segunda-feira, 30 de setembro de 2019

REFLEXOS & REFLEXÕES de Aida Viegas


Com os meus parabéns à autora, uma escritora multifacetada. 

Bento Domingues - Estudar antes de pregar


"Os tagarelas falam antes de pensar, 
umas vezes arrependem-se disso, outras não"

1. Em Serralves, no passado dia 19, fui convidado a participar numa conferência com Lídia Jorge, sobre O pensamento como pré-escrita. A moderadora, Luísa Meireles, lembrou que o assunto envolve múltiplas vertentes – literárias, filosóficas, religiosas, semânticas, etc. – com a liberdade de tudo o que cada um quisesse abordar. A conferência foi aberta por Paulo Mendes Pinto e pela música de Pedro Abrunhosa. Não me pertence, a mim, fazer qualquer juízo sobre o que ali aconteceu.
Escrever, escrevo, mas não sou escritor nem ficaria infeliz se nada tivesse escrito. Tive de escrever, no âmbito da teologia, muitos textos que me pediram para várias revistas ou de colaboração em obras colectivas, assim como introduções e prefácios sem conta. Fui solicitado por muitas instituições culturais do país, para conferências e debates sobre A Religião dos Portugueses, publicada em 1988, corrigida e aumentada na reedição de 2018, organizada por António Marujo e Maria Julieta Mendes Dias. Desde os inícios do PÚBLICO, fui convidado para escrever, ao Domingo, uma crónica que se tem mantido até hoje. Deu origem a vários livros, editados pela Figueirinhas e, depois, pela Temas e Debates.
Como disse, não sou escritor nem pertenço à Ordem dos Escritores, mas à Ordem dos Pregadores. É esse o sentido de acrescentar, à assinatura de tudo o que escrevo, O.P., o que ainda intriga alguns leitores.
Até ao século XIII, a Ordem dos Pregadores era identificada com a Ordem dos Bispos. Houve, por isso, resistências a dar este nome a uma Ordem Religiosa. A própria Bula pontifícia, que recomendava a Fundação de S. Domingos (1170-1221), foi corrigida de “Ordem dos que pregam” para Ordem dos Pregadores, aqueles que são “totalmente dedicados ao anúncio da palavra de Deus”.
Este acontecimento revelou-se extremamente fecundo. Fez com que muitos párocos e várias Congregações religiosas se convertessem a esta missão que é responsabilidade de toda a Igreja.
Porque será que a chamada Ordem dos Pregadores produziu, muito cedo, grandes teólogos escritores – basta pensar em Alberto Magno e Tomás de Aquino – e a escrita de místicos famosos, como Mestre Eckhart e Catarina de Sena?

domingo, 29 de setembro de 2019

Schoenstatt na Mata da Gafanha


Conforme disse, há tempos, ontem foi dia de passar pela Mata da Gafanha, que tem inúmeros motivos para nos sentirmos livres do stresse dos nossos quotidianos. À volta do Santuário reina um silêncio acolhedor e pouca gente por ali andava. No Santuário recolhemo-nos um pouco e nesse curto espaço de tempo passaram diversas pessoas. Sempre em silêncio. Um casal jovem e outros jovens aparentemente solitários. Uns senhores que não conheci e umas senhoras que conhecia de vista. Mas do Santuário direi algo daqui a uns dias. 
Cá fora uma paz impressionante. E a Lita achou graça a um banco isolado como mostra o retrato. Sentou-se e quis ser fotografada. E perguntou o porquê daquele banco ali esquecido. Deduzi que se trata de um banco para quem passa poder descansar, respirar e acolher os odores da floresta e jardins circundantes. E a Lita até descobriu que o chão de pedra tinha a forma de uma coroa. Seria a coroa de Nossa Senhora ali aplicada pela JFS (Juventude Feminina de Schoenstatt). Passem por lá para confirmar. 
Bom domingo.

F. M.

Anselmo Borges - Sobre pessoas e animais quem decide?



1. Eu sei que o tema é hoje muito sensível e complexo. Já aqui escrevi várias vezes sobre ele, mas volto a ele, sobretudo porque penso que é fundamental ter conceitos claros, contra a confusão que quer impor-se neste e noutros domínios. Dentro da confusão, é fácil perder-se quanto ao essencial. 
Dou exemplos de confusionismo. Contou-me uma pessoa amiga que, durante uma volta a pé, ouviu uma senhora aflita a chamar: “Anda à mãe, anda à mãe.” Até se afligiu, pensando que uma criança se tinha perdido. Afinal, era um cãozinho. Outra pessoa contou-me que viu na televisão uma senhora grávida num supermercado com o cãozito num carrinho e, à pergunta para quando o nascimento do bebé, disse a data prevista na qual o cão iria ter um irmão. Segundo o Expresso, André Silva declarou: “Há mais características humanas num chimpanzé ou num cão do que numa pessoa em coma”. E já se pede um SNS para cães e gatos. E há jardins públicos infrequentáveis por crianças, tanta é a porcaria largada por cães, com os donos regalados a observar o alívio dos bichos. E tem havido ataques graves de cães e perturbações sem conta por outros animais que destroem colheitas inteiras, mas nada acontece... 
A afirmação acima está na continuidade da de Peter Singer, professor da Universidade de Princeton, que escreveu em Ética Prática: “Devemos rejeitar a doutrina que coloca a vida dos membros da nossa espécie acima da vida dos membros de outras espécies. Alguns membros de outras espécies são pessoas; alguns membros da nossa não o são. De modo que matar um chimpanzé, por exemplo, é pior do que matar um ser humano que, devido a uma deficiência mental congénita, não é capaz nem pode vir a ser pessoa.” Quem faz estas afirmações fá-lo baseado em que a desigualdade de tratamento que damos às pessoas humanas e aos outros animais deriva do chamado especismo, que consiste na preferência que damos aos seres humanos sem qualquer outra razão que não a pertença a uma espécie, no caso, a espécie humana. 

Romagem à Senhora de Vagos


sexta-feira, 27 de setembro de 2019

“A Porcelana Vista Alegre na Diocese de Aveiro: Arte e Devoção”.


O Museu Vista Alegre inaugura a 4 de Outubro, pelas 21h00, a sua nova exposição temporária: “A Porcelana Vista Alegre na Diocese de Aveiro: Arte e Devoção”. 
Esta exposição, organizada pela Vista Alegre e a Comissão Diocesana para os Bens Culturais da Igreja da Diocese de Aveiro, pode ser visitada todos os dias, incluindo fins-de-semana, até 31 de Dezembro, das 10h às 19h. A entrada é livre. 
A exposição “A Porcelana Vista Alegre na Diocese de Aveiro: Arte e Devoção” revela ao público a ligação entre a arte da porcelana e a devoção, reunindo peças de Paróquias da Diocese de Aveiro, de coleccionadores privados e do espólio do Museu Vista Alegre. A porcelana Vista Alegre apresenta-se, nesta exposição, como um reflexo das relações entre as práticas devocionais e as representações artísticas e património vivo e vivido, em partilha permanente com as
comunidades. 
Sobre esta exposição, D. António Manuel Moiteira Ramos, Bispo de Aveiro, afirma: “A Vista Alegre mostrou-se, desde cedo, audaz no campo da arte da porcelana, sobretudo por ter investido em ultrapassar as várias dificuldades deste caminho. Procurou conhecer para iniciar. Procurou aperfeiçoar para melhor servir. Somos todos testemunhas disto mesmo, e a Comunidade Cristã não é excepção. As peças de porcelana fabricadas pela Vista Alegre para o serviço do culto e devoção dos cristãos são marcadas por uma beleza ímpar, sempre destacando a sua delicadeza que nos atrai e nos eleva à Fonte da Beleza, Deus.”

Fonte: Página da Diocese de Aveiro

Dia Mundial do Turismo — "Turismo e emprego: um futuro melhor para todos".

Santuário de Schoenstatt - Gafanha da Nazaré

Restauro das termas - S. Pedro do Sul 
O Dia Mundial do Turismo celebra-se anualmente a 27 de setembro, fundamentalmente para lembrar  a  importância das viagens e o seu valor cultural, económico, político e social, através de iniciativas que possam ser realizadas em vários países do mundo. Confesso que não sei se hoje, em Portugal, por exemplo, haverá qualquer ação nesse sentido. Pelo sim pelo não aqui me pronuncio porque acho que muitos de nós, com mais ou menos posses, ainda podemos fazer turismo, nem que seja à volta de casa, sem riscos de gastar mundos e fundos, para além de algumas reservas (se as houver, naturalmente) guardadas expressamente para conhecer outras terras e gentes. 
Eu gosto imenso de viajar, mas a saúde nem sempre me dá autorização para isso. Fico por perto que é mais seguro. E não corro riscos de dar trabalhos aos meus familiares. 
Há muitos anos acalentei sonhos de viajar até Roma não apenas para ver o Papa, de contemplar a Terra Santa, seguindo os passos de Jesus Cristo, de visitar o Brasil e outros recantos da América Latina e tantas outras paragens que viajantes por profissão ou por prazer relatam na comunicação social e que eu sofregamente leio.
Ficando por aqui, de vez em quando dou um saltinho com a Lita, mantendo no horizonte o rasto luminoso e cadenciado do Farol ou o cheiro a maresia. E nem Portugal conheço como gostaria de conhecer. E como nota final, aqui fica exarado que já não vou a Lisboa há nove anos. Fui lá expressamente para participar num encontro com o Papa Bento XVI. 
Hoje, para desanuviar, vou passar pela Mata da Gafanha. O ar é puro e o silêncio é de ouro. 

Fernando Martins 

Georgino Rocha - Deixa-te convencer

DOMINGO XXVI


“Deixa-te convencer” é exortação velada e insinuante, que encerra a parábola do rico Epulão e do pobre Lázaro. “Se não dão ouvidos a Moisés nem aos Profetas, também não se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dos mortos”. Lc 16, 19-31. Esta resposta está posta na boca de Abraão como ponto final a um diálogo persuasivo sobre o valor das coisas, vistas da “outra margem do rio”, sobre a importância de saber aproveitar as oportunidades que o tempo nos proporciona, sobre a articulação consequente que existe entre a fase presente da vida e o futuro definitivo, a inevitabilidade da morte, a gravidade das omissões.

Deixa-te convencer, pois a vida é só uma, no tempo e na eternidade, embora com ritmos diferentes, tem uma dignidade própria que se manifesta, progressivamente, nas opções que fazemos e nas atitudes que assumimos, nas relações que criamos e alimentamos e nas associações que organizamos, na sociedade que constituímos, infelizmente, cada vez mais desigual.

Deixa-te convencer, pois os bens são pertença de todos e a todos se destinam, de forma equitativa e solidária, estando nas nossas mãos para serem bem geridos, segundo o propósito do Criador que se revela, de modo original, em Jesus de Nazaré, o Filho único de Deus, e as leis justas estabelecidas pela autoridade humana. O Papa Francisco não se cansa de exortar a que se promova uma economia para todos e cuide da criação.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Eleições à porta - 6 de Outubro


Por alturas das eleições, costumo sublinhar a importância das escolhas do povo, habituado à ideia e à certeza, de que “o povo é quem mais ordena”. Realmente, numa democracia, os eleitores têm a obrigação de participar nas assembleias de voto, onde se encontram as urnas para nelas enfiarem o papelinho dobrado em quatro, onde fica exarada a opção de cada um. Da esquerda à direita, passando pelo centro, há espaço para todos. E como muitos já se consideram esclarecidos, os velhos partidos vão açambarcando os votos, sendo muito poucos os que ousam aventurar-se por outras ideias, algumas tão irrisórias que nem vale a pena perder tempo com elas. 
A campanha, com diversas cores, anda no ar e os debates televisivos ou radiofónicos já cansam. Para mim, claro. E já cansam porque nada de novo surge de modo a convencer seja quem for, penso eu.  A maioria dos portugueses, pelo que ouço e vejo, tomam alguns debates como um espetáculo para rir ou para adormecer. 
Promessas e mais promessas, quando toda a gente sabe que, uns dias depois da tomada de posse do Governo, tudo continua adiado para as calendas gregas. 
Eu vou votar… no dia 6 de Outubro. Já sei em quem… Mas haverá outras hipóteses. Na hora própria decidirei. Voto porque quero ter a legitimidade de protestar, de criticar ou de aplaudir, conforme o caso. Quem não votar fica à margem de democracia. 

Fernando Martins

Dia Internacional do Farmacêutico - Simples homenagem de um utente


Celebra-se hoje o Dia Internacional do Farmacêutico, razão mais do que suficiente para lembrar e homenagear quantos nos atendem quando vamos às farmácias à procura dos medicamentos que nos foram receitados pelos médicos que consultamos. Na farmácia que mais frequento, a Farmácia Morais, que conheço desde que me conheço, já que foi fundada em 1940, há um poema que gosto de ler e reler. Aqui o partilho com os meus amigos.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Ares do Outono - A beleza das árvores, arbustos e flores

Dia a dia vou espreitar se há novo rebento 
Com a chuva que aí está, mais o vento, ora brando ora bravo, teremos de nos habituar a uma vida mais triste? Penso que não. 
Há flores que murcham e caem, mas outras, mais dadas ao frio, hão de resistir. Que a vida, como é habitual, precisa da alegria e da beleza que arbustos, árvores e flores nos dão. 
Mas se elas se forem com o vento, que ao menos saibamos alimentar o prazer da espera pelo seu regresso. E até lá, aprendamos a cultivar outras flores, daquelas que nos enchem a alma com as suas cores e aromas: a amizade, a partilha da nossa alegria, o bem que podemos fazer a quem nos cerca, a aposta na construção de um mundo mais solidário.
Bom Outono para todos.

Fernando Martins

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Pe. César Fernandes celebra 40 anos da sua ordenação presbiteral

O Padre César Fernandes foi ordenado presbítero há 40 anos, mais precisamente em 23 de Setembro de 1979. Depois da ordenação, ingressou nas tropas paraquedistas como capelão, tendo participado na guerra, não para lutar como qualquer militar, mas sobretudo para apoiar quantos tinham de pegar em armas. Moveu-o, como seria compreensível, a luta pela paz e pelo entendimento entre os homens de boa vontade, deslocados para combater por decisões políticas. 
Depois de exercer as tarefas de membro da equipa sacerdotal responsável pela nossa paróquia, passou naturalmente a ocupar a missão de pároco da Gafanha da Nazaré, imprimindo à sua ação um dinamismo adequado ao nosso povo com as suas diversas instituições, sendo notória a sua dedicação e sensibilidade. 
Neste dia de aniversário da sua ordenação presbiteral, cumpre-me felicitá-lo, comprometendo-me a colaborar dentro das minhas modestas possibilidades no dia a dia da nossa paróquia.

Um livro de Humberto Rocha – “A Bruxinha Aprendiz”



O meu amigo e familiar Humberto Rocha teve a gentileza de me oferecer um livro para crianças, denominado “a Bruxinha Aprendiz”. Trata-se de uma peça de teatro escrita para as suas netas e por elas representada em 6 de Julho de 2005. As artistas são a  Clara Vidalinc (Princesa), a Sara Rocha (Bruxa), a Inês Vidalinc (Bruxinha), a Matilde Vidalinc (Bailarina) e a Carolina Rocha (Bailarina). Na altura, tinham, respetivamente, oito, sete, quatro, seis e cinco anos. E pelo que sei, saíram-se muito bem, ou não fosse o avô um mestre na arte Talma, entre outras artes. 
A edição saiu muito enriquecida pelas ilustrações do artista aveirense Jeremias Bandarra que, como já nos habituou há muito, põe no que faz uma sensibilidade notável. O trabalho do Humberto Rocha vale portanto pela ideia, pelo texto, pelo enquadramento familiar, pela magia que sempre encanta crianças e adultos, mas também por nos colocar em contacto com um artista que goza de merecida estima e admiração no mundo das artes plásticas, de onde sobressai um humanismo que muito prezo. 
A história começa, como é típico e em jeito de convite à leitura, com “uma princesa muito bonita, mas muito triste, porque não podia sair do castelo, pois havia uma bruxa má que a transformaria em estátua, caso a apanhasse a passear”.  Boa maneira de começar uma história para cultivar nas crianças o gosto pela fantasia, pelo sonho, pela harmonia, pelo mágico que a vida inúmeras vezes comporta. E como termina? Um segredo para descobrir no livro.  
Os meus parabéns ao Humberto, extensivos à sua família, em especial às artistas a quem ele dedicou este seu trabalho. 

Fernando Martins

Bento Domingues - Acabar com a chantagem

Papa não teme o cisma 
"Escusam de continuar com as ameaças de cisma.
Não o desejo, mas não me assusta e rezo para que não aconteça."


1. O acontecimento mais importante, na liderança da Igreja católica, nos últimos tempos, não pode passar despercebido ou dissolvido no ruído dos noticiários acerca do Vaticano.
O papa Francisco, ao regressar da última viagem apostólica a vários países africanos (Moçambique, Madagáscar e Ilhas Maurícias), não se limitou a responder às perguntas e curiosidades dos jornalistas, de forma aberta e desinibida, como sempre faz. Desta vez, foi muito mais longe. Decidiu colocar um ponto final na chantagem que se arrastava, dentro e fora do mundo católico, desde o começo do seu pontificado: a ameaça de um cisma.
Para quem conhece alguma coisa da história do cristianismo, não pode ignorar os efeitos terríveis que essa palavra evoca, efeitos que ainda hoje persistem, apesar de todas as iniciativas ecuménicas.
Dada a desenvoltura com que se pronunciou, terá Bergoglio esquecido as catástrofes dessa “bomba atómica” no tecido da Igreja? Essa ameaça não deveria aconselhar o Papa a ter mais cuidado com o que diz e faz e, sobretudo, com o modo provocador como fala e actua? Não saberá que está sempre a pisar terreno armadilhado?
Neste caso, essas perguntas não conseguem esconder uma solene hipocrisia. Dito de outro modo: o papa Francisco para não causar um cisma na Igreja deve renunciar a cumprir o programa do seu pontificado, tornar-se prisioneiro do medo, asfixiar a liberdade de expressão e concordar que o Vaticano continue num regime de monarquia absoluta!

domingo, 22 de setembro de 2019

Ares do Outono - É já amanhã


Regresso a casa nas vésperas do Outono. Dei pela chegada da estação das folhas que caem pela sensação de um friozinho a que não consigo ficar indiferente. Venha o Outono com as suas marcas que já conheço há décadas. E enquanto a roda do tempo girar para eu reviver é sinal de que estou em pleno uso da razão. 
Já tinha saudades da minha "palhota" e do que nela tenho vivido que a chegada, mesmo de curta ausência, me dá uma sensação de prazer interior muito grande. Que assim seja por muitos anos, são os meus desejos de amante da existência. 
E a vida, como antes, prossegue com espírito aberto ao mundo em contínua renovação,  cada minuto com a sua descoberta, com os seus sinais de aventura de uma humanidade que não parará na busca do progresso, que gostaríamos de felicidade plena para todos. 
Boas entradas no Outono. É já amanhã. 

Fernando Martins

Anselmo Borges - Demissão do Papa Francisco

Papa Francisco chega a Maputo

1. No passado dia 10, após uma viagem apostólica a África, visitando Moçambique, Madagáscar e Maurício, o Papa Francisco, já no avião, de regresso a Roma, deu, como é hábito, uma longa conferência de imprensa. E foi respondendo a muitas perguntas. 


1. 1. Congratulou-se com o abraço histórico da paz em Moçambique: “Tudo se perde com a guerra, tudo se ganha com a paz. O esforço dos líderes das partes contrárias, para não dizer inimigos, é o de ir ao encontro um do outro. É o triunfo do país: a paz é a vitória do país, é preciso entender isso... E isso vale para todos os países, que se destroem com a guerra. As guerras destroem, fazem perder tudo.” 

1. 2. África é um continente jovem, tem uma vida jovem, “se a compararmos com a Europa, e vou repetir o que disse em Estrasburgo: a mãe Europa quase se tornou “avó Europa”. Envelheceu, estamos a viver um inverno demográfico muito grave na Europa.” E acrescentou que leu algures que há um país europeu que em 2050 terá mais reformados do que pessoas a trabalhar, “e isso é trágico”. 
Os jovens em África precisam de educação, “a educação é uma prioridade”. E louvou Maurício, cujo primeiro-ministro tem em mente a gratuidade do sistema educativo. 

1. 3. A xenofobia é “uma doença humana” e, lembrando “discursos que se assemelham aos de Hitler em 1934”, acrescentou: “muitas vezes as xenofobias cavalgam a onda dos populismos políticos”. Mas África transporta consigo também “um problema cultural que tem de ser resolvido: o tribalismo”. Temos de “lutar contra isso: seja a xenofobia de um país em relação a outro, seja a xenofobia interna, que, no caso de alguns lugares de África e com o tribalismo, leva a uma tragédia como a de Ruanda.” 

1. 4. “São fundamentais as leis que protegem o trabalho e a família. E também os valores familiares.” E chamou a atenção para os dramas das crianças e jovens que perdem os seus laços familiares. 

1. 5. “Hoje não existem colonizações geográficas — pelo menos, não tantas como antes.... , mas existem colonizações ideológicas, que querem entrar na cultura dos povos e transformar aquela cultura e homogeneizar a Humanidade. É a imagem da globalização como uma esfera, todos os pontos equidistantes do centro. Ao contrário, a verdadeira globalização não é uma esfera, é um poliedro, no qual cada povo se une a toda a Humanidade, mas preserva a própria identidade.” Contra a colonização ideológica, é preciso respeitar a identidade de cada povo e dos povos. 

1. 6. Opôs-se de novo ao proselitismo em religião, lembrando uma palavra de São Francisco de Assis: “Levem o Evangelho, se for necessário, também com as palavras”. A evangelização faz-se sobretudo pelo exemplo, pelo testemunho. O testemunho provoca a pergunta: “Porque é que vive assim, porque age assim?” Aí explico: “É pelo Evangelho”. “E qual é o sinal de que um grupo de pessoas é um povo? A alegria.” 

1. 7. Não podia deixar sublinhar a urgência da defesa do meio ambiente. No contexto da destruição da biodiversidade, da exploração ambiental e concretamente da desflorestação, não deixou de apontar e condenar de modo veemente a corrupção descarada: “Quanto para mim?”. “A corrupção é feia, muito feia.” 
Revelou que “no Vaticano, proibimos o plástico.” É preciso defender “a ecologia, a biodiversidade, que é a nossa vida, defender o oxigénio, que é a nossa vida. O que me conforta é que são os jovens que levam adiante esta luta”, porque o futuro é deles. “Creio que ter-se chegado ao acordo de Paris foi um bom passo adiante, e depois também outros... São encontros que ajudam a tomar consciência.” E, a menos de um mês do Sínodo para a Amazónia, sublinhou: “Há os grandes pulmões, na República Centro-Africana, em toda a região Pan-amazónica, e outros menores.” 

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Notas do meu diário - Fonte de S. Martinho


I
Tive sêde, e vim beber
À fonte de S. Martinho;
Desde então para te ver,
Não procuro outro caminho.

II
Mas, ao ver-te, a sêde passa,
já não tenho de beber,
Pois a sêde que eu sentia,
Era apenas de te ver...

A Fonte de S. Martinho, em S. Pedro do Sul, tem uma réplica, segundo creio, no espaço hoteleiro onde estou hospedado. Consulta feita, ela existe, realmente, em zona de certo modo escondida, e terá sido construída em 1943. Seja como for, é facto que S. Martinho também tem capela junto às ruínas romanos, em maré de restauro e preservação.

D. Afonso Henriques em S. Pedro do Sul







Dom Afonso Henriques é muito venerado em São Pedro do Sul, particularmente nas Termas mais frequentadas de Portugal, com 35% dos aquistas lusos a preferi-las no cômputo do termalismo português.
Não escasseiam informações turísticas na zona pedestre com notas histórias, que são outras tantas referências da vida das águas quentes (cerca de 70.º) com cheiro a enxofre,  desde há mais de dois mil anos a curar ou a aliviar quem sofre.
Não será de estranhar que uma pastelaria lhe preste uma singular homenagem com a presença do nosso primeiro rei a ocupar um lugar de destaque. Logo à entrada, uma estátua do rei, sentado mas com olhar arguto, olha de soslaio quem entra, com cara de poucos amigos, ao jeito de quem pretende fiscalizar quem vem à cata de doces de todo o país, para acompanhar um saboroso café, tomar um refresco ou acalmar os nervos ou o estômago com um chá quentinho.
Lá dentro, o rei Afonso, o primeiro de seu nome, com sua filha Teresa e seu filho Sancho, que lhe haveria de suceder, podem ser apreciados por todos os clientes, lendo o documento  que Dona Teresa exibe. 
O serviço é pronto e eficaz, acolhedor e asseado, e dá gosto estar por ali a ver quem chega, na perspetiva de encontrar gente conhecida, o que não aconteceu durante toda a semana. 

Georgino Rocha - Elogio à esperteza criativa

DOMINGO XXV


Hoje, no Evangelho, Jesus apresenta aos discípulos uma história surpreendente, escandalosa, desconcertante, provocadora. Um homem rico é gravemente lesado pelo administrador a quem confiou a gestão dos bens. Descoberta e denunciada a fraude, é despedido, mas ele inventa uma saída engenhosa que lhe dá garantias de ter quem o contrate no futuro e revela capacidades que merecem o elogio do proprietário.
Os ouvintes hão-de ter pensado: Como é possível felicitar quem rouba, é corrupto, usa as piores “artes” para assegurar o futuro? Seguindo a bela narração de Lucas, vamos aprofundar o alcance da parábola do administrador infiel, assim conhecida. Lc 16, 1-13
Jesus, na maioria das suas parábolas, mais do que ensinar pretendia provocar, abalar as convicções de crentes acomodados, passivos, quase em letargia. Ouvem e percebem a novidade da mensagem anunciada, mas não se dispõem a pô-la em prática, a fazê-la vida. A de hoje é típica, tem este propósito declarado. 
O elogio à esperteza é feito por um proprietário rico, a um seu administrador desonesto. E surge na narração de uma parábola de Jesus sobre o uso dos bens materiais. Visa despertar o entusiasmo dos discípulos para procederem de igual maneira. E aponta, claramente, para a urgência de, perante situações de risco e de crise, saber encontrar soluções criativas e sensatas.
Os adversários de Jesus riem-se dos seus ensinamentos sobre o dinheiro, considerado por eles como uma bênção de Deus, um sinal da sua providência, uma garantia de predestinação. Quase absolutizavam a sua posse e ostentação. Sem olharem muito à licitude dos meios para o alcançar. E assim, a gente humilde mais empobrecia, enquanto uma minoria, alavancada numa interpretação deficiente da Escritura Sagrada, enriquecia cada vez mais.
Jesus recorre a várias formas didáticas para contestar esta interpretação e restituir aos discípulos e, por eles, a todos nós, a autêntica função dos bens materiais, designadamente do dinheiro. Serve-se de diálogos directos, de ditos sentenciosos, de parábolas-retrato que reproduzem situações de vida conhecidas.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Notas do meu diário – Uma passagem por Santa Cruz da Trapa

AO  POVO - Os filhos e amigos de Santa Cruz da Trapa - 1926
A Lita junto à Cruz no Largo do Calvário



Homenagem da Freguesia de Santa Cruz da Trapa ao saudoso santacruzense Agostinho Valgode

Centro Cultural - Biblioteca César Rodrigues 

Homenagem à Casa do Povo
Poema no Largo do Calvário

Poema no Largo do Calvário

Hoje foi dia de passar por Santa Cruz da Trapa, terra que conheci há uns 40 anos, aquando da nossa ligação, em tempo de férias, a Serrazes. Quase a não reconhecemos, mas disso já estamos habituados. O Turismo alertou-nos para uma curiosidade a ter em conta: O povo quer que a sua vila seja conhecida como terra de poetas, havendo já dois livros publicados a partir de recolhas ou seleção; e como prova desse interesse, no largo há poemas para sublinhar essa pretensão. 
Há décadas, quando por ali cirandámos, demos um saltinho a São Cristóvão de Lafões. O mosteiro  em ruínas, com existência lavrada por volta de 1123, teria sido mandado edificar por D. João Peculiar, que veio a ser Bispo do Porto e Arcebispo de Braga, onde está sepultado. Este D. João Peculiar foi uma personalidade marcante e conselheiro de D. Afonso Henriques. Foi a Roma para convencer o Papa a reconhecer D. Afonso como rei. Tal reconhecimento estaria, como esteve, na base da fundação do Reino de Portugal. 
Quis colher informações, mas o Centro Cultural Casa do Povo e a Biblioteca César Rodrigues estavam encerrados, antes do meio dia de hoje. Um transeunte deu-nos  como provável razão o período  de férias. Paciência... ficará para a próxima visita, se tal vier a acontecer.

Fernando Martins

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Notas do meu diário - O Vouga vai ficar limpo e asseado

o rio em plena caminhada 

Rio assoreado, presentemente

Os homens teimam e vão conseguir limpar o Vouga

1. O rio Vouga nasce na serra da Lapa, em Quintela, Sernancelhe, Viseu. Um fio de água que nasceu a sonhar com o oceano atlântico, mar que me habituei a ver desde tenra idade. Isto aprendia-se na escola primária e ficava para a vida. Hoje não tem grande interesse, que o mundo das juventudes atuais tem mais que fazer. Com um clique, os telemóveis dizem tudo em segundos.

2. Depois, na sua passagem, batizou com as suas águas virgens terras que ainda hoje se orgulham do seu padrinho: Sernada do Vouga, Sever do Vouga, Macinhata do Vouga, Pessegueiro do Vouga, Mourisca do Vouga, Valongo do Vouga, Arrancada do Vouga, Lamas do Vouga e nem sei que mais. Contudo, no seu caminhar, ora manso ora agitado, vai adotando outros filhos que lhe perpetuam a existência. São os afluentes: Águeda, Caima, Mel, Gresso ou Branco, Lordelo, Mau, Sul, Teixeira e Zela. Aqui, em Sever do Vouga, mora o Sul. Daí o nome desta ridente cidade. 

3. Com os anos e com os tempos de fogos as cinzas e outros detritos, mas também com diabruras de gentes descuidadas e da natureza por vezes madrasta... o rio ficou assoreado. Fechadas comportas, represas ou sistemas semelhantes que nem ousei indagar, o homem, com a sua teimosia e visão de futuro, que o turismo termal a isso obriga, vai torná-lo limpo e asseado. Todos merecemos e precisamos disso. 

F. M.

A saúde é coisa preciosa

ESCRITO NA PEDRA 


"É coisa preciosa, a saúde, e a única, em verdade, que merece que em sua procura empreguemos não apenas o tempo, o suor, a pena, os bens, mas até a própria vida; tanto mais que sem ela a vida acaba por tornar-se penosa e injusta" 
Michel Eyquem de Montaigne 
(1533-1592), ensaísta e escrito


No PÚBLICO de ontem 

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Notas do meu diário - Estávamos mesmo a precisar de sair

Com toda a calma do mundo 
O calor aperta 
Sem pressas 
Estávamos mesmo a precisar de fugir de alguma monotonia da vida. Deixámos para trás os ares marinhos para podermos respirar as tranquilidades serranas. Os ares do oceano e da laguna, que nos acompanham desde o desabrochar para a existência terrena, voltarão quando descermos das serranias, em São Pedro do Sul, rumo ao mar, com o rio Vouga a tiracolo. 
Quando nos afastámos da ria, uma boa hora depois uns chuviscos refrescaram o ar, mas o sol, fulcro de vida e doce companheiro, que acompanhamos desce o seu nascer até se esconder no oceano,  à tardinha, voltará à ribalta onde quer que estejamos. E as férias verdadeiramente começaram. 
Não há projetos de almoço nem de jantar, não há horários a cumprir, não há gatos a correr nem cães a ladrar à roda da nossa residência de todos os dias, desde há 54 anos, não há jardim nem árvores para regar (outros o farão), não há galinhas a cacarejar, não há campainha nem telefone a tocar... Eu e Lita estamos por aqui. E disso darei nota ao sabor do vento que passa, mansinho até ver.

F. M.

Nota: Reeditado em 18-09-2019, pelas 18h14

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Bento Domingues - Ampliar as perguntas


"Quando se fala das dificuldades do diálogo da Igreja com a sociedade, parece admitir-se que está consumado o exílio da fé cristã no mundo da cultura ocidental e que já não existem pessoas e grupos com sede e fome do Evangelho de Jesus."

1. O mês de Setembro, a ritmos diversos, abre um novo Ano Pastoral. As dioceses, as paróquias e os diversos movimentos começam a executar programas previstos para alimentar, nos praticantes da vida eclesial, formas inovadoras de ir ao encontro das pessoas e dos grupos que parecem longe, indiferentes ou hostis às igrejas.
O programa da diocese de Lisboa, para 2019-2020, tem uma formulação muito generosa, mas que se pode prestar a alguns equívocos: “Sair com Cristo ao encontro de todas as periferias!” Dito assim, até parece que Cristo está ausente das periferias, esperando que alguém se lembre de o conduzir para fora de portas.
De facto, em regime de Cristandade, a pastoral mais corrente – não a única – resumia-se em apresentar, na Catequese, as verdades a crer, os mandamentos a observar e os sacramentos a receber. Na saída para fora dos espaços da Cristandade, supunha-se que era o missionário que levava Cristo para as terras onde Ele nunca tinha chegado. Ele teria de propor aos gentios o Credo cristão, os mandamentos da Lei de Deus e da Igreja, assim como administrar os Sete Sacramentos.
Com o advento da Modernidade, as sociedades ocidentais, com ritmos, formas e em graus diversos, emanciparam-se da tutela das Igrejas e das Religiões. Alguns falam da secularização, não só da sociedade, mas também da vida privada. Antes, nascer e tornar-se cristão eram acontecimentos quase simultâneos. O ambiente cultural exigia a transmissão dos rituais da fé. Com a liberdade religiosa, cada um terá de fazer a sua escolha. As referências cristãs passam a estar fora do ambiente cultural. Por vezes, sobretudo onde vigoravam programas estatais de ateísmo militante, tentou-se eliminar as próprias marcas que tinham deixado na cultura.

domingo, 15 de setembro de 2019

Anselmo Borges - Francisco em África para o mundo

Papa Francisco em Moçambique
“Em Moçambique fui semear sementes de esperança, paz e reconciliação numa terra que tanto sofreu no passado recente por causa de um longo conflito armado e que na passada Primavera foi vítima de dois ciclones que causaram danos muito graves.” 

Papa Francisco 

1. O Papa Francisco voltou a África. Numa viagem de contrastes: por um lado, Moçambique e Madagáscar, dois dos países mais pobres do mundo — Moçambique, com 70% dos 28 milhões de habitantes a viver abaixo do limiar da pobreza, é o décimo mais pobre; Madagáscar é o quinto mais pobre —, e, por outro, a República de Maurício, onde a economia cresce cerca de 5% ao ano, é uma ilha onde fazem férias turistas ricos. Francisco levava na bagagem objectivos essenciais: uma paz duradoura, o cuidado com o meio ambiente, o diálogo inter-religioso, um mundo globalizado justo. Numa visita multitudinária, em todo o lado foi recebido em festa e júbilo, com danças e tambores, como só os africanos sabem fazer. 
A viagem decorreu entre 4 e 10 deste mês de Setembro. Ele próprio, no passado dia 12, já em Roma, descreveu o seu périplo por África e o que o moveu: “O Evangelho é o mais poderoso fermento de fraternidade, de liberdade, de justiça e de paz para todos os povos.” 

1.1. “Em Moçambique fui semear sementes de esperança, paz e reconciliação numa terra que tanto sofreu no passado recente por causa de um longo conflito armado e que na passada Primavera foi vítima de dois ciclones que causaram danos muito graves.” 
Em Moçambique, clamou perante as autoridades: “Não à violência que destrói, sim à paz e à reconciliação.” E, sobre o processo de paz, no qual tem tido papel fundamental a Comunidade de Santo Egídio, quis exprimir o seu “reconhecimento”, dele e de grande parte da comunidade internacional, pelo esforço em ordem à reconciliação, que, sublinhou, “é o melhor caminho para enfrentar as dificuldades que tendes como Nação”. “Vós tendes uma missão valorosa e histórica a cumprir: Que não cessem os esforços enquanto houver crianças e adolescentes sem educação, famílias sem tecto, operários sem trabalho, camponeses sem terra: bases de um futuro de esperança porque é futuro de dignidade. Estas são as armas da paz.” 

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Georgino Rocha - Alegrai-vos comigo e façamos festa!

DOMINGO XXIV 

Filho pródigo
A misericórdia de Deus é o centro do Evangelho da liturgia de hoje apresentado a partir de três parábolas acessíveis: a da ovelha e a da moeda perdidas e a do filho “pródigo” lançado na aventura da sua liberdade. Em cada uma, há um protagonista diligente que aponta para mais longe: o agir de Deus para com a humanidade, para com o seu povo. Parábolas narradas por Jesus ao ver a multidão que o acompanha. Lc 15, 1-32.
Lucas, médico de grande sensibilidade e ternura, anota as “intenções” dos que seguiam Jesus e o contraste que se ia acentuando. Os indesejados da sociedade escutam-no com interesse. Os defensores da ordem estabelecida fazem-se ouvir em comentários críticos. Publicanos e pecados aproximam-se. Fariseus e escribas distanciam-se. Jesus, como sábio narrador de contos e “histórias”, aproveita a circunstância para realçar, uma vez mais, a sua missão de dar a conhecer o autêntico rosto de Deus Pai. E que bem que o faz!
Recorre a exemplos da vida corrente: pastor que busca a ovelha perdida, dona de casa que procura moeda desaparecida e pai de dois filhos com comportamentos diferentes. Em cada um destes casos, destaca traços que configuram o modo de ser e agir de Deus: o apreço pela harmonia e proximidade que se alteram inesperadamente: a ovelha perdida do rebanho, a dracma desaparecida na casa da dona e o jovem aventureiro ansioso de liberdade e de novas experiências.
Este apreço constitui uma autêntica novidade que supera a simples tolerância e se situa no amor generoso. Novidade provocante numa sociedade que dificilmente aceita o diferente, respeita o diverso, admite o estranho.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Faleceu José Manuel Sacramento

A roda dos amigos continua a encolher a passos largos. Paulatinamente, os elos físicos vão caindo como as folhas no outono. Ficam os elos das recordações e amizades imorredoiras. Ontem foi o José Manuel Sacramento que conheci há muito, sobretudo depois que segurou o leme de O Ilhavense. De seu pai, que também evoco hoje, herdou o gosto pelo jornalismo e a paixão pela sua terra que defendia com coragem, sem nunca renunciar aos princípios da verdade e da frontalidade. 
Particularmente, facilitou-me pesquisas nos arquivos do seu jornal, dando-me informações preciosas sobre temas dos meus interesses. 
O nosso último contacto aconteceu em finais de Novembro, dando-me conta da doença que o inquietava. Nunca pensei, nunca pensamos, que pode ser fatal. E foi. 
Ontem, partiu para Deus, que sempre e tudo perdoa. Até um dia, amigo Sacramento. 
Os meus pêsames a toda a família. 

Fernando Martins

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Cruzeiro dos Centenários na Gafanha da Encarnação

Para memória futura: 
Discurso do Pe. Rezende, 
primeiro prior da Gafanha da Encarnação, 
na inauguração do cruzeiro em 1940

Cruzeiro renovado (foto da Junta de Freguesia)



Lê-se no Correio do Vouga, jornal católico e órgão da Diocese de Aveiro:

Pe. Rezende
"Conforme prometemos no último número deste jornal, publicamos hoje [14 de Setembro de 1940] o discurso proferido pelo Rev. P.e João Vieira Rezende, na inauguração do Cruzeiro dos Centenários, na Gafanha da Encarnação:

"Eis-nos aqui, em frente dêste monumento histórico, que na algidez e dureza da sua pedra, ficará a atestar pelas eras em fora a nossa fé e a nossa piedade. Alem disso, será êle também um documento e um testemunho de que nós, o povo da Gafanha da Encarnação, não quisemos ficar insensíveis e indiferentes a êsse movimento de fé e de patriotismo, que há quási dois anos tem alastrado de norte a sul de Portugal.
Colaboraremos também nós, com essas entusiásticas e vibrantes manifestações dos dois amores lusitanos: o amor de Deus e o amor da Pátria. Êste humilde plinto, encimado pela cruz (símbolo de fé e de fraternidade) foi edificado por nós neste cantinho da frèguezia, em comemoração dos dois centenários, dessas festas evocativas da rota gloriosa que Portugal traçou no mundo, desde o seu providencial nascimento em Ourique até aos tempos auspiciosos que vão passando. Nós queremos também neste ano jubiloso de 1940, relembrar os feitos heróicos, praticados pelos portugueses, quer nas horas festivas da nossa Independência, quer nas horas redentoras da nossa Restauração, quer ainda nestas horas que passam, de verdadeira e reconstrutiva Revolução social.
Quando D. Afonso Henriques combatia pela nossa Independência nos campos de Ourique, viu no Céu o sinal que lhe prometia a vitória. Na Cruz que Cristo lhe mostrava lá no alto, estavam garantidos o milagre e a promessa que, em pouco tempo, se haviam de realizar. In hoc signo vinces - Com êste sinal vencerás! estava lá escrito. E o príncipe venceu. E aquela hora que Deus marcou com êste sinal, no Céu, firmou a nossa Independência, já oito vezes secular, e, o que Portugal foi durante êsses oito séculos dí-lo a nossa História cheia de heroismos, repleta de tradições gloriosas.
A Cruz do Céu de Ourique, tinha-se ligado num amplexo imorredoiro à espada victoriosa do Rei Conquistador, e aquele abraço da Cruz e da Espada naquele campo histórico, foi o pronúncio do eterno cantar, sempre glorioso e cavalheiresco, da alma nacional.

Alexandrina - A primeira batizada na Gafanha da Senhora da Nazaré

Alexandrina Cordeiro
Não se sabendo quando, de facto, se concretizou a aplicação do decreto do Bispo de Coimbra da ereção canónica da freguesia, apesar de o Padre João Vieira Resende dizer que tal aconteceu no dia 10 de Setembro de 1910, sabe-se, todavia, que o primeiro Prior da Gafanha da Nazaré, Padre João Ferreira Sardo, batizou, no dia seguinte, 11, Alexandrina, “na Capella da Calle da Villa, d’este logar da Gafanha e freguesia de Nossa Senhora de Nazareth, do mesmo logar servindo provisoriamente de Egreja parochial da freguesia de Nossa Senhora de Nazareth, concelho d’Ilhavo, Diocese de Coimbra”, na qualidade de pároco encomendado. 
Alexandrina, a primeira pessoa batizada na nova paróquia, com o assento n.º 2, nasceu em 26 de Agosto de 1910, sendo filha legítima de Domingos Ferreira e de Joana de Jesus, jornaleiros, naturais desta freguesia e nela residentes e recebidos na freguesia de Ílhavo. 
O assento n.º 1 apenas apresenta o nome de Maria, sem qualquer outra anotação no corpo da primeira página. Porém, na margem esquerda, debaixo do nome referido, tem a informação de que faleceu a 28-11-1910. 
Sobre Alexandrina Cordeiro, como sempre foi conhecida, podemos adiantar que durante toda a vida foi uma pessoa envolvida na comunidade católica, tendo integrado, inclusivamente, uma comissão que se deslocou aos EUA para angariação de fundos destinados à construção do Lar Nossa Senhora da Nazaré. 
Frequentou na infância a catequese dada pelo Padre Sardo, que lhe ministrou, depois, a primeira comunhão. E na inauguração da estátua do nosso primeiro prior, no Jardim 31 de Agosto, foi distinguida com a honra de descerrar o monumento, a convite do então Governador Civil de Aveiro, Gilberto Madail. Mulher dinâmica, faleceu em 12 de Outubro de 1995. 
E de onde vem este apelido Cordeiro, assumido pela família, já que os seus pais não assinavam tal apelido? Segundo sua filha Dália, o apelido nasceu de seu avô, Domingos Ferreira, que guardava um rebanho antes de casar, imitar na perfeição os balidos dos cordeiros. De tal forma, que o Cordeiro, enquanto apelido, se impôs, passando, naturalmente, para os filhos e netos. 

Fernando Martins