos alma; que o mundo seja criado, que o não seja, etc." Ninguém pode dizer que sabe que Deus existe ou que não existe. Deus não é "objecto" de saber, mas de fé. Há quem acredita e há quem não acredita e uns e outros crêem, com razões.
De qualquer modo, Deus continuará sempre presente enquanto questão in--finita. Como escreveu recentemente A. Comte-Sponville, um dos filósofos actuais mais influentes, que se define como "ateu fiel": "As religiões são tão antigas como a humanidade civilizada. Há todos os motivos para pensar que durarão tanto quanto ela. O universo é um mistério, que permanecerá para sempre inexplicável. A vida, uma prova, que continuará sempre frágil. A consciência, um sofrimento, para sempre inconsolável. Porque há algo e não nada? Não sabemos. Nunca saberemos. Porque é que existimos? O que é que nos espera depois da morte? Também não sabemos. Isso deixa espaço aberto para as religiões, portanto, também para o ateísmo, que é mais recente, uma vez que pressupõe a ideia de Deus e depois a sua crítica, e igualmente sem provas. A questão de Deus, filosoficamente, permanece aberta: só podemos responder em termos de crença ou não crença, uma e outra subjectivas, sem que algum saber possa alguma vez fechar o debate. Lição de tolerância, para cada um, e de humildade, para todos."

FAZ TUA A PÁSCOA DE JESUS

Reflexão de Georgino Rocha


«Faz tua a Páscoa de Jesus. 
Experimenta a sua vida nova.»


Jesus ressuscitado deixa-se ver. Aparece a Maria Madalena que, de manhãzinha, vai ao sepulcro de José de Arimateia cedido para dar sepultura aos restos mortais do Nazareno cruxificado. Surpreende-a no caminho do regresso, quando, desolada, vem contar a Pedro que o sepulcro estava vazio e sem qualquer vedação de resguardo. Dá-se a conhecer, chamando-a pelo nome. Encarrega-a de anunciar este feliz encontro, testemunho da sua ressurreição, da sua Vida nova. E ela, entusiasmada e confiante, parte a correr e transmite a feliz notícia: “O Senhor ressuscitou verdadeiramente”.

Notícia que condensa o acontecimento fundante e central da mensagem cristã, celebrado ao domingo em cada semana e, de forma mais solene, anualmente, no domingo de Páscoa. Acontecimento que dá sentido pleno à vida humana, rasgando horizontes novos a tudo e a todos, ao quotidiano do tempo, à fugacidade da história, à precariedade da existência e das suas múltiplas realizações, à própria morte que é vencida em si mesma para sempre. Os critérios de vida, as prioridades de opções e a escala de valores, as atitudes de relacionamento assumidas por Jesus na sua missão apostólica são definitivamente confirmadas por Deus Pai. E constituem referência luminosa para todo o comportamento humano.

terça-feira, 22 de março de 2016

Uns dias ausente

VIDA NOVA

Vou estar uns dias ausente e sem horários, sem encontros e desencontros. Vou andar por aí ao sabor do sol e dos ares com a Lita… Vou rever caminhos já andados e descobrir harmonias e ambientes naturais, onde porventura possa encontrar as andorinhas que voltam sempre à casa-mãe emoldurada pelas cores primaveris. Quero ler poesia e fugir dos barulhos ensurdecedores das guerras e das politiquices enfadonhas. Ao menos uma semana, a Semana Santa que nos conduz à Páscoa da libertação, da caminhada solidária, da mudança necessária e da descoberta de novos horizontes. 
De quando em vez, não fugirei, se puder, ao espaço alargado da aldeia global para ver como param as modas. E regressarei mais confiante na certeza de que a Páscoa é, necessariamente, um ponto de partida para uma vida nova.

domingo, 20 de março de 2016

A Páscoa do escravo

Crónica de Frei Bento Domingues no PÚBLICO

«Ao questionar a sua solenidade aos pés de gente, 
aparentemente, pouco recomendável, 
fez dele a bússola da Igreja.»

1. Graças a Deus, há sempre algum amigo que se julga encarregado de me chamar à “realidade”. Convidado para umas mini férias na Semana Santa, observei que, para mim, não era a melhor altura. O amigo não me largou sem uma viagem pela sua visão do mundo, em forma de sermão, que passo a resumir: isto já não vai com cerimónias, nem com as da Páscoa, nem com as outras. Estamos cercados de guerras por todos os lados e sem qualquer proposta para enfrentar a desordem mundial em que estamos mergulhados. A paixão pela dominação económica e financeira não recua diante de nada. O apelo aos direitos humanos tornou-se uma invocação de rotina.
A chamada UE já não sabe para que nasceu. A promovida divisão entre a Europa rica e a Europa pobre - divisão reproduzida também dentro de cada país – fabricou a burocracia que esvaziou o seu desígnio primeiro. Esquecida da responsabilidade solidária, parece que nenhuma refundação a poderá salvar. Continuaremos na dúvida se vale a pena discutir a dívida.

domingo, 12 de abril de 2015

A ressurreição não pode ser adiada (1)

Crónica de Frei Bento Domingues 

Frei Bento Domingues


1. Encontrei-me, nesta Páscoa, com um grupo de antigos alunos que me veio convidar para um colóquio sobre os novos caminhos da cristologia.
Alguns deles situam-se nas trajectórias de nomes famosos como os de G. Vermes, Sanders, Theisen, Meier, Piñero, Torrents, S. Vidal e outros, mais ou menos alinhados na “terceira busca” ou investigação, do Jesus histórico. É inegável o valor extraordinário dessas reconstruções, embora para alguns comecem a ser entediantes.
A maioria segue os resultados dos importantes Colóquios organizados por Anselmo Borges, no Seminário da Boa Nova, em Valadares, entre os quais Quem foi/quem é Jesus Cristo?. Conhecem as múltiplas iniciativas editoriais de Tolentino de Mendonça, coroadas pela bela colecção Biblioteca Indispensável. J. Carreira das Neves é, desde há muito e para todos, a abelha incansável da Bíblia. Nenhum tinha ainda lido, por óbvias dificuldades de comunicação, O rosto humano de Deus, de A. Cunha de Oliveira, sobre o qual espero vir a escrever, com o vagar que o conjunto da obra deste autor merece.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Segunda-Feira da Páscoa

Apontamentos do meu diário




1. Hoje é segunda-feira da Páscoa. Dia de trabalho, muito embora no Concelho de Ílhavo seja feriado municipal. De qualquer forma, está enraizado em muitos a ideia de que esta segunda-feira, afinal, é especial, ao jeito de quem precisa de vencer a ressaca dos abusos que a mesa pascal exige. Vivemos estes dias, carregados de simbologia ligada à paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, de forma muito intensa. Cerimónias para cada momento em todas as famílias católicas, mas ainda na diocese e paróquias. Depois, as tradições, há séculos como agora, vão-se mantendo, readaptadas às circunstâncias e modas, mas também manipuladas pelas indústrias e comércios. E nós, que no fundo gostamos de festas, vamos na onda, sem vir daí grande mal ao mundo.
Realmente, a vida não pode ser só trabalho, tristeza, sofrimento e canseira. A vida precisa cada vez mais de muita alegria, porque o ser humano não pode confundir-se com uma qualquer máquina, porque dela se distingue pelos sentimentos, pela inteligência, pela ternura, pela beleza do sorriso, pela capacidade de amar, pela opções de patilha e de fraternidade, pelas artes que cultiva. Daí a necessidade da festa para a confraternização, para a celebração dos grandes dias da existência pessoal, familiar  e das comunidades.