domingo, 6 de setembro de 2015

Saber envelhecer

"Saber envelhecer é a obra-prima da sabedoria 
e um dos capítulos mais difíceis na grande arte de viver"

Hermann Melville (1819-1891), 
escritor, poeta e ensaísta norte-americano

Li no Público de hoje

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sábado, 5 de setembro de 2015

Faleceu o escritor gafanhão Ascêncio de Freitas

Ascêncio de Freitas
No passado dia 23 de agosto, faleceu na Amadora, onde residia, o escritor gafanhão Ascêncio de Freitas.  Natural da Gafanha da Nazaré, viu a luz do dia no Forte da Barra em 3 de agosto de 1926, tendo concluído,  recentemente, 89 anos de vida.
Em 1949, fixou-se em Moçambique, onde viveu três décadas, sem nunca esquecer as suas raízes. Nos seus livros, de vez em quando, deixava transparecer ou evocava com nitidez marcas indeléveis das suas origens. Na sua obra, sobretudo contos e romances, Ascêncio de Freitas apoia-se, com riqueza de pormenores, fundamentalmente, em vivências moçambicanas, o que lhe deu legítimo direito a integrar antologias daquele país irmão. 
Em Portugal, o escritor gafanhão foi galardoado, com merecido  reconhecimento, pela sua obra, de que destacamos “Cães da Mesma Ninhada” (Prémio Cidade da Beira “A Reconquista de Olivença” (Prémio Vergílio Ferreira), “O Canto da Sangardata” (Prémio Pen Clube),”A Noite dos Caranguejos” (Prémio Ferreira de Castro) e “A Paz Enfurecida” (Escrito com Bolsa do IPLB — Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, obtida por concurso).
Ascêncio de Freitas, que nunca olvidou a sua terra, vinha com alguma frequência à Gafanha da Nazaré, onde colaborou com amigos e instituições. Por isso, a ADIG (Associação para a Defesa dos Interesses da Gafanha da Nazaré) prestou-lhe significativa homenagem em 8 de julho, tal como fez a Câmara Municipal da Amadora pouco tempo antes do seu falecimento.
Em sua memória, publicamos um expressivo  texto do seu livro “Ai, Amor!”, cuja primeira edição saiu em janeiro de 2009.


         «O capitão Armando Vieira, do mesmo modo familiar com que o tinha recebido pela primeira vez logo após a chegada, fez entrar o amigo da juventude pela porta da cozinha, com as manifestações de alegria de quem acolhia em sua casa alguém que tivesse acabado de regressar, ileso, de uma batalha perdida
         e a cozinha estava inundada de um odor forte, saído de algo que estava a cozinhar, que fez recordar ao tio Florêncio a caldeirada de bacalhau
         não obstante ele pensou que não poderia adivinhar de forma tão simples e imediata que seria esse “o jantar gafanhão” que lhe tinha sido prometido, pois a caldeirada não poderia nunca ser considerada um prato gafanhão, nem tão-pouco apenas português
         — Estás a lembrar-te de alguma coisa conhecida neste cheirinho que está aqui na cozinha, não estás, sócio?
         mas eu aposto singelo contra dobrado em como não adivinhas o que a Adélia tem ali a cozinhar
         — Guiado pelo cheiro, eu apostaria que se trata de caldeirada de bacalhau
         mas ao mesmo tempo qualquer coisa me diz que perderia a aposta, porque este aroma que anda no ar não é exactamente igual ao da caldeirada
         perderia… seguramente
          porque depois de teres prometido um jantar gafanhão, seria falta de imaginação apresentares-me para comer uma banal caldeirada de bacalhau
         embora seja coisa que não como há muitíssimo tempo
         só que ninguém poderá dizer que se trata de um prato gafanhão
         os bascos e os galegos também a fazem
         — Deixa-te de divagações e vem dar uma espreitadela
         disse o capitão Armando Vieira
         aproximou-se do fogão, retirou a tampa do tacho e uma intensa nuvem de vapor subiu no ar
         depois de a deixar dissipar, o capitão Vieira fechou os olhos e aproximou o rosto do recipiente, de onde saía, junto com a branda fumarada, o som de um suave borbulhar
          — Oh, assim estragas a surpresa, Armando
         protestou Adélia
         mas ele aspirava o vapor que saía do tacho e comentava:
         — Hum, este cheiro a salgado entra-me no nariz e trepa-me até à alma
         vem cheirar, vem cheirar este perfume que nos lembra o mar e é como se fossem as mãos dos anjos a acariciar o que há de melhor dentro de nós
         ah, e como formosa nos parece a vida saboreando estes petiscos
         melhor do que isto só  lagosta suada ou bacalhau á Freitas
         o tio Florêncio aproximou-se dele e espreitou para dentro do tacho
         aspirou também o cheiro da comida
         — Então que tal?
         — Não estou a ver o que possa ser
         cheira a bacalhau… mas ao mesmo tempo há qualquer coisa de diferente neste cheiro
         — São sames, sócio, são sames, que já não deves comer há muito tempo
         — Sames?
         caramba, há mais de trinta anos que não me lembrava sequer dessa estranha palavra, quanto mais comê-los   
         — Sim senhor, um guisadinho de sames de bacalhau, bem à gafanhoa
é ou não é?»

Excerto do capítulo oitavo
do romance “Ai, Amor”



NOTA: Só hoje me foi possível escrever este texto de homenagem a um escritor gafanhão que admirava pela originalidade da sua escrita cheia de memórias,  algumas das quais referentes à nossa terra e nossas gentes. Longe da casa, não tinha à mão o texto com o qual desejava prestar-lhe a minha gratidão. 

F.M.

Dezassete cardeais na oposição

Crónica de Anselmo Borges 
no DN


Anselmo Borges

1. Claro que é muito antiga, mas a questão da comunhão para os divorciados que voltaram a casar-se tornou-se agora acesa, por causa da nova atitude que o Papa Francisco quer para esta situação. Já em Julho de 2013, quando regressava das Jornadas Mundiais da Juventude no Rio de Janeiro, disse no avião, em conversa com os jornalistas, que era necessário rever "o problema da comunhão para as pessoas que voltaram a casar-se", e pensava na misericórdia: "Se o Senhor não se cansa de perdoar, nós não temos outra escolha."

Rapidamente se ergueram as vozes de figuras altamente situadas, opondo-se à abertura. A oposição tem sido liderada por cinco cardeais: "Não é coerente com a vontade de Deus" (Gerhard L. Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé), vai "contra a vontade do Senhor" (Carlo Caffarra), é ilícita, porque põe em causa "a lei divina" da "indissolubilidade do casamento" (Velasio De Paolis), é "insustentável" (Walter Brandmüller), o recurso à misericórdia sem verdade atenta contra a fé (Raymond Leo Burke). É sobretudo Burke que está à frente da chamada "Filial súplica a Sua Santidade para o futuro da família", que já tem meio milhão de assinaturas, também de bispos e cardeais, na qual se pede ao "Papa Francisco que reafirme categoricamente o ensinamento da Igreja de que os católicos divorciados e que voltam a casar-se civilmente não podem receber a Sagrada Comunhão e que as uniões homossexuais são contrárias à lei divina e à lei natural". São agora 17 os cardeais que se opõem à abertura da comunhão aos recasados, com a publicação de dois livros, em várias línguas, para pressionar o Sínodo de Outubro: "Onze cardeais falam sobre o casamento e a família" e "África, nova pátria de Cristo. Contributos de pastores africanos para o Sínodo".

Abre-te a um novo olhar

Reflexão de Georgino Rocha




“Fomos e regressámos da lua, 
mas temos enorme dificuldade 
em atravessar a rua para visitar o vizinho”


O episódio do surdo-mudo ocorre na região da Decápole, situada além Jordão, território independente, habitada por gente pagã. A missão para Jesus não tem fronteiras nem faz discriminações, não se limita a confirmar o que há de bom no homem, mas visa iniciar uma nova criação.
Marcos – o evangelista narrador – condensa, neste episódio, uma expressiva mensagem, valiosa para todos os tempos, mas sobretudo para os nossos, tão profundamente marcados pela surdez e incomunicação generalizadas, na era em que torrentes de informação circulam sem limites de qualquer espécie. Mc 7, 31-37.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

GDG vence prémio de Prato Principal no Festival do Bacalhau

 Primeira participação do GDG 
em tenda que lhe foi atribuída 
pela organização




Lombo de bacalhau com crosta de ovas e pimento, esmagada de batata com açafrão, legumes grelhados e molho de coentros e salsa.

Ingredientes:

800g lombo bacalhau 
100g ovas bacalhau cozidas 
50g broa (miolo) 
50g pimento vermelho (assado) 
500g batata
100g courgette 
100g tomate 
20g salsa
20g coentros 
Azeite Q.B. 
Sal Q.B. 
Pimenta Q.B. 
Açafrão Q.B. 
2 dentes de alho 
Vinagre Q.B.

Preparação:

Retire a pele e as espinhas aos lombos do bacalhau e, de seguida, deixe-o corar em azeite. 
Na picadora, triture a broa com as ovas, alho, pimento, sal, pimenta e azeite. 
Cubra o bacalhau com o preparado e leve ao forno a 180 graus.
Coza as batas e escorra-as e, depois, esmague-as, envolvendo-as em azeite e açafrão. 
Grelhe o tomate e a courgette em rodelas, com sal e pimenta.
Prepare o molho com salsa, coentros, azeite, vinagre, sal e pimenta. 
Misture tudo e passe com a varinha mágica, regando, depois, o bacalhau com este molho.

Receita gentilmente cedida pelo Chef Nuno Pinheiro, autor do prato vencedor do Concurso Gastronómico (pelo Grupo Desportivo da Gafanha), na categoria “Prato Principal”, realizado no âmbito do Festival do Bacalhau 2015.

Agenda “Viver em…” da CMI

Nota: Permitam-me que felicite o Grupo Desportivo da Gafanha (GDG) pelo primeiro prémio recebido no Festival do Bacalhau, na categoria de Prato Principal. O GDG, que participou pela primeira vez no Festival numa tenda que lhe foi atribuída, mostrou à evidência que nestas festas é preciso inovar, fugindo um pouco (ou muito) ao mais do mesmo. Que o seu exemplo contagie as demais associações que costumam marcar presença nesta festa de tanta repercussão no nosso país. As felicitações são extensivas, naturalmente, ao criador do prato, Nuno Pinheiro.

F.M.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Os Passadiços do Paiva

Passadiços (foto do Fugas)

Ultimamente tenho lido e ouvido falar dos já célebres Passadiços do Paiva, uma construção de madeira que serpenteia por paisagens deslumbrantes, permitindo um contacto direto e íntimo com a natureza pura. Li no Fugas, caderno do Público com edição semanal, aos sábados, e noutras revistas e blogues. E se gosto do que os jornalistas escrevem sobre este passadiço, no concelho de Arouca, entristece-me a certeza da minha impossibilidade de fazer aquele percurso, como milhares de pessoas decerto já experimentaram, para regalo dos olhos e da alma. 
No Fugas garante-se mesmo que o passadiço vai ser aumentado com mais uns 12 quilómetros, beneficiando de bares, museus e outros apoios que tornem mais atraentes a cultura da natureza e a vida sadia que ela proporciona.

Leia muito mais aqui e aqui.

Que fizeste ao teu irmão?

Uma crónica de de João Miguel Tavares 
no PÚBLICO de hoje


«Digam-me: em que momento é que deixámos de nos preocupar? Em que momento é que nos tornámos indiferentes ao sofrimento de centenas de milhares de pessoas, muitas das quais mulheres e crianças que perderam tudo e que buscam salvação na Europa, ao mesmo tempo que pintamos com cores de tragédia planetária a sobretaxa do IRS ou os números do desemprego? Aqueles que morrem asfixiados em camiões ou afogados no Mediterrâneo — eis os verdadeiros pobres. Mas a nossa piedade em relação a eles é ínfima, e é extraordinário que os estrondosos gritos de "parem com a austeridade" se transformem num murmúrio quase inaudível quanto se trata de pedir para salvar as vidas de quem nada tem.»

Dar

"Só estareis a dar quando vos derdes a vós mesmos"

Khalil Gibran (1883-1931) 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Falta de água sugere reflexão

A água é um bem escasso 
em muitas regiões do mundo
Riacho em Piódão
As obras ligadas ao abastecimento de água, sem dúvida necessárias, privaram-nos hoje, durante o dia, desse precioso bem. E todos, certamente, sentimos quanto pesa no dia a dia, para os mais diversos fins, a água que nos é fornecida pela empresa abastecedora. Garrafões, alguidares, tachos e panelas, tudo serviu para armazenar água. Deu para perceber como é difícil viver sem ela. Quem ainda tem o motor para rega não deixou de o utilizar na emergência. Foi o nosso caso.

São conhecidas inúmeras histórias no nosso país de mortes provocadas pelos direitos adquiridos sobre as águas de riachos e ribeiros para rega de campos particulares. Um rego de água desviado podia dar em mortes. É que agua é vida. Também todos nós conhecemos nações onde a água é racionada e vale ouro. Um poço para abastecimento de água em certas aldeias é a maior riqueza a que um povo pode aspirar. 

Desde há muito que ouço que as guerras provocadas pela falta de água podem ocorrer a qualquer momento. E a simples falta de chuva, no nosso país, com a seca a acentuar-se, pode originar desastres  económicos e sociais  de monta. 

A água ainda há poucos anos era um bem quase gratuito e duradouro, mas presentemente já se clama que estamos à beira de a considerarmos como um bem a caminhar para a escassez. E o preço dela, quem tem de a pagar mês a mês, continua a subir.

Penso que este dia nos poderá servir de lição para no futuro cuidarmos de poupar água no uso diário, cuidando ainda de não a poluir. O Papa Francisco, com a sua mais recente encíclica, veio pôr em cima dos nossos ombros a missão de cuidarmos da natureza, onde a água ocupa um lugar de honra. 

domingo, 30 de agosto de 2015

Prazeres de férias

Impressões de férias 
Bar onde costumava tomar café

É óbvio que os prazeres de férias são diversos. Tenho para mim que não haverá duas pessoas com prazeres rigorosamente iguais. Também temos dias para nos sentirmos mais felizes que outros em tempo de férias. Eu gosto sobremaneira de silêncio, de paz interior, de estar com quem amo e por quem sou amado. Sinto-me bem a divagar por ruas tortuosas e a apreciar amplos horizontes. Gosto de identificar paisagens urbanas de tempos idos e de registar factos com história. Ler muito e variado, poesia, romance, ensaio e história. De tudo um pouco, afinal.
Em férias, tenho apetência por me encontrar comigo mesmo e com Deus. E mais ainda: com minha mulher, a Lita, com filhos e netos e demais familiares. Também aprecio uns petiscos e comida típica das terras por onde passo. Pena é que os restaurantes, salvo raras exceções, se fiquem pelos pratos triviais de sabores iguais em qualquer canto. E assim cheguei ao fim destas curtas férias na Figueira da Foz, neste verão de 2015. Até para o ano, se Deus quiser.

Um poema de João de Barros

Na romagem ao poeta figueirense





AQUELE MAR

Aquele mar da minha infância,
bom camarada e meu irmão
a sua voz, o seu olor, sua fragrância
tanto os ouvi e respirei
que trago em mim o seu largo ritmo,
seu ritmo forte,
como se as praias onde espuma
quase me fossem
praias sem fim dentro de mim
ocultas praias, largas praias
do tumultuoso coração…

Aquele mar
meu confidente de horas idas
tudo escutava e adivinhava
do meu pueril e ingénuo anseio.
Nada sonhei que o não dissesse
– frémito de alma, grito ou prece –,
às madrugadas e aos poentes,
ao sol, às nuvens, ao luar,
ora nascendo, ora morrendo
nos longos, longos horizontes
em que se perdia o meu olhar…

Aquele mar
na calma azul, no temporal,
nunca mentia: era um só beijo,
hálito puro, largo harpejo
que me entendia e respondia
no seu inquieto marulhar…
Moço e menino, solitário,
rochas, falésias, areais
eu coroava-os de alegria
nos meus passeios matinais.
Ou nalgum barco pescador,
velas abrindo a todo o pano,
do oceano então era senhor,
largava a escota, navegava,
no vão desejo de aventuras,
que não chegava a realizar…
Mas era meu, e eu pertencia-lhe,
àquele mar,
era seu filho, escravo e dono,
sorria à sua Primavera,
amava a luz do seu Outono,
o vivo lume dos estios
a violência dos Invernos
longos clamores de temporais.
Aflito voo das gaivotas
junto das negras penedias,
também como ele me perdias,
nas tardes tristes e sombrias,
na bruma gélida das noites…
E a eternidade então ouvia
humano sonho sempre esquecido
na eterna voz que fala o mar.






NOTA: Edição de “Mar Alto” –  Figueira da Foz,
1 de Junho de 1969, no dia da Festa da Cidade ao poeta.



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