Eucaristia: a revolução

Crónica de Anselmo Borges 

Última Ceia. Painel Cerâmico  de Manuel Ângelo Correia
1. Um bispo, pessoa inteligente e estimável, perguntou-me: "O que é que se responde a uma criança de 12 anos que, depois de uma procissão do Santíssimo, me veio dizer: "Tu não levavas Cristo, pois não? Tu não podias com ele!..."" Respondi-lhe: "Olhe, senhor bispo, o que é que se deve responder exactamente não sei. Sei é que se não deve ensinar o que, depois, leva até uma criança a fazer observações dessas." Tudo por causa da Eucaristia e da presença real de Cristo.
Jesus, na iminência da condenação à morte, ofereceu uma ceia, a Última Ceia. Nela, abençoando o pão e o vinho, que significam a entrega da sua pessoa por amor a todos, disse: "Fazei isto em memória de mim." Os primeiros cristãos reuniam-se e, recordando (recordar é uma palavra muito rica, pois significa voltar a passar pelo coração) essa Ceia, o que Jesus fez e é, celebravam um ágape, o "partir do pão", uma refeição festiva e fraterna em sua memória, abertos a um futuro novo de Vida. E aconteceu o que constituiu talvez a maior revolução do mundo: se algum senhor se tinha convertido à fé cristã, sentava-se agora à mesma mesa que os seus escravos, em fraternidade.

2. Mais tarde, também porque os cristãos eram acusados de não oferecerem sacrifícios à divindade, a Missa foi perdendo esse carácter de banquete festivo e fraterno e começou a ser concebida como sacrifício. Havia aí uma imolação e - ainda li isso num manual de Teologia - uma "mactatio mystica Christi" (matação mística de Cristo), discutindo-se se era real, moral, sacramental. Mas, desta transformação, resultaram tremendos equívocos.

3. Evidentemente, Jesus não fugiu, aceitou a morte de cruz e entregou-se a si mesmo a Deus, dando testemunho da Verdade e do Amor. Mas não à maneira de vítima sacrificial, para impetrar a misericórdia de Deus e aplacar a sua ira. Uma concepção cultual sacrificial contradiz a revelação essencial de Jesus: "Deus é amor incondicional." Portanto, não precisa de sacrifícios expiatórios.
Com esta concepção sacrificial, embora o Novo Testamento tenha evitado a palavra hiereus, apareceu o sacerdote que oferece o sacrifício. Com a celebração diária da Missa enquanto sacrifício, impôs-se a obrigação do celibato, pois o sacerdote está separado, à parte, e, tocando no Corpo do Senhor, não pode tocar a profanidade impura do corpo da mulher. Precisamente por esta razão, a mulher é excluída do sacerdócio, já que é naturalmente impura. Em parte, radica aqui a misoginia da Igreja, até com traços ridículos: disse um bispo: como é que a mulher, feita para ser mãe, poderia sacrificar o Filho de Deus?
Os sacerdotes acabavam por adquirir um poder divino: o de "trazer Cristo à Terra", realizando o milagre da transubstanciação do pão e do vinho. Se se casarem, são "reduzidos" ao estado laical, como se ser clérigo fosse um estado mais nobre dentro da Igreja. Nesta situação de "redução", haverá hoje mais de cem mil, que, noutro quadro de compreensão, poderiam prestar grandes serviços à Igreja e ao mundo.
A Eucaristia deixou, pois, de ser celebração festiva em que todos participavam activamente, para tornar-se um sacrifício objectivo autónomo, que o padre até podia celebrar sozinho e que oferecia pelas almas do purgatório e outras intenções. Era possível ir à Missa e não comungar, pois está-se lá, mas de fora, esquecendo que a celebração da memória de Jesus deve implicar uma real conversão ao seu projecto. E aí estão os católicos "não praticantes": foram baptizados, mas não vão à Missa. Pergunta-se: mas praticam a justiça e a fraternidade, aliviando a cruz de tantos?
E, depois, esta distorção: as "Missas oficiais", a que assistem agnósticos, ateus, indiferentes, patifes e ladrões sem arrependimento...

4. Os católicos acreditam na presença real de Jesus Cristo na Eucaristia? A resposta é sim. Mas é preciso distinguir entre presença física e coisista e a presença real pessoal. Um homem e uma mulher, pela relação sexual, estão fisicamente presentes, mas, se não houver amor, estão realmente ausentes como pessoas. Também pode acontecer que tenham de estar fisicamente ausentes, mas, se houver amor, continua a presença real entre eles.
O filósofo Hegel viu bem o perigo desta coisificação: referindo-se à celebração da Eucaristia, escreveu que, segundo a representação católica, "a hóstia - essa coisa exterior, sensível, não espiritual - é, mediante a consagração, o Deus presente - Deus como coisa". Paradoxalmente, com a interpretação coisista da presença de Cristo, muitos cristãos, indo à Missa e não comungando, vêem-se libertos da urgência da conversão ao projecto de Jesus. Ora, precisamente nesta não conversão é que São Paulo via que "comemos o pão e bebemos o cálice do Senhor indignamente", tornando-nos "réus do corpo e do sangue do Senhor", isto é, culpados da sua morte: de facto, o que ele condena na comunidade de Corinto são as suas divisões e que, enquanto uns comem lautamente e se embebedam, outros passam fome.

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