sábado, 9 de maio de 2026

As “aparições” de Fátima

Crónica semanal de Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Nota introdutória

Em 2017, a célebre revista CONCILIUM, que se publica em várias línguas, pediu-me, atendendo ao centenário de Fátima, um texto sobre as aparições.
Porque muitas pessoas continuam a interrogar-se sobre as ditas aparições, permito-me, neste mês de Maio, retomar o texto.

1. Perguntam-me por vezes se acredito em Fátima. Respondo que Fátima não faz parte da fé católica, pode-se ser católico e não acreditar em Fátima. De qualquer forma, Fátima não é o centro do catolicismo.
Acrescento que não me repugna aceitar que houve em Fátima uma experiência religiosa. Os pastorinhos tiveram uma experiência religiosa, mas, evidentemente, foi uma experiência de crianças e à maneira de crianças, e enquadrada em esquemas próprios da sua visão do mundo e da religião, concretamente, a partir daquilo que ouviam na igreja e em casa. Por exemplo, nesse tempo, havia as famosas “missões”, com pregadores que chegavam armados com pregações aterrorizantes sobre o inferno, contra os pecadores, e, assim, é claro que a sua experiência teve aspectos benfazejos, mas também e talvez sobretudo aspectos tremendamente negativos, com dimensões de verdadeiro terror, quando, por exemplo, Nossa Senhora lhes teria feito ver as almas a arder no fogo do inferno. Que mãe agiria deste modo com os filhos, sobretudo na idade dos “videntes”, ainda crianças? Estou convicto de que essas imagens lhes tolheram a existência.

2. Fico a saber pelo biblista Ariel Álvarez Valdés, em Quién era la serpiente del Paraíso?, evd, 2016), que o fenómeno das aparições de Maria remonta aos primeiros séculos da Igreja, sendo o primeiro caso conhecido do século III, com São Gregório Taumaturgo, bispo de Neocesareia, na Ásia Menor. Três séculos mais tarde, o papa Gregório Magno conta como Maria apareceu de noite a uma menina, para anunciar-lhe a sua morte próxima. O caso mais extraordinário teria acontecido com São João Damasceno, século VIII, a quem Maria teria aparecido para restituir-lhe a mão direita, cortada pelo governador de Damasco. Foi durante a Idade Média que proliferaram as visões e as profecias, algumas tão fantasiosas que um teólogo do século XIII, o franciscano David de Augsburgo, se queixava: “Parece que a revelação de coisas secretas e futuras é cada vez mais comum e seduz numerosas pessoas, que crêem que vem do Espírito Santo o que na realidade é invenção da sua própria sugestão ou de uma inclinação errónea. Já estamos cansados de tantas profecias”. Entre 1928 e 1975, contaram-se mais de 300 manifestações de Maria em diferentes partes do mundo. O Dicionário das aparições da Virgem, de R. Laurentin, publicado em 2010, recolhe e analisa 2567 encontros de videntes com Maria.

3. Estou de acordo com o biblista, quando distingue entre aparições e visões. Maria não pode aparecer a ninguém. “Nunca o fez nem pode fazê-lo”. De facto, quem partiu para a outra vida não tem um corpo físico e, por isso, não pode ser visto nem ouvido, como acontece com os vivos deste mundo. Se fossem aparições, todos os presentes veriam e ouviriam. Trata-se, pois, de visões, isto é, de experiências subjectivas, não objectivas. Se, numa casa, uma pessoa entra, todos a verão: isso é uma “aparição”. Se alguém começar a dizer que está a ver a Virgem Maria, trata-se de uma “visão”. Em Fátima, só os pastorinhos a viram, tratando-se, portanto, de visões e não de aparições. Mesmo as centenas de pessoas que disseram ter presenciado o Sol a girar à maneira de uma bola de fogo não observaram um facto real, mas tiveram uma “visão”, embora colectiva. Aí está a razão por que, fora de Fátima, nos países vizinhos, ninguém o viu a girar: se tivesse girado, “o sistema solar teria ido pelos ares”.

Por outro lado, embora se trate de visões, não são necessariamente delírios. Em determinadas ocasiões, uma pessoa pode ter “autênticas experiências visionárias divinas”. Trata-se então de revelações com mensagens para o próprio, chamando-se por isso “privadas”. Quando “a hierarquia aprova uma manifestação mariana, aprova apenas o culto, a devoção, a oração sob determinada forma, mas não a visão nem as mensagens”.

Existem critérios para se saber se uma revelação privada pode ser autêntica? Há sobretudo um, essencial: não pode contradizer a realidade da Bíblia enquanto Palavra de Deus. “Maria não pode ir contra Deus”. Ora, frequentemente, isso acontece. Por exemplo, enquanto nos Evangelhos Maria é discreta, pode, nas revelações privadas, assumir um papel preponderante. Sobretudo e contra o Evangelho, notícia boa e felicitante, as suas mensagens são “lúgubres, tétricas, sombrias”. Por vezes, há mesmo afirmações heréticas, como quando, também em Fátima, se diz que ela disse que é ela que “detém o braço castigador do seu Filho, que quer destruir a humanidade”. Maria aparece então como sendo melhor do que Jesus e o Deus do Evangelho. Dá-se esta contradição: os fiéis, “em vez de procurarem protecção em Deus, procuram protecção contra Deus!”...

(Continua)

Anselmo Borges

Sábado, 9 de Maio de 2026

As “aparições” de Fátima

Crónica semanal de Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Nota introdutória Em 2017, a célebre revista CONCILIUM, que se publica em ...