terça-feira, 5 de maio de 2026

Em Fátima, rezei por ti

Jorge Pires Ferreira, 
Diocese de Aveiro

Quando era criança, guardei durante anos um bocado de sobreiro envernizado com um bocado de latão representando Nossa Senhora e os Pastorinhos e a legenda “Em Fátima, rezei por ti”. Se fosse hoje, talvez escondesse num canto tal oferta de um familiar. Aquele objeto, enquanto peça artística, corresponde ao mau gosto que enche tantas lojas de lembranças e recordações, como tão bem criticou Frei Bento Domingues. E muitos outros. Mas, para mim, na mesa de cabeceira, foi a certeza de que aquele familiar tinha rezado por mim, num tempo que que ir a Fátima era coisa que se fazia de cinco em cinco anos e levava o dia todo, mesmo para quem vivia apenas a pouco mais de cem quilómetros de Fátima, como é o caso de quem está na região de Aveiro. Só havia autoestradas à entrada de Lisboa e Porto.
“Em Fátima, rezei por ti”. Deitava-me e acordava e olhar para aquele bocado de sobreiro – talvez fizesse mais sentido que fosse azinheira, mas era mesmo sobreiro. E às vezes rezava por quem me tinha dado a lembrança e por outros. Se rezar por alguém era algo que se fazia em Fátima, também deveria ficar bem noutros locais. E eu ainda não tinha ido a Fátima.
Fátima lembra-nos precisamente isso. Três crianças, aparentemente frágeis e irrelevantes, receberam uma mensagem simples e ao alcance de todos: oração, conversão, reparação. Esta última palavra, no entanto, parece hoje completamente deslocada dos planos pastorais, das técnicas e dos métodos (ou então, ou estou desatento ou não frequento os locais certos).
Ainda há quem faça oração e gestos de reparação? Ainda há quem se dedique a rezar pelos outros? Há, sim. Há dias no “Correio do Vouga”, uma carmelita de clausura dava o seu testemunho de oração pelos outros. Mas, na prática comum dos cristãos, a reparação e a oração pelos outros, mesmo por grandes causas, não tem muitos praticantes. Lembro que ações como a oração pela paz pedida pelo Papa Francisco, antes da guerra na Ucrânia, e pedida pelo Papa Leão XIV, em abril passado, não colheram grande entusiasmo nas comunidades católicas. Talvez andemos algo descrentes sobre o valor da oração pelos outros.
Neste mês de Fátima, lembremo-nos mais de rezar uns pelos outros. Oração é encontro em Deus. E o encontro (o grande objetivo do cristianismo é encontrarmo-nos todos) continua a acontecer, de modo silencioso e transformador, cada vez que alguém reza por outro.
Neste mês de Fátima, fica a ideia: rezar por alguém. Ou duvidamos que vale a pena levar alguém diante de Deus com a seriedade de quem acredita que Ele escuta, que Ele age, e que o amor transforma a vida?


Jorge Pires Ferreira,
Diretor do semanário  Correio do Vouga 

Transcrito, com a devida vénia,  de Ecclesia

Em Fátima, rezei por ti

Jorge Pires Ferreira,  Diocese de Aveiro Quando era criança, guardei durante anos um bocado de sobreiro envernizado com um bocado de latão ...