Crónica semanal de Anselmo Borges
Parece estender-se cada vez mais a tentação de pensar que o Homem é um animal entre outros. Se diferença houvesse, não seria essencial e qualitativa, apenas de grau. Mas quem anda atento reconhecerá com certeza que a diferença entre o Homem e os outros animais não é apenas de grau, mas essencial e qualitativa. Pelo menos, é preciso manter a pergunta.
Também o Homem é corpo, mas um corpo que fala e que diz eu. Ora, um corpo que produz sons duplamente articulados, portanto, transportando sentido, é um corpo que transcende a animalidade. Que o ser humano não fica submerso na instintividade da vida prova-o o facto de, por exemplo, ao contrário do animal, no domínio da sexualidade, ser capaz de pesar razões, abster-se, pensar no que é melhor para si e para o parceiro, ter inventado o erotismo e também a pornografia, procurar técnicas anticonceptivas... O ser humano é dado a si mesmo como um eu único, senhor de si, em autoposse... Aí está a liberdade, a moralidade e, consequentemente, a responsabilidade: como diz a palavra, responde por si e pelos seus actos...
O Homem é capaz de renunciar à satisfação imediata dos seus impulsos: é “o asceta da vida”, escreveu o filósofo Max Scheler. Por isso, é capaz de jejuar, e ergueu, por exemplo, um edifício jurídico- penal, para evitar a vingança cega, dirimir diferendos, não fazer justiça pelas próprias mãos.
Quando vemos um animal sentado, de olhos fechados, com a cabeça entre as mãos ou encostada à mão direita, estamos em presença de um ser humano que medita. Está ensimesmado/a, entrou dentro de si próprio/a, desceu à sua intimidade, submerso/a na sua subjectividade pessoal.
O ser humano é consciente, mais: autoconsciente, consciente de ser consciente, autorreflexivo/a. Não vivo longe de um aeroporto, e reparo, quando passeio pela praia, como cães da zona se põem a correr na areia, atrás das sombras dos aviões que se apressam para a pista. Cá está: o animal vive da imediatidade dos instintos e o mundo para ele é fundamentalmente um conjunto de estímulos, que atraem ou repelem. O ser humano, ao contrário, dada a sua capacidade de distanciação, vive no real: é um “animal de realidades”, repetia o filósofo Xavier Zubiri.
O Homem “começou a ser Homem intentando criar beleza”, escreveu o filósofo Pedro Laín Entralgo. O ser humano não vive amarrado e encerrado na satisfação das suas necessidades vitais. Ele transcende o simplesmente biológico, criando cultura. E vive do gratuito: cria e contempla a beleza, pois é o ser “criativamente possuído pelo fascinante esplendor do inútil” (George Steiner). Para sobreviver, não precisava de investigar na mecânica quântica. O que ganha no tempo dedicado aos mortos? No entanto, o tempo que gastamos inutilmente com os mortos!...
Os animais também comunicam. Mas nunca um animal fez perguntas. O Homem é o animal que pergunta. E perguntar coloca-nos na perplexidade, pois implica ao mesmo tempo saber e não saber. Se perguntamos é porque não sabemos, mas sobre aquilo de que nada sabemos não perguntamos... Afinal, o que sabemos, quando perguntamos? A pergunta nunca acaba: de pergunta em pergunta vamos até ao in-finito.
No perguntar, o Homem revela que é o ser do intervalo – entre o finito e o Infinito – e que está ligado ao Transcendente: perguntamos pelo Fundamento e pelo Sentido último...
O Homem é um ser paradoxal. Somos bípedes sanguinários, capazes de sadismo feroz. Inventamos máquinas de guerra brutal e instrumentos de tortura indizível. Pilhamos, massacramos, somos de uma ganância ilimitada, de uma vulgaridade ridícula, de um materialismo rasteiro. No entanto, como escreveu o agnóstico George Steiner, “este mamífero desgraçado e perigoso gerou três ocupações, vícios ou jogos de uma dignidade completamente transcendente. São eles a música, a matemática e o pensamento especulativo (no qual incluo a poesia, cuja melhor definição será música do pensamento).
Radiantemente inúteis, estas três actividades são exclusivas dos homens e das mulheres e aproximam-se tanto quanto algo se pode aproximar da intuição metafórica de que fomos realmente criados à imagem de Deus.” É por isso que, apesar dos avanços das ciências humanas, da genética, das neurociências, da IA, que devem ser promovidos, permanecerá, íntegra, talvez até mais intensa, a pergunta: o que é o Homem?
Quanto mais potente se torna o império tecnológico mais urgente e imperiosa se torna a reflexão sobre a pessoa humana, a sua dignidade, os seus direitos — universais, inalienáveis, invioláveis... — e, consequentemente, também os seus deveres, para consigo e a humanidade inteira, e o planeta Terra, a casa comum...
Aí está a importância histórica da primeira encíclica de Leão XIV, sobre a inteligência artificial, justamente com o título Magnifica Humanitas (Magnífica humanidade). O Papa, já a concluir a sua apresentação — foi a primeira vez que um Papa apresentou uma encíclica sua —, no passado dia 25: “Não temamos a IA, mas mantenhamos sempre presente a questão humana. Não podemos ser negligentes com os nossos instrumentos técnicos mais avançados.
Anselmo Borges
Sábado, 30 de Maio de 2026