1.º de Maio de 2017 – um desafio à nossa coragem

O descanso do guerreio

Não vou hoje à procura do que escrevi sobre o 1.º de maio durante anos, nem desejo escrever sobre as lutas encetadas que levaram à festa dos trabalhadores, celebrada, tanto quanto sei, apenas nos países de regimes democráticos. Escrevo tão-só na qualidade de aposentado e de trabalhador que continuo a ser, não remunerado, mas feliz por isso. E agradeço o dom da vida que me permite sentir que a dignidade humana passa, indubitavelmente, pela alegria do trabalho, seja a que nível for.
Hoje acordei cedo. A presença de filhos no almoço e na tarde luminosa, com cenário de relvado para o neto mais novo, o Dinis, jogar e traquinar à vontade, despertou-me para ajudar na festa. Não para suster os seus remates indefensáveis, com os meus músculos já incapazes de reações bruscas no momento próprio, mas para ao menos preparar uma sopa. Foi o que fiz, para além de sair às compras inevitáveis.
Nestas andanças, de preocupações leves e gostosas, ainda me lembrei de passar, um momento curto que fosse, pelas festas do 1.º de Maio que de há bons anos a esta parte se realizam à sombra da Senhora dos Campos, na zona da antiga Colónia Agrícola da Gafanha, mas o receio de não suportar a caminhada impediu-me de sair. 
Fiquei então por aqui a pensar no mundo do trabalho com tanta gente sem o ter. Mundo com imensas áreas onde homens e mulheres, novos e velhos, dão o seu melhor, nem sempre remunerados com justiça e garantias de emprego, mas ainda sem certezas de uma velhice digna. O futuro incerto é o pior cenário de quem trabalha nesta sociedade de horizontes sombrios. Haverá outras melhores? Esse é o grande dilema que me assalta frequentemente. 
Apesar de tudo, a festa é sempre uma excelente oportunidade de cultivar amizades, de rever amigos, de partilhar saberes e… sabores. A festa pode aliviar as dores, afugentar temores, despertar para novos caminhos de esperanças sadias e fraternas. A festa… a festa… a festa … pode ser motivo de libertação, de motivação, de abertura a novas partidas, a novos desafios, que parar é morrer.
Gosto muito de ver jovens corajosos e empreendedores que se abalançam a construir projetos jamais imaginados. Que não se quedam à espera que lhes caia do céu um emprego bem remunerado. Não há milagres desses. O milagre é inerente ao nosso esforço determinado para saltar da modorra que conduz ao desânimo. 
Até para o ano… Com um 1.º de Maio mais feliz.

Fernando Martins

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