Mostrar mensagens com a etiqueta Anselmo Borges. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Anselmo Borges. Mostrar todas as mensagens

sábado, 9 de maio de 2026

As “aparições” de Fátima

Crónica semanal de Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Nota introdutória

Em 2017, a célebre revista CONCILIUM, que se publica em várias línguas, pediu-me, atendendo ao centenário de Fátima, um texto sobre as aparições.
Porque muitas pessoas continuam a interrogar-se sobre as ditas aparições, permito-me, neste mês de Maio, retomar o texto.

1. Perguntam-me por vezes se acredito em Fátima. Respondo que Fátima não faz parte da fé católica, pode-se ser católico e não acreditar em Fátima. De qualquer forma, Fátima não é o centro do catolicismo.
Acrescento que não me repugna aceitar que houve em Fátima uma experiência religiosa. Os pastorinhos tiveram uma experiência religiosa, mas, evidentemente, foi uma experiência de crianças e à maneira de crianças, e enquadrada em esquemas próprios da sua visão do mundo e da religião, concretamente, a partir daquilo que ouviam na igreja e em casa. Por exemplo, nesse tempo, havia as famosas “missões”, com pregadores que chegavam armados com pregações aterrorizantes sobre o inferno, contra os pecadores, e, assim, é claro que a sua experiência teve aspectos benfazejos, mas também e talvez sobretudo aspectos tremendamente negativos, com dimensões de verdadeiro terror, quando, por exemplo, Nossa Senhora lhes teria feito ver as almas a arder no fogo do inferno. Que mãe agiria deste modo com os filhos, sobretudo na idade dos “videntes”, ainda crianças? Estou convicto de que essas imagens lhes tolheram a existência.

domingo, 26 de abril de 2026

Pára e Pensa - O clamor por Deus e a esperança final

Crónica Semanal de Anselmo Borges
 

1. Quem põe em dúvida que vivemos tempos temíveis, brutais, de horrores sem fim? Ele há as guerras, aquelas de que se fala e as outras de que se não fala — por exemplo a do Sudão —, multiplicando os seus campos de destruição e ruinas, e os montões de cadáveres crescem e crescem e crescem... E as crianças — tantas até raptadas são — a gritar e as mulheres violadas, e a fome não deixa de aumentar: todos os dias pelo menos 8.000 crianças morrem por causa da fome. E são milhões de milhões de euros que se gastam em novos armamentos. Os prepotentes esmagam os povos e os direitos das maiorias, e, vivendo nós hoje em total interligação e interdependência, quase todos no mundo acabam por ser vítimas dessa prepotência. E lá andam todos numa correria vertiginosa, todos ou quase todos a dedar nas redes, e quem se lembra que brain rot (apodrecimento do cérebro, cérebro apodrecido) foi o termo considerado como a palavra do ano pela Universidade de Oxford em 2024?...


Não creio que sejamos piores do que no passado. Mas há uma questão terrível: temos poder a mais. Pela primeira vez, a Humanidade — basta pensar no armamento atómico — pode pôr termo a si mesma. E há a IA, com imensas vantagens, mas alguém pode dizer aonde nos levará? E a crise climática... e os “cérebros apodrecidos”?
Neste contexto, não deveria esquecer-se a pergunta: Onde está o ser humano?, mas são mais a perguntar: Onde está Deus? Nestas circunstâncias — e não vou esquecer também, por exemplo, as enfermarias dos hospitais, verdadeiros acampamentos de dor e solidão, os presos, os lares de idosos, as vítimas de abusos de todo o género, os jovens com ansiedade crescente... —, ainda em tempo de Páscoa, alguns textos célebres podem vir ao nosso encontro... Dou exemplos.


2. Para exprimir a sua consternação perante as vítimas da História, todos os horrores do passado e todos os mortos, “as ruínas da história”, Walter Benjamin, da Escola de Frankfurt, que, numa fuga falhada à perseguição nazi, se suicidou, serviu-se de um quadro famoso do pintor suíço, Paul Klee, chamado “Angelus Novus” e deixou-nos o célebre texto sobre “O anjo da história”: “Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Nele representa-se um anjo que parece como se estivesse a ponto de afastar-se de algo que o tem atordoado. Os seus olhos estão desmesuradamente abertos, a boca também aberta e as asas estão completamente estendidas. E este deve ser o aspecto do anjo da história. Voltou o rosto para o passado. Onde a nós se nos manifesta uma cadeia de dados, ele vê uma catástrofe única que amontoa incansavelmente ruina sobre ruina, lançando-as a seus pés. Ele bem quereria deter-se, despertar os mortos e recompor o despedaçado. Mas a partir do paraíso sopra um furacão que se enredou nas suas asas e que é tão forte que o anjo já não consegue fechá-las. Este furacão empurra-o irresistivelmente para o futuro, para o qual ele está de costas, enquanto os montões de ruinas crescem perante ele até ao céu. Este furacão é o que nós chamamos progresso”. Estamos, na opinião de Manuel Fraijó, perante um texto-chave da filosofia do século XX. Benjamin era ateu, mas não o abandonava a
pergunta pelos mortos e, concretamente, pelas vítimas inocentes da História...


3. No ano de 1796, Jean Paul (pseudónimo de Johann Paul Friedrich Richter) escreveu um dos textos mais sublimes e ao mesmo tempo mais terríveis da grande literatura alemã: Rede des toten Christus vom Welgebäude herab, dass kein Gott sei (Discurso do Cristo morto, desde o cume do mundo, sobre a não existência de Deus). Nele, o grande escritor descreve um sonho.
Pela meia noite e em pleno cemitério, numa visão apavorante, o olhar estende-se até aos confins da noite cósmica esvaziada, os túmulos estão abertos, e, num universo que se abala, as sombras voláteis dos mortos estremecem, aguardando, aparentemente, a ressurreição. É então que, a partir do alto, surge Cristo, uma figura eminentemente nobre e arrasada por uma dor sem nome. E, com um terrível pressentimento, “os mortos todos gritam-lhe: ‘Cristo, não há Deus?’ Ele respondeu: ‘Não, não há Deus’. Então, a sombra de cada morto estremeceu, e umas a seguir às outras desconjuntaram-se. E Cristo continuou, anunciando o que aconteceu no instante da sua própria morte: ‘Atravessei os mundos, subi até aos sóis, voei com as galáxias através dos desertos do céu; e não há Deus. Desci até onde o ser estende as suas sombras, e olhei para o abismo, gritando: ‘Pai, onde estás?’ Mas apenas ouvi a tormenta eterna, que ninguém governa”.
Quando, no espaço incomensurável, procurou o olhar divino, não o encontrou; apenas o cosmos infindo o fixou petrificado “com uma órbita ocular vazia e sem fundo, e a eternidade jazia sobre o caos e roía-o e ruminava-se”. O coração rebentou de dor, quando as crianças sepultadas no cemitério se lançaram para Cristo, perguntando: ‘Jesus, não temos Pai?’ E ele, debulhado em lágrimas, respondeu: ‘Somos todos órfãos, eu e vós, não temos Pai’. “Nada imóvel, petrificado e mudo! Necessidade fria e eterna! Acaso louco e absurdo! Como estamos todos tão sós na tumba ilimitada do universo! Eu estou apenas junto de mim. Ó Pai, ó Pai! Onde está o teu peito infinito, para descansar nele? Ah!
Se cada eu é o seu próprio criador e pai, porque é que não há-de poder ser também o seu próprio exterminador?” Para Jean Paul, a morte de Deus não é ainda um destino espiritual inevitável, mas apenas a tentação de uma possibilidade ameaçadora, contra a qual quer prevenir. Quando acordou do pesadelo ateu, a sua alma “chorava de alegria, por poder de novo adorar a Deus — e a alegria e o choro e a fé nele era a oração”.


4. Um século depois (1882), o louco de Nietzsche proclamou a morte de Deus: “O louco saltou para o meio deles e trespassou-os com o olhar. ‘Quem vos vai dizer o que é feito de Deus sou eu’, gritou! “Quem o matou fomos todos nós, vós mesmos e eu!” “Nunca existiu acto mais grandioso”. Mas, ao mesmo tempo, Nietzsche não se mostra completamente eufórico. “Para onde vamos nós, agora? Não estaremos a precipitar-nos para todo o sempre? Não andaremos errantes através de um nada infinito? Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite?”


5. O filósofo Gilles Lipovetstky escreveu, em A Era do Vazio, comentando, que Deus morreu e as pessoas não estão preocupadas com isso. Mas outro filósofo, agnóstico, Leszek Kolakowski, disse que o nosso “é um mundo privado de todo o sentido, de qualquer orientação, sinal de direcção, estrutura”, de tal modo que, desde a proclamação da morte de Deus por Nietzsche, “praticamente nunca mais houve ateus serenos”:
“A ausência de Deus tornou-se a ferida sempre aberta do espírito europeu, por maior que tenha sido o esforço para esquecê-lo, recorrendo a toda a espécie de narcótico.” De qualquer forma no seu livro mais recente, A Sociedade da Decepção (2012), Lipovetsky, reconhecendo “a reafirmação do religioso”, veio dizer que, “privados de sistemas de sentido englobante, numerosos indivíduos encontram uma tábua de salvação no reinvestimento de antigas e novas espiritualidades capaz de oferecer a unidade, um sentido, referências, uma integração comunitária: é o que o ser humano necessita para combater a angústia do caos, a incerteza e o vazio.”


6. Lá está, sempre, a sublevação dos versos de Heinrich Heine: “E continuamos perguntando,/uma e outra vez,/até que um punhado de terra/nos cale a boca./Mas isto é uma resposta?”


7. E há, tocando o absurdo, aquela pergunta terrível, pergunta-limite: se soubessem o que agora sabem pela experiência vivida e a morte no fim, quantos, quantas, se pudessem escolher, teriam escolhido vir à existência? É nesta pergunta-limite, entre ser e não ser, finito-infinito, que, em confiança racional, pode dar-se a experiência da verdade salvadora do Evangelho: Jesus anunciou por palavras e obras o Evangelho, notícia boa e felicitante, a melhor notícia que a Humanidade alguma vez ouviu: Deus é bom, Pai-Mãe, e só quer a alegria, a felicidade, a plena realização de todos os seus filhos e filhas, e Jesus, que sabia que nem todos estavam de acordo com esta mensagem, não se acobardou, foi até ao fim para dar testemunho da Verdade e do Amor e, julgado como blasfemo religioso e subversivo político, foi condenado à morte e morte de cruz, a morte mais horrenda, rezando aquela oração que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”, e Deus infinitamente poderoso e bom não o deixou na morte, ele está vivo na plenitude da vida em Deus para sempre, como desafio e esperança para todos..., para mim.


Anselmo Borges
Padre e Professor de Filosofia


Sábado, 25 de Abril de 2026

sábado, 7 de março de 2026

PÁRA E PENSA — As mulheres na Igreja

Crónica semanal de Anselmo Borges

1. Retorno ao tema, pois é de actualidade candente e amanhã, 8 de Março, é o Dia Internacional da Mulher; faço-o, solidarizando-me com todos os que lutam contra a misoginia da Igreja — atendendo à data, nomeadamente muitas associações de mulheres apresentaram protestos —, e retomando o que já aqui escrevi em 2011: “As mulheres têm motivo para estar zangadas com a Igreja, que as discrimina. Jesus, porém, não só não as discriminou como foi um autêntico revolucionário na sua dignificação, até ao escândalo.”

Veja-se a estranheza dos discípulos ao encontrar Jesus com a samaritana, que tinha tudo contra ela: mulher, estrangeira, herética, com o sexto marido, mas foi a ela que se revelou como o Messias. Condenou a desigualdade de tratamento de homens e mulheres quanto ao divórcio. Fez-se acompanhar — coisa inédita e mesmo escandalosa na época — por discípulos e discípulas. Acabou com o tabu da impureza ritual. Estabeleceu relações de verdadeira amizade com algumas. Maria Madalena constitui um caso especial nessa amizade: ela acompanhou-o desde o início até à morte e foi ela que primeiro intuiu e fez a experiência avassaladora de fé de que o Jesus crucificado não foi entregue à morte para sempre, pois é o Vivente em Deus, está vivo em Deus para sempre como esperança e desafio para todos os que crêem nele, a ponto de Santo Tomás de Aquino e outros, apesar da sua misoginia, a declararem a “Apóstola dos Apóstolos”, precisamente por causa do seu papel fundamental na convocação dos outros discípulos para a fé na Ressurreição: na morte, não caímos no nada, pois entramos na plenitude da vida em Deus, Deus de vivos e não de mortos. Aliás, já São Paulo, na Carta aos Romanos, pede que saúdem Júnia, “Apóstola exímia”.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Mulheres na Igreja Católica

DISCRIMINAÇÃO INTOLERÁVEL

"Se a verdade é mulher, não teremos razões para suspeitar que todos os filósofos, na medida em que foram dogmáticos, pouco entenderam de mulheres?" É com estas palavras que Nietzsche inicia a sua obra Para Além do Bem e do Mal, escrita em Sils-Maria, 1885. É bem possível que esta afirmação se aplique não só aos filósofos, mas também aos teólogos, e, em geral, aos dirigentes, por princípio homens, da Igreja Católica. Embora se não excluam traços maternos em Deus, a Bíblia chama a Deus Pai e não Mãe. Em primeiro lugar, porque se vivia numa sociedade patriarcal, e, depois, porque era necessário evitar toda uma linguagem que lembrasse as deusas pagãs da fertilidade...
É claro que Deus não é sexuado; portanto, chamar-lhe Pai é uma metáfora. Assim, tanto poderíamos dirigir-nos a ele como a ela, isto é, tanto poderemos chamar-lhe Pai como Mãe. E deveríamos, no meu entender, a partir do Evangelho, dirigir-nos a Ele sempre como Pai-Mãe.

sábado, 6 de dezembro de 2025

PÁRA E PENSA: O pecado original

Crónica Semanal de Anselmo Borges 

Aconteceu-me, há muitos, muitos anos — era ainda jovem —, que, no final de uma conferência, no período das perguntas, uma senhora me atirou: “Sempre é verdade o que dizem: o senhor nega dogmas da Igreja!” Pedi-lhe para dar exemplos. Ela: que tinha negado o dogma do pecado original.
Aí, perguntei-lhe se tinha filhos. E ela: “sim, tenho duas filhas”. Dei-lhe parabéns sinceros e desafiei-a a dizer-me se acreditava sinceramente que as duas filhas tinham sido geradas em pecado e que ela tinha andado nove meses de cada vez carregando com duas filhas em pecado dentro dela. Ela: “Eu?! Nem pense nisso! É claro que não”.
Fiquei então, mais uma vez, a saber que, frequentemente, há na religião o que se chama dissonância cognitiva: afirma-se uma coisa, mas realmente não se acredita nela, porque se pensa outra coisa. Aquela senhora, confrontada com a questão, viu claramente que não podia acreditar que uma criaturinha inocente, concebida com amor, tivesse sido gerada e tivesse nascido em pecado, um pecado de que não era autora nem culpada. Mas ao mesmo tempo acusava de heresia quem dissesse o contrário do que lhe ensinaram que devia dizer, sem pensar. Ora, a fé não pode entregar-se à cegueira, abandonando a razão. O pecado original não se encontra na Bíblia.

sábado, 15 de novembro de 2025

PÁRA E PENSA - A fé convive com a dúvida

Crónica semanal de Anselmo Borges

Insisto constantemente em que no Novo Testamento há duas “definições” de Deus — evidentemente, Deus não é definível, mas são tentativas de dizer algo sobre o seu mistério. Na Primeira Carta de São João, está escrito que Deus é Agapê, Amor incondicional. O Evangelho segundo São João começa com estas palavras: “No princípio era o Logos, o Logos estava Deus e o Logos era Deus. Por Ele é que tudo começou a existir.” Logos significa palavra, razão, inteligência. Deus é, portanto, Amor e Razão e, assim, a existência humana e cristã autêntica resultará da convergência e interpenetração da bondade e da razão, da inteligência e do amor. Portanto, a fé não só não pode contradizer a razão como deve ser razoável e, como diz a Primeira Carta de São Pedro, é preciso “dar razões da esperança”. E, como tentei explicar na crónica da semana passada, não há resposta definitiva constringente para o que é a realidade na sua ultimidade. É no próprio acto de fé que o crente experiencia o carácter razoável da sua adesão confiante livre. 

sábado, 1 de novembro de 2025

PÁRA E PENSA: Alguém quer ser santo

Crónica Semanal de  Anselmo Borges

Vale! era a saudação latina: Saúde, passa bem, passai bem! Aliás, a própria palavra saudação tem também a ver com saúde e com salvação (salus, salutis). Saudar vem do latim: salutem dare (dar, desejar saúde). Ainda se diz nas aldeias: 'negar a salvação a alguém', com o sentido de recusar-se a cumprimentar uma pessoa. Saudade tem aqui igualmente o seu étimo. Veja-se, por exemplo, a expressão: mandar muitas saudades.
A saudade é aquele sentimento de solidão que tem na sua base a falta da pessoa querida. Ter saudades e enviar saudades é aquele desejo de que quem partiu e anda longe, esteja onde estiver, passe bem... Por sua vez, saúde refere-se sempre àquela situação em que o ser humano na sua totalidade está bem.
A 2 saúde tem a ver com o todo holisticamente considerado, numa situação de integração e equilíbrio harmoniosos: saúde somática, saúde psíquica, saúde social, saúde ecológica, saúde espiritual, implicando, portanto, uma relação sã consigo, com os outros, com a natureza, com Deus... Tudo isto por causa do dia 1 de Novembro. É possível que muitos portugueses pensem que esse dia é feriado nacional por causa dos mortos. Mas não é verdade: é feriado nacional por causa da celebração da Festa de Todos os Santos. Aí está algo que praticamente ninguém que alguma vez tenha pensado nisso (mas quantos pensaram?) quereria ser: santo.

sábado, 18 de outubro de 2025

O Vaticano e a Palestina

Crónica de Anselmo Borges
Padre e Professor de Filosofia

Com a assinatura da primeira fase do acordo de paz entre Israel e o Hamas, que deverá levar à libertação de todos os reféns em Gaza (incluindo os cadáveres dos mortos) e de cerca de dois mil presos palestinianos em Israel, qualquer ser humano verdadeiramente humano sonha com o fim do horror e com uma viragem para o Médio Oriente no sentido da liberdade, da justiça e da paz.
O Papa Leão XIV saudou este “raio de esperança na Terra Santa”, animando “as partes envolvidas a que sigam com coragem o caminho traçado para uma paz justa, duradoura e respeitadora das "legítimas aspirações do povo israelita e do povo palestiniano”. Sim, “dois anos de conflito deixaram por todo o lado morte, sobretudo nos corações de quem perdeu filhos, pais”, assegurando o Papa estar, “com toda a Igreja”, próximo da “vossa imensa dor”.
Significativamente, a primeira viagem apostólica do Papa Leão realizar-se-á de 27 de Novembro a 2 de Dezembro próximo, indo à Turquia entre 27 e 30 de Novembro para a comemoração dos 1700 anos do Concílio ecuménico de Niceia, o primeiro da história do cristianismo, convocado no ano de 325 pelo imperador Constantino, e, depois, deslocar-se-á ao Líbano “pela possibilidade de anunciar de novo uma mensagem de paz no Médio Oriente” e a promoção do diálogo inter-religioso, sublinhou.

sábado, 2 de agosto de 2025

PÁRA E PENSA - Como sabem os crentes que "Deus falou"?

Crónica semanal 
de Anselmo Borges

Como sabem os crentes que Deus falou?


É-me por vezes difícil e até penoso ter de participar em certos debates sobre a fé e a ciência. Porque os cientistas têm frequentemente a ideia de que a fé tem a ver com umas crenças indiscutíveis, porque cegas, em coisas e “verdades” abstrusas, de tal modo que quanto mais abstrusas mais religiosas e a fé seria tanto maior quanto mais cega.
A culpa nem sempre é deles, mas dos crentes que passam essa ideia. Pensa-se, de facto, de modo geral, que as religiões caem do céu, havendo até quem julgue que Deus revelou directamente verdades nas quais é preciso acreditar sem razões. Ora, não é assim nem pode ser. Tudo o que é autenticamente religioso é resposta humana a questões e perguntas profunda e radicalmente humanas. Resposta verdadeiramente humana.

sábado, 12 de julho de 2025

PÁRA E PENSA - Férias. Tempo Livre. Para quê?

Crónica Semanal 
de Anselmo Borges

Há muito tempo, no café, a senhora Isilda, uma senhora antiga, muito bonita e viva, com 91 anos, que teve filhos, esclareceu-me quanto ao baptismo: segundo ela, baptizam-se as crianças pequeninas, para receberem o Espírito Santo, que é mais forte do que Jesus, e que é “o Espírito falador”: é ele que dá às crianças a capacidade divina para falarem. 
À sua maneira, a senhora Isilda — já partiu — tinha consciência do milagre que é falar. Quem algum dia reflectiu sobre isso — a capacidade de falar: proferir sons articulados que transportam sentido — falando, dizemo-nos a nós próprios, damos ordens, fazemos declarações de amor, e ódio também, ensinamos, contamos anedotas, fazemos paralisar um homem, levamos uma mulher à lua, dirigimo-nos ao Infinito —, não pode deixar de cair no assombro interrogativo. 

sábado, 28 de junho de 2025

Pára e Pensa - As 'sopas' do Espírito Santo

Crónica semanal 
 de Anselmo Borges

Quero voltar ao Espírito Santo e às festas do Divino Espírito Santo, nos Açores, que são uma das festas mais humanistas e solidárias do mundo. Ah! aquela coisa dos “impérios”! Chegue quem chegar, senta-se e come e bebe fartamente, sem que alguém lhe pergunte quem é, donde é, o que faz. De graça. Quando lá fui, no “império” a que me acolhi, lá estava o espírito: “A hora de repartir/Que a gente tanto gosta. /Pão, carne, massa e vinho/Temos sempre a mesa posta.” Ali, foram servidas mais de 600 “sopas” (um ensopado de carne excelente).
Se formos à procura da origem destas festas, encontraremos um monge célebre do século XII, Joaquim de Fiore, que deu origem ao joaquimismo. Segundo ele, a História do mundo está dividida em três Idades: a Idade do Pai ou da Lei, que é a idade da servidão e do medo; a Idade do Filho, que é a idade da submissão filial; a Idade do Espírito Santo, na qual se ia entrar, e que é a idade do Amor, da Liberdade e da Fraternidade.

sábado, 14 de junho de 2025

PÁRA E PENSA: Deus: O essencial

Crónica semanal
de Anselmo Borges

Deus: O essencial


Vivemos imersos em crises que nos desumanizam, mas a maior, no meu entender, é vivermos mergulhados no ter, no prazer, no poder pelo poder, nas redes sociais, nas tecnologias, no imediatismo, na vertigem da pressa, esquecendo o ser, o parar para pensar, a pergunta por Deus...
Enredamo-nos assim no sem sentido... Com razão, perguntava Karl Rahner, talvez o maior teólogo católico do século XX — tenho a honra de ter sido aluno: O que aconteceria, se a simples palavra “Deus” deixasse de existir? E respondia: “A morte absoluta da palavra ‘Deus’, uma morte que eliminasse até o seu passado, seria o sinal, já não ouvido por ninguém, de que o Homem morreu.” Václav Havel, o grande dramaturgo e político, pouco tempo antes de morrer, surpreendeu muitos ao declarar que “estamos a viver na primeira civilização global” e “também vivemos na primeira civilização ateia, numa civilização que perdeu a ligação com o infinito e a eternidade”, temendo, também por isso, que “caminhe para a catástrofe”.

sábado, 31 de maio de 2025

Optimismo-pessimismo: a ambiguidade do mundo

Crónica semanal
de Anselmo Borges

Foi Leibniz que, numa obra célebre – Teodiceia -, na qual, perante a existência do mal, queria defender e justificar Deus, se apresentou como arauto do optimismo. O nosso mundo é o melhor dos mundos possíveis.
Leibniz era um cristão convicto e, portanto, Deus, entre os mundos possíveis, tinha de ter criado o melhor. De facto, se este nosso mundo criado não fosse o melhor, haveria a possibilidade de outro melhor, o que significaria que ou Deus não tinha conhecido esse mundo melhor ou não o tinha querido ou não tinha podido criá-lo, o que contradiz a sua omnisciência, a sua bondade infinita e a sua omnipotência.
Veio o terramoto de Lisboa em 1755, que tornava impossível a manutenção de ideias optimistas. Voltaire escreveria o famoso “Poema sobre o desastre de Lisboa”, onde pede aos filósofos enganados que venham ver as mulheres e as crianças empilhadas umas sobre as outras, todos esses desgraçados enterrados debaixo dos seus tectos, terminando os seus dias no horror dos tormentos.
Voltaire escreveu também o Cândido, onde escalpeliza a ideia de que tudo contribui para o melhor. O optimismo de Pangloss e a candura de Cândido vêem-se confrontados com a realidade bruta do mal: as desgraças humanas causadas pelas catástrofes naturais, pela estupidez humana, pelas instituições, pelas guerras, pela avareza, pela superstição, pela escravatura, pela hipocrisia, pelo tédio, por todo o tipo de exploração…

sábado, 10 de maio de 2025

PÁRA E PENSA: As primeiras palavras de Leão XIV

Crónica semanal
de  Anselmo Borges 

As primeiras palavras do Papa Leão XIV
na sua primeira bênção Urbi et Orbi


A paz esteja com todos vós! Caríssimos irmãos e irmãs, esta é a primeira saudação de Cristo Ressuscitado, o Bom Pastor que deu a vida pelo rebanho de Deus. Eu também gostaria que esta saudação de paz entrasse nos vossos corações, chegasse às vossas famílias, a todas as pessoas, onde quer que estejam, a todos os povos, a toda a terra. A paz
esteja convosco! Esta é a paz de Cristo Ressuscitado, uma paz desarmada e uma paz desarmante, humilde e perseverante. Ela vem de Deus, Deus que nos ama a todos
incondicionalmente. Ainda conservamos nos nossos ouvidos aquela voz fraca, mas sempre corajosa, do Papa Francisco que abençoava Roma! O Papa que abençoava Roma concedia a sua bênção ao mundo, ao mundo inteiro, naquela manhã do dia de Páscoa.

sábado, 3 de maio de 2025

Homenagem a Francisco

Pára e Pensa

Um jornalista perguntou uma vez ao Papa Francisco: Como gostaria de ser recordado depois de morrer? E Francisco respondeu textualmente com estas palavras: “Era um bom homem e fez o que pôde.”
Estou convicto de que, agora que partiu, a melhor homenagem que se lhe poderia prestar seria cada um, cada uma, nas suas respectivas condições de vida, fazer sinceramente seu o mesmo desejo de recordação após a sua própria morte: “Era uma boa pessoa e fez o que pôde.”
Não haja dúvidas: o mundo seria diferente.

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Sábado, 3 de Maio de 2025

sábado, 26 de abril de 2025

PÁRA E PENSA - Homenagem a Francisco

Crónica semanal de Anselmo Borges


A dívida para com as vítimas inocentes

Recordando Francisco, o Papa de uma Igreja aberta a todos e que até ao fim quis estar próximo dos últimos, fica aí este meu texto sobre a dívida incomensurável da História para com as vítimas inocentes.
Na sua encíclica sobre a esperança — Spe salvi (Salvos em esperança) —, Bento XVI, o Papa antecessor de Francisco, debruça-se sobre uma pergunta decisiva – “a pergunta fundamental da Filosofia” (Max Horkheimer) : o que podem esperar as incontáveis vítimas inocentes da História? Quem lhes fará justiça? As vítimas inocentes clamam, um grito sem fim e ensurdecedor percorre a História.
No mundo moderno, conduzido em grande parte pela ideia de progresso, ergueu-se, nos séculos XIX e XX, um ateísmo moral por causa das injustiças do mundo e da História. “Um mundo no qual há tanta injustiça, tanto sofrimento dos inocentes e tanto cinismo do poder, não pode ser obra de um Deus bom”.
Quase se poderia dizer que se é ateu ad majorem Dei gloriam, para a maior glória de Deus, como se, perante o horror do mundo, a justificação de Deus fosse não existir. É-se ateu por causa de Deus, que é preciso recusar por causa da moral.

sábado, 19 de abril de 2025

PÁRA E PENSA A Páscoa: não à opressão e à morte

Anselmo Borges
O famoso filósofo Johann G. Fichte tem um texto com perguntas que todo o ser humano, minimamente atento à vida, alguma vez fez, pois são perguntas que ele transporta consigo, melhor, que ele é. O filósofo alemão escreveu que o ser humano não deixará facilmente de resistir a uma vida que consista em “eu comer e beber para apenas logo a seguir voltar a ter fome e sede e poder de novo comer e beber até que se abra debaixo dos meus pés o sepulcro que me devore e seja eu próprio alimento que brota do solo”; como poderei aceitar a ideia de que tudo gira à volta de “gerar seres semelhantes a mim para que também eles comam e bebam e morram e deixem atrás de si outros seres que façam o mesmo que eu fiz? Para quê este círculo que gira sem cessar à volta de si?... Para quê este horror, que incessantemente se devora a si mesmo, para de novo poder gerar-se, gerando-se para poder de novo devorar-se?” Também Ernst Bloch, o filósofo ateu religioso, escreveu que o ser humano nunca há-de contentar-se com o cadáver.

sábado, 12 de abril de 2025

PÁRA E PENSA: Sexta-Feira Santa: O calvário do mundo

Crónica semanal
de Anselmo Borges

Jürgen Moltmann, o grande teólogo protestante com quem tive o privilégio de conversar mais de uma vez em Tubinga, que faleceu no ano transacto, escreveu que, na juventude, feito prisioneiro, na Segunda Guerra Mundial, embora não sendo particularmente crente e o que mais lhe apetecesse era comida, o que o capelão lhe ofereceu foi o Novo Testamento. Leu-o e, a partir da experiência dramática por que estava a passar por causa do Nazismo, percebeu que ou Deus não existe mesmo ou então o Deus verdadeiro é o que se revela em Jesus Cristo pregado na cruz para dar testemunho da verdade e do amor incondicional. E foi dessa experiência que partiu para o estudo da Teologia, tendo escrito obras que a marcaram no século XX: O Deus crucificado e Teologia da esperança, entre outras.
Com o terramoto de Lisboa, aconteceu um sismo no pensamento europeu, que abalou os grandes intelectuais. A famosa Teodiceia de Leibniz afundava-se. Como é que este podia ser o melhor dos mundos possíveis? E como pode a razão finita justificar Deus frente ao mal, pois é isso que pretende a teodiceia? O mal físico talvez seja explicável; mas como compreender o mal moral? Porque é que não somos sempre bons e, pelo contrário, criamos infernos de desumanidade? Há aquele enigma que amargurava São Paulo: “Ai de mim, que sou um homem desgraçado, pois faço o mal que não quero e não faço o bem que quero!”

sábado, 22 de março de 2025

Cuidado! Cuidar

Crónicas PÁRA E PENSA

Anselmo Borges

Entre as grandes obras filosóficas do século XX, figura um do filósofo alemão Martin  Heidegger: Seinund Zeit (Ser e Tempo). Nela, retoma a célebre fábula sobre o Cuidado, de Higino, um escravo culto (64 a. C.-16 d. C.). Fica aí, traduzida literalmente. “Uma vez, ao atravessar um rio, Cuidado’ viu terra argilosa. Pensativo, tomou um pedaço de barro e começou a moldá-lo.
Enquanto contemplava o que tinha feito, apareceu Júpiter. ‘Cuidado’ pediu-lhe que insuflasse espírito naquela figura, o que Júpiter fez de bom grado. Mas, quando ‘Cuidado’ quis dar o próprio nome à criatura que havia formado, Júpiter proibiu-lho, exigindo que lhe fosse dado o seu. Enquanto ‘Cuidado’ e Júpiter discutiam, surgiu também a Terra (Tellus) e também ela quis conferir o seu nome à criatura, pois fora ela a dar-lhe um pedaço do seu corpo.

sábado, 15 de março de 2025

Hermenêutica feminista das religiões

 Crónicas PÁRA E PENSA

Anselmo Borges

A religião/religiões só têm sentido se e na medida em que são factor de libertação/salvação. Ora, a gente fica tremendamente impressionado, quando observa o que de negativo tantas vezes as religiões e os seus textos dizem sobre as mulheres. Que é que isto quer dizer? É  essencial interpretar e não tomar de modo nenhum à letra. Aí ficam, pois, alguns princípios de hermenêutica feminista das religiões e seus textos.

Pressuposto essencial é evidentemente, a compreensão de que os textos sagrados não são ditados de Deus, tornando-se, pois, claro que, sem interpretação, eles se convertem inevitavelmente, em texto fundamentalistas. Os textos sagrados têm de ser lidos de modo crítico e situados no seu contexto histórico.
Um livro sagrado, por exemplo, a Bíblia, só tem validade última e só encontra a sua verdade adequada enquanto todo e na sua dinâmica global. A argumentação com fragmentos pode por vezes tornar-se inclusivamente ridícula. Assim, princípio hermenêutico essencial e decisivo das religiões e dos seus textos é o do sentido último da religião, que é a libertação e salvação. O Sagrado, Deus, referente último do religioso, apresenta-se como Mistério plenamente libertador e salvador. É, pois, à luz desta intenção última que as religiões e os seus textos têm de ser lidos, concluindo-se que não têm autoridade aqueles textos que, de uma forma ou outra, se apresenta como opressores e discriminatórios.