quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

A vida do Américo


De sorriso largo a emoldurar-lhe o rosto gasto pelos anos e cansado de tanto trabalho e canseiras, de chapéu a bailar-lhe nas mãos calejadas pela luta do dia a dia, de gravata garrida sobre a camisa branca, de sapatos polidos e fato completo, vinha desejar-me bom Natal, tantos anos depois de nos termos conhecido. Os anos passam, mas as amizades, nem sempre manifestadas por tantos motivos, perduram. Era o caso.
O Américo tinha saudades de alguns momentos vividos e sentidos em comum. Vinha da estranja, para onde fora em hora de mudar de vida. Era a terceira tentativa, depois de ter desistido da mina que lhe roubou a saúde e nunca lhe matou a fome.
Quando o conheci, tinha trinta e poucos anos, filhos seguidinhos, pele enrugada e olhos encovados pela escuridão do poço, parecia na casa dos cinquenta.
— Tenho cara disso, mas estou muito longe. E olhe, também é por causa disso que quero fugir da mina.
Trabalhava horas a fio, em condições sub-humanas, com o pó negro do carvão a corroer-lhe os pulmões. Mal alimentado, como sina de todos os mais pobres, sentia a vida a escapar-lhe a olhos vistos. E a mulher e os filhos? Ela não podia trabalhar fora de casa. Assim lho pediam as crianças, todas a precisarem dos cuidados maternos.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Estórias de vida



De vez em quando, vem a hora de arrumar livros, que ficam, no fundo, na mesma. Esta operação serve, ao menos, para limpar algum pó, mas não só. Desta vez, o livro achado trouxe-me gratas lembranças, como se lê nas fotos. Foi uma dedicatória de uma prima muito amiga, a Rosa Salsa, que já repousa no coração bondoso de Deus. 

António Gedeão - Minha Aldeia


Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.

Bate o sol na minha aldeia
com várias inclinações.
Ângulo novo, nova ideia;
outros graus, outras razões.
Que os homens da minha aldeia
são centenas de milhões.

Os homens da minha aldeia
divergem por natureza.
O mesmo sonho os separa,
a mesma fria certeza
os afasta e desampara,
rumorejante seara
onde se odeia em beleza.

Os homens da minha aldeia
formigam raivosamente
com os pés colados ao chão.
Nessa prisão permanente
cada qual é seu irmão.
Valências de fora e dentro
ligam tudo ao mesmo centro
numa inquebrável cadeia.
Longas raízes que emergem,
todos os homens convergem
no centro da minha aldeia.

Anónio Gedeão

sábado, 20 de dezembro de 2025

NATAL: O nascimento de Jesus e a infinita dignidade do Homem

Anselmo Borges
Padre e Professor de Filosofia

A festa do Natal deveria ser infinitamente mais do que o festival do comércio natalício exasperado. Há pessoas que chegam à noite de Natal cansadas e desfeitas, por causa dos presentes. No último instante, ainda tiveram de ir à última loja aberta, por causa de mais uma compra. Há inclusivamente pessoas para as quais o tormento das compras natalícias começa logo no início do novo ano, pouco tempo depois do Natal: o que é que vão dar como presente àquele, àquela, no próximo Natal?!...
Realmente, a festa do Natal é infinitamente mais, e deve sê-lo. Porque o Natal é a visita de Deus aos seres humanos, homens, mulheres, jovens, crianças, bebés. É Deus presente entre os homens. E, ao contrário do que frequentemente fazemos com os nossos presentes, que pretendem ser uma manifestação de ostentação de poder junto dos outros, Deus veio, sem majestade, sem poder. Veio, humilde, na simplicidade. De tal maneira que os mais pobres entre os pobres — os pastores — se não sentiram humilhados ao visitá-lo. Foram os pastores os primeiros que viram Deus visível num rosto de criança. Quem é que imaginaria que Deus, se algum dia viesse, viria assim: simples, pobre, precisamente para que ninguém se sentisse excluído?...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

NATAL DE HOJE



Natal de hoje

Naquela noite de breu,
portas trancadas,
corações empedernidos…
só a natureza abriu
e acolheu os deslocados
em busca de lugar
para nascer o Menino.
Abriu-se o Céu em estrelas perenes,
em hinos de glória e anúncio de Paz!
Mudou-se o Mundo!…
A Luz subsiste, emergindo dos destroços
das portas fechadas
do egoísmo,
do rancor e da vingança.
Natal é para sempre;
e a Paz avança nos corações
de quantos escancaram
as suas vidas ao Menino!

Querubim Silva

Publicado no "Correio do Vouga"

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Amigos para sempre




Fotografia dos meus arquivos. Andava escondida sem eu compreender a razão. A foto indica a data:1959. Amigos da juventude. Alguns já estão no coração marternal de Deus. Até um dia!

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Bispo de Aveiro e o Natal

D. António Moiteiro convida «cada um a refletir sobre o seu Natal»
e propõe dois gestos «muito simples»

«“O amor pelos pobres é um elemento essencial da história de Deus connosco, e irrompe do próprio coração da Igreja como um apelo contínuo ao coração dos cristãos, tanto das suas comunidades, como de cada um individualmente. Neste Natal, centremos a nossa atenção nos migrantes”, pede D. António Moiteiro, na sua mensagem de Natal, onde salienta que o Papa Francisco recordava que “a missão da Igreja junto aos migrantes e refugiados era ampla”.»
...

“Em cada Natal, celebramos a presença de Deus entre nós. Sempre que construímos o Presépio, fazemos memória do nascimento de Jesus em Belém. É tempo de tomarmos mais consciência do amor que Deus tem por nós, enviando-nos o seu Filho.”


Nota: Ler toda a mensagem aqui 

Bando foge do temporal

 


Olho para o céu à cata de sinais do tempo e lá está o mais evidente. Tempestado no mar, aves em terra.. 

Gratas recordações - Piódão


De Arganil, rumei a Piódão, uma Aldeia Histórica que é uma referência nacional. Foram 41 quilómetros por estrada que serpenteia a Serra do Açor, do cimo da qual se pode apreciar um panorama único, pela verdura que o enche e pelos desfiladeiros que atemorizam o viajante mais destemido. 
Por aqui e por ali, casebres abandonados, de xisto, e, lá no alto, as torres que aproveitam a energia eólica.
Nem vivalma pelo caminho. Apenas a serenidade e a beleza do ambiente, o ar puro que desentope os brônquios e a alma a sentir-se livre e a querer voar para chegar ao infinito. 
Depois, ao longe, ao virar de uma esquina serrana, meta à vista, com o casario da aldeia, como um bloco único de xisto.

Ler mais aqui 

Monsenhor João Gaspar recupera na Casa Sacerdotal

"Mons. João Gaspar fraturou o ombro esquerdo em dois pontos, devido a uma queda na semana passada. Acompanhado por cuidados médicos e de enfermagem, o sacerdote, que completa 96 anos no dia 24 de dezembro, fará um tempo de recuperação na Casa Sacerdotal (junto ao Seminário). O Correio do Vouga deseja ao amigo e colaborador o mais rápido e completo restabelecimento."

NB: Associo-me aos votos formulados pelo Correio do Vouga, na esperança de que Mons. João Gaspar volte às suas ocupações e gostos normais. 

Para pensar...


 Nada melhor para começar o dia...

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

NATAL e não Dezembro

David Mourão Ferreira
Excerto de um expressivo poema

 

Natal, e não Dezembro

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Pisa-papéis sugestivo


 Gosto deste meu  pisa-papéis muito realista. Indica-me, com toda a clareza, o que devo fazer na hora da descontração. 

O meu retrato


 Nem sei como descobri o meu retrato feito por uma menina na data indicada. Já me apreciei ao espelho para confirmar e acho que a retratista tem saber e arte. Chama-se Sofia, mas nada mais sei. Talvez ela se lembre e possa, por isso, confirmar.
Já agora, peço à autora que entre em cantacto comingo, pois sinto ser minha obrigação agradecer-lhe, pessoalmente.
Obrigado, Sofia!

domingo, 14 de dezembro de 2025

VISTA ALEGRE - Sabedoria feita arte

A Lita, minha esposa, recebeu há dias o catálogo da célebre VISTA ALEGRE que ainda me não cansei de apreciar. Eu sei que todos a nossa região teve o feliz privilégio de acolher a instalação da célebre fábrica de cerâmica, famosa em todo o mundo, mas será que o povo da nossa região tem a noção exata do seu valor?
O catálogo convida-nos a descobrir "Sabedoria feita arte", seguindo um "processo artesanal que dá vida à mais fina porcelana e ao mais fino cristal", exibindo um conhecimento construído ao longo de 196 anos, trasmitido de geração para geração como segredos de alquimistas."

FM

Mulheres na Igreja Católica

DISCRIMINAÇÃO INTOLERÁVEL

"Se a verdade é mulher, não teremos razões para suspeitar que todos os filósofos, na medida em que foram dogmáticos, pouco entenderam de mulheres?" É com estas palavras que Nietzsche inicia a sua obra Para Além do Bem e do Mal, escrita em Sils-Maria, 1885. É bem possível que esta afirmação se aplique não só aos filósofos, mas também aos teólogos, e, em geral, aos dirigentes, por princípio homens, da Igreja Católica. Embora se não excluam traços maternos em Deus, a Bíblia chama a Deus Pai e não Mãe. Em primeiro lugar, porque se vivia numa sociedade patriarcal, e, depois, porque era necessário evitar toda uma linguagem que lembrasse as deusas pagãs da fertilidade...
É claro que Deus não é sexuado; portanto, chamar-lhe Pai é uma metáfora. Assim, tanto poderíamos dirigir-nos a ele como a ela, isto é, tanto poderemos chamar-lhe Pai como Mãe. E deveríamos, no meu entender, a partir do Evangelho, dirigir-nos a Ele sempre como Pai-Mãe.

A Lua nas nossas vidas...


A Lua influencia as marés, mas não só. Se pensarmos um pouco, também não deixará de nos enfluenciar sem nos pedir autorização...
Tenho andado um pouco (ou muito) na lua, julgo que por razões do peso dos anos. Daí, o meu isolamento... Contudo, vou voltar ao mundo da blogosfera, uma forma interessante e prática de estar ativo e útil à sociedade.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Borda e Portas de Água


Era por aqui, com este cenário à vista, que imensas vezes visitávamos a Ria de Aveiro. Não era a ria, mas a borda. Também por aqui andavam alguns lavradores que apanhavam o arrolado, algas e limos que a maré abandonava quando recolhia ao oceano. Os solos eram fertilizados sem grandes despesas, para além do trabalho dos interessados. E assim se transformaram areias movediças em solo produtivo.
Frequentemente se apanhavam berbigões, amêijoas, mexilhões, lingueirão de canudo e burriés, sem que as autoridades marítimas nos inquietassem. A ria era livre e o povo abastecia-se quando queria.
Há dias, em conversa com um amigo, antigo pescador desportivo, disse-lhe que em tempo de crise talvez fosse interessante voltar à nossa laguna, como quem vai passear. Logo ele retorquiu que não pensasse nisso, porque a legislação em vigor é difícil de satisfazer. É necessário licenças para tudo e mais alguma coisa. E as multas são pesadas.
Há tempos, olhei para a ria em maré baixa e divisei ao longe uma grande azáfama na apanha de berbigões, ao que julgo. Assumiram o risco ou teriam mesmo em dia as licença de que se fala? Não sei, mas talvez gostassem de sentir o prazer de caminhar no areal da ria, como quem passeia pelas ruas e jardins da nossa terra.

Nota: Para não cair no esquecimento.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Livros que estragaram o mundo...




 

Nota: Dos meus arquivos.

IMACULADA CONCEIÇÃO - 8 de Dezembro

Imaculada Conceição - Gafanha a Nazaré


O dogma da Imaculada Conceição foi proclamado pelo Papa Pio IX em 8 de dezembro de 1854, na bula "Ineffabilis Deus", que atesta e proclama que a Virgem Maria foi preservada do pecado original. Desde o primeiro instante de vida, ou seja, desde sua concepção, a Mãe de Deus não teve em si nenhum tipo de inclinação para o mal.
O texto central do dogma da Imaculada Conceição, proclamado pelo Papa Pio, afirma que «a beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante de sua Conceição, por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha do pecado original».
A graça de Deus alcança Maria de modo particular para trazer à humanidade um sinal de esperança, indicando que o pecado e o mal não têm a última palavra.

sábado, 6 de dezembro de 2025

PÁRA E PENSA: O pecado original

Crónica Semanal de Anselmo Borges 

Aconteceu-me, há muitos, muitos anos — era ainda jovem —, que, no final de uma conferência, no período das perguntas, uma senhora me atirou: “Sempre é verdade o que dizem: o senhor nega dogmas da Igreja!” Pedi-lhe para dar exemplos. Ela: que tinha negado o dogma do pecado original.
Aí, perguntei-lhe se tinha filhos. E ela: “sim, tenho duas filhas”. Dei-lhe parabéns sinceros e desafiei-a a dizer-me se acreditava sinceramente que as duas filhas tinham sido geradas em pecado e que ela tinha andado nove meses de cada vez carregando com duas filhas em pecado dentro dela. Ela: “Eu?! Nem pense nisso! É claro que não”.
Fiquei então, mais uma vez, a saber que, frequentemente, há na religião o que se chama dissonância cognitiva: afirma-se uma coisa, mas realmente não se acredita nela, porque se pensa outra coisa. Aquela senhora, confrontada com a questão, viu claramente que não podia acreditar que uma criaturinha inocente, concebida com amor, tivesse sido gerada e tivesse nascido em pecado, um pecado de que não era autora nem culpada. Mas ao mesmo tempo acusava de heresia quem dissesse o contrário do que lhe ensinaram que devia dizer, sem pensar. Ora, a fé não pode entregar-se à cegueira, abandonando a razão. O pecado original não se encontra na Bíblia.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Gafanha da Nazaré - Notas Soltas


 

Por um Natal mais próximo

O Município de Ílhavo, através do projeto Maior Idade, volta a dinamizar nesta quadra natalícia a iniciativa “Por um Natal mais próximo”, que visa proporcionar momentos de atenção, carinho, acolhimento e conforto às pessoas com 65 ou mais anos que se encontrem sozinhas nesta época do ano.
A autarquia procura identificar, com o envolvimento direto da comunidade local, pessoas com 65 ou mais anos, residentes no concelho, que estejam sós na noite de Natal. O apelo dirige-se a instituições, vizinhos, familiares ou qualquer cidadão que conheça alguém nesta situação. A sinalização deve ser feita através do número 234 025 416 ou do e-mail maioridade@cm-ilhavo.pt. A informação enviada deve incluir o nome, a morada, a idade e o contacto telefónico da pessoa identificada.
Na manhã de 24 de dezembro, a iniciativa promove o encontro com as pessoas sinalizadas para entregar um presente de Natal, oferecer uma palavra de conforto e esperança e proporcionar um momento de convívio e animação.

NOTA: Transcrito, com a devida vénia, do Correio do Vouga