sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Anselmo Borges - Progresso e esperança. 1


É um daqueles livros que nos obrigam a reflectir, porque andamos em lamúrias inconsequentes, não colocando os problemas onde devem ser colocados. Evidentemente, seria de lamentar se esse livro nos arrancasse à obrigação de continuar a pensar. De facto, os problemas estão aí, imensos, mas já diferentes do que normalmente julgamos. O livro teve, com mérito, enorme sucesso. O seu autor: Johan Norberg. O título: Progresso. O subtítulo: Dez razões para ter esperança no futuro. Razões fundamentadas.
O autor sabe dos problemas que nos afligem. "Terrorismo. Estado Islâmico. Guerra na Síria e na Ucrânia. Crime, homicídio, execuções em massa. Aquecimento global. Fomes, cheias, pandemias. Estagnação, pobreza, refugiados. "Destruição e desespero em toda a parte", como uma mulher declarou num inquérito de rua quando a rádio pública lhe pediu para descrever o estado do mundo. É isso que vemos nos noticiários e parece ser a história dos nossos dias. Cinquenta e oito por cento dos que votaram para a Grã-Bretanha sair da União Europeia no recente referendo levado a cabo no país dizem que a vida hoje é pior do que há trinta anos."
Há razão para todo este pessimismo? Ou o que se passa é que os meios de comunicação social só se interessam pelas más notícias, porque as boas não são notícia? "Os jornalistas estão sempre à espreita da história mais dramática na área geográfica por eles coberta". Mas o que é facto é que "o mais importante da nossa época é estarmos a assistir à maior melhoria dos padrões de vida globais jamais registada. Pobreza, malnutrição, analfabetismo, mão de obra e mortalidade infantis estão a descer mais depressa do que em qualquer outro período da história humana. Ao longo do último século, a esperança de vida aumentou mais de duas vezes o que aumentou nos duzentos mil anos anteriores. O risco de exposição de um indivíduo à guerra, à morte numa catástrofe natural ou à ditadura em nenhuma outra época foi mais pequeno. Uma criança que nasça hoje tem mais probabilidades de alcançar a idade da reforma do que os seus antecessores tinham de comemorar o quinto ano de vida". Evidentemente, não se pode ser ingénuo e ficar cego frente às guerras em curso, a crimes, às catástrofes, à pobreza e à miséria no mundo. Todos esses problemas são terrivelmente reais, tanto mais quanto os meios de comunicação social nos obrigam a tomar consciência deles. "A única diferença é que agora encontram-se em rápido declínio. O que hoje vemos são excepções, ao passo que antes eram a regra."
Este progresso arrancou concretamente com o iluminismo intelectual dos séculos XVII e XVIII. Desde então continuamos a acumular conhecimentos, científicos e de outras ordens e "cada indivíduo pode basear o seu contributo nos das centenas de milhões de pessoas que o precederam, num círculo virtuoso". "Seria um erro terrível" ignorar os problemas, as ameaças constantes, os perigos, e tomar os progressos da humanidade como garantidos. Mas este livro é "sobre os triunfos da humanidade". E aí ficam as dez razões para ter esperança no futuro.

1. A mais básica das necessidades humanas consiste em obter energia suficiente para que o corpo e a mente funcionem, o que ao longo da história as pessoas nem sempre conseguiram. É indescritível o que se passou no decorrer dos tempos, também na Europa, neste domínio. "Os franceses e os ingleses do século XVIII ingeriam muito menos calorias do que a média actual na África subsariana, a região mais atormentada pela subnutrição". No centro da França, em 1662, "houve quem comesse carne humana". No passado, trabalhava-se menos horas, e o motivo disso não deve causar inveja: as pessoas não tinham acesso às calorias necessárias para as crianças crescerem saudáveis e os adultos manterem funções corporais sadias. As novas tecnologias agrícolas, os fertilizantes artificiais, a Revolução Verde, o comércio internacional, entre outras, foram armas decisivas contra o flagelo da fome. A Suécia, país dos antepassados do autor, foi declarada livre da fome crónica no início do século XX. Também por isso, a população mundial passou de 1,6 mil milhões de pessoas em 1900 para os actuais mais de 7 mil milhões. Pela primeira vez na história da humanidade, o problema da comida começou a encontrar solução - nalguns casos até começou o problema contrário: o da obesidade - e de 1950 a meados dos anos 80, a população do mundo duplicou, passando de 2,5 mil milhões para 5 mil milhões. E, contra os pesadelos de Malthus, "conforme se tornaram mais ricas e aumentaram a educação, as pessoas começaram a ter menos filhos, e não mais, como se previa", o que, aliás, digo eu, por vezes, levanta problemas dramáticos, como é o caso de Portugal.

2. Saneamento. Para sustentar a vida, não basta a comida. É fundamental tratar resíduos e desperdícios. Sem isso, a água, essencial para a vida, fica contaminada e torna-se transmissora de calamidades, espalhando bactérias, vírus, parasitas, vermes. "Embora difícil de quantificar, parece que o principal problema de saúde ambiental do mundo continua a ser a contaminação da água para beber e para uso doméstico, combinada com a inexistência de um saneamento adequado para a eliminação de resíduos, fezes e urina." "Há relatos contemporâneos de aristocratas a defecar nos corredores de Versalhes e do Palais Royal. Na verdade, as sebes de Versalhes eram altas para servirem de divisórias entre os que aí se iam aliviar." Em 1980, "apenas 24 por cento da população mundial tinha acesso a saneamento decente. Em 2015, esse número subiu para 68 por cento". A maior percentagem de população sem água nem saneamento vive na África subsariana, mas, mesmo aí, houve "um aumento de 20 pontos percentuais no uso de água potável de fontes melhoradas de 1990 a 2015". Continuaremos. 
Anselmo Borges no Diário de Notícias 

Georgino Rocha — O Senhor vem. Acolhe-O e com ele prepara o teu futuro


A Igreja destaca o encontro definitivo com Jesus, o Senhor, para o inicio do Ano litúrgico. É uma atitude muito humana, de sábia pedagogia. Semelhante à do corredor que se lança na pista tendo bem presente a meta a alcançar. Os seus esforços estão todos ao serviço do êxito pretendido: escolha da posição no grupo de colegas que correm em conjunto, marcação de ritmos, reabastecimento de energias, aceitação benevolente do apoio dos circunstantes; tudo converge em alcançar o objectivo desejado; tudo está animado pela esperança activa e vigilante; tudo a aguardar que o sonho se converta em realidade e a surpresa supere a expectativa. Em cada passo, está já o começo da meta.

Marcos, o autor dos relatos dos episódios da vida de Jesus que se lêem nas celebrações dominicais deste ano, apresenta uma parábola em que visualiza a atitude dos discípulos perante o que vai acontecer. Situa-a no conjunto dos últimos ensinamentos de Jesus, antes de entrar no processo da paixão. Recorre a um estilo sóbrio e persuasivo. Aduz o exemplo da figueira estéril, do ladrão inclemente. Anuncia que haverá sinais a observar e a interpretar: sinais característicos dos tempos da grande tribulação, típicos de uma nova situação a emergir. E conclui: Vigiai para que não terdes a consciência ensonada e serdes surpreendidos.

A parábola é emblemática e breve a sua narração. (Mc, 13-33-37). Um homem faz uma viagem e confia os cuidados da casa aos seus empregados, assinalando a tarefa de cada um. Encarrega o porteiro do cuidado especial de vigilância. E deixa-os na expectativa de quando será o regresso. Marcos, tendo presente as quatro vigílias da noite que os soldados romanos observavam para mudar de turno, vai mencionando o cair da tarde, a meia-noite, a madrugada, o amanhecer. Pode ser a qualquer hora. Fica tudo em aberto. Não porque o dono da casa fomente a ansiedade ou queira provocar o sobressalto. Seria masoquismo. Mas porque ama os seus empregados e quer que desenvolvam capacidades adormecidas em tempos de acomodação, de certezas rígidas, de seguranças costumeiras; capacidades como a atenção ao que acontece à nossa volta e mais longe, o discernimento dos sinais que interpelam a nossa indiferença, a paciência no tempo de espera, a confiança que o encontro se realizará e que a festa do regresso se celebrará, a aventura de avançar na vida como se o Invisível se deixasse ver. E o dono volta. E o advento do Senhor Jesus acontece em Natal de plenitude.

Entretanto, prestai atenção: Vigiai! Que a surpresa não vos apanhe de improviso pela vossa dormência e indiferença. Esta consigna dada aos empregados, passa aos discípulos ouvintes e alarga-se a todos sem distinção. “O que vi digo a vós, digo-o a todos. Vigiai!”.

Vigiai, cuidando da minha casa feita em harmonia e biodiversidade, confiada desde os alvores da criação ao homem e à mulher, espelho da minha imagem e semelhança; velai para que seja um jardim onde dê gosto viver e conviver em cordial relação de amizade e gestão de recursos; velai pela hierarquia de verdades e não vos deixeis confundir por ideologias que visam alterar todo o sistema orgânico deste conjunto vital que vos deixo como herança.

Tende cuidado convosco. Respeitai-vos mutuamente como irmãos em humanidade, que eu quero ajudar a salvar. Que não haja sangue inocente derramado por ódio, retaliação, perseguição de consciência ou guerra de religião. Sois todos irmãos! Removei o que pode provocar distúrbios semelhantes. Vigiai pelo sustento de todos, sem distinção: comida saudável suficiente, água potável, cuidados de saúde integral, economia solidária sustentável, convivência em harmonia e estima mútua, abertura aos valores que expressam a nobreza humana de cada um, resposta consciente ao amor que Deus Pai vos tem. Sois Seus filhos e meus irmãos! Velai pela herança que vos confio. Olhai que nos espera um futuro de família em comunhão.

Aceitai a minha companhia, feita dom e guia, graça de misericórdia e amor de reconciliação. Desenvolvei a atitude teologal da fé, esperança e caridade. Reuni-vos como irmãos em assembleias dominicais, lede a palavra que vos deixo e comungai com dignidade o sacramento do meu corpo e sangue, a Eucaristia. É alimento para o vosso caminhar de peregrinos confiantes. Valorizai a Igreja, instituição em transformação missionária para ser cada vez mais serviço de salvação universal. Não vivais de saudades melancólicas. Avancemos, como atletas no estádio. Lembrai-vos do exemplo de Abraão, Moisés e tantos outros. Lede com atenção a carta aos cristãos de Roma que evoca a memória de quem pela fidelidade a Deus no quotidiano se tornou verdadeiramente exemplar. E atendei ao testemunho de Paulo, meu apóstolo, que se porta, como corredor de fundo: “Irmãos, não acho ter já alcançado o prémio, mas uma coisa faço: esqueço-me do que fica para trás e avanço para o que está adiante. Lanço-me em direcção à meta, em vista do prémio do alto, que Deus nos chama a receber em Jesus Cristo” (Fl 3, 13 e 14). A meta está já no primeiro passo da corrida. Procuremos iniciar bem e manter bom ritmo. A árvore está contida no gérmen da semente. Como o agricultor solícito, tratemos dela com cuidado. A surpresa do futuro prepara-se no presente.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Efeméride - Nascimento de Egas Moniz

1874-XI-29

«Nasceu em Avanca, no actual concelho de Estarreja e distrito de Aveiro, o Professor Doutor António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz, ilustre cientista, pioneiro de descobrimentos médicos, que seria galardoado em 1949 com o Prémio Nobel de Fisiologia e de Medicina (Arquivo, X, pg. 325, e XXI, pgs. 277-282) – J.»

"Calendário Histórico de Aveiro" 
de António Christo e João Gonçalves Gaspar


Quando passo por Avanca, vem-me sempre à memória a personalidade marcante em vários domínios do premiado Nobel da Medicina Egas Moniz, galardão partilhado com outro notável.
Egas Moniz nasceu neste dia e faleceu em 13 de dezembro de 1955, estando sepultado na sua terra-natal, ao lado de sua esposa. No monumento erguido para perpetuar a sua memória, em Avanca, pode ler-se uma legenda expressiva que muito aprecio: “Aqui viu luz nova luz da humanidade”, que sintetiza muitíssimo bem, em meu entender, a alta valia do seu mérito científico, mas ainda da sua envolvência multifacetada noutros domínios, desde a cultura, até à política, passando pela literatura, pela medicina e pelo colecionismo, bem patente na Casa Museu que legou à sua terra e região. Foi um notável conferencista e um apreciado orador.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

60 milhões de euros em 2018 para proteger o litoral



Em 2020, haverá garantias de estudos e trabalhos para proteger o litoral português, diz uma reportagem no Diário de Notícias. Esperamos que até lá as dunas do litoral aveirense suportem os ataques por vezes furiosos das ondas. Ficamos a aguardar com esperanças de que  nada de mau aconteça durante os próximos tempos.

«Uma das ações em destaque no grupo das primeiras 140 até 2020 é a que fará o desassoreamento da ria de Aveiro, um projeto que está orçamentado em 23,5 milhões de euros (ver mapa), e cujos inertes - as areias retiradas do fundo da ria - serão utilizados na zona imediatamente a sul, para fazer a tal realimentação sedimentar, numa zona onde a erosão costeira é já uma realidade - 20% da linha de costa baixa e arenosa constituída pelos sistemas de praia/duna já é afetada pela erosão.»

Gaivotas na hora da sesta


Não somos só nós, os humanos, que gostamos da sesta. As gaivotas, como outros animais, também sabem aproveitar os momentos certos para a sesta retemperadora. Ao longe nem tinha a certeza do que via, mas a máquina fotográfica levou-me a descobrir a mancha branca que divisei ao longe, no prolongamento da ilhota que se vê bem da ponta da Barra. Contudo, não compreendi a razão de não terem optado pela ilhota, com terra mais seca e porventura mais própria para o descanso. Mas as gaivotas lá terão as suas razões. Por algum motivo será, mas não houve hipótese de lhes perguntar.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Publicidade natalícia


A publicidade é uma arte. É a arte por excelência de vender ou de sugerir a compra de bens, tanto os de uso comum ou normal como os destinados a presentes em datas festivas, nomeadamente  o Natal. E há realmente publicidade de artigos para todos os gostos e idades. A publicidade não pode dispensar o nosso cuidado e análise, porque há muita publicidade enganosa, que é crime, mas que circula por aí, à vista de todos, sem merecer qualquer atenção da ASAE ou demais agentes obrigados a evitar a fraude.
Nos últimos dias, qualquer jornal ou revista é portador de autênticas edições publicitárias, com um ou outro texto alusivo à quadra que atravessamos, alguns com certa poesia e referências à ternura e ao bem e belo que o Natal nos traz cada ano. E depois lá vêm as peças de arte, vinhos, relógios, adereços, anéis e pulseiras, canetas de tinta permanente e outras, computadores, hotéis e restaurante, viagens de sonho e nem sei que mais, tudo para gente endinheirada, que a há neste recanto à beira-mar plantado.
Não sou contra os ricos que têm todo o direito de gastar o seu dinheiro como quiserem e onde quiserem, mas tenho pena dos que nesta quadra nem dinheiro têm para uma simples garrafa de espumante, um leitãozito, uma boa posta de bacalhau e uns bilharacos. Ao menos nós, os remediados, saibamos olhar para os que nada têm no dia a dia. A vida é assim...

Fernando Martins

domingo, 26 de novembro de 2017

Bento Domingues — Teologia da libertação ou libertação da teologia? (3)



1. Depois das duas crónicas anteriores, importa responder à pergunta que as motivou e que elas tentaram introduzir: qual foi o impacto da Teologia da Libertação (TdL) em Portugal?
O peruano Gustavo Gutiérrez, considerado o pai da TdL, explicou, muitas vezes, como ela nasceu e se desenvolveu. Para ele, os anos que vão de 1965 a 1968 foram os mais decisivos na experiência dos movimentos populares da América Latina (AL) e na participação dos cristãos nesses movimentos. A TdL tem aí as suas raízes. A célebre Conferência de Medellin (Colômbia, 1968) assumiu uma das tarefas que João XXIII tinha proposto ao Vaticano II: a causa dos pobres. O tema central da conferência acabou por ser reformulado nos seguintes termos: a Igreja do Vaticano II à luz da realidade latino-americana.
Na TdL existem duas intuições centrais e que foram, mesmo cronologicamente, as primeiras: o método teológico e a perspectiva do pobre. O acto primeiro é o compromisso com o processo de libertação; a teologia brota daí como acto segundo, servida pelas ciências humanas e sociais. É a reflexão crítica a partir e sobre a praxis histórica em confronto com a Palavra de Deus. Esta é acolhida na Fé que nos chega através de múltiplas e, por vezes, ambíguas mediações históricas, que importa refazer no dia-a-dia [1].
As lideranças da Igreja da AL fizeram o que deveria ter sido feito em todos os continentes. O Vat. II trabalhou na viragem do papel da Igreja no mundo contemporâneo. Pertencia às Igrejas locais confrontarem-se com a significação dessa viragem. Esta tarefa exigia a realização de mini-Vaticanos II de acordo com a diversidade de povos e culturas, tornando o concílio efectivamente ecuménico.

2. Em Portugal, como mostrou mais tarde o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, Manuel de Almeida Trindade, o Vaticano II não foi preparado, não foi acompanhado e, por isso, ficou sem pessoas ou grupos que tivessem incorporado esta revolução. Como dizia o cardeal Cerejeira, nós já estávamos muito mais adiantados do que aquilo que era dito, discutido e decidido nessa assembleia conciliar. A tradução dos livros litúrgicos e, na celebração da Eucaristia, o padre ter abandonado a posição de costas para o povo foram ganhos evidentes.
O importante era impedir quaisquer interrogações, discussões, debates. Por outro lado, o regime de censura política era suficiente para preservar o país desse contágio. A inércia dos dirigentes da Igreja portuguesa só podia agradecer.
Não se pode esquecer que a situação do país, a nível interno e internacional, era complicada e agravou-se durante a época conciliar: três frentes de guerra [2], imigração galopante e uma juventude sem perspectivas. São temas já saturados de análises diversas e também não faltam estudos sobre as relações entre a Igreja e o Estado Novo.
O catolicismo tradicional entrou em crise um pouco por toda a parte. Não por causa do concílio, como muitas vezes se diz, mas porque, mesmo a nível do Vaticano, não houve resposta para concretizar as orientações conciliares. Algumas medidas autoritárias, entre elas as referentes à ética matrimonial, aos ministérios ordenados e às mulheres, impediram que o Vat. II realizasse a sua Primavera. O Inverno que se seguiu foi muito longo.
Portugal, além de sofrer o que outras Igrejas sofreram, não estava preparado nem tinha recursos para enfrentar a originalidade das nossas dificuldades. A Acção Católica entrou em crise irreversível e os movimentos que entretanto surgiram não era com o futuro do Vat. II que estavam preocupados.
Com o 25 de Abril, os militantes católicos, cada um com as suas preferências, interessaram-se, sobretudo, pelas dimensões sociais e políticas do país. Não houve, no interior da Igreja, espaços e meios para alimentar a Fé em novo contexto. Os chamados “Vencidos do Catolicismo” e os católicos não praticantes (do culto) passaram a ser uma designação corrente.

3. Falta a resposta à pergunta principal: qual foi o impacto da Teologia da Libertação em Portugal? Uma resposta documentada e exaustiva não cabe nas dimensões desta crónica [3]. É importante esclarecer que a situação que se vivia em Portugal, quando nasceu a TdL na América Latina, era de opressão política e eclesial, como foi referido. Aconteceu, no entanto, um pequeno milagre na teologia não académica. As congregações religiosas (depois também alguns seminários) uniram-se para criar o Instituto Superior de Estudos Teológicos (ISET), no seguimento do que já tinha sido iniciado em Fátima (Sedes Sapientae e ISTA). Teve realizações muito diferentes em diversas cidades do país, mas só trabalhei no de Lisboa. Era uma escola teológica profundamente democrática no seu funcionamento interno, num país de ditadura político-religiosa.
O seu programa foi elaborado para realizar as orientações do Vaticano II. Não era, sobretudo, para explicar os seus documentos. O objectivo era muito mais ambicioso: integrar, na reflexão teológica, não apenas as ciências humanas, mas o pulsar da vida do país em todo o seu devir e complexidade. Assumia as questões da guerra e da paz, as transformações aceleradas no mundo do trabalho e na desertificação rural. Construía uma nova teologia marcada pelos acontecimentos e pelos “sinais dos tempos”, numa tentativa de preparar alunos e professores para discernir o que é que se exigia da Igreja no nosso país em transformação.
Clodovis Boff, ao examinar o que se estava a fazer no ISET, testemunhado no seu boletim, concluiu que, sem o nome, a problemática e o método seguidos eram os praticados na América Latina com o nome de Teologia da Libertação.
O ISET de Lisboa durou de 1967 a 1975. Começou na ditadura e foi encerrado quando a liberdade chegou a Portugal. Uma campanha eclesiástica, acusando esse centro teológico de falta de ortodoxia, serviu para obrigar os seus estudantes a frequentarem a Faculdade de Teologia da Universidade Católica, ainda muito incipiente.
Lembrei esse passado, mas o que me interessa é o futuro reaberto pelo papa Francisco, sonhado e trabalhado por muitos que já não puderam ver esta nova esperança.

Frei Bento Domingues no PÚBLICO

[1] Gustavo Gutiérrez, La fuerza histórica de los pobres, CEP, Lima, 1980
[2] Cf. António Lobo Antunes, Até Que As Pedras Se Tornem Mais Leves Que A Água, D. Quixote, 2017; Isto não é uma crónica, é um vómito de indignação, in Visão (08.06.2017)
[3] Cf. Frei Bento Domingues, O.P., Alguns estilos de prática extra-universitária em Portugal. Breves notas de leitura, in Didaskalia XLVI (2016) II, pp. 91-97; Catarina Silva Nunes, Compromissos incontestados. A auto-representação dos intelectuais católicos portugueses, Paulinas, 2005; Moisés Lemos Martins, Os dominicanos e o ensino da Teologia em Portugal, in A restauração da Província Dominicana em Portugal, Tenacitas 2012, pp. 105-120; Cf. Tb. Teologia da Libertação e prática da Teologia, número especial de Igreja e Missão, n.º 127 (1985)

sábado, 25 de novembro de 2017

No inverno da vida

Aos meus muitos amigos que ontem me felicitaram de variadíssimos modos, com mensagem e palavras bonitas, que muito agradeço, quero dedicar uma reflexão simples, enquanto espero o convívio familiar que o tempo de todos e de cada um adiou para hoje.
Isabel Allende escreveu um livro que ainda não li e que tem por título “Para lá do Inverno”. Na publicidade que lhe é feita, surge uma frase que é um desafio para os mais velhos (uso exatamente a vocábulo velho sem medo nem complexos de qualquer ordem), que diz assim:



No inverno da vida devemos abraçar com força
o verão invencível que levamos na alma”

É isso mesmo. O verão invencível, com o calor humano mais forte que o do sol, com a luminosidade que nos ajuda a ver mais ao longe e com mais nitidez, com o colorido no vestir e no sorrir, com a transparência dos ambientes que consolam a alma, com a ligeireza das nossas andanças e com o à-vontade que as praias suscitam, torna-nos, realmente, mais livres, mais abertos aos outros, mais atentos às riquezas naturais que nos cercam e nos permitem conhecer novos mundos, quantas vezes à nossa porta.
Eu quero com esse verão, que habita o meu ser, tornar-me mais simples, mais atento ao espaço global, mais genuíno no pensar e no agir, mais compreensivo, mais ouvinte e menos falador, mais sensível ao bem e ao belo, mas ainda mais disponível para os que enfrentam injustiças gritantes, sofrendo o horror do abandono, do esquecimento e da marginalização.
Um abraço para todos.

Fernando Martins

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

A águia e a galinha — Reflexão no dia do meu aniversário

Uma águia nunca voa só

Há anos, tive o privilégio de me cruzar com Leonardo Boff, um animador da teologia da libertação e um homem de visões largas ao modo da águia que, nas alturas, pode ampliar horizontes do planeta que habitamos. Dissertou, na conferência que proferiu no Porto, sobre ecologia, planeta terra, natureza e Deus, sem ousar sequer tocar, por mais levemente que fosse, na sua situação de padre a quem a cúria romana tentou cortar as asas e a amplitude do olhar e do sonho só possível de quem deseja fugir da limitada visão do terreiro que a galinha habita.
Vem isto a propósito de eu completar hoje 79 anos  e de me abalançar a algumas cogitações próprias de quem olha para trás em busca de algo marcante que tenha moldado, de alguma forma, a minha maneira de ser e de estar no mundo. E daí, o filme da minha existência passou a correr até estacionar num livro de Leonardo Boff – A águia e a galinha - Uma metáfora da condição humana – que me fez pensar. Recomendou-me o autor e conferencista, na hora dos autógrafos: «Fernando: Dê asas à águia que se esconde em você! L. Boff»
Embora nem sempre consiga seguir esse seu conselho, que a vida é feita de imprevistos, alegrias e deceções, procuro sair, no dia a dia, da pachorrenta banalidade da existência, se não pela coragem de viajar, ao menos pela riqueza de sonhar, que aí dificilmente alguém me leva a palma. E nesse sonhar, olho para mais uma passagem do referido livro: «É a hora e a vez da águia. Despertemo-la. Ela está se agitando nas mentes e nos corações de muitos. Não só. Ela anima a história e penetra na própria realidade íntima de cada ser humano. Uma águia nunca voa só. Vive e voa sempre em pares.» E mais adiante: «Cada um hospeda dentro de si uma águia. Sente-se portador de um projeto infinito. Quer romper os limites apertados do seu arranjo existencial. Há movimentos na política, na educação e no processo de mundialização que pretendem reduzir-nos a simples galinhas, confinados aos limites do terreiro. Como vamos dar asas à águia, ganhar altura, integrar também a galinha e sermos heróis de nossa própria saga?»

Anselmo Borges - Lutero: somos mendigos

1 Teria sido possível encontrar um acordo quanto às 95 teses de Lutero, mesmo quanto às que são mais claramente de crítica ao Papa: "Pregam doutrina humana os que dizem que a alma voa do purgatório para o céu, mal o dinheiro cai na caixa." "Porque é que o Papa não esvazia o purgatório, baseado num motivo correcto: um amor santíssimo e a extrema necessidade das almas, em vez de resgatar um número incontável de almas, baseado num motivo bem insignificante: o funesto dinheiro para a construção de uma igreja?" "Porque é que o Papa, que é hoje mais rico do que o mais rico Crasso, não prefere pelo menos construir a Basílica de São Pedro com o seu próprio dinheiro, em vez de fazê-lo com o dos fiéis pobres?" Aliás, ele mandara as teses ao bispo de Mainz e só porque não recebeu resposta é que as tornou públicas. Infelizmente, o próprio papa Leão X, que aos 13 anos já era cardeal e que estava mais preocupado com o poder e o fausto do que com o Evangelho e que não percebeu que se estava numa mudança de época, pensou que tudo se resolvia com a excomunhão do frade alemão. Não foi assim, e o que é facto é que, como escreveu Viriato Soromenho Marques, "em poucos anos, o que era um protesto aparentemente localizado e sectorial contra um cristianismo ocidental romano, já com frestas mas ainda unificado, transformou-se num poderoso e plural movimento que iria cindir, violenta e definitivamente, não só o cristianismo como a política, a sociedade e a cultura do Velho Continente".

2 As indulgências foram apenas a ocasião. O que acabou por romper a unidade e pôr em marcha consequências que o próprio Lutero não desejava foi a doutrina luterana dos "sós": sola fides - só a fé: a salvação dá-se exclusivamente pela fé, sem o contributo das obras; sola gratia - só a graça, sem méritos; sola Scriptura - só a Bíblia, a única autoridade na e para a fé. Esta concepção punha fim às mediações: dos sacramentos, só o baptismo e a eucaristia eram reconhecidos; o próprio Erasmo de Roterdão, humanista e crítico mordaz da Igreja, recordou a Lutero que, segundo a Bíblia, em ordem à salvação, há a colaboração da liberdade humana; a razão não pode ser excluída da fé; as Escrituras têm de ser lidas sem invalidar a tradição...
Neste quadro, o protestantismo contribuiu de modo decisivo para a secularização/secularismo. Sem mediações, entre um Deus radicalmente transcendente, totalmente Outro, e uma humanidade radicalmente pecadora, ficava um mundo totalmente profano, sem qualquer significado divino, que já não é veículo da graça. Com o tempo, uma vez que Deus está tão distante do ser humano, pode-se chegar ao seu esquecimento e, no longo prazo, à sua negação. Assim, a Reforma também está na origem das modernas concepções radicalmente imanentes. É a ironia da história das ideias: uma vez lançadas, podem provocar consequências que de modo nenhum estavam nas intenções dos seus autores e até lhes são totalmente opostas.
Neste contexto, Lutero defendeu a doutrina dos dois Reinos, distinguindo bem a esfera temporal e a esfera espiritual, o reino da política e o reino da salvação, de tal modo que a liberdade cristã fica separada da transformação social deste mundo. Assim, dizer que a liberdade trazida por Cristo é incompatível com a servidão, como afirmavam os camponeses rebeldes em Os Doze Artigos, "significa tornar a liberdade cristã uma liberdade completamente carnal". "O Evangelho não tolera nunca a rebelião." Subordinou a Igreja à autoridade do Estado, de tal modo que o príncipe ou o senhor pode ser "o funcionário da justiça de Deus e o servidor da sua ira." A liberdade e a igualdade cristãs não são para este mundo. Assim, Lutero, que, num primeiro momento, pedira aos príncipes "Por amor de Deus, cedei um pouco face ao furor dos camponeses", pouco tempo depois, com base na "matança de Weinsberg", pôs-se completamente do lado dos príncipes e "contra os camponeses, ladrões e assassinos; nisto, molho a minha pena em sangue: apelo aos príncipes que matem os ofensivos camponeses como cães raivosos, que os apunhalem, os estrangulem e destruam como melhor puderem... Não quero opor-me às autoridades que, podendo e querendo fazê-lo, reprimam com todo o vigor e castiguem esses assassinos sem oferta prévia de alcançar um acordo equitativo, mesmo quando essas autoridades não forem tolerantes em relação ao Evangelho".
Thomas Münzer, que fora discípulo de Lutero mas se distanciara dele por causa da opressão a que estavam sujeitos os camponeses, não se contentava com a libertação interior e queria estabelecer o Reino de Deus mediante uma ordem social justa. Na batalha de Frankenhausen, em 1525, foi feito prisioneiro, torturado e decapitado. Os conflitos causaram a morte a mais de cem mil camponeses.

3 São incontáveis na história os efeitos positivos de Lutero como testemunha de Cristo e do Evangelho: a leitura e a difusão da Bíblia, a tomada de consciência pelos cristãos do sacerdócio universal e da sua radical igualdade em Cristo, a reforma da(s) Igreja(s), a afirmação da subjectividade e da liberdade, a educação, a promoção da mulher, a força da música na liturgia, os seus catecismos... Mas há ainda outra dimensão marcante nas suas contradições: depois de ter defendido uma coabitação amigável com os judeus, fez um volte-face e pediu, em 1543, a sua expulsão, o confisco dos seus bens, o incêndio das sinagogas: "Primeiro, incendeie-se as suas sinagogas e cubra-se de terra e sepulte-se o que recusar arder, a fim de que ninguém possa ver o seu mínimo traço por toda a eternidade."
 
4 Lutero morreu na sua cidade natal, Eisleben, em 1546, invocando Jesus Cristo. Numa nota escrita na véspera da morte estão estas palavras: "Wir sind Bettler, das ist wahr" (somos mendigos, é verdade).
Anselmo Borges no DN

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