sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Georgino Rocha: Deixando tudo, seguiram Jesus

Georgino Rocha
"Por Aquele que se mostrara de modo tão assombroso, estão dispostos a deixar barcos e redes, horas felizes de convívio e pescaria, de brisa e maresia. Começam a sonhar com outros mares e a afeiçoar-se a ser pescadores de homens, como o Mestre lhes anuncia"


Jesus está na margem do lago de Tiberíades. Numerosa multidão o acompanha e aperta para ouvir os seus ensinamentos. Vinha das populações vizinhas e também da Judeia onde ele havia pregado. Move-a a novidade da mensagem e o estilo de vida de Jesus, que atraía e irradiava. Move-a o sentido de confiança crescente que se irá confirmar com o episódio da pesca abundante. Move-a a ânsia profunda de ouvir a palavra de Jesus, mesmo depois de o ver afastar-se na barca de Pedro. Lucas, o autor da narração, faz um relato simbólico, que dá rosto ao agir histórico de Jesus na sua relação com os discípulos; portanto connosco. Vamos deter-nos em alguns passos. (Lc 5, 1-11).
“Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago”. Quer dizer o seu olhar desloca-se, deixa a multidão e procura um meio de ajuda. Precisa de outro espaço. Quer libertar-se do aperto em que se encontrava, procurar distância para se fazer ouvir, até porque as águas transmitem mais facilmente os sons e as palavras, iniciar um processo de envolvimento pessoal de Simão, Tiago e João, pescadores chegados da faina malograda.
Também, hoje, quantas barcas paradas nas margens da vida após noites de labuta intensa e sem resultado. Quantos sonhos desfeitos em corações jovens que alimentavam novas ousadias! Quantas amarras à liberdade a quem sente os impulsos do amor e deseja a verdade! São milhões os que, após um desaire, ficam nas margens da vida, sem terem quem se lembre deles e lhes dê a mão, pedindo um serviço. Ex-presos, drogados, sem tecto, indocumentados e tantos outros aí estão a dar rosto a esta tremenda realidade.

No próximo dia 11, celebra-se o 27.º Dia Mundial do Doente, proposto pela Igreja Católica. O Papa Francisco dedica-lhe uma excelente mensagem, da qual extraímos dois breves parágrafos. “O cuidado dos doentes precisa de profissionalismo e ternura, de gestos gratuitos, imediatos e simples, como uma carícia, pelos quais fazemos sentir ao outro que nos é «querido”. E “sabemos que a saúde é relacional, depende da interação com os outros e precisa de confiança, amizade e solidariedade; é um bem que só se pode gozar «plenamente», se for partilhado. A alegria do dom gratuito é o indicador de saúde do cristão”. E o Papa destaca, de modo especial, a missão dos voluntários, pois a mensagem tem por título: “Recebestes de graça, dai de graça”. E é um hino ao dom, à gratuidade, ao serviço ao débil e frágil, ao doente e idoso.

Simão, o dono de uma das barcas, acolhe o pedido de Jesus e afasta-se um pouco da margem. E Jesus, a partir de agora, toma a iniciativa e não a deixa mais. Dir-se-á que tem um projecto pessoal a realizar: senta-se, posição dos mestres que ensinam, e começa a falar. Lucas não refere a mensagem do discurso; prefere centrar a atenção no episódio da pesca abundante, do seu simbolismo eclesial e da vocação dos discípulos sócios da companha. Prefere que o leitor se faça peregrino e mergulhe na trama do relato, a fim de captar o seu alcance real e o projecte na actualidade: Estar com Jesus no mesmo barco, remar na mesma cadência, familiarizar-se com Ele e ser enviado em missão.

“Avança para águas mais profundas e lança as redes para a pesca”, diz Jesus a Pedro, homem experiente e, por isso, lhe dá as últimas informações sobre o inútil trabalho da noite. Depois, resoluto, afirma: “Em atenção à Tua palavra, lançarei as redes”. A brevidade do diálogo dá mais realce à atitude dos interlocutores. Jesus pede obediência a quem está cheio de experiência, pede energias revigoradas a quem se sente esgotado, pede mudança de rumo a quem estava seguro dos locais de pesca e das marés favoráveis. Pedro entrega-se e lança-se na aventura. Confiante, arrisca. Com a valentia de quem começa. E a surpresa acontece: “Apanharam tamanha quantidade de peixe que as redes se rompiam”. Lucas regista com pormenor o resultado da pesca, a abundância, fruto da cooperação humana com o agir divino. Abundância que reforça a prática da solidariedade activa. Abundância que gera um novo dinamismo relacional entre os pescadores, embrião do que virá a ser a comunidade dos discípulos de Jesus.

O episódio da pesca no lago de Tiberíades tem ainda outros detalhes que lhe fazem linda moldura e esboçam rico simbolismo. Vamos fixar-nos no acto final da narração: “Levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram Jesus”. O que fica descrito antes converge para a atitude de seguimento dos discípulos. Por Aquele que se mostrara de modo tão assombroso, estão dispostos a deixar barcos e redes, horas felizes de convívio e pescaria, de brisa e maresia. Começam a sonhar com outros mares e a afeiçoar-se a ser pescadores de homens, como o Mestre lhes anuncia.

“A cena é simbólica, afirma a Bíblia Pastoral. Jesus chama os seus primeiros discípulos, mostrando-lhes qual a missão que lhes está reservada: fazer que os homens participem da libertação trazida por Jesus e que só pode realizar-se no seguimento d’Ele, mediante a união com Ele e a Sua missão. O convite ao seguimento é exigente e precisa «deixar tudo» para que nada impeça o discípulo de anunciar a Boa Nova do Reino”. Ser livre de todas as amarras!

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