domingo, 31 de janeiro de 2016

Filinto Elysio com o povo das suas origens


"Filinto Elysio O Poeta Amargurado" 

Hoje, domingo, 31 de janeiro, no Centro Cultural de Ílhavo, Filinto Elysio encontrou-se com o povo das suas origens. Pelo que vi, o encontro foi de saudade, de justiça e de homenagem a uma personalidade grande da nossa literatura e do pensamento livre. Dele diz Almeida Garrett que «nenhum poeta, desde Camões, havia feito tantos serviços à Língua Portuguesa». Contudo, há muito que entre nós e no país havia caído no esquecimento.
Senos da Fonseca, inquietado com a situação de um filho da terra injustamente ignorado, pôs mãos à obra e trouxe até ao presente a vida de um poeta avançado para a época, em tempos da inquisição que não tolerava quem gostasse de pensar. E dessa inquietação, avançou para pesquisas a diversos níveis, leu decerto parte do muito que o poeta escreveu,  sentiu as amarguras que o abalaram em Paris, onde se exilou, e ofereceu-nos uma peça de teatro para deleite de quem gosta da Arte de Talma. 
Com encenação de José Júlio Fino, que muito bem trabalhou o Grupo de Teatro Ribalta da Vista Alegre, a peça foi à cena no Centro Cultural de Ílhavo, não faltando os aplausos dos povos de Ílhavo. E Filinto, de seu nome de batismo Francisco Manuel do Nascimento, filho de Manuel Simões, fragateiro, e da peixeira Maria Manuela, ambos de raízes ilhavenses, compreendeu, então, nesta tarde de um domingo aprazível, o porquê do seu amor à liberdade e da sua paixão pela poesia. 

Os meus aplausos vão, pois:

1. Para o Poeta Filinto que muitos havíamos esquecido e que, a partir de hoje, certamente, vai ser motivo de pesquisas e de leituras de muitos ilhavenses. 

2. Para Senos da Fonseca que levou a cabo uma tarefa porventura nunca sonhada por qualquer ilhavense. Tarefa que veio na sequência de outras, todas apoiadas nas suas e nossas raízes, que merecem sair do limbo do esquecimento.

3. Para o Grupo de Teatro Ribalta que teima em prosseguir, sem sinais de cansaço ou enfado, com a Arte de Talma, em nome da cultura de que todos bem precisamos. Aplaudo, igualmente, todos os artistas, técnicos e demais colaboradores, pelo empenho demonstrado no palco e fora dele. 

4. Para José Júlio Fino, um homem do teatro desde que o conheço, já lá vão bons anos, que soube levar à cena, com sensibilidade, arte e saber, o texto da lavra de Senos da Fonseca. 

5. Para os ílhavos que souberam apreciar e aplaudir um espetáculo feito por gente da terra, com carinho, justiça  e alegria. 

Fernando Martins

Visita de Estudo — Casa de Camilo

Crónica de Maria Donzília Almeida


 A vida foi verdadeiramente madrasta para Camilo

O sol acordou pálido e assim permaneceu ao longo do dia, tímido, escondido atrás de nuvens cinzentas.
Apesar das condições meteorológicas pouco risonhas, isso não demoveu o grupo da US de empreender a viagem rumo a terras minhotas.
No âmbito da disciplina de História e Jornalismo, o nosso formador organizou uma visita de estudo à Casa de Camilo, em S. Miguel de Seide. Situada em Vila nova de Famalicão, fez-me evocar o triénio que lá vivi, entre 1979 e 1982. Gratas recordações, dum período áureo da minha vida, ali, em pleno coração do Minho, que tanto me fascina, pelas características de uma paisagem ímpar. Com a exuberância da sua vegetação, onde os regatos serpenteiam pelos campos verdes, a vinha de enforcado se ergue altaneira em esteios de pedra granítica, qualquer forasteiro se sente aconchegado nesta moldura natural.

A memória afectuosa de Deus

Crónica de Frei Bento Domingues no PÚBLICO

Frei Bento Domingues
«A verdadeira vida e a morte 
dependem dos afectos. 
Fora deles, há apenas estatística.»

1. A nós, os velhos, roubam-nos tudo: roubam-nos o passado e o futuro, a memória e a possibilidade de renovar o cartão de cidadão.
É breve e para poucos a sobrevivência na memória afectuosa dos familiares e amigos. Chegamos tarde em relação ao passado e demasiado cedo em relação às maravilhosas promessas da ciência e da técnica.
Por outro lado, a louca persistência das guerras e os absurdos que as provocam, impondo a lei de matar, ser morto ou fugir, geram cepticismo acerca da possibilidade global de humanização da história [1].
A verdadeira vida e a morte dependem dos afectos. Fora deles, há apenas estatística.
Os mais idosos vão sofrendo a desertificação das relações de familiares e amigos. Mário Brochado Coelho, a propósito da morte de Nuno Teotónio Pereira e do desaparecimento de outros companheiros, manifestou aos amigos, de modo comovente, que embora tudo seja natural, ficamos com o sentimento de uma grande orfandade.
Há outras pessoas que alimentam o desejo de um Deus de memória afectuosa, transfiguradora e universal, para si e para os outros, um coração que as acolha.

PESQUISAR