Mostrar mensagens com a etiqueta Georgino Rocha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Georgino Rocha. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

A alegria espontânea e convincente do povo


“Aprender com o Povo a Alegria Sã do Evangelho”, o mais recente livro do Pe. Georgino Rocha, é uma confissão vivida e meditada do autor, conhecido sacerdote do presbitério de Aveiro. Apresentá-la assim, publicamente e em livro, para que não haja dúvidas, traduz uma coragem e um desafio singulares, que partilha com os seus amigos, leitores e mesmo desconhecidos. É que o povo, a matriz que o inspirou, é muito genuíno nas vivências quotidianas do Evangelho.
O autor recolheu ao longo da vida, não apenas na diocese aveirense mas um pouco por diversos horizontes, mesmo em terras de missão, exemplos que atestam aquela verdade, enriquecidos por reflexões, testemunhos e relatos de experiências que merecem ser lidos e meditados, à luz da alegria espontânea e convincente do povo. Alegria essa também retratada na capa, com um rancho folclórico de uma qualquer região a marcar o ritmo, que o autor soube captar com feliz intuição. 
Ao debruçar-me sobre os 12 capítulos do livro — “Aprender com o Povo a Alegria Sã do Evangelho”—, dei-me conta da caminhada serena do autor alimentada pelo sentido da descoberta do muito que a gente simples tem para oferecer ao nível da busca de Deus em Jesus Cristo, para O refletir na vida. «A piedade popular manifesta uma riqueza complexa de emoções e uma abundância exuberante de expressões, engloba a vida toda dos que a assumem e praticam», dando «sentido à procura de Algo que se pressente envolvido no dia-a-dia e transcende cada realização humana, abrindo-lhe horizontes de maior plenitude», disse.
Reconhecendo que a religiosidade natural é própria da relação com a criação, as criaturas e o universo, Georgino Rocha sublinha que «o ser humano vive uma interação cosmo-vital com as forças emergentes da natureza, vivenciando «uma sabedoria qualificada» com o hinduísmo, budismo, confucionismo, religião tradicional africana e outras, com as quais o Vaticano II prescreveu «um diálogo cultural», que fosse «fonte de mútuo enriquecimento».

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Papa Francisco felicita Pe. Georgino Rocha


O Papa Francisco, por meio de Mons. Paolo Borgia, seu assessor, enviou felicitações ao P. Georgino pela publicação de “Rostos de Misericórdia: Estilos de vida a irradiar”. A carta afirma que o livro foi recebido como prenda de aniversário, e refere a “carinhosa dedicatória” a par de tantas “outras provas de apreço, agradecimento e adesão aos desafios e apelos do Evangelho de Jesus Cristo que ele não se cansa lembrar…”.
Também o Cardeal Pietro Parolin, dá os parabéns ao P. Georgino pela obra publicada “onde se sente vibrar de modo particular o coração do Evangelho como o vê e tem vindo a propor, incansavelmente, à Igreja e ao mundo o nosso querido Papa Francisco”… E o Secretário de Estado do Vaticano conclui dizendo: “Reconhecido, pois, pelas delicadas expressões e atenções havidas para com a minha e serviço eclesial, subscrevo-me, com fraterna estima”.

*** ***
Pe. Georgino Rocha


No próximo sábado, dia 28, às 16 horas será apresentado o livro “Rostos de Misericórdia: Estilos de vida a irradiar” no salão da Junta da freguesia de Calvão. A sessão é organizada em parceria pelo Colégio de Nossa Senhora da Apresentação e pela Junta e faz parte do programa das festas comemorativas da criação da freguesia, em Julho de 1933.
Além da apresentação da obra, a cargo de Filipe Jorge, presidente da Junta, e de Luís Oliveira e do P. Querubim, do Colégio Diocesano, há a actuação do Coral de Santa Cecília de Calvão, a que se seguirá um porto de honra.


*** ***

Felicito o Pe. Georgino Rocha pelas distinções de que foi alvo, quer do Papa Francisco quer do Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado do Vaticano.

Sobre o livro "Rostos de Misericórdia: Estilos de vida a irradiar" escrevi aqui


sexta-feira, 20 de abril de 2018

Domingo do Bom Pastor

Georgino Rocha



ESCUTAR E SEGUIR JESUS, COM ALEGRIA CONFIANTE

Jesus ressuscitado quer reafirmar o que já havia dito aos apóstolos sobre a sua relação pessoal com eles e com as gerações seguintes, portanto connosco em Igreja. Recorre a vários tipos de comunicação que, João o narrador da parábola do Bom Pastor, designa por sinais e muitas outras coisas. (Jo 10, 11-18).
Guiados pelo discípulo amado, somos convidados a visitar as terras da Palestina, a percorrer campos e vales, a contemplar rebanhos e pastores; somos convidados a perceber esta linguagem rural, cheia de beleza e encanto. Se não lhe captamos o sentido profundo, reconhecemos que está desajustada à cultura do nosso tempo que privilegia a técnica à sabedoria, a funcionalidade ao afecto humano, o anonimato à identidade pessoal e comunitária. Achamos, porventura, ofensivo ser rebanho, viver “arrebanhado”, ser tosquiado e “barregar”, quando o incómodo é grande ou a necessidade pressiona. Mas deixando-se impregnar pelo seu espírito genuíno, facilmente entramos em sintonia com a mensagem fundamental: a do amor com que somos amados, a da relação que nos faz crescer como pessoas solidárias, a da confiança no futuro que nos bafeja em sementes de esperança, como os campos verdejantes, que o pastor procura para alimentar o seu gado.
Jesus insere-se numa rica tradição bíblica, que retrata Deus como o pastor do seu povo e os reis como agentes em seu nome, quando são fiéis. Sirva de referência o capítulo 34, 1-10 de Ezequiel. O profeta retoma o tema de Jeremias 23, 1-6 e faz uma descrição mordaz da situação do rebanho entregue a si mesmo, ou explorado pelos pastores que assumem atitudes de mercenários assalariados. E surge em realce o rosto dos dirigentes do povo, reis e chefes, responsáveis pela ruína da nação, descrédito da religião. Deus, porém, não dorme e vai intervir.

sábado, 14 de abril de 2018

RUMO AO CONGRESSO EUCARÍSTICO

Georgino Rocha 




ESPERANÇA, EUCARISTIA, MISSÃO

A esperança faz parte da vida humana. É o impulso confiante que dá ânimo à mulher grávida durante a gestação, à noiva que vive a proximidade do casamento, ao atleta que sonha com a vitória enquanto treina esforçadamente, ao estudante que deseja o curso profissional, à equipa médica na mesa de operações, ao lavrador que lança a semente, à pessoa idosa que tem pressa de viver porque o tempo se encurta. Outras referências podem ser feitas. O objectivo está em avivar a importância da esperança, enquanto seiva da vida e força de crescimento para a maturidade. Por experiência, pode afirmar-se: a esperança é o motor da vida, enquanto a caridade é o “óleo de lubrificação” e a fé a certeza de alcançar a meta avançando “como se víssemos o Invisível”.

Nota pedagógica: Seria muito valioso identificar pessoas da nossa terra, de preferência, que sejam rostos de esperança. Sem pretender a perfeição, mas com traços notáveis facilmente reconhecidos.

O Papa Francisco, nas suas catequeses sobre a esperança, no ano 2016-2017, afirma: “Esperar é uma necessidade primária do homem: esperar no futuro, acreditar na vida, o chamado «pensar positivo» ”. E recomenda ser “importante que esta esperança seja posta naquilo que pode deveras ajudar a viver e a dar sentido à nossa existência. É por isso que a Sagrada Escritura nos admoesta contra as falsas esperanças que o mundo nos apresenta, desmascarando a sua inutilidade e mostrando a sua insensatez”.
Os discípulos de Emaús acompanharam Jesus, alimentando sonhos de grandeza. Os relatos evangélicos fazem-se eco desse desejo. E é legítimo querer ser o primeiro, ocupar um lugar importante, fazer render talentos e capacidades. Jesus não o nega nem proíbe, mas redimensiona-o. Ser o primeiro para servir; ocupar um lugar importante para olhar com misericórdia os que não “têm voz nem vez”; fazer render talentos, não para acumular, mas para partilhar. E assim em todas as situações humanas. A esperança é o sentido nobre da acção pessoal e em grupo.

sábado, 7 de abril de 2018

RUMO AO CONGRESSO EUCARÍSTICO

Georgino Rocha




ESPERANÇA, EUCARISTIA, MISSÃO - 1

Introdução: A celebração da eucaristia faz viver o amor de Jesus Cristo, que alimenta a esperança, fruto da fé teologal. Os cristãos participantes são convidados a “levantar o coração” e a entrar em sintonia com o ritmo progressivo da assembleia, a imbuir-se do espírito comunitário e a cultivar o desejo de quem sabe doar-se livre e generosamente. Como Jesus em missão de salvação universal.
O Papa Francisco dá-nos a garantia de que: “Na fé, dom de Deus e virtude sobrenatural por Ele infundida, reconhecemos que um grande Amor nos foi oferecido, que uma Palavra estupenda nos foi dirigida: acolhendo esta Palavra que é Jesus Cristo — Palavra encarnada –, o Espírito Santo transforma-nos, ilumina o caminho do futuro e faz crescer em nós as asas da esperança para o percorrermos com alegria. Fé, esperança e caridade constituem, numa interligação admirável, o dinamismo da vida cristã rumo à plena comunhão com Deus”. (A Luz da Fé, 7)
A relação da esperança com a celebração da eucaristia que é “corpo entregue e sangue derramado” pela salvação do mundo pode ver-se, de forma emblemática, no itinerário dos discípulos de Emaús. (Lc 24, 13-35) e episódios subsequentes. Vamos com eles, parando nas fases mais marcantes e alargando horizontes de envolvimento pessoal e comunitário. Façamos em grupo, se possível, esta caminhada, rumo ao Congresso Eucarístico da nossa diocese.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

ALELUIA! JESUS, O SENHOR, CONVIVE CONNOSCO

Georgino Rocha

Georgino Rocha

É ao cair da tarde. Em Jerusalém, cidade onde há dias havia ocorrido a morte por crucifixão de Jesus de Nazaré. A noitinha está prestes a chegar. Começam a rarear os últimos clarões de luz. A hora do tempo marca o ritmo do coração e indicia o estado de ânimo dos discípulos: Esperança muito em baixo. Refugiados em casa, estão cheios de medo e com as portas trancadas. Sobretudo as do espírito encerrado ao futuro imediato. O desfecho dos seus sonhos, que duraram quase três anos, deixou-os em estado de choque. O Rabi, o Mestre em quem haviam depositado total confiança, teve morte trágica. Vítima de um processo iníquo, em que se empenharam as forças religiosas e políticas. A hora era de trevas e nem sequer os semáforos da esperança estavam ligados e a funcionar. Já só restava a saudade avolumada pela revisitação das suas atitudes na ceia de despedida, no jardim das Oliveiras e na agonia, na prisão e em outros passos dados a caminho do Calvário. Retinham, como memória emblemática, a liberdade de Jesus, a dignidade do seu comportamento, a determinação e firmeza dos seus gestos. Viviam a vibração das emoções sentidas e o sabor amargo da deslealdade e da debandada. Estavam abatidos e procuram segurança numa casa, onde se protegiam uns aos outros enquanto surgiam perguntas angustiadas: E agora, que vai ser de nós? Será conhecido o nosso esconderijo? Virão à nossa procura? Que nos farão? E muitas outras.
Jesus apresenta-se no meio deles. De modo simples. Sempre Ele a tomar a iniciativa, a surpreender. E saúda-os amigavelmente: “A paz esteja convosco”. João, o narrador do episódio (Jo 20, 19-31), não faz alusão a qualquer censura pelo passado recente. Apenas refere que lhes mostra as mãos e o lado, com as cicatrizes da paixão, sinais da sua identidade de crucificado. Não haja dúvidas. É Ele mesmo.
Uma nova aurora começa a despontar: O espírito desanuvia-se, a esperança renasce e o coração enche-se de alegria. Este movimento interior é estimulado por Jesus ressuscitado que prossegue: “A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós”. E para os guiar na missão e garantir a fidelidade na comunicação da mensagem, acrescenta: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos”. Que contraste de atitudes! Que confiança acrescida e credenciada! Que tesouro lhes deixa em pobres “mãos de barro”!

domingo, 1 de abril de 2018

A FOLGA DA PÁSCOA

Georgino Rocha



Em busca de horizontes rasgados

O clima social tem novos coloridos em tempo de páscoa. A psicologia humana vibra de modo diferente. As culturas e as religiões, especialmente no Ocidente, definem pautas de comportamento colectivo e estabelecem ritos de reconhecido alcance simbólico. As igrejas cristãs, sobretudo a católica, acolhem ritmos populares de grande riqueza expressiva e organizam cerimónias que, por vezes, são autênticas celebrações comunitárias de fé pascal. Tudo se conjuga para o ser humano redimensionar o melhor de si, recorrendo a vários tipos de exibição que, certamente, serão transparência do coração, da consciência profunda, do húmus que se vai vivificando no interior de cada um/a.
De facto, a folga da Páscoa proporciona uma bela oportunidade para se verificar que o ser humano “está em trânsito”, é peregrino de outras realidades, tem de morrer para se abrir a novas dimensões e dar-lhes vida, experiência a urgência do tempo fugaz e o desejo profundo de ter algo a que se agarrar para sentir segurança, anela por um futuro que saboreia a “conta-gotas”. E a páscoa da humanidade aponta claramente para a Páscoa nova e definitiva.
Embora correndo o risco de alguma ligeireza, o mosaico de manifestações da eterna peregrinação humana faz-nos ver a agitação febril e o turismo de toda a espécie, a procura de espaços de silêncio e de contemplação, as decorações de símbolos floridos e as representações artísticas evocativas de outras realidades, as músicas e as canções com frenesim da nova aurora, os gestos solidários de fraternidade, as acções generosas dos voluntários de causas humanas, o sorriso das crianças e a ousadia confiante dos jovens, a constância paciente dos adultos, a esperança alegre dos idosos. Tudo e todos, estamos a caminho de realidades diferentes que nos desinstalam das nossas zonas de conforto e nos lançam em novas aventuras. E surge o apelo que somos chamados a escutar e a atender: Assumir com consciência lúcida e dar a resposta correspondente à fase em que cada um/a se encontra, gérmen de outras que integram o nosso percurso existencial.

sexta-feira, 30 de março de 2018

A IMPRESSIONANTE MORTE DE JESUS

Reflexão de Georgino Rocha



João, o apóstolo predilecto, é testemunha da morte de Jesus, juntamente com algumas mulheres, de que se destaca Maria, a Mãe. E descreve os momentos principais dos instantes derradeiros que, com alguns elementos dos outros evangelistas, nos oferecem um quadro exemplar da “arte de bem morrer”, da boa morte. A situação não podia ser mais dramática: insultos dos ladrões crucificados, mofa dos soldados romanos, no ofício de algozes e vigias, João e a Mãe de Jesus com o pequeno grupo de mulheres indefectíveis. A ver o acontecimento está o centurião. A dar sinais do sucedido fica o templo e o universo. E, nós à distância que o coração aproxima, contemplamos com devoção o evoluir da vida do Nazareno prestes a findar-se. Ele, o agonizante, é o protagonista. Entregando o espírito entre gritos e lágrimas. Com dignidade. Em liberdade. Com confiança filial.
Jesus toma a iniciativa. De silêncio e respeito, para com o ladrão revoltado e injurioso; de aceitação benevolente do pedido do ladrão arrependido; de entrega da Mãe a João e desta àquela; de reclinar a cabeça, antes de confiar ao Pai o seu espírito. Que maravilha, humanamente falando! Tudo prevê em harmonia. Tudo deixa a indicar que a missão fora cumprida com perfeição. Tudo com enorme dignidade.
E parecia ser tão natural e humano agir de modo diferente. Ao ladrão revoltado dizer-lhe: recebes o que mereces; ao arrependido, ainda bem que reconheces; à Mãe e a João, não se esqueçam de mim e guardem a minha memória; aos soldados vigilantes, satisfazer-lhes o desejo vencendo o desafio. Mas a atitude de Jesus manifesta a novidade do ser humano tão diferente que “transpira” de divino. Não desce da cruz, dando provas de um amor inexcedível e da justeza da opção tomada livremente; não se preocupa pela sua memória efémera (havia previsto outra presença na ceia e no mandamento novo); não retribui os ladrões com repreensões e censuras; não condiciona a natureza e demais elementos da criação, mantendo-os fora do que lhe estava a acontecer. De facto, Deus humanado em Jesus é totalmente diferente. O episódio do Calvário manifesta-o claramente. E fica como símbolo emblemático para todo o sempre. Olhar para ele é ver o visível e admirar o Invisível. Vêem-se dores, descobrem-se amores. Vêem-se trevas, descobrem auroras da Páscoa. Vêem-se lágrimas de desolação, descobrem-se sinais de júbilo e consolação. Só a fé no Crucificado/Ressuscitado abre o acesso a esta realidade nova.

ENCONTRO FELIZ COM O SENHOR RESSUSCITADO

Reflexão de Georgino Rocha


Maria virou-se e viu Jesus


É manhãzinha. Maria Madalena está sentada à beira do túmulo de José de Arimateia. Tinha ido, com outras mulheres, ultimar o ritual de despedida que se fazia a pessoas de bem. A surpresa apanha-a em cheio. O coração havia ficado preso a sexta-feira “de trevas”, sobretudo ao enterro de Jesus, de que fora testemunha. Agora, a pedra de entrada tinha sido removida, o sudário arrumado e dobrado o lençol. Dir-se-ia que tudo estava disposto com o cuidado de quem termina a missão recebida. Surgia o vazio com toda a sua eloquência, a ausência com todo o seu enigma a suscitar dúvidas, a levantar interrogações. As lágrimas da saudade intensificam-se com hipóteses de desrespeito, de profanação, de rouba. Olhava para o chão e estava cheia de medo, diz o texto de Lucas, pois “dois homens, com roupas brilhantes, pararam perto delas e disseram: Porque procurais entre os mortos Aquele que está vivo? Ressuscitou”. (Lc 24, 1-12; Jo 20, 1-9).
“A manhã desse primeiro da semana, explica a Bíblia Pastoral em nota de rodapé, marca a transformação radical na compreensão e respeito do homem e da vida. O projecto vivido por Jesus não é caminho para a morte, mas caminho aprovado por Deus que, através da morte, conduz à vida. Doravante, o encontro com Jesus realiza-se no momento em que os homens se dispõem a anunciar o coração da fé cristã”.

sexta-feira, 23 de março de 2018

JESUS APRESENTA-SE MONTADO NUM JUMENTO

Georgino Rocha


De Jerusalém para o mundo


Jesus sabe que a sua vida corre perigo e pressente que os últimos dias estão a chegar. A paixão por dar a conhecer a novidade do Reino de Deus, de que é portador/realizador, leva-o a ser criativo, a inventar maneiras, ainda que apoiando-se em citações e reminiscências dos profetas. A paixão por despertar a consciência ensonada dos responsáveis políticos e religiosos impele-o a empreender novas ousadias, a enfrentar armadilhas fatais. A paixão por desvendar ao povo humilde a verdade do que está a acontecer leva-o a apresentar-se montado num jumento na cidade de Jerusalém. Esta realidade constitui o pórtico da Semana Santa que, hoje, se entreabre com a bênção e procissão dos Ramos e a proclamação da narração da Paixão segundo Marcos (Mc 14, 1-15, 47).
Jesus está nas imediações do monte das Oliveiras, na aldeia de Betfagé, vindo de Betânia, terra do amigo Lázaro e sua família. Sonha com uma nova oportunidade e quer criar um facto histórico de grande alcance simbólico. Chama dois discípulos e diz-lhes: “Ide à povoação que está em frente e, logo à entrada, vereis um jumentinho preso…Soltai-o e trazei-o” (Mc 11, 1-11). Eles assim fizeram.
E o sonho converte-se em realidade. Entregam o animal a Jesus, preparam a montada, estendendo pelo dorso capas de protecção. Jesus sobe e começa a procissão rumo a Jerusalém, cidade do Templo que está ao alcance da vista. Os acompanhantes e outros peregrinos vão-se incorporando e o barulho aumenta. Capas estendidas, ramos de verdura agitados, gritos de hossana e outras aclamações são sinais da sua alegria e do seu entusiasmo. Cena, agora, evocada nas famílias e comunidades cristãs, a testemunhar a robustez da convicção religiosa e da fé católica numa sociedade que se afirma laicizada e, em que grupos aguerridos, teimam em impor a sua ideologia intolerante.

quarta-feira, 21 de março de 2018

"O ENGANO DAS ILUSÕES" DE PAOLO SCQUIZZATO

 Georgino Rocha 


Acabei de ler, com muito proveito e grande satisfação, o livro “O engano das ilusões” de Paolo Scquizzato, editado por Paulinas, no início de 2018. A leitura desperta, desde o início, uma verdadeira paixão: pelo estilo e pelo tema que situa a pessoa humana numa área abrangente de espiritualidade e psicologia.
O autor, possuidor de uma notável experiência de vida, coordena uma equipa de colaboradores que nesta obra fazem um percurso singular. Partem do princípio salutar que, para chegar a Deus, temos de nos conhecermos a nós mesmos, as nossas próprias sombras. Reconhecem que esta aventura exige uma autenticidade honesta, capaz de assumir as máscaras que cobrem o nosso rosto. Confessam que “onde estiver o meu maior problema, aí também está a maior oportunidade de salvação” (A. Grun).
O livro abre com um belo texto intitulado “Em busca de nós mesmos como arte de viver” e pretende responder, como afirma na Introdução, “ao desejo de oferecer um panorama o mais vasto possível, de modo a permitir a cada um fazer algumas reflexões, tendo à sua disposição leituras que partem da dimensão humana para a dimensão espiritual”.
A leitura da obra leva-nos a mergulhar no modo de ser humano, a identificar desvios (vícios que no texto surgem na designação tradicional de pecados capitais) e a procurar compreender o seu conteúdo e a sua repercussão na vida, a re-situar o desejo de felicidade, mediante um caminho de adequada terapia.

sexta-feira, 16 de março de 2018

CHEGA A HORA: JESUS MORRE PARA NOS DAR A VIDA NOVA

Reflexão de Georgino Rocha

Georgino Rocha

Como o grão de trigo


O coração humano alberga e alimenta desejos genuínos, especialmente a alegria da festa e o encontro com Jesus, ainda que vagamente figurado. Desejos que afloram mais visivelmente em certas oportunidades como a celebração da Páscoa e a proximidade de pessoas disponíveis e acolhedoras. Desejos que abrem “janelas” por onde pode entrar uma nova luz de esperança e de sentido. Desejos que aspiram a um outro nível de realização, mediante a passagem vital, tão bem expressa, da semente que germina no seio da terra, cresce e dá fruto. Esta é a realidade que se configura na atitude dos gregos que sobem a Jerusalém para a festa e querem ver Jesus, recorrendo a Filipe e André como mediadores. (Jo 12, 20-33).

O Papa Francisco que, nesta semana completou cinco anos como bispo de Roma e pastor da Igreja universal, fez aos cristãos as seguintes perguntas: “Como é o meu desejo? (…) Busco o Senhor? Ou tenho medo, sou medíocre? (…) Qual é a medida do meu desejo? A migalha ou todo o banquete?” Imagens fortes que ficam a interpelar-nos e nos convidam a não sermos cristãos estacionados, acomodados demasiado, a arriscar, a avançar. 

O pedido dos peregrinos gregos chega a Jesus que dá uma resposta “estranha”. E não assume qualquer outra atitude directa. Faz um anúncio do futuro que se aproxima. Recorre à metáfora do grão de trigo que, para ser fecundo não pode continuar no celeiro, mas tem de ser lançado à terra e germinar. Assim, acontece com Ele. “Chegou a hora, diz-lhes, em que o Filho do homem vai ser glorificado”. E há-de acontecer com os discípulos, seus servos; connosco, seus amigos. De contrário, ocorre a esterilidade de uma vida vocacionada a ser fecunda, o definhamento de energias ressequidas. E triunfa o egoísmo, a acomodação, a mesquinhez e a estreiteza de horizontes, a indiferença insolidária com o presente e o futuro.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Diáconos permanentes gratos ao Pe. Georgino Rocha

P.e Georgino com D. António num encontro de diáconos permanentes
P.e Georgino Rocha

Coube-me a honra de dirigir  algumas palavras de gratidão ao P.e Georgino Rocha, que nos acompanhou, durante quase 30 anos, como delegado do nosso bispo para o diaconado permanente. Faço-o numa perspetiva da fé que nos anima e da amizade que nos une, na certeza de que muito dele recebemos ao longo deste tempo, tanto ao nível eclesial como humano. Não apenas nós, aqui presentes, mas também os que não puderem estar connosco e, ainda, os que já partiram para o regaço maternal de Deus, que hoje queremos evocar, considerando-os vivos em nós e connosco. 

O P.e Georgino pautou a sua ação, na nossa ótica, por uma amizade franca e espírito aberto, tendo como matriz a Boa Nova de Jesus e a leitura dos sinais dos tempos, fundamentais nos nossos quotidianos, assentes no serviço aos homens e mulheres das gerações atuais, crentes ou não crentes. Realmente, todos os povos necessitam de testemunhos concretos, que exprimam o rosto misericordioso que Cristo legou à Igreja. 
Na hora do acolhimento, onde quer que estivéssemos, o P.e Georgino foi o amigo solidário, o responsável compreensivo, o mestre de cultura multifacetada, o presbítero disponível e o conselheiro com a arte de saber escutar, sem nunca descurar o fim pedagógico da sua postura na vida. Nas conversas, formais ou informais, que mantinha connosco, a ponderação e a objetividade sobressaíam nas suas intervenções, como pistas abertas a novos desafios. 
Vezes sem conta o vi silencioso durante as nossas reuniões, deixando-nos falar abertamente. Cada um dizia o que entendia ser o melhor, mas sem consenso à vista. Tomando a palavra, o P.e Georgino, serenamente, com uma capacidade de síntese notável, ditava as palavras certas, os conceitos fundamentais e os conselhos oportunos. Eram, no fundo, lições para o dia a dia de cada um de nós e para a nossa sociedade, em constantes e rápidas mutações, tão frequentemente ao arrepio dos nossos princípios e valores cristãos. 
Do ritual da ordenação diaconal, permitam-me que recorde, hoje e aqui, o que então nos marcou, reforçando a nossa vocação, direcionada para uma disponibilidade de serviço em nome da Igreja no mundo secularizado, onde presbíteros e bispos nem sempre podem agir. E destaco uma expressão muito simples e muito clara, que, julgo, jamais olvidaremos:

sexta-feira, 9 de março de 2018

NICODEMOS VAI AO ENCONTRO DE JESUS. E NÓS?

Reflexão de Georgino Rocha

Georgino Rocha

"Nicodemos, figura histórica, é símbolo do homem de todos os tempos, sobretudo do nosso, de quem se aventura na noite do mercado de opiniões e dúvidas e quer encontrar resposta para o sentido da vida, seus valores e sua escala de prioridades, dos/as que não abdicam do direito de fazer perguntas sobre o rumo dos acontecimentos e o cuidado da criação."


Nicodemos surge como interlocutor de Jesus. Certamente fica incomodado com o episódio do Templo. Por ser testemunha ou por ditos que lhe chegam. Incómodo que acentua a perplexidade em que vivia e o leva a ir de noite à sua procura. Incómodo que transparece na conversa que João narra e, hoje, a liturgia nos apresenta como parte do diálogo sobre o “nascer de novo” proposto por Jesus. “Como é possível nascer de novo?”, pergunta, sem rodeios, tendo no horizonte da sua dúvida o parto natural e a idade da vida. (Jo 3, 14-21). Apesar de ser mestre em Israel, de usufruir de um estatuto social elevado e de viver como crente piedoso, Nicodemos não vislumbra a nova dimensão que Jesus insinua. Mas cultivará uma relação de proximidade e de intervenção, de simpatia e de risco, como os relatos evangélicos referem repetidas vezes.

quarta-feira, 7 de março de 2018

DIVORCIADOS RECASADOS E A ALEGRIA DO AMOR

Georgino Rocha




ITINERÁRIO DE ACOMPANHAMENTO -1


Introdução – Este itinerário surge como uma proposta de acção pastoral na urgente missão de acolher, acompanhar, discernir e integrar quem está em segunda união matrimonial ou seja os católicos divorciados e recasados civilmente. Demarcam-se alguns passos que ficam como referência comum de um processo em que cada pessoa envolvida é chamada a fazer o seu percurso singular.
Supõe uma atitude prévia, a de assumir este serviço como missão e este percurso como itinerário de re-iniciação cristã ou de inspiração catecumenal, agora de revisitação do matrimónio realizado. Acertar a possibilidade de um trabalho em conjunto com casais que tenham experiência, sensibilidade e formação cristã. Pode ser útil “A Alegria do Amor (AL), cap. VI, sobretudo nº 217 e seguintes.

1. Identificar quem está na situação de católico divorciado recasado civilmente e manifesta alguma predisposição para conversar sobre o que levou a essa opção.
Os meios a usar podem ser conhecimento pessoal, pedidos de serviços à paróquia, informações de colaboradores paroquiais. (AL 230).

2. Fazer o convite pessoal, indicando a disponibilidade do pároco/padre para acolher e ter um primeiro encontro. Prestar as informações correspondentes às perguntas que surjam.

sexta-feira, 2 de março de 2018

O CORPO DE JESUS É O NOVO TEMPLO DE DEUS. ACREDITA!

Georgino Rocha

Georgino Rocha


Jesus não pára de surpreender. Tal é a vontade de dar a conhecer a novidade de que é portador e, neste domingo, se condensa na singular relação com Deus que se realizará no seu corpo. Como bom judeu, vive a religião do seu povo, observa preceitos e tradições, vai ao culto na sinagoga, faz visitas ao templo de Jerusalém. Por meio destas atitudes, expressa a sua especial comunhão com Deus e solidariza-se com os fiéis devotos, examina o valor dos ritos e dá conta da incoerência de certos comportamentos humanos. Ouve os mestres a darem explicações da Palavra, a Torá e os Profetas, ousa fazer perguntas e vai construindo uma visão complementar, alternativa (Lc 2, 46-50).

“Aproximava-se a festa da Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém”, informa João o autor do relato que estamos a meditar; relato que surge após o episódio das bodas de Caná e antes da conversa com Nicodemos; relato que desvenda, ainda que suavemente, a novidade pascal que revestirá o seu corpo glorificado, o novo e definitivo templo de Deus. Os outros evangelistas colocam a cena da expulsão dos comerciantes e cambistas e da purificação do templo mais à-frente e realçam a sua relação com a prisão e o processo que se segue.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

ESCUTAR JESUS, O FILHO AMADO DE DEUS

Reflexão de Georgino Rocha


Georgino Rocha

O grupo de Jesus vive uma crise profunda, depois do encontro de Cesareia de Filipe. Nem era para menos. Estava em jogo, após a avaliação da primeira fase da vida pública, o sonho de grandeza dos discípulos e o contraste que representa a resposta dada a Pedro, resposta contundente. “Fica longe de mim, satanás! Não pensas nas coisas de Deus, mas nas coisas dos homens”. E Pedro havia acertado em cheio: “Tu és o Messias”, exclama num misto de ousadia e assombro. Tinha razões para ficar satisfeito. A pergunta do Mestre: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” era bem respondida. Mas ouve o que não esperava: O anúncio surpreendente que deixa desconcertados os discípulos acompanhantes. A realização da missão vai passar por sofrer muito, ser rejeitado, morto em Jerusalém e ressuscitar. Pedro, porta-voz do grupo, é apanhado “em contra-mão” e reage de imediato. Chama Jesus à-parte e repreende-O. E este, atira-lhe a doer.

A crise estava instalada. O desencontro de perspectivas era notório, apesar de conviverem há tempos. Não estava em causa ser Messias, o Salvador, mas o modo de realizar a missão. Modo que ainda hoje se mantém. Em cada um de nós, na família, na Igreja, na sociedade. Como realizar a missão que Deus nos confia? Com que critérios?

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

JESUS, TENTADO, ANUNCIA O EVANGELHO DE DEUS

 Reflexão de Georgino Rocha 

Georgino Rocha

Jesus recebe no baptismo do Jordão a declaração da sua identidade. João realiza o rito. Jesus sai da água e acontece uma série de sinais reveladores: Vê os céus abertos e o Espírito descer sobre Ele na forma de pomba; escuta uma voz vinda do céu que diz: “Tu és o Meu Filho amado; em Ti encontro o Meu agrado”. (Mc 1, 12-15).
Credenciado como Filho, o encanto do Pai, é impelido para o deserto pelo Espírito Santo. Esta afirmação do autor do relato, simples e densa, realça que Jesus, no seu agir histórico, está envolvido na comunhão de Deus, das pessoas divinas. E esta é a primeira boa notícia do Evangelho. Jesus não se move por outros interesses ou intenções: de benefício pessoal ou familiar, de projecção pública ou religiosa. É o Espírito Santo que o anima e ilumina nas suas opções. E leva ao deserto.
O deserto geográfico é uma região da Judeia que tem como referências principais Jerusalém e Belém, terras com estilo de vida organizada, citadino, e memória histórica de feitos inesquecíveis. Ao atravessá-lo, o povo de Deus faz experiências marcantes, onde ocorrem as tentações, aquando da fuga do Egipto, do acampamento junto ao Sinai, da travessia de outros locais até chegar ao destino. Durante a sua atribulada viagem, recebe as bênçãos de Deus, as Tábuas da Lei com os mandamentos, e faz a experiência salutar de confiar nas promessas, de aprender com as crises, de se deixar encontrar por Deus em festiva aliança de amor.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

EUCARISTIA, O AMOR FAZ-SE SERVIÇO

Reflexão de Georgino Rocha


A Eucaristia é a celebração da ceia do Senhor, ceia que Jesus realiza com os discípulos a quem deixa este mandato: “Fazei isto em memória de mim”. É a ceia do lava-pés, da entrega livre por amor que vem a ser consumado no sacrifício da cruz. É a ceia do avental de serviço mantido como distintivo do Mestre que quer ver perpetuado em gestos de humanização progressiva e qualificada: “Felizes sereis se o puserdes em prática”.
A Igreja assume esta missão e vê na eucaristia o centro e o vértice da sua acção pastoral. Como centro, supõe um percurso que une os lados, as “periferias”, e encaminha para esse núcleo. Em linguagem consagrada é a iniciação cristã. O centro ergue-se até ao cimo, em figura de pirâmide ou poliedro. São as subidas à perfeição da vida ética e moral pela construção do “homem interior” e as descidas para o quotidiano do viver cristão marcado pelas bem-aventuranças e pelos sacramentos de serviço.
Esta síntese pode ajudar a configurar a pastoral em torno à eucaristia, e que o programa diocesano se propõe assumir este ano. Sem as virtudes teologais e morais, quer dizer, sem fé-esperança-caridade; sem prudência-justiça-fortaleza-temperança, o humano cristão não tem alicerces seguros nem o exercício da cidadania tem qualquer marca diferenciadora da novidade que brilha nas bem-aventuranças. Sem os dons do Espírito Santo desabrocharem em frutos visíveis de comportamentos éticos adequados, a maturidade espiritual fica longe, muito longe.