sábado, 29 de novembro de 2025

Velas ao Vento


 Velas ao Vento. Momento único.

Memórias de férias

 Aldeia Serrana

Quem nasceu e vive com o som do mar a embalar o seu adormecer, e sente, ao acordar, as ondas a espraiarem-se nas dunas, não pode deixar de sonhar, também, com a silhueta dos picos da serra, que ao longe nos desafia. A primeira vez que fui à serra, e à medida que me aproximava dela, os meus olhos de menino pouco viajado ficaram deslumbrados. Senti um não sei quê na alma, um prazer inexplicável que ainda hoje, tantos anos depois, é um mistério no meu espírito. À serra vou sempre que posso e às vezes até juro a mim mesmo que um dia por lá hei de ficar uns tempos largos, para calcorrear montes e vales, entre vegetação luxuriante ou entre penedos com formas estranhas de figuras fantásticas que enriquecem o imaginário de qualquer um.
Há dias fui ao Caramulo à procura desses ares límpidos, alimentados, e de que maneira, pelo verde que tudo enche, ao som de regatos que deslizam do cimo dos montes, por entre pedregulhos que amplificam o cantar da água saltitante que apetece beber a toda a hora. E quando a sede aperta, como apertou depois de um almoço de vitela assada que só por ali tem um sabor como em nenhuma outra parte, então foi um regalo beber uns bons copos de água de fonte natural, recebida em bilha de barro vermelho que a tornou mais fresca.
Campo de Besteiros, São Tiago de Besteiros, Guardão, Janardo, Pedronhe e Cabeço da Neve foram alguns recantos da Serra do Caramulo que uma vez mais pude contemplar em dia partilhado com amigos que não esconderam o sortilégio que estas terras transmitem a todos os que chegam. Ruas e estradas amplas ao lado de ruelas empedradas que lembram tempos ancestrais, histórias de lutas travadas entre íncolas serranos e povos invasores, casario a cair de podre porque gente teve de emigrar, habitações com sinais de quem regressou à terra depois de muito trabalhar e de lutar na estranja, sanatórios abandonados porque os tuberculosos já se curam em casa, sem a ajuda dos ares puros da serra, de tudo um pouco se foi fixando na retina dos meus olhos, que nunca se cansaram de apreciar miradouros naturais a paisagem a perder de vista.

O HOMEM E O TEMPO

Crónica  Semanal de Anselmo Borges 
no Diário e Notícias 

Porque estamos no Advento, que deveria preparar para o Natal, fica aí uma breve reflexão sobre o ser humano e o tempo. De facto, seria tremendamente lamentável que este tempo se reduza a compras compulsivas numa sociedade de consumo materialista e, no limite, niilista e, tanto quanto se pode observar, por isso mesmo, profundamente infeliz e sem sentido.
Característica essencial do ser humano é que conjugamos os verbos no passado, no presente e no futuro. Há quem julgue que a salvação está no passado. Há sempre os saudosistas do passado: antigamente é que era bom. É a saudade do Paraíso perdido... Também há aqueles que não querem preocupar-se nem com o passado nem com o futuro. O que há é o aqui e agora, o presente a que se segue outro presente. A salvação consiste no amor e fruição do presente... Depois, há os sonhadores e os ascetas. Fogem do agora, para refugiar-se no amanhã. Nunca estão no presente, pois a sua morada é só o futuro… Ora, pensando bem, se, por um lado, não podemos instalar-nos no passado, por outro, nenhum ser humano pode abandonar o passado, como se fosse sempre e só o ultrapassado. De facto, quando demos por nós, já lá estávamos, o que significa que vimos de um passado que nem sequer dominamos. E temos de aprender com o passado, nosso e dos outros, para, a partir dele, nos decidirmos no presente.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Papa João XXIII

Na Gafanha da Nazaré encontra-se uma rua que homenageia o Papa João XXIII. A placa toponímica é anterior à beatificação e canonização desse Papa que convocou o Concílio Vaticano II. 
João XXIII nasceu com o nome de Ângelo José Roncalli, em Sotto il Monte (Bergamo, Itália), no dia 25 de novembro de 1881. Com a morte de Pio XII, foi eleito Papa, em 28 de outubro de 1958. Faleceu em 3 de junho de 1963. Foi beatificado por João Paulo II, durante o Grande Jubileu de 2000, e canonizado pelo Papa Francisco, em 27 de abril de 2014.

C.F.

No Correio do Vouga

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Aos 10 anos...

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«Aos 10 anos todos nos dizem que somos espertos, mas que nos faltam ideias próprias. Aos 20 anos dizem que somos muito espertos, mas que não venhamos com ideias. Aos 30 anos pensamos que ninguém mais tem ideias. Aos 40 achamos que as ideias dos outros são todas nossas. Aos 50 pensamos com suficiente sabedoria para já não ter ideias. Aos 60 ainda temos ideias mas esquecemos do que estávamos a pensar. Aos 70 só pensar já nos faz dormir. Aos 80 só pensamos quando dormimos.»

Fala de Bartolomeu Sozinho, personagem de Venenos de Deus, Remédios do Diabo, de Mia Couto, Editorial Caminho

sábado, 22 de novembro de 2025

Para a história da ordenação presbiteral



Nos casamentos de antigamente havia as inevitáveis bodas bem preparadas com tempo e medida. As cozinheira sabiam o que fazer. E as iguarias eram preparadas com rigor. Serviam à mesa raparigas ou mulheres com regonhecida experência, vestidas a rigor, como se vê nesta foto. Es ta fotografia, porém, não diz respeito a casamento, mas a ordenação presbiteral de um jovem de Pardilhó.

PÁRA E PENSA - Perante o horror

Crónica semanal de Anselmo Borges

A inevitável pergunta: Onde está Deus?

Actualmente, porque, com a televisão e outros meios, temos acesso às imagens, talvez seja sobretudo perante os horrores das guerras que se pode ficar estarrecido perante o silêncio de Deus. São bombardeamentos que não deixam pedra sobre pedra, que matam indiscriminadamen homens, mulheres, crianças, e ficamos esmagados sobretudo pela dor, o clamor, as lágrimas, as desorientação das crianças inocentes. Onde está Deus?
Joseph Ratzinger, chamado aos 17 anos para o serviço militar do Reich, foi desertor e prisioneiro dos americanos. Já Papa Bento XVI, como já aqui escrevi, esteve em Auschwitz e fez um discurso dramático e deveras emocionante: "Tomar a palavra neste lugar de horror, de crimes contra Deus e contra o ser humano sem precedentes na História, é quase impossível, e é particularmente difícil e deprimente para um cristão, para um Papa que procede da Alemanha.