sexta-feira, 6 de abril de 2018

ALELUIA! JESUS, O SENHOR, CONVIVE CONNOSCO

Georgino Rocha

Georgino Rocha

É ao cair da tarde. Em Jerusalém, cidade onde há dias havia ocorrido a morte por crucifixão de Jesus de Nazaré. A noitinha está prestes a chegar. Começam a rarear os últimos clarões de luz. A hora do tempo marca o ritmo do coração e indicia o estado de ânimo dos discípulos: Esperança muito em baixo. Refugiados em casa, estão cheios de medo e com as portas trancadas. Sobretudo as do espírito encerrado ao futuro imediato. O desfecho dos seus sonhos, que duraram quase três anos, deixou-os em estado de choque. O Rabi, o Mestre em quem haviam depositado total confiança, teve morte trágica. Vítima de um processo iníquo, em que se empenharam as forças religiosas e políticas. A hora era de trevas e nem sequer os semáforos da esperança estavam ligados e a funcionar. Já só restava a saudade avolumada pela revisitação das suas atitudes na ceia de despedida, no jardim das Oliveiras e na agonia, na prisão e em outros passos dados a caminho do Calvário. Retinham, como memória emblemática, a liberdade de Jesus, a dignidade do seu comportamento, a determinação e firmeza dos seus gestos. Viviam a vibração das emoções sentidas e o sabor amargo da deslealdade e da debandada. Estavam abatidos e procuram segurança numa casa, onde se protegiam uns aos outros enquanto surgiam perguntas angustiadas: E agora, que vai ser de nós? Será conhecido o nosso esconderijo? Virão à nossa procura? Que nos farão? E muitas outras.
Jesus apresenta-se no meio deles. De modo simples. Sempre Ele a tomar a iniciativa, a surpreender. E saúda-os amigavelmente: “A paz esteja convosco”. João, o narrador do episódio (Jo 20, 19-31), não faz alusão a qualquer censura pelo passado recente. Apenas refere que lhes mostra as mãos e o lado, com as cicatrizes da paixão, sinais da sua identidade de crucificado. Não haja dúvidas. É Ele mesmo.
Uma nova aurora começa a despontar: O espírito desanuvia-se, a esperança renasce e o coração enche-se de alegria. Este movimento interior é estimulado por Jesus ressuscitado que prossegue: “A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós”. E para os guiar na missão e garantir a fidelidade na comunicação da mensagem, acrescenta: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos”. Que contraste de atitudes! Que confiança acrescida e credenciada! Que tesouro lhes deixa em pobres “mãos de barro”!
E a missão começa pelos de casa. Tomé, o ausente, recebe a boa notícia: “Vimos o Senhor!”. E reage com prudência. O anúncio vinha de quem se tinha “portado mal”, negando-o e fugindo. A novidade ultrapassa a imaginação, o que a razão humana pode alcançar. É arriscado aceitar, sem provas, o testemunho dado. A cautela é a melhor conselheira, reconhece o discípulo prudente. Por isso quer ver o sinal dos cravos, quer meter a mão no peito aberto pela lança, quer fazer a experiência dos sentidos, tocando as cicatrizes das chagas. E este desejo, vai ser satisfeito.
Passados oito dias, Jesus mostra-se de novo. Agora, Tomé está no grupo, na comunidade reunida. Faz a saudação da paz e dirige-se a ele, dizendo: “Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado e não sejas incrédulo, mas crente”. A oferta supera a exigência, o amor aproxima a distância e a misericórdia faz-se compaixão. E Tomé nem precisa de tanta solicitude. A exclamação sai-lhe espontânea e convicta: “Meu Senhor e meu Deus!”. É a fé de aceitação incondicional, superadas as dúvidas legítimas. É a resposta humana razoável tocada pela luz divina. É o encontro pessoal de quem faz uma experiência marcante geradora de novos dinamismos de relação filial e de adoração contemplativa.
O Evangelho de João é escrito para os cristãos que não viram Jesus, mas estão chamados a ser discípulos, a viver a alegria da fé. “Felizes os que acreditam sem terem visto”, afirma Jesus abrindo horizontes de bem-aventurança a todas as gerações de fiéis seguidores, a nós portanto. Que maravilha! Vale a pena meditar esta verdade interpelante e consoladora.
João conclui a narração dando a garantia de que Jesus fez muitas outras coisas que não estão escritas no seu livro, mas estas ficam como registo de factos ao serviço da fé em Jesus, o Filho de Deus, o Messias que dá a vida a quem acredita em seu nome. E desde então, a história mostra tantas maravilhas que o Senhor Jesus realiza por meio de quem O segue com fidelidade criativa. E também muitas omissões e desvios que, no dizer do Papa Francisco, nos devem causar vergonha e esperança.
No final da Via Sacra, no Coliseu em Roma, a 30 de Março de 2018, reza dirigindo-se a Jesus Crucificado: “Senhor Jesus, a vós dirigimos o nosso olhar cheio de vergonha, de arrependimento e de esperança... Vergonha, por deixarmos aos jovens um mundo dilacerado e dividido, devorado pelas guerras, pelo egoísmo, pela marginalização. Enfim, vergonha por termos perdido a vergonha. Senhor, dai-nos sempre a graça da santa vergonha!”
E prossegue a sua oração cheia de emoção confiante: “Esperança, porque o vosso sacrifício continua, ainda hoje, a exalar o perfume do amor divino, que acaricia os corações de tantos jovens, que ainda vos consagram as suas vidas, tornando-se exemplos vivos de caridade e gratuidade neste nosso mundo devorado pela lógica da exploração e do ganho fácil; esperança, porque tantos missionários e missionárias continuam a arriscar suas vidas para servir-vos… esperança, porque a vossa Igreja continua a iluminar, encorajar, aliviar e dar testemunho do vosso amor incomensurável.
A santa esperança nasce da cruz e da Ressurreição; elas nos ensinam que o amor de Jesus é a nossa esperança! Senhor Jesus, livrai-nos da arrogância! Senhor Jesus, dai-nos sempre a graça da santa esperança!”
A nova presença de Jesus acontece, segundo João, nos sinais que narra e em muitos outros. No texto de hoje, destaca a passagem do medo à paz do espírito, a comunidade reunida e aberta à novidade do perdão, a escuta da Palavra testemunhada, a reconciliação fraterna, fruto da penitência sacramental dos pecados, a celebração da eucaristia e o amor ao domingo, dia escolhido por Ele para se manifestar aos seus amigos, o envio do Espírito, garante da missão confiada à sua Igreja.
Jesus, o Senhor, está ao alcance do nosso olhar; procura vê-lo nos sinais que nos deixa e corresponder-Lhe na oração e no serviço; está no meio de nós, sempre que nos reunimos em seu nome; está e convive connosco nos esforços de cada um/a por uma vida digna de todos/as, na alegria dos que irradiam o amor com que Deus Pai nos ama. Aleluia!

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