sexta-feira, 8 de maio de 2020

PONTO DE VISTA: Um Mundo Diferente


Com o Covid-19, o mundo vai sofrer transformações radicais, ao nível dos relacionamentos humanos. Porque o perigo espreita a cada esquina, passamos a olhar os outros como potenciais fontes de contágios que poderão ser fatais. Estão à vista de todos as regras impostas pela pandemia: os hábitos de proximidade e de cumprimentos afetivos, como abraços e beijos, as tertúlias para trocas de impressões e a hora do café para descontrair, o estar com este ou aquele para pôr a escrita em dia, o simples passeio a um recanto turístico, o ir à bola ou a um espetáculo para gritar pelo nosso clube ou para  cultivar o espírito, o ir à missa, a uma peregrinação ou a uma cerimónia,  tudo está por ora cancelado. O outro passa a ser potencialmente um inimigo, em qualquer sítio, em qualquer rua, em qualquer sala.
No comércio e na indústria estão em curso transformações para seguir à risca: circular num só sentido, trabalhar sem contactos com colegas, ser atendidos à distância pelos empregados, usar máscaras em todo o lado, entradas proibidas a quem as não usa, lavar as mãos e desinfetar os objetos ou utensílios, não mexer nos produtos expostos, etc… 
A desconfiança instalou-se nas sociedades até aqui abertas e saudavelmente comunicativas. O medo ainda não nos deixou de vez. Apesar de tudo, creio firmemente que os homens e mulheres do nosso tempo saberão adaptar-se a este mundo diferente que o Covid-19 nos impôs. 

F. M.

SENHOR, MOSTRA-NOS O PAI!

Reflexão de Georgino Rocha 
para o Domingo V da Páscoa

«Não deixemos os idosos sozinhos, 
porque na solidão o coronavírus mata mais»

“Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta”, pede Filipe a Jesus, após a ceia de despedida, na conversa subsequente em que intervêm outros apóstolos. Tomé abre também o coração, expõe o seu desnorte na compreensão do que o Mestre dizia e interroga-o directamente. Pedro mantém-se silencioso, possivelmente a “mastigar” a premonição que acabava de ouvir: “Antes que o galo cante me negarás três vezes”, ele que havia jurado fidelidade até à morte. Judas, o Iscariotes, levado pela intenção de entregar o Mestre, já havia deixado o grupo, que parece alarmado e confuso. E mais ficaria com o anúncio de Jesus de que os iria deixar a fim de lhes preparar um lugar. Jo 14, 1-12.
“A partida de Jesus, afirma Manicardi, é crise para a comunidade dos seus discípulos. E a perturbação do coração não respeita apenas à esfera emotiva e dos sentimentos, mas indica igualmente que a vontade e a capacidade de tomar decisões estão paralisadas, a inteligência e o discernimento turvos. Jesus, com as suas palavras, está a fazer da sua partida e do vazio que deixa uma ocasião de renascimento dos seus discípulos”. E o autor conclui: “Pedindo fé, instiga-os a transformar o medo da novidade e o terror do abandono em coragem de dar-se, apoiando-se no Senhor, prometendo que vai preparar um lugar para eles. Ele vive a sua partida em relação com quem fica, e mostra que não está a abandoná-los, mas a inaugurar uma nova fase, diferente, de relação com eles. A separação tem em vista um novo acolhimento (cf Jo 14, 2-3)”.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

MÁSCARAS TRANSPARENTES


Confesso que aceitei o princípio de usar a máscara quando saio de casa. É uma garantia de mais segurança ao nível de travar a pandemia. Depois de a aplicar, tenho o cuidado de verificar se está no sítio certo, não vá dar-se o caso de o “bicho” peçonhento poder furar por qualquer cantito que mal se vê. Dizem que ele nunca perde a oportunidade de entrar porque precisa do corpo humano para viver. 
Acontece que agora, quando vou pela rua, tenho dificuldade em identificar com quem me cruzo. A máscara bloqueia a identidade de quem a usa porque esconde a expressão típica de cada pessoa, o que nos distingue uns dos outros. E agora? Quando saudamos alguém teremos de aliviar a máscara para que nos reconheçam? Qualquer dia teremos máscaras transparentes! Parece que sim...  

F. M.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

CAIXA DO CORREIO


Tenho por hábito dirigir-me à Caixa do Correio todas as manhãs, mais ou menos à hora da passagem do carteiro pela minha rua. Faço isto pelo prazer que sinto ao receber notícias e correspondência de familiares e amigos. Notícias das revistas e jornais e cartas oficiais ou particulares. E se é verdade que desde há mais de 50 anos não me faltava correspondência, nos últimos anos começou a rarear, mas o hábito de abrir a portinhola permanece. Ainda hoje lá fui sacar o “Correio do Vouga”. 
Quando regressava com o semanário, alguém me perguntou se não havia mais nada e logo adiantei que, mais dia menos dia, a profissão de carteiro corre o risco de desaparecer. A correspondência agora vem pelo correio eletrónico, acrescentei. Para encomendas, já nasceram empresas especializadas na tarefa de entrega ao domicílio. 
Realmente, com o tempo, tudo evolui, tudo se adapta, tudo se transforma. A Caixa do Correio transformou-se num  caixote do lixo, com a carga de papelada publicitária. Até já li, colados em Caixas do Correio, uns avisos com a indicação de que é proibido deitar ali publicidade. E a vida continua com as adaptações impostas pela realidade dos nossos quotidianos. 

F. M. 

terça-feira, 5 de maio de 2020

COISAS INÚTEIS


"Escapar às regras e dizer coisas inúteis 
resume bem a atitude essencialmente moderna...."

Fernando Pessoa (1888-1935), poeta

No PÚBLICO de hoje

NOTA: Não resisto à ideia de publicar este "Escrito na Pedra" do PÚBLICO. Realmente, tantas vezes perdemos tempo com banalidades e inutilidades. 

O BANDO


Com os pés bem assentes na terra, houve tempo para  olhar o céu límpido que embala a minha sensibilidade. Olhar um tanto perdido nos horizontes dos meus sonhos deu para contemplar as nuvens esfarrapadas que passavam tocadas pelo vento. E eis que, como de costume, a estas horas, talvez por decisão de algum amante de pombos-correios, que os temos na Gafanha da Nazaré, passa um bando a uma velocidade estonteante. Não sou muito lesto a disparar para a foto da praxe... mas deu para registar o que vi e revi nesta tarde ventosa e transparente.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

HOJE FOI O PRIMEIRO DIA...


Estava cansado de andar por casa, as mais das vezes sem saber que fazer. Sim! É tudo muito bonito, mas depois vem o cansaço do mais do mesmo. Ler, escrever, conversar, ouvir música, olhar já saturado para a TV e rádios do coronavírus de trás para a frente e vice-versa, pensar, imaginar o dia a dia depois do confinamento... e tudo repetir semana após semana. Porque a vida económica e não só não pode estagnar nas malhas do medo e da prudência, seria necessário saltar para a vida com os cuidados indispensáveis. E assim foi. Hoje foi o primeiro dia do resto dos nossos dias. 
Manhã cedo, pulei da cama porque era preciso arejar e comprar o indispensável. Assim foi. O mundo que me rodeia senti-o diferente. Não muito trânsito. Pessoas com  máscaras, umas bem encaixadas  e outras nem por isso. Nos espaços comerciais, recebemos honras de um acolhimento gentil e cuidado. Higienização em curso permanentemente, indicações precisas, atendimento rápido. Perdi o medo. E a vida vai continuar... com máscaras. 

F. M.