sábado, 30 de maio de 2026

O Homem: criado à imagem de Deus?

Crónica semanal de Anselmo Borges


Parece estender-se cada vez mais a tentação de pensar que o Homem é um animal entre outros. Se diferença houvesse, não seria essencial e qualitativa, apenas de grau. Mas quem anda atento reconhecerá com certeza que a diferença entre o Homem e os outros animais não é apenas de grau, mas essencial e qualitativa. Pelo menos, é preciso manter a pergunta.
Também o Homem é corpo, mas um corpo que fala e que diz eu. Ora, um corpo que produz sons duplamente articulados, portanto, transportando sentido, é um corpo que transcende a animalidade. Que o ser humano não fica submerso na instintividade da vida prova-o o facto de, por exemplo, ao contrário do animal, no domínio da sexualidade, ser capaz de pesar razões, abster-se, pensar no que é melhor para si e para o parceiro, ter inventado o erotismo e também a pornografia, procurar técnicas anticonceptivas... O ser humano é dado a si mesmo como um eu único, senhor de si, em autoposse... Aí está a liberdade, a moralidade e, consequentemente, a responsabilidade: como diz a palavra, responde por si e pelos seus actos...
O Homem é capaz de renunciar à satisfação imediata dos seus impulsos: é “o asceta da vida”, escreveu o filósofo Max Scheler. Por isso, é capaz de jejuar, e ergueu, por exemplo, um edifício jurídico- penal, para evitar a vingança cega, dirimir diferendos, não fazer justiça pelas próprias mãos.
Quando vemos um animal sentado, de olhos fechados, com a cabeça entre as mãos ou encostada à mão direita, estamos em presença de um ser humano que medita. Está ensimesmado/a, entrou dentro de si próprio/a, desceu à sua intimidade, submerso/a na sua subjectividade pessoal.
O ser humano é consciente, mais: autoconsciente, consciente de ser consciente, autorreflexivo/a. Não vivo longe de um aeroporto, e reparo, quando passeio pela praia, como cães da zona se põem a correr na areia, atrás das sombras dos aviões que se apressam para a pista. Cá está: o animal vive da imediatidade dos instintos e o mundo para ele é fundamentalmente um conjunto de estímulos, que atraem ou repelem. O ser humano, ao contrário, dada a sua capacidade de distanciação, vive no real: é um “animal de realidades”, repetia o filósofo Xavier Zubiri.
O Homem “começou a ser Homem intentando criar beleza”, escreveu o filósofo Pedro Laín Entralgo. O ser humano não vive amarrado e encerrado na satisfação das suas necessidades vitais. Ele transcende o simplesmente biológico, criando cultura. E vive do gratuito: cria e contempla a beleza, pois é o ser “criativamente possuído pelo fascinante esplendor do inútil” (George Steiner). Para sobreviver, não precisava de investigar na mecânica quântica. O que ganha no tempo dedicado aos mortos? No entanto, o tempo que gastamos inutilmente com os mortos!...
Os animais também comunicam. Mas nunca um animal fez perguntas. O Homem é o animal que pergunta. E perguntar coloca-nos na perplexidade, pois implica ao mesmo tempo saber e não saber. Se perguntamos é porque não sabemos, mas sobre aquilo de que nada sabemos não perguntamos... Afinal, o que sabemos, quando perguntamos? A pergunta nunca acaba: de pergunta em pergunta vamos até ao in-finito.
No perguntar, o Homem revela que é o ser do intervalo – entre o finito e o Infinito – e que está ligado ao Transcendente: perguntamos pelo Fundamento e pelo Sentido último...
O Homem é um ser paradoxal. Somos bípedes sanguinários, capazes de sadismo feroz. Inventamos máquinas de guerra brutal e instrumentos de tortura indizível. Pilhamos, massacramos, somos de uma ganância ilimitada, de uma vulgaridade ridícula, de um materialismo rasteiro. No entanto, como escreveu o agnóstico George Steiner, “este mamífero desgraçado e perigoso gerou três ocupações, vícios ou jogos de uma dignidade completamente transcendente. São eles a música, a matemática e o pensamento especulativo (no qual incluo a poesia, cuja melhor definição será música do pensamento).
Radiantemente inúteis, estas três actividades são exclusivas dos homens e das mulheres e aproximam-se tanto quanto algo se pode aproximar da intuição metafórica de que fomos realmente criados à imagem de Deus.” É por isso que, apesar dos avanços das ciências humanas, da genética, das neurociências, da IA, que devem ser promovidos, permanecerá, íntegra, talvez até mais intensa, a pergunta: o que é o Homem? 
Quanto mais potente se torna o império tecnológico mais urgente e imperiosa se torna a reflexão sobre a pessoa humana, a sua dignidade, os seus direitos — universais, inalienáveis, invioláveis... — e, consequentemente, também os seus deveres, para consigo e a humanidade inteira, e o planeta Terra, a casa comum...
Aí está a importância histórica da primeira encíclica de Leão XIV, sobre a inteligência artificial, justamente com o título Magnifica Humanitas (Magnífica humanidade). O Papa, já a concluir a sua apresentação — foi a primeira vez que um Papa apresentou uma encíclica sua —, no passado dia 25: “Não temamos a IA, mas mantenhamos sempre presente a questão humana. Não podemos ser negligentes com os nossos instrumentos técnicos mais avançados.

Anselmo Borges

Sábado, 30 de Maio de 2026

Sem comentários:

Enviar um comentário

O QUE PROCURA?

Publicação em destaque

Festas - Para o ano há mais!

As festas em honra da Nossa Padroeira, Nossa Senhora da Nazaré, já se foram, mas ficou no subconsciente da nossa gente que para os próximos ...

ETIQUETAS

Seguidores