sábado, 23 de maio de 2026

PÁRA E PENSA: Onde e quando é a vida eterna?

Crónica semanal de Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Lembro-me perfeitamente. Eu estava em Tubinga, Alemanha quando, pela manhã, fui surpreendido por este título na primeira página do jornal: “O Presidente visita o Filósofo”.
François Mitterand fora falar com o filósofo Jean Guitton a sua casa, para perguntar-lhe o que é a morte. “Qual é a última barreira?” “Senhor Presidente, é muito simples. A última barreira é a morte”. “Mas... e depois da morte?” “Depois da morte é o que se chama o Além”. “Mas o que é o Além?” Aí, o conhecido filósofo católico, discípulo de Bergson, amigo de Paulo VI, observador no Concílio Vaticano II, respondeu que não sabia; precisamente “porque é o Além”.
Outro grande filósofo do século XX, Ernst Bloch, o filósofo ateu da esperança, deixou escrito que “o cristianismo, na concorrência com outros profetas da imortalidade e da sobrevivência, venceu em grande parte graças à proclamação de Cristo: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’. No século primeiro depois do acontecimento do Gólgota, a ressurreição foi referida ao Gólgota de uma forma inteiramente pessoal, de tal modo que pelo baptismo na morte de Cristo se experiencia a ressurreição com ele. Imperava então um desespero apaixonado, que hoje nos parece incompreensível.” 
De facto, hoje, face ao Além e à vida eterna, o que parece estar em vigência é a indiferença. Mas Bloch prevenia: “nada impede que dentro de 50 ou 100 anos volte essa neurose ou psicose de angústia da morte, de tipo metafísico, com a pergunta radical: para quê o esforço da nossa existência, se morremos completamente, vamos para a cova e, em última instância, não nos resta nada?”
Outro filósofo marxista, B. Bosnjak, contemporâneo de Bloch, também escreveu: “Determinadas formas de religião podem deixar de existir. Mas, como antítese da morte, quer dizer, como aspiração de eternidade, a religião pode sempre tornar a renascer. De facto, encontramo-nos perante o maior dos mistérios: não sabemos porque é que existe alguma coisa em vez do nada”. Já São Paulo tinha proclamado que, se Cristo não ressuscitou, é vã a fé dos cristãos.
Mas, há relativamente poucos anos, precisamente em tempos de Páscoa – celebração da morte e da ressurreição de Jesus – andaram os média alarmados por causa de um filme de James Cameron, The Lost Tomb of Jesus, com um documentário sobre uma descoberta arqueológica de 1980 em Jerusalém: dez ossários, seis dos quais com nomes decisivos do Novo Testamento e supostamente ligados à família de Jesus: Jesus, filho de José; Maria; José; Mariamme (Maria Madalena?); Judas, filho de Jesus; Mateus. Encontrado o corpo de Jesus, afundar-se-ia o edifício da Igreja cristã, assente precisamente na ressurreição!
A maior parte dos arqueólogos e investigadores veio dizer que a afirmação de que se tinha encontrado o túmulo da família de Jesus era um disparate ridículo. No entanto, as pessoas gostam do esotérico e do escândalo. Vamos, porém, supor que um dia se demonstrava que se tinha encontrado os restos mortais de Jesus. Então? Lembro-me de, ainda jovem estudante, ter dito a um professor jesuíta, holandês, da Universidade Gregoriana de Roma, que, se viessem a encontrar os restos do cadáver de Jesus, a fé cristã continuaria inabalável.
Ele ficou surpreendido com a minha ousadia, mas remeteu-me para o famoso Lexikon für Theologie und Kirche onde se defendia essa posição. É evidente que a ressurreição nada tem a ver com a reanimação do cadáver, pois, se fosse isso, a pessoa voltaria a morrer. A ressurreição é a afirmação de fé, com razões, de que Jesus, na morte, não soçobrou no nada, mas foi encontrado pela plenitude do mistério inominável de Deus.
O que é e como é esse encontro ninguém sabe – a ultimidade transcende a razão científica, empírico-matemática. Mas aqueles que acreditam em Deus, o Vivente, que é Amor, Criador de todas as coisas, Fundamento e Sentido último de tudo quanto existe, fazem suas aquelas palavras que, noutro contexto, Espinosa deixou: “sabemos e experienciamos que somos eternos”.
Ainda neste contexto, permito-me citar, mais uma vez, Herbert Haag, o grande amigo e talvez o maior exegeta do século XX. Para um dos últimos encontros, levei uma pergunta que alguém me pediu para lhe fazer: se acreditava na vida para lá da morte. E ele, textualmente: “Diga-lhe que sim. Eu creio na vida para lá da morte. Como é que ninguém sabe.”
A vida eterna é só depois da morte? Quem não viveu na superfície das coisas, quem perguntou até à raiz de tudo, quem se exaltou indizivelmente com o fulgor da beleza, quem criou uma obra, um filho, quem alguma vez teve um gesto absolutamente gratuito de amor, quem se deixou surpreender pelo abismo in-finito do olhar de alguém, quem teve a graça de banquetes felizes com familiares e amigos, aqueles amigos que levamos no coração, quem fruiu exaltadamente de concertos musicais, inolvidáveis, pois continuam a morar connosco, quem tentou descer até ao fundo sem fundo de si, quem foi abalado pela exigência incondicionada do dever a ponto de preferir ser morto a matar, quem se deixou amorosamente tocar por um tu que não se possui nem domina, quem foi alguma vez avassaladoramente visitado pela pergunta inconstruível: “porque há algo e não nada?”, quem se deixou confrontar com a vida de Jesus e o seu Evangelho por palavras e obras, sem se acobardar sabendo que acabaria por ser julgado e condenado à morte, e morte de cruz, por aqueles a quem a sua Mensagem não interessava, pelo contrário — representantes do Templo e do Império —, foi, é, tangido pela fímbria da eternidade... Então, onde e quando é a vida eterna? Aqui e agora, no Aberto. Sem esquecer os horrores do mundo.


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Sábado, 23 de Maio de 2026