Eu fui, lavei-me e comecei a ver

Reflexão de Georgino Rocha


«Acreditar em Jesus 
é acreditar no ser humano, 
como ele sempre faz. 
Em todas as circunstâncias.» 


A clareza da afirmação deixa perceber a grandeza do acontecido. A simplicidade da resposta reenvia o sentido da pergunta. A brevidade da frase indicia o início de um longo processo. A cura do cego operada por Jesus de Nazaré manifesta as maravilhas de Deus e gera um dinamismo interpelante em círculos humanos progressivamente alargados. Surge um novo modo de ver que marca a caminhada na fé de quem faz o itinerário de iniciação ao baptismo, à vida cristã. (Jo 9, 1-41).
Jesus anda em missão. Encontra um cego de nascença. Os discípulos que o acompanhavam ficam inquietos e querem saber o por quê da situação. Pensam que, de acordo com a moral judaica, a doença é fruto do pecado, que tem de haver alguém responsável e era preciso repor a justiça ferida. Não descortinam outros horizontes nem alvitram novas hipóteses.
Jesus tem outro olhar. Em vez do por quê, responde com o para quê. Não está voltado para o passado, mas aberto ao futuro. E por isso desliga do pecado o sucedido e de quem o possa ter cometido, e desvenda o sentido real do que está em causa: ser oportunidade para se manifestarem as obras de Deus. E exorta os discípulos a estarem atentos ao que acontece, a discernirem na sua complexidade o sentido que veiculam, a captarem a mensagem que transmitem, a saberem adoptar a atitude ética coerente, a sonharem outras ousadias.
"Eu hoje quero pedir-lhe (a São José), declara o Papa Francisco, que dê a todos nós a capacidade de sonhar, porque quando sonhamos coisas grandes, coisas bonitas, nos aproximamos do sonho de Deus, das coisas que Deus sonha para nós. Que aos jovens dê, porque ele era jovem, a capacidade de sonhar, de arriscar e assumir as tarefas difíceis que viram nos sonhos. E dê a todos nós a fidelidade que geralmente cresce num comportamento justo, e ele era justo, cresce no silêncio, poucas palavras, e cresce na ternura que é capaz de proteger as próprias fraquezas e as dos outros”. Bela e auspiciosa exortação!
O desenrolar da cena visualiza muito bem o propósito de Jesus, feito recomendação. Toma a iniciativa, aproxima-se do cego, prepara o lodo da unção, e mando-o ir lavar-se à piscina de Siloé, que quer dizer «Enviado». Confiante, o homem cumpre e volta curado. Saboreia o primeiro dia de luz. Vê as pessoas e enxerga as coisas. Contempla rostos e admira sorrisos. Que felicidade!
Amarrados pela lei, os familiares e vizinhos, os fariseus e judeus, não se concentram na maravilha realizada, mas convergem na mesma questão: quem o fez transgrediu a lei´; é pecador, merece castigo. E o processo “judicial” arrasta-se, percorrendo todas as instâncias formais e acaba inconclusivo.
Os pais, questionados sobre o cego, garantem ser seu filho e, por medo, dizem nada mais saberem. Os vizinhos, interrogados sobre o que fazia antes da cura a fim de o identificarem, não chegam a qualquer conclusão. Os fariseus apressam-se a sentenciar: quem faz curas ao sábado não vem de Deus, embora alguns sentissem o “aguilhão” da dúvida. Os judeus, insatisfeitos com o desenrolar do processo, chamam de novo o cego curado, e repetem-lhe as perguntas já feitas, que obtêm as mesmas respostas. 
Então a desconsideração chega ao insulto e à expulsão. “Trata-se, afirma J. M. Castillo, de um processo de crescente solidão: abandono da sociedade, rejeição da família, expulsão da religião”. É terrível!
Sozinho e enxovalhado, entregue à dor que lhe trouxe a nova situação em contraste com a alegria contida, a “dar voltas” a sentimentos e pensamentos contrastantes, vê Jesus que se aproxima e lhe pergunta: “Tu acreditas no Filho do homem?” O cego curado responde: “Quem é, Senhor, para que eu acredite n’Ele”. “É quem está a falar contigo”. Então, prostrou-se e exclamou: “Eu creio, Senhor”. Em ti, o Filho do homem, em quem brilha a luz divina.
Acreditar em Jesus é acreditar no ser humano, como ele sempre faz. Em todas as circunstâncias. Tirando partido das mais diversas situações. E viver uma fé confiante na pessoa, seja quem for, é “reproduzir” o exemplo deixado pelo Mestre da Galileia.
O santo bispo Teófilo de Antioquia afirma num dos seus escritos: “Se tu me dizes: «Mostra-me o teu Deus», eu posso responder-te: «Mostra-me o homem que há em ti, e eu te mostrarei o meu Deus». Mostra-me, portanto, como vêem os olhos da tua mente e como ouvem os ouvidos do teu coração.
A cegueira humana dá lugar à luz da fé, ainda que inicial. O itinerário não está isento de obstáculos, sempre superados. Após a aproximação de Jesus, a confiança e a cooperação “varrem” a indiferença e a exclusão, o amor à verdade libertadora vence os medos e as ameaças, a alegria da fé em Jesus compensa o desconforto provocado pelos familiares e responsáveis religiosos. A firmeza da convicção, qual rocha granítica, atesta a adesão cordial e o sentido novo da opção tomada.
“Eu fui, lavei-me e comecei a ver”, reconhece o cego curado. É esta a nossa esperança desde o início da vida crista, no baptismo.

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