quinta-feira, 1 de julho de 2021

Aniversário de Álvaro de Campos

ANIVERSÁRIO

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino.
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa.
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Poesias de Álvaro de Campos.
Fernando Pessoa. Lisboa: 
Ática, 1944 

O gafanhão e a areia - 6

 


quarta-feira, 30 de junho de 2021

Jardim Henriqueta Maia - Um espaço bonito e acolhedor

A Lita junto à estátua de Carlos Paião

Em Ílhavo, hoje, passámos pelo Jardim Henriqueta Maia, recentemente inaugurado, após profunda remodelação. Pouquíssima gente por ali circulava, mas tivemos a sorte de nos cruzarmos com um artista ilhavense que não víamos há muito, Carlos Paião de seu nome, um artista musical, compositor e intérprete consagrado. Pelo que vimos, estaria a chegar de um concerto de microfone na mão, onde, decerto, teria interpretado “#emPlayBack”, uma das suas mais expressivas composições que o próprio autor apresentou no Festival Eurovisão da Canção 1981. A escultura é obra do mestre Albano Martins.


Bispo e espaço museológico nas traseiras da igreja

O Jardim Henriqueta Maia ficou, realmente, mais arejado e convidativo e o povo de  Ílhavo saberá usufruí-lo e dinamizá-lo. Há espaços para tudo e os ornamentos naturais, árvores, arbustos, relvas e jardins, no tempo próprio, hão de proporcionar uma ambiência saudável e aconchegante. Espera-se que os ílhavos, com a ajuda das diversas instituições, saibam e queiram dar vida à praça que se apresenta com dignidade.
Há corredores cicláveis e pedonais, sanitários e jardim infantil, bancos para o descanso e para a conversa, e o aconchego do casario envolvente, com a Igreja do Divino Salvador disponível para quem precisar de uns momentos de reflexão. Para junto dela, foi agora a estátua do Bispo D. Manuel Trindade Salgueiro, Arcebispo de Évora e figura de destaque do Episcopado Português no seu tempo. Também tido como Bispo dos Pescadores do Bacalhau, presidindo à cerimónia da partida dos navios para os grandes bancos que se realizava em Lisboa. 
No espaço do antigo quartel dos Bombeiros, nas traseiras da Igreja, está a nascer ainda  um espaço museológico dedicado à religiosidade marítima dos ílhavos, mas também uma loja social. 

O gafanhão e a areia - 5


 Continua

terça-feira, 29 de junho de 2021

Dia do Papa

Confesso que não sabia que hoje se celebrava o Dia do Papa. Mas há toda a razão para o aceitar e celebrar, sobretudo pelos católicos. Pelo que li, tal comemoração apoia-se no Dia de São Pedro, um dos pilares da Igreja Católica e primeiro Papa.
Já agora, importa dizer que o atual Papa, que assumiu o nome de Francisco, tem o número 266 e é conhecido em boa parte do mundo pela sua simplicidade, frontalidade e humanidade. Os católicos não deixarão de rezar por ele para que Deus o ilumine até ao fim da sua vida terrena. É o que farei hoje com todo o empenho. 

Farol da Barra em dia sombrio

O tempo não estava agradável, mas o nosso farol continuava imperturbável a impor-se a quem está perto e a quem o vislumbra de longe. Sentado num banco à sua ilharga, disparei sem me levantar, meio torcido, e depois guardei-o nos meus arquivos. Hoje, partilho-o com os meus amigos que gostam dele.

O gafanhão e a areia - 4


 

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Papagaios de papel no Jardim Oudinot


Nunca fui especialista na arte de construir papagaios de papel. Nunca fui artista de nada, mas havia colegas amigos com habilidade para criar originais papagaios que enfeitavam as nuvens da minha meninice.
Segundo os meus registos, esta fotografia tem cinco anos e esta cena desenrolou-se no nosso Jardim Oudinot. Se alguém a repetir nos arejados espaços da nossa sala de visitas comunitária,  eu estarei lá para ver.

O gafanhão e a areia - 3


Continua
 

domingo, 27 de junho de 2021

O Céu cuida da Terra

Crónica de Bento Domingues no PÚBLICO

O Papa não fez um documento para figurar nas estantes dedicadas à religião. A encíclica Laudato Si’ era e é um instrumento de trabalho.

1. Parece que, para algumas pessoas, ainda não passou o tempo de associar as palavras religião e alienação. Foram consideradas como equivalentes e, por vezes, com alguma razão. No entanto, esta identificação não tinha nem tem em conta a grande variedade de religiões do mundo, nem as suas histórias de fidelidade à sua inspiração mais profunda e os seus momentos de traição. Mas, como ignorar o vasto mundo que encontra, na fé religiosa, motivação e energia para enfrentar os desafios da sua própria vida e que mantém aberta a pergunta: em que posso ajudar? Tornar-se cada vez mais competente, para melhor servir, devia ser a preocupação fundamental da existência humana. A religião, quando é verdadeira, quando faz coincidir a sua abertura à transcendência com a sua abertura à transformação do mundo, não enfraquece o ser humano, robustece-o em todas as suas dimensões.

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