quarta-feira, 22 de abril de 2015

Os "banha da cobra"




De vez em quando, o saco das minhas memórias, talvez por demasiado cheio, abre brechas e algumas recordações saltam cá para fora. É curioso que, pensando bem, não brotam por dá cá aquela palha, porque, sem eu me dar conta, haverá razões que me fazem reviver cenas da minha infância. 
Hoje, por exemplo, lembrei-me dos "banha da cobra" que montavam banca às portas das igrejas, aos domingos, depois da missa, mas também nas feiras e arraiais. Chegavam com uma ajudante, subiam para um palanque, mala em cima de uma mesa improvisada, e mal o povo começava a sair da missa, punham-se a apregoar os seus produtos, em especial a "banha da cobra", que curava todas as maleitas, num esfregar de olhos. 
A pomada, afiançavam, exibindo atestados dos mais eminentes cientistas de Portugal e arredores, curava mesmo tudo. Dores de cabeça e de dentes, urticária, nervos e artroses, diarreias e sarampo, reumatismo e cólicas de qualquer espécie, queda do cabelo e impingens, torcicolos e trasorelho, mau-olhado e invejas, entorses e ventre descaído, unhas encravadas e tumores... Era tão milagrosa que até nem se podia vender nas farmácias, porque dispensava todos os outros fármacos, o que se traduziria em prejuízo para o negócio dos farmacêuticos e das indústrias que lhe estavam ligadas.
A conversa do vendedor, com paleio para dar e vender, com ou sem megafone, era de tal modo convincente que o povo, antevendo a cura dos seus males, queria doses dobradas, para si e família e até para vizinhos. E como especialistas em técnicas de vendas, com a ajuda da colaboradora, começava a distribuição, clamando alto e bom som que, quem pagar duas bisnagas leva três. Três para esta senhora, seis para aquele cavalheiro, e mais para esta aqui, que anda um pouco amarela, mas que vai ficar rosadinha, com a pomada santa.
O negócio evoluiu e do megafone os “banha da cobra” saltaram para a aparelhagem sonora, que guinchava que se fartava. E chegou aos nossos dias, com honras da rádio e da televisão. Bem-falantes, bem engravatados, com história que não muda. Leve duas embalagens e pague uma. O elixir da longa vida e da eterna juventude está na conversa fiada de gente que promete mundos e fundos para a nossa desejada felicidade… É só ouvir e seguir os seus conselhos. Ou fugir deles…

terça-feira, 21 de abril de 2015

Humildade

"A humildade é a base e o fundamento de todas as virtudes
 e sem ela não há nenhuma que o seja". 

Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616)

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Grandes veleiros



Tenho saudades dos grandes veleiros. São espetáculo raro entre nós, mas quando chegam ou zarpam, rumo a outras paragens, deixam saudades. Multidões, de perto e de longe, sabem apreciá-los e a romaria estende-se a todos os que se abrem aos olhares de curiosos e entendidos. O porte e o colorido são desafios para a nossa imaginação. Neles, seriam viagens de sonhos ímpares que guardaríamos vaidosos. Que haja motivos fortes para que demandem a barra de Aveiro e ancorem nos cais do nosso porto. São os meus votos.

Naufrágios e mortes no Mediterrâneo



Somos bombardeados frequentemente pelas notícias de naufrágios e mortes no Mediterrâneo. Tristeza, revolta, hipocrisia, crime, desespero, fome, desemprego, miséria, tráfico de pessoas, clandestinos, guerras, perseguições e políticas desumanas são palavras que me ocorrem. 
O Papa Francisco bem protesta, bem diz que a palavra que lhe ocorre é vergonha, mas tudo continua na mesma. Há leis e políticas de imigração e de emigração, há reportagens e mobilização de algumas instituições humanitárias para acudir aos sobreviventes e decerto para enterrar os mortos. Mas os desastres continuam e os políticos europeus permanecem atentos ao seu umbigo. Agora parece que vão reunir-se numa cimeira de emergência para tentar encontrar uma saída. Pode ser que daqui nasça uma comissão para estudar o assunto.

domingo, 19 de abril de 2015

Miguel Torga para refletir


Uma carta à Diretora do PÚBLICO


Miguel Torga actual

Partilho um pedaço da boa prosa de Miguel Torga, escrita em Chaves e publicada no seu Diário XIII. Escrita em 12 de Setembro de 1978? Não será gralha? Parece que Torga ressuscitou - para ver, com olhos tristes e cansados, os meninos a brincarem, chamando-se nomes e mais nomes feios, a candidato a candidato a Presidente da Res Publica (?) - e escreveu isto ontem... "com oitocentos anos de História, parecemos crianças sociais. Jogamos às escondidas nos corredores das instituições." Senhora directora, caros jornalistas, amigos leitores, leiam e reflictam, por favor, sobre este texto tão actual porque vos fará bem, ainda hoje, ainda hoje! “Bem quero, mas não consigo alhear-me da comédia democrática que substituiu a tragédia autocrática no palco do país. Só nós! Dá vontade de chorar, ver tanta irreflexão. Não aprendemos nenhuma lição política, por mais eloquente que seja. Cinquenta anos a suspirar sem glória pelo fim de um jugo humilhante, e quando temos a oportunidade de ser verdadeiramente livres escravizamo-nos às nossas obsessões. Ninguém aqui entende outra voz que não seja a dos seus humores. É humoralmente que elegemos, que legislamos, que governamos. E somos uma comunidade de solidões impulsivas a todos os níveis da cidadania. Com oitocentos anos de História, parecemos crianças sociais. Jogamos às escondidas nos corredores das instituições.”

Nelson Bandeira, Porto

A ressurreição não pode ser adiada (2)

Crónica de Frei Bento Domingues 

Frei Bento Domingues

1. Creio que a nossa ressurreição depois da morte é tarefa exclusiva do Deus dos vivos. Está bem entregue.
É a ressurreição dos mortos-vivos, dos sem rosto, dos mais pobres, dos mais desfavorecidos, dos não rentáveis, dos ejectados do círculo virtuoso do liberalismo económico, que constitui o desafio lançado a todas as pessoas de boa vontade. A peça de teatro de Jean-Pierre Sarrazac, O Fim das Possibilidades - uma Fábula Satânica –, encenada por Nuno Carinhas e apresentada nos TNSJ e TNDII [1], mede-se precisamente com o que há de mais arcaico e persistente no livro de Job, confrontado com as características da crise actual, aprofundando, em parábola, o seu conhecimento, a partir de muitos afluentes. 
Temos de enfrentar a desesperança, mas sem recorrer à publicidade enganosa: “o futuro está de volta”. José Silva Lopes era considerado um dos maiores economistas do país, mas não confundia a esperança com ilusões. Recebeu o Expresso [2] para uma entrevista, dois meses antes de morrer. Temos, agora, acesso à sua opinião sobre algumas questões incontornáveis da nossa actualidade.

Hoje apeteceu-me silêncio

Dunas na Praia da Barra

Há dias assim. Hoje apeteceu-me silêncio. Porta fechada às saídas, descoberta de um  recanto mais tranquilo, leituras sem pressas que me conduzissem para longe da minha rua que, também ela, não alimenta grande trânsito nem ruídos. 
Rentes de Carvalho, um escritor de quem lera uns textos apenas no seu blogue Tempo Contado e em publicações periódicas, guiou-me boa parte do dia por Trás-os-Montes, com o seu livro "Ernestina", um romance autobiográfico com boa dose de ficção a enriquecê-lo. Que delícia. Depois, para descomprimir, a leitura da entrevista de fundo da revista E do Expresso com Umberto Eco, feita pelo jornalista Luciana Leiderfarb. Umberto Eco, com os seus 83 anos, senhor duma cultura impressionante, é uma referência a ter em conta. Lê-lo é um prazer. De permeio, umas conversas com filhos e neta. A minha Lita sempre presente, mesmo que ausente.
A agenda registava tarefas programadas há dias. Tive mesmo de evitar segui-la. 
A chuva, de vez em quando, carregava o ar e a nostalgia aconchegava a minha desejada serenidade. Sem preocupações, sem tarefas escravizantes, sem barulhos exasperantes, sem horários que me manietassem. Todo eu e as minhas leituras. Agora  já é outro dia. Um bom domingo à medida de cada um. 

sábado, 18 de abril de 2015

Reconhecer Jesus Ressuscitado

Reflexão de Georgino Rocha

Georgino Rocha

Os discípulos de Emaús, após terem reconhecido Jesus, partem apressados e cheios de alegria para a cidade, encontram o grupo dos apóstolos reunido e narram a experiência gratificante vivida durante a caminhada. É a primeira vez que estão todos em comunidade. É a primeira vez que o “partir do pão” surge como momento especial de reconhecimento do Ressuscitado. É a primeira vez que se evoca a releitura da Sagrada Escritura como critério para a compreensão da história e reposição da verdade,
O acesso à experiência da ressurreição de Jesus dá-se, segundo Inácio de Loyola, pelo reconhecimento dos seus “santíssimos efeitos”. São estes que constituem a “janela” do espírito humano iluminado pela fé. São estes que provocam o encontro feliz que abre o entendimento do crente e o leva a identificar o Senhor. São estes que alargam os horizontes e lançam em maior profundidade as razões da esperança pascal.

Gafanha da Nazaré celebra 14 anos de cidade

19-IV-2015




Criada freguesia em 23 de Junho de 1910 e paróquia em 31 de Agosto do mesmo ano, a Gafanha da Nazaré é elevada a vila em 1969. A cidade veio em 2001, por mérito próprio. O seu desenvolvimento demográfico, económico, cultural e social bem justifica as promoções que recebeu do poder constituído no século XX, a seu tempo reclamadas pelo povo.
A Gafanha da Nazaré é obra assinalável de todos os gafanhões, sejam eles filhos da terra ou adotados. De todos os pontos do País, das grandes cidades e dos mais pequenos recantos, muitos chegaram e se fixaram, porque não lhes faltaram boas condições de vida.
A Gafanha da Nazaré é, hoje, uma mescla de muitas e variadas gentes, que, com os seus usos e costumes e muito trabalho, enriqueceram, sobremaneira, este rincão que a ria e o mar abraçam e beijam com ternura.
O Decreto-lei n.º 32/2001, publicado no Diário da República de 12 de Julho do mesmo ano, foi aprovado pela Assembleia da República em 19 de Abril de 2001, registando em 7 de Junho desse ano a assinatura do Presidente da República, Jorge Sampaio.
O povo comemorou a elevação a cidade com muita alegria, precisamente no dia da aprovação, pelo Parlamento, do desejo das autoridades e de quantos sentem esta terra como sua. A legitimidade popular consagrou essa data, 19 de Abril, como data de festa, sobrepondo-se à assinatura do Presidente da República. 
Este título de cidade colocou a nossa terra com mais propriedade nos mapas e roteiros. Mas se é verdade que o hábito não faz o monge, temos de reconhecer que pode dar uma ajuda. Como cidade, passou a reivindicar infraestruturas mais consentâneas com esse título, podendo os gafanhões assumir este acontecimento como marco histórico da sua identidade, como cidadãos de pleno direito.

Fernando Martins

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Celebrações Oficiais 

A Câmara Municipal de Ílhavo e a Junta de Freguesia da Gafanha da Nazaré realizam, nos próximos dias 19 e 20 de abril, um conjunto de ações que assinalam o 14.º Aniversário da Elevação da Gafanha da Nazaré a Cidade, dando especial atenção às obras em curso na Gafanha da Nazaré.
Neste âmbito, vimos por este meio convidar V. Exa. a participar nas Comemorações, com o seguinte programa:

19.ABR | Domingo
09h30
Hastear das Bandeiras na Junta de Freguesia da Gafanha da Nazaré, com a presença da Filarmónica Gafanhense

20.ABR | Segunda-feira
14h00
Concentração para início da visita (junto à sede da Junta de Freguesia)
14h15
Visita à futura pista ciclável para as praias
14h30
Visita à obra de requalificação da Rua D. Manuel Trindade Salgueiro
15h00
Visita à obra do Ecomare (Laboratório de Ciências Oceanográficas)
16h00
Visita à obra de requalificação e ampliação do Mercado da Barra
17h00
Passagem pelo Eco-Drive
17h15
Visita à obra de Saneamento Básico da Gafanha da Nazaré
18h00
Balanço do dia, com ponto de situação da obra de saneamento básico pela AdRA (Salão Nobre da Junta de Freguesia da Gafanha da Nazaré)

Fonte: Foto e programa da CMI

A barbárie e a indiferença

Crónica de Anselmo Borges 

Anselmo Borges



O direito à liberdade religiosa é um direito fundamental garantido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Mas acaba por ser um dos menos respeitados. De facto, o cristianismo já esteve do lado dos perseguidores, hoje é a religião mais perseguida. Os dados são verdadeiramente trágicos, a ponto de o Papa Francisco ter feito um apelo à comunidade internacional para que não permaneça "silenciosa e inerte". Na via-sacra de Sexta-Feira Santa foram lembrados todos os que presentemente são perseguidos, nomeadamente na Síria, no Iraque, no Egipto, na Nigéria, no Quénia, na Coreia do Norte: "Os nossos irmãos são perseguidos, decapitados, crucificados por causa da sua fé, sob o nosso silêncio cúmplice." O secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros espanhol, Ignacio Ybáñez, também reconheceu nesta semana que "presentemente a situação é dramática", atingindo o seu auge com o Estado Islâmico: "Em cada hora que passa um cristão é morto."

Dia Internacional de Monumentos e Sítios — 18 de abril

Conhecer, Explorar, Partilhar



Sob o lema “Conhecer, Explorar Partilhar”, celebra-se hoje o Dia Internacional de Monumentos e Sítios, iniciativa que completa 50 anos. Os municípios mais vocacionados para o património cultural e natural não deixarão de programar projetos interessantes, visando despertar o interesse para o que há de importante a nível de Monumentos e Sítios. 
Em qualquer região, mais antiga ou mesmo moderna, tem sempre que visitar e que ensinar. Contudo, entendo que muitas vezes ficamos indiferentes às belezas e riquezas que possuímos, procurando outras terras para as nossas deambulações turísticas, recreativas e culturais, ignorando por sistema o que nos envolve.
Propositadamente, não indico nada para os nossos conterrâneos comemorarem condignamente este Dia Internacional, tanto mais que acredito na curiosidade e inteligência das nossas gentes. Todavia, sempre digo que há muitos museus, monumentos, edifícios de interesse histórico, paisagens, rios e ilhotas, ria e mar, jardins, floresta e parques de lazer, ruas com história e apenas com nomes que são outras tantas homenagens a figuras de relevo das nossas freguesias e do nosso concelho. Só os nomes dariam para imensas conversas  Mexam-se à cata de curiosidades. 

Fernando Martins

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Efeméride — Estrada de Aveiro à Gafanha

17 de abril de 1855 

Ponte da Cale da Vila

«Principiou o lanço de estrada de Aveiro à Gafanha, depois continuado até ao Forte da Barra; a obra ficou toda completa em 30 de Abril de 1861 (padre João Vieira Resende, Monografia da Gafanha, pg. 181) – J.»

Fonte: "Calendário Histórico de Aveiro" 
de António Christo e João Gonçalves Gaspar


Na cidade…

Crónica de Maria Donzília Almeida




Foi na procura de uma mesa para colocar o tabuleiro, que entabulámos conversa com aquele jovem. Estávamos na zona da restauração de um centro comercial da nossa cidade de Aveiro e todas as mesas estavam ocupadas por casais, grupos, etc. Só aquela, mesmo defronte ao balcão de atendimento tinha apenas aquele jovem, que estava agarrado ao seu telemóvel.
Mais um a engrossar a multidão daqueles para quem o dispositivo de comunicação é um bem de primeiríssima necessidade e sem o qual a sua vida perde o significado. Foram estes os pensamentos preconcebidos, numa primeira abordagem visual da situação.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Feira de Março em Aveiro



A Feira de Março não estaria este ano à minha espera por razões pessoais. Acabei por aparecer, de fugida, com direito a duas farturas regadas com água de Luso, porventura a melhor água do mercado, segundo o meu gosto. Este abuso estragou-me o jantar, mas lá me aguentei com garantias de mais juízo por estes dias. 
A Feira de Março, por repetitiva, não me despertou grande interesse, mas acredito nas promessas do presidente da Câmara de Aveiro, Ribau Esteves, de que no futuro haverá inovações, em resposta aos desafios do tempo que vivemos. Fico a aguardar.
Desta visita registo alguns pormenores. Encontrei uma colega que não via há uns 40 anos e que me reconheceu, apesar das barbas. Ela está com a mesma fisionomia e sorriso, mas apoiava-se numa canadiana, por ter sofrido um percalço A idade é assim. Saía das farturas quando nós (eu e a Lita) entrávamos. Também registei que à tarde os interesses de quem vai à Feira se concentram no convívio. Vários grupos, na casa de sempre (Farturas da Família Armando), brindavam ao encontro e à vida, decerto, que ainda permite comer o doce frito, carregado de açúcar e canela, dito de Lisboa. Depois foi o regresso com a ajuda do guarda-chuva a substituir a bengala que ficou no carro. Até para o ano, se Deus quiser.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Bispos próximos — D. António Moiteiro e D. António Francisco



Esta foto, que saquei da Agência Ecclesia, mostra bem a proximidade que existe entre o Bispo de Aveiro que foi e o Bispo de Aveiro que é. D. António Francisco dos Santos, à direita, e D. António Moiteiro, à esquerda. Sobre a proximidade que demonstram, não há dúvidas e nem outra coisa seria de esperar. D. António Francisco foi para o Porto, mas mantém Aveiro no coração. D. António Moiteiro já tem Aveiro no coração, admito eu sem rebuço. Ambos vieram de Braga. O povo de Aveiro, desde o mar e ria até à serra, é um povo que sabe receber e se dá sem limites a quem o ama. É o caso. E esta imagem, que apreciei sobremaneira, veio mesmo a calhar e vai ficar nos meus arquivos para eventuais publicações nos meus recantos  do ciberespaço.

Auto de abertura da Barra de Aveiro

15-IV-1808

Barra de Aveiro (1934)


«Lavrou-se neste dia o auto de abertura da barra nova de Aveiro, que se realizou em 3 de Abril, subscrito por Miguel Joaquim Pereira da Silva. Depois de referir os trabalhos preparatórios de abertura e a maneira como se deu o rompimento, acrescenta: – «As águas que cobriam as ruas da praça, desta cidade, e os bairros do Albói e da Praia, abaixaram três palmos de altura dentro de vinte e quatro horas e outro tanto em o seguinte espaço, e em menos de três dias já não havia água pelas ruas e toda a cidade ficou respirando melhor ar por estas providências com que o Céu se dignou socorrê-la e a seus habitantes com esta grande Obra da Barra» (Aveiro e o seu Distrito, n.º 6, pg. 45) – A»

Fonte: "Calendário Histórico de Aveiro" 
de António Christo e João Gonçalves Gaspar

segunda-feira, 13 de abril de 2015

À conversa com Manuel Amândio Soares dos Santos




A arte não escolhe idade 
nem condição social


A arte não escolhe idade nem condição social. Brota espontaneamente quando sente que é chegada a hora de se manifestar ou quando encontra ambiente para desabrochar. Foi precisamente isso que constatámos na visita que fizemos um dia destes ao nosso conterrâneo Manuel Amândio Soares dos Santos, 80 anos, reformado há 15, três filhas e três netas, com a esposa, Maria Aldina Nunes Estanqueiro, de 77 anos, acamada e cega, a exigir cuidados permanentes. 
Nas horas vagas, «quando a ideia ajuda», esculpe peças decorativas, usando cimento branco, rede de arame e ferro, que vai encontrando e às vezes, «com a pressa de acabar a obra», comprando.
Estranhou a nossa visita e curiosidade, pela pessoa humilde que é, sem nunca ter feito qualquer exame da instrução primária, por preferir trabalhar, apesar de ter por mestre o professor Carlos, que na altura lecionava numa escola no lugar onde hoje está o Lar Nossa Senhora da Nazaré.

domingo, 12 de abril de 2015

A ressurreição não pode ser adiada (1)

Crónica de Frei Bento Domingues 

Frei Bento Domingues


1. Encontrei-me, nesta Páscoa, com um grupo de antigos alunos que me veio convidar para um colóquio sobre os novos caminhos da cristologia.
Alguns deles situam-se nas trajectórias de nomes famosos como os de G. Vermes, Sanders, Theisen, Meier, Piñero, Torrents, S. Vidal e outros, mais ou menos alinhados na “terceira busca” ou investigação, do Jesus histórico. É inegável o valor extraordinário dessas reconstruções, embora para alguns comecem a ser entediantes.
A maioria segue os resultados dos importantes Colóquios organizados por Anselmo Borges, no Seminário da Boa Nova, em Valadares, entre os quais Quem foi/quem é Jesus Cristo?. Conhecem as múltiplas iniciativas editoriais de Tolentino de Mendonça, coroadas pela bela colecção Biblioteca Indispensável. J. Carreira das Neves é, desde há muito e para todos, a abelha incansável da Bíblia. Nenhum tinha ainda lido, por óbvias dificuldades de comunicação, O rosto humano de Deus, de A. Cunha de Oliveira, sobre o qual espero vir a escrever, com o vagar que o conjunto da obra deste autor merece.

sábado, 11 de abril de 2015

Efeméride — Sé de Aveiro reaberta ao culto

1976 - 11 de abril



«Depois de profundas obras de ampliação, de solidificação e de restauração, foi solenemente reaberta ao culto, com o rito litúrgico da dedicação, a Sé de Aveiro – a secular igreja de S. Domingos (Correio do Vouga, 23-4-1976) – J.»

No Calendário Histórico de Aveiro,
de António Christo e João Gonçalves Gaspar

Faça uma visita guiada à Sé de Aveiro

Mete a tua mão no meu lado

Reflexão de Georgino Rocha


«As feridas da paixão de Jesus continuam nos “feridos da vida” em todas as situações existenciais: em crianças violentadas e mal-amadas, em casais instáveis e amargurados, em famílias reconstruídas sem sucesso, em desempregados sem horizontes de trabalho estável, em pessoas doentes desamparadas, em perseguidos e torturados por defenderem a sua consciência e a sua fé, em espoliados da dignidade humana, silenciados à força e “varridos” da memória colectiva.»

Jesus toma a iniciativa de provar aos discípulos e, por eles, a todos nós que não é um fantasma pascal, mas um ser humano integral ressuscitado. Recorre, segundo o evangelista narrador -Jo 19, 20-31- a várias estratégias e recursos para se manifestar e deixar reconhecer: a Madalena aparece como jardineiro e tem com ela um diálogo enternecedor; aos discípulos de Emaús como caminhante anónimo e acompanha, conversa e explica de tal modo o sentido das Escrituras que lhes aquece o coração arrefecido pelos acontecimentos trágicos de Jerusalém; aos pescadores cansados no mar da Galileia como mestre que reorienta o trabalho e prepara a refeição que partilha com eles ao regressarem da faina; aos discípulos-apóstolos aferrolhados em casa com medo dos judeus como Alguém surpreendente que se identifica exibindo as cicatrizes das feridas da sua paixão e crucificação, depois de os saudar na alegria da paz e enviar em missão de perdão, depois de lhes dar o Espírito Santo do revigoramento e da misericórdia. Estes factos são mencionados para comprovar o propósito claro de Jesus; outros aconteceram e não chegaram a ser registados; e muitos outros estão a acontecer, embora nem sempre identificados e anunciados. 

A verdade nua e crua

Crónica de Anselmo Borges 


Anselmo Borges

1. Era um daqueles beatos que julgam amar a Deus por Ele, mas que apenas pedincham em vez de agradecer. Lá estava ele permanentemente diante do Cristo crucificado: "Senhor, cuida dos meus campos, dá-me saúde e faz que eu não morra." Um dia, farto, o sacristão escondeu-se por trás do crucifixo: "Filho, tens de tratar tu dos campos e da saúde e já sabes que um dia tens de morrer como todos os outros." O beato, furioso: "Porque és assim, pelo teu mau falar, é que foste, e bem, pregado na cruz."
Quem gosta de ouvir a verdade nua e crua?
Vamos supor que, num funeral, o padre se ergue a dizer: "Meus irmãos, levamos hoje a sepultar este irmão que era um estupor. Não sabe a mulher das suas infidelidades? Não sabem todos que era um corrupto? Alguém conhece um acto seu de generosidade? Como tratou os filhos? Um ateu crasso, materialista, que fugiu ao fisco, matou, e todos, lá no íntimo, consideram que era tão-só um crápula. Graças a Deus, estamos livres dele, vai hoje a sepultar."
A verdade nua e crua. Mas alguém, incluindo as suas vítimas, toleraria o discurso?
E aquele pensamento de Pascal: se se soubesse o que os amigos dizem nas costas, talvez não sobrassem no mundo mais do que dois ou três amigos.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Centro Social Paroquial com novos órgãos sociais

Torna-se imperioso 
fazer obras de restauro 
ou construir um edifício novo

Reunião da tomada de posse

«O Centro Social Paroquial é uma casa grande e complicada, mas sabemos que agora é uma casa mais tranquila», afirmou o nosso prior, Padre Francisco Melo, na tomada de posse dos novos órgãos sociais, que decorreu na sala da biblioteca, na igreja matriz, no dia 27 de março, pelas 20.30 horas. Marcaram presença os membros cessantes do Centro Social Paroquial Nossa Senhora da Nazaré (CSPNSN) e os que tomaram posse, bem como representantes do Conselho Económico e Pastoral da paróquia.

Ciência sem limites — Há vida fora da Terra?


«Há vida fora da Terra? Aparentemente sim, e provavelmente iremos descobrir a sua existência nos próximos 10 anos. Segundo a cientista-chefe da NASA, Ellen Stofan, teremos registos de de vida noutros outros planetas até 2025.»


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UA quer devolver "brilho nos olhos" aos professores

Os professores devem cultivar este espírito

«A Oficina de Acompanhamento ao Docente (OAD) é um serviço novo criado na Universidade de Aveiro (UA) que quer devolver aos professores portugueses o “brilho nos olhos” que possa ter sido perdido devido ao “desgaste” e aos problemas que a profissão acarreta. “Se os professores estiverem bem, contagiam os alunos. Isso é fundamental”, afirmou Jacinto Jardim, o especialista em Ciências da Educação que está à frente do projecto.»

No Diário de Aveiro de hoje

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Nota: Li hoje, no DA online, aquele parágrafo que diz o suficiente, julgo eu, do artigo com o mesmo título. Confesso que acho, sinceramente, que a iniciativa terá futuro, porque o serviço aqui anunciado é pertinente. Realmente, os professores precisam, quando transmitem saberes, de um brilhozinho nos olhos, porque "caras de pau" não seduzem ninguém. Os professores e todos quantos exercem profissões que se dirigem particularmente a pessoas necessitam mesmo do tal "brilho nos olhos".
O que me parece é que a classe docente tem sofrido imenso com decretos, projetos, programas e decisões que, tanto quanto tenho ouvido e lido, só prejudicam a arte de transmitir conhecimentos num ambiente de serenidade física e mental, mas também de otimismo. 


quinta-feira, 9 de abril de 2015

Mais feliz

"Não devemos permitir que alguém saia da nossa presença 
sem se sentir melhor e mais feliz". 

Madre Teresa de Calcutá (1910-1997)

Voltar à liça é o que eu quero



Os meus leitores e amigos devem notar que de vez em quando até parece que ando longe do mundo. Eu próprio reconheço isso, mas nem sempre tenho coragem de assumir um certo cansaço que me exige parar um pouco. Penso que não estou a chocar qualquer incómodo de saúde, mas tão-só a acusar o peso dos anos, embora haja muitíssima gente mais velha do que eu com genica para correr na vida. 
Nesta minha tebaida virtual, que são os meus blogues, costumo usufruir o prazer de partilhar opiniões e retalhos de vida, dando ainda guarida ao que gosto de ler e de ver. Daí que, dia após dia de alguma sonolência, o bichinho de saltar para o mundo começa a picar-me na consciência, ao mesmo tempo que me desperta para voltar à caminhada. Faço planos, busco ideias inovadoras, apelo à coragem para não me acomodar num sofá, assumo, enfim, que parar é morrer. É isso. E se prego essa verdade, aqui ou noutras circunstâncias e lugares, então tenho de ser coerente comigo mesmo, voltando à liça. É o que quero fazer. 

Fernando Martins


A nossa gente: Os ílhavos na Grande Guerra



Neste mês de abril, em que se celebra o Feriado Municipal de Ílhavo, cujo programa integra a inauguração da Exposição “Os Ílhavos na Grande Guerra”, dedicamos a rubrica “a nossa gente” aos Ilhavenses que combateram na I Guerra Mundial.«
Há cem anos atrás, o mundo estava em Guerra. Uma guerra sem precedentes até então: a “Guerra das Guerras”.
Desde finais do século XIX o mundo vivia numa grande euforia, Belle Epóque, fruto do progresso económico e tecnológico que então se verificava. Esta aparente prosperidade escondia fortes tensões e rivalidades entre as grandes potências mundiais, que exploravam os países pobres.
A luta pelos mercados e matérias-primas; a má distribuição de território africano e asiático na ótica da Alemanha e da Itália; a perda da Alsácia-Lorena para a Alemanha, por parte da França, na Guerra Franco-Prussiana; o investimento em tecnologia de guerra e o estabelecimento de alianças e acordos entre países dividiu o mundo em duas partes. Por um lado, a Tríplice Aliança, constituída pelos Impérios Alemão, Austro-Húngaro e Turco Otomano e, inicialmente, pela Itália. Por outro lado, a Tríplice Entente, constituída pela Inglaterra, França, Império Russo e, posteriormente, pela Itália e Estados Unidos da América, estiveram na origem deste acontecimento bélico mundial.
Não obstante as causas atrás referidas, foi o assassinato do Arquiduque Francisco Fernando e sua mulher em 28 de junho de 1914, em Sarajevo, Bósnia, que despoletou o conflito que se previa breve, mas que acabou por se estender durante anos, até 1918. 
O mundo esteve em guerra... 
Portugal não foi exceção... 
Ílhavo e os Ílhavos também estiveram... 
Foram 238 homens que deixaram as famílias e partiram no comprimento do seu dever patriótico. 
Esta homenagem é para Eles, Ílhavos, que combateram, morreram ou foram vítimas desta “Guerra das Guerras”.

Fonte: Agenda “Viver em …”, da CMI

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Segunda-Feira da Páscoa

Apontamentos do meu diário




1. Hoje é segunda-feira da Páscoa. Dia de trabalho, muito embora no Concelho de Ílhavo seja feriado municipal. De qualquer forma, está enraizado em muitos a ideia de que esta segunda-feira, afinal, é especial, ao jeito de quem precisa de vencer a ressaca dos abusos que a mesa pascal exige. Vivemos estes dias, carregados de simbologia ligada à paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, de forma muito intensa. Cerimónias para cada momento em todas as famílias católicas, mas ainda na diocese e paróquias. Depois, as tradições, há séculos como agora, vão-se mantendo, readaptadas às circunstâncias e modas, mas também manipuladas pelas indústrias e comércios. E nós, que no fundo gostamos de festas, vamos na onda, sem vir daí grande mal ao mundo.
Realmente, a vida não pode ser só trabalho, tristeza, sofrimento e canseira. A vida precisa cada vez mais de muita alegria, porque o ser humano não pode confundir-se com uma qualquer máquina, porque dela se distingue pelos sentimentos, pela inteligência, pela ternura, pela beleza do sorriso, pela capacidade de amar, pela opções de patilha e de fraternidade, pelas artes que cultiva. Daí a necessidade da festa para a confraternização, para a celebração dos grandes dias da existência pessoal, familiar  e das comunidades.

CHAVE: Igreja de Nossa Senhora da Nazaré

Igreja da Chave


O desenvolvimento demográfico da Gafanha da Nazaré, dividido pelos lugares da Cambeia, Chave, Bebedouro, Marinha Velha, Cale da Vila, Praia da Barra, Forte e Remelha, tornava-se incomportável para a igreja matriz, normalmente repleta de fiéis nas cerimónias principais. Acrescia a distância que separava os lugares do centro geográfico da freguesia, onde estava a igreja matriz, que obrigava o povo a grandes deslocações, porque a maioria não tinha acesso aos meios de transporte automóvel. Tudo isso contribuiu, e de que maneira, para o desabrochar no coração e na vontade das populações a necessidade de construir um novo templo para o culto e catequese, como veio de facto a acontecer. Assim na Praia da Barra, na Cale da Vila e na Chave.

domingo, 5 de abril de 2015

Páscoa de muitas Páscoas

Crónica de Frei Bento Domingues 
no PÚBLICO de hoje
Frei Bento Domingues



1. No domingo passado, imediatamente depois da missa, na exígua sacristia, com uma fila de pessoas para atender, um amigo atirou-me a pergunta:haverá mesmo ressurreição? Respondi-lhe que o melhor seria ficarmos os dois a ler, a pensar, a escrever e a rezar essa interrogação durante toda a Semana Santa e não apenas a da liturgia oficial.
Entretanto, a morte de amigos ou de amigos de amigos, uns muito novos, outros mais idosos — umas vezes de modo fulminante, outras, depois de longo tempo de sofrimento — não descansou. Em muitas situações não é, em primeiro lugar, a chamada “ressurreição dos mortos” que mais nos interroga. Essa é, segundo a confiança cristã, cuidado de Deus. Mas a ressurreição de mulheres ou maridos vivos, com a morte na alma, sós, com crianças muito pequenas para criar, é nosso encargo.
Quando se mata para sempre o emprego de adultos na força da vida e se deixam os jovens, anos a fio, à espera de nada; quando se cortam nas pensões dos reformados e os idosos são reduzidos a sobrantes, a descartáveis, que fazer? Sem uma política de insurreição das comunidades católicas e das suas hierarquias eclesiásticas, pode ser alienante falar de ressurreição. Sem um levantamento cristão contra a injustiça, expulsámo-nos do amor transformante, da caridade teologal, como nos recorda o Papa Francisco. 

Dia de Páscoa

Alguns apontamentos do meu diário





1. A Páscoa celebra, como é sabido, o grande mistério da nossa fé. Há um período, a Quaresma, que nos prepara para isso. Já no fim, o Tríduo Pascal congrega-nos intensamente para a vivência da paixão e morte de Jesus. Silêncio, meditação e oração, com jejuns, abstinências e partilhas, tornam mais expressiva a fé que de Deus no vem para em comunhão com todos construirmos um mundo melhor. Dir-se-á que esse propósito nos deve animar nos passos da nossa existência terrena. Para mim, a Páscoa é sempre uma mais-valia para o aprofundamento do meu envolvimento nos projetos da construção de uma sociedade mais fraterna, mais humanista. Por isso, valorizo de modo especial a festa maior do cristianismo. Maior, porque é da Ressurreição de Jesus Cristo que dimana a razão da nossa fé, dom de Deus ofertado a todos os homens e mulheres de boa vontade. Eu preciso da Páscoa. 

sábado, 4 de abril de 2015

É em Sábado que vivemos

Crónica de Anselmo Borges 

Anselmo Borges


Foi condenado pela religião oficial como blasfemo e pelo poder imperial como subversivo social e político. Não por Deus. Porque Deus não quer a dor e o sofrimento, mas a alegria. Deus não precisa de sacrifícios nem de vítimas. Jesus foi vítima, porque Deus não quer vítimas. Entregou a sua vida por amor e foi crucificado, porque Deus não quer crucificados. "Deus é amor incondicional": este é o verdadeiro letreiro que encima a Cruz de Cristo.
Aparentemente, no horror daquela Sexta-Feira Santa, foi o fim. Mas, lentamente, reflectindo sobre a experiência que Jesus fez de Deus, sobre o modo como viveu, como agiu, como morreu, os discípulos fizeram a experiência avassaladora de que o Deus-amor, a quem Jesus se dirigia como Abbá, Pai-Mãe querido, não o abandonou nem sequer na morte. Jesus não morreu para o nada, mas para Deus. Na morte, não encontrou o nada, mas a plenitude da vida de Deus.
Esta é a mensagem de Páscoa, que os discípulos, outra vez reunidos, foram anunciar pelo mundo, e por ela deram a vida. E chegou até nós, cuja vida se passa em Sábado, entre a dor de Sexta-Feira Santa e a esperança do Domingo de Páscoa.

VIDA NOVA: A CORRIDA DA PÁSCOA

Reflexão de Georgino Rocha



A manhã do primeiro dia da semana deixa transpirar um ambiente novo, segundo narra São João. Jo 20, 1-9. Ao desânimo do Calvário sucede o ardor diligente de Madalena, de Pedro e do discípulo que Jesus amava. Ao silêncio da morte sofrida responde o hino vibrante da vida nova. Ao túmulo fechado pela pedra corresponde agora o sepulcro aberto, “escancarado”, vazio pela ausência de quem lá tinha sido depositado. A desolação dolorosa e mortiça dá lugar à curiosidade efervescente avivada pela saudade. 

A escuridão do espírito começa a dissipar-se pela luz da aurora nascente. A vontade deixa-se moldar pelo ritmo do coração. E um novo movimento acontece: a corrida da Páscoa que iniciada em Jerusalém comporta um dinamismo envolvente de todo o mundo e de toda a história. O Senhor ressuscitou. A morte foi vencida. A causa defendida por Jesus é oficialmente confirmada por Deus. O presente abre-se a um futuro radioso que se antecipa. A esperança germina e floresce em situações humanas concretas. As flores da vida nova estão por aí, não as vedes? E não conseguis do que vedes ao que não vedes?

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Morreu Manoel Oliveira




A comunicação social já disse muito acerca da morte de Manoel de Oliveira, o mais idoso realizador de cinema do mundo, com 90 anos de vida envolvida por filmes, longas e curtas-metragens. Mas há um pormenor que me apraz registar, que é o seu prazer pelo trabalho. Parar é morrer, disse ele, com propriedade, dando o exemplo que a todos nós servirá de lição para a vida. Também disse que, quando nascemos, já sabemos que a morte é um ponto final garantido. Que o seu exemplo nos estimule a vencer barreiras de desânimo e nos leve a enfrentar desafios, constantemente, na certeza de que a vida é mesmo para ser vivida.


terça-feira, 31 de março de 2015

E se Jesus não houvesse ressuscitado?

Um texto de Paulo Rangel 
no PÚBLICO


Pietá de Miguel Ângelo

«Já a Pietà, conservando Cristo morto, no regaço da mãe, é o momento de total desamparo e da mais absoluta humanidade de Jesus. É o momento mais humanamente humano de Jesus, com Jesus despido, exangue e inerte, à nossa inteira mercê. Nela está a intimidade do abandono, o ventre da desolação, o útero da compaixão, o colo dos seres últimos, de todos os seres últimos.»

segunda-feira, 30 de março de 2015

Universidades portuguesas entre as melhores do mundo

As Universidades de Aveiro, Coimbra, Lisboa, Minho, Nova de Lisboa e Porto destacaram-se no maior estudo do mundo sobre instituições de Ensino Superior de 2015.


Um pormenor da UA

Os meus parabéns às universidades portuguesas de mérito reconhecido.Mas perdoem-me uma felicitação especial para a Universidade de Aveiro.

Li aqui


Semana Santa, rumo à ressurreição de cada um de nós



Estamos na Semana Santa, também chamada Semana Maior. Semana de silêncio, meditação, oração e de certeza de que a Ressurreição de Jesus, ano a ano renovada no coração dos crentes, está próxima, para júbilo de quantos acreditam que a vida de cada um de nós  é sempre um recomeço. Jesus Cristo, um marco histórico indiscutível, é luz do mundo que anuncia Boas Novas a todos os homens e mulheres de boa  vontade, para glória de Deus e redenção de toda a humanidade, derrotando as nossas fragilidades que tornam agreste  a nossa sociedade. A Semana Santa, vivida e sentida na humildade, leva-nos mais até aos que sofrem no corpo e na alma as incompreensões dos egoísmos. Santa Páscoa para todos na alegria de Cristo Ressuscitado 

domingo, 29 de março de 2015

Naquele tempo... Não! Hoje

Crónica de Frei Bento Domingues 
no PÚBLICO

1. “Sejam quais forem os fenómenos inesperados do futuro, Jesus não será ultrapassado. O seu culto rejuvenescer-se-á constantemente; a sua lenda provocará lágrimas sem fim; o seu sofrimento enternecerá os corações mais bondosos, todos os séculos proclamarão que entre os filhos dos homens, nunca nasceu um maior do que Jesus.” Cito estas palavras de Ernest Renan escritas, em 1873, no final da sua pouco ortodoxa Vida de Jesus, porque são belas.
É verdade que essa obra já está muito longe das últimas vagas de reconstruções históricas das origens do cristianismo, nascido no mundo judaico e greco-romano no Ano I, um dos mais importantes da História universal.
Foi em referência a Jesus de Nazaré que surgiu o movimento religioso mais significativo do Ocidente e provavelmente o de maior influência cultural e social do mundo. Isto, apesar dos crimes anticristãos que, em seu nome, foram cometidos.

sábado, 28 de março de 2015

E SE DEUS FOSSE MÃE?

Crónica de Anselmo Borges 

Anselmo Borges


1- Os crentes sabem que Deus não é masculino nem feminino, pois está para lá da determinação sexual. No entanto, é preciso tentar representá-lo, figurá-lo, dizê-lo, pois aquilo de que nada se pode pensar nem dizer não existe para nós. O que será sempre necessário é ver nessas imagens apenas isso: imagens, que não podem ser reificadas, já que apenas apontam para o Mistério último, para o Sagrado, do qual se espera sentido, sentido último e salvação, sempre indizível, sempre para lá de tudo quanto se possa pensar e dizer.
Essas representações são sempre condicionadas pelo espaço e pelo tempo, pela cultura, pela sociedade, pela história, ao mesmo tempo que condicionam elas próprias a história, a cultura, a sociedade, a visão do mundo. Para dar um exemplo: se, no quadro da cultura ambiente cristã, em vez de se rezar o pai-nosso se rezasse a "Mãe Nossa": "Mãe Nossa, que estais no Céu, santificado seja o vosso Nome...", que influência teria essa formulação da oração característica dos cristãos na sua visão do mundo humano e do próprio cosmos, na sua vivência das relações entre homens e mulheres, na economia, na educação, no exercício do poder?

ENTREGO-ME NAS MÃOS DE DEUS

Reflexão de Georgino Rocha

Georgino Rocha


“Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” são as últimas palavras de Jesus ditas na sua vida mortal; palavras que revelam a sua relação filial e confiança total, condensam o sentido de tudo quanto fez e ensinou e constituem a sua disposição final. Palavras que ficam como luz que ilumina as horas decisivas e tormentosas da existência humana, que alentam as forças debilitadas e frágeis em momentos decisivos, que deixam captar a centelha de esperança por onde brilha o despontar do futuro num amanhã aberto que parece definitivamente fechado.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Palavras e Obras

"Para falar ao vento bastam palavras,
para falar ao coração são necessárias obras"

António Vieira (1608-1697)

quinta-feira, 26 de março de 2015

Recordações: A Princesa Santa Joana e a sua época

(3.ª edição revista)

João Gonçalves Gaspar, o monsenhor, como todos os aveirenses dos diversos quadrantes o conhecem e tratam, foi, e continua a ser, o mais prolífero escritor e divulgador de Santa Joana, padroeira da cidade e diocese de Aveiro. Direi até, sem medo de errar, que os seus trabalhos têm sido a principal fonte de quem estuda e deseja saber algo da Princesa Joana, que escolheu a vila de Aveiro para viver a sua entrega a Cristo e à Igreja, através de muita generosidade para com o seu povo.
Esta obra, que li e reli com gosto desde a primeira edição, é um regalo para quem gosta de história e da nossa padroeira, mas é também um prazer para sentir quanto o autor se esmerou nas investigações e na forma de escrever, fluente e acessível a todos. Os meus parabéns a Mons. João Gonçalves Gaspar.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Evocando o Dr. Querubim do Vale Guimarães

Efeméride — 25-03-1970



«Faleceu o Dr. Querubim da Rocha do Vale Guimarães, nascido ocasionalmente em Coimbra quando o pai frequentava a Universidade, mas desde 1908 definitivamente radicado em Aveiro, onde exerceu as suas actividades jornalísticas, forenses, políticas e apostólicas. Entre outros, desempenhou os cargos de director do semanário católico Correio do Vouga, de presidente da Comissão Pró-Restauração da Diocese e de presidente da Junta Diocesana da Acção Católica (Correio do Vouga, 27-3-1970) – J.»

Fonte: Calendário Histórico de Aveiro, de António Christo e João Gonçalves Gaspar

Ler mais aqui 


NOTA: Conheci o Dr. Querubim do Vale Guimarães, mas somente falei com ele uma vez,  para lhe pedir um artigo sobre o Grande Encontro da Juventude que ocorreu em 1963, em Lisboa, com organização da Ação Católica Portuguesa. Era eu, na diocese, na altura, o responsável pela divulgação na imprensa das atividades relacionadas com esse encontro. Ele acedeu prontamente, com uma delicadeza e sensibilidade muito grandes. O artigo foi publicado no Correio do Vouga. O assistente da JOC (não sei se de outros organismos) era Mons. Aníbal Ramos que ficou até um pouco agastado por não terem dado destaque ao texto do Dr. Querubim na primeira página...

Caramulo — Penedo



Vá-se lá saber por que razão gosto eu tanto da serra, apesar de ter no sangue vestígios da maresia do nosso mar e da nossa ria. Sempre me seduziram as silhuetas das montanhas e a agressividade dos penedos, apesar da maresia ocupar espaço no meu ADN.
Este penedo da serra do Caramulo, provavelmente com milhões de anos, tem alma que o torna eterno, resistindo à inclemência do tempo, de sóis escaldantes e gelos duros de roer, mas ainda de fogos assassinos e da capacidade destruidora do homem. Ali está para nossa contemplação, com garantias de vida de anos sem conta.

Padre João Gonçalves é o novo ecónomo da diocese



«D. António Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro, nomeou o padre João Gonçalves para o cargo de ecónomo da diocese aveirense. O actual presidente, por exemplo, das Florinhas do Vouga é, a partir de hoje, o responsável por acompanhar de perto todos os assuntos relacionados com a economia e as finanças da diocese, “não apenas o que diz respeito à cúria, mas também às paróquias”, conforme refere o próprio.
Para esta nomeação, proposta pelo Bispo, foi necessária a aprovação por parte do Conselho Ecónomo Diocesano e do Corpo de Consultores Diocesanos, que agora deram luz verde para que o padre João Gonçalves passe a exercer as novas funções que lhe vão exigir “um acompanhamento muito próximo às paróquias” de forma a poder encontrar mais cedo alguns problemas que as mesmas possam apresentar nas suas contas.»

Fonte: Diário de Aveiro

NOTA: Felicito o Padre João Gonçalves por mais este cargo de tanta responsabilidade na Diocese de Aveiro. A sua capacidade de diálogo e a sua experiência também a este nível serão, sem dúvida, uma mais-valia para a diocese e para as paróquias.

Diabruras do Scott — O felizardo


Crónica de Maria Donzília Almeida

O felizardo

Sou um Vira-latas assumido!
É o que diz a minha dona com convicção, mas sem qualquer desdém. Sim, que um cão que se preza sabe interpretar o olhar e os gestos dos humanos que nos rodeiam. Quando a minha dona se aproxima de mim e me faz carícias atrás das orelhas e no dorso e me olha com aqueles olhos de carneiro mal morto, eu sei o significado disso.
Não obedeço aos critérios de educação dos cãezinhos bem comportados, domesticados, que são uns paus mandados na mão dos donos. Se me apetecer, corro à vontade pelo espaço amplo, atrás dos carros ou motas que passam na rua, a tentar apanhá-los. Quando me dá na real gana, passeio-me à chuva, para grande desgosto da dona que me diz que vou ter problemas de reumatismo! Para me convencer a resguardar-me da chuva, até colocou um revestimento de alcatifa, no canil, de fibra natural, a caruma ali do bosque! E para não ganhar fungos, muda-a regularmente…é só conforto! De vez em quando, quando menos espera, encontra-me refasteladinho na caminha, sobre a alcatifa fofinha a cheirar a pinho! Só quando me apetece!

domingo, 22 de março de 2015

Dia Mundial da Água


"Enquanto o poço não seca, não sabemos dar valor à água"

Thomas  Fuller (1654-1734), médico e orador inglês

Teólogos a cheirar a povo e a rua

Crónica de Frei Bento Domingues 
no PÚBLICO e hoje

Frei Bento Domingues


1. A teologia católica, desde o Vaticano I (1869-1870) até aos anos 50 do séc. XX, expressa em diversas escolas, sentiu-se desafiada pelas várias expressões culturais da modernidade, mas foi sempre severamente vigiada e castigada pelo Santo Ofício.
A mentalidade tridentinista que o marcava e o pânico diante do chamado "modernismo" fizeram com que muitas pessoas e algumas faculdades de teologia fossem severamente vigiadas, castigadas e silenciadas.
Em geral, tentavam responder ao primordial apelo de S. Pedro: capacitar-se para dar razão da esperança cristã (1Pd.15) na actualidade, segundo as solicitações dos "sinais dos tempos". Partiam de uma convicção teológica óbvia: aquilo que não fosse capaz de exprimir a fé, nos vários contextos do presente, era uma traição ao Novo Testamento e à verdadeira Tradição, que passou a ser cada vez mais investigada, para não ser abafada pelas florestas de tradições em expansão.

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