Crónica semanal de Anselmo Borges
Terminada a festa do Carnaval, os cristãos entram na Quaresma, que consiste em quarenta dias de mais profunda meditação, de mais intensa conversão, de amor mais vivo, mais activo e perfeito, em ordem a poderem celebrar com mais dignidade a Páscoa do Senhor enquanto passagem da morte à vida, à plenitude da vida, a vida eterna. De modo significativo, no primeiro domingo da Quaresma, lê- se sempre a passagem do Evangelho referente às tentações de Jesus. Ora, é importante sublinhar que as três tentações estão todas referidas ao poder: poder económico, poder religioso, poder político... Jesus, antes de iniciar a sua vida pública, teve de decidir se queria ser um Messias político, do poder, ou um Messias do amor, do serviço. Foi por esta segunda alternativa que seguiu: Ele vinha para anunciar o Evangelho, notícia boa e felicitante, a melhor notícia que a humanidade ouviu ao longo da sua história: Deus é bom, Pai-Mãe, e só quer o bem, a alegria, a felicidade, a plena realização de todos… Por isso, a mensagem era clara: "Eu não vim para ser servido, mas para servir", e servir até dar a vida. Assim, a única verdadeira tentação, segundo o Evangelho, é a do poder, no sentido do domínio sobre os outros, humilhando, oprimindo, discriminando, obrigando à fome, à violência, à guerra, à morte, com uma cultura imperialista e, consequentemente, militarista...
Evidentemente, em qualquer sociedade o poder é necessário, inevitável. Toda a questão consiste em saber como é que ele é exercido e com que finalidade. Quantos se lembram que Ministro, na sua etimologia, significa pura e simplesmente servente, aquele que serve? Primeiro-Ministro é o que está à frente no serviço. Jesus disse aos discípulos, portanto, também ao papa, bispos, cardeais, padres: "Sabeis que os chefes das nações governam-nas como seus senhores. Não seja assim entre vós; pelo contrário, quem quiser fazer-se grande entre vós seja vosso servo".
Jesus renunciou ao poder enquanto domínio, mas é referido frequentemente no Evangelho que ensinava com autoridade. A palavra autoridade vem do verbo latino augere, que significa aumentar. Ter autoridade tem, portanto, a ver com fazer crescer, aumentar no ser. Cá está: servir. O poder legitima-se enquanto serviço de fazer crescer na liberdade, na justiça, na dignidade, no bem comum...Presidentes, ministros, bispos, jornalistas, pais, professores, padres, polícias... exercem legitimamente o poder enquanto autoridade, quando ele faz crescer... Assim, não são apenas os súbditos que devem obedecer. A palavra obediência também tem a sua origem no latim: obaudire, que significa ouvir.
Então, os que têm poder legítimo, começando pelos pais, são os primeiros a ter de obedecer, isto é, a ter de ouvir aqueles que precisam que lhes seja feita justiça, ouvir a própria consciência, ouvir o apelo de todos aqueles que clamam por mais liberdade e dignidade... Não há superiores e inferiores. Há apenas homens e mulhere iguais em dignidade. E alguns estão constituídos em poder, que devem exercer como serviço a essa dignidade inviolável… Aqui, questão substancial é haver poder formal não acompanhado da necessária autoridade, competência pessoal.
Quando se fala em Igreja, é difícil não se ser, por princípio, imediatamente confrontado com uma situação de desconforto. Este mal-estar não é pertença exclusiva de ateus ou agnósticos: os próprios cristãos, mesmo cristãos católicos, podem ter uma má relação com a Igreja. De facto, a Igreja aparece-lhes frequentemente como uma hierarquia soberana e longínqua, que comanda, que proíbe, não se percebendo muitas vezes se essas ordens e proibições querem realmente o bem das pessoas ou, se, pelo contrário, não são expressão disfarçada de interesses económicos e políticos, enfim, do poder... Lá está o poder sacro com os seus abusos: abusos de poder, de consciência, sexuais…
Num primeiro momento pelo menos, a Igreja surge como uma hiperorganização, tendo à frente um monarca (o Papa), com os seus ministros (cardeais da Cúria romana, a famosa “corte”, que tantos dissabores causou a Francisco), e também altos funcionários (núncios ou embaixadores do Vaticano, espalhados pelas capitais dos Estados do mundo, e bispos) e ainda médios e pequenos funcionários (monsenhores, cónegos, padres)... Mas não devia ser assim. De facto, a palavra igreja em português (iglesia em castelhano, église em francês) vem do grego Ekklesía.
Ora, a Ekklesía era a assembleia do povo reunido. No alemão (Kirche), no inglês (Church), etc., a origem é outra: Kyrike (forma popular bizantina), com o significado de "pertencente ao Senhor" (Kyrios) e, por extensão, "casa ou comunidade do Senhor". De qualquer modo, na dupla etimologia, a Igreja, no Novo Testamento, significa a assembleia daqueles que acreditam em Jesus, que crêem nele como o Messias e se tornaram seus discípulos, querendo, portanto, segui-lo, fazendo durante a vida o que ele fez e confiando nele na própria morte, esperando também a plenitude da vida em Deus, a vida eterna.
A Igreja desde o início considerou-se a si mesma como a assembleia dos fiéis a Cristo, dos que pertencem ao Senhor: o sinal dessa pertença era o baptismo e reuniam-se, celebrando, na Ceia, a sua memória, até que ele venha. Evidentemente, sendo constituída por homens e mulheres, a Igreja precisou de dar-se a si mesma o mínimo de organização. Por isso, nela, há diferentes funções e serviços. A palavra correcta é precisamente serviços. Significativamente, o Novo Testamento não fala de hierarquia (poder sagrado), mas de diakonia, que quer dizer ministério, serviço (mas, repito, também os Ministros não esqueceram já que ministro é aquele que presta um serviço?).
Que é que isto tudo quer dizer? A Igreja não é, na sua raiz, uma hiperorganização, mas assembleia convocada por Deus e reunida em Jesus, o Cristo. Então, o papa, antes de papa, é cristão; o bispo, antes de ser bispo, é cristão, um seguidor de Cristo; um cardeal, um cónego, um padre são discípulos de Cristo, que têm uma missão de serviço. Que devem servir, precisamente como qualquer cristão. Não há de um lado a hierarquia que manda e do outro os cristãos leigos que obedecem.
Há sim a comunidade dos que acreditam em Jesus, que procuram ser seus discípulos e que obedecem uns aos outros, escutando-se uns aos outros, no Espírito Santo, e que prestam serviços uns aos outros e a todos as pessoas, segundo os dons e as tarefas que foram dados a cada um para bem de todos. Neste sentido, não se acredita propriamente na Igreja; o que o cristão faz é professar e praticar a fé em Jesus e no Deus de Jesus em Igreja, a comunidade dos que acreditam.
Anselmo Borges
Sábado, 28 de Fevereiro de 2026
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