domingo, 6 de abril de 2014

A RELIGIÃO CRÍTICA E A CRÍTICA DA RELIGIÃO

CRÓNICA DE FREI BENTO DOMINGUES
NO PÚBLICO


1. Conheci o casal luso-catalão, Inês Castel-Branco e Ignasi Moreta, no Parlamento Mundial das Religiões, celebrado em Barcelona no âmbito do Fórum Universal das Culturas, em 2004. Esse jovem casal, apaixonado pelo diálogo inter-humano, inter-religioso e intercultural, falou-me, então, do seu projecto familiar no campo da edição. Pretendia criar um território cultural de bons livros que rompessem com a banalidade e onde reinassem, em conexão, o rigor, as ideias e o prazer, um autêntico hedonismo de leitura pausada e saboreada. Sabor e sabedoria têm, aliás, uma etimologia comum. A leitura e a vida verdadeira não são conceitos antagónicos. São sinónimos.

Peça a peça, a Fragmenta Editorial foi-se tornando uma referência do universo de pensamento crítico e reflexivo. Para o seu conselho de assessores, as respostas institucionais às perguntas religiosas entraram em crise, mas as perguntas antigas e novas, de muitas origens, não se calam. O que já não existe são respostas tranquilizadoras. Andamos, por isso, todos à procura. Não aceitamos que os outros pensem, investiguem e escolham por nós. O que importa é pôr a circular ideias, pensamentos, pistas, críticas, isto é, tentativas de subversão das ideias feitas. Mas não será isto o que caracteriza o chamado “pensamento débil”?



Não! É simplesmente e apenas pensamento! As respostas prefixadas não são pensamento nem fortaleza, mas um convite à demissão. É outro, o lema desta editora: não se demitir da faculdade de pensar, de investigar, de viver. Neste contexto, fragmentos não são restos perdidos, mas símbolos do vasto mundo da cultura crítica ocultada ou desatendida.

2. Juan José Tamayo, é um conhecido teólogo espanhol, professor da Universidade Carlos III (Madrid), secretário-geral da Associação de Teólogos e Teólogas João XXIII e colaborador do El País. Recebeu o Diploma e a Medalha de Ouro da Liga Espanhola Pro Direitos Humanos, pelo conjunto da sua obra e, de forma mais imediata, pela publicação, nos finais de 2013, de Cinquenta Intelectuales para una Consciencia Crítica, na referida editora. Na semana passada foi apresentada, em Lisboa, na Fundação José Saramago.

O primeiro dos cinquenta intelectuais é um filósofo ateu muito especial, Ernst Bloch; o último nome é o de uma teóloga feminista muçulmana, Amina Wadud. Entre estes, contam-se dois autores portugueses: José Saramago e Boaventura de Sousa Santos.

Os intelectuais não gozam de grande prestígio pela sua utilidade. O autor esforça-se por caracterizar o que se deve entender por intelectual, servindo-se de António Gramsci e de Edward Said. Para este último, o intelectual talvez seja uma espécie de memória antagonista que não permite que a consciência se distraia, passe ao lado dos problemas ou adormeça. Não se instalam no que já está conseguido, perguntam sempre pelo que deve ser (momento ético) e pelo que falta realizar (dimensão da praxis). Pertencem à cultura do desassossego.

Para Tamayo, a pergunta dos intelectuais é a da serpente no paraíso: numa discussão entre ela, Adão e Eva, sobre a necessidade de ter ou não aspirações além das da mera subsistência, a serpente diz-lhes: vós vedes as coisas e perguntais, porquê? Eu sonho coisas que nunca existiram e pergunto-me, porque não? (B. Shaw).

Na escolha de 50 perfis de intelectuais, homens e mulheres, de diferentes continentes que, ao longo do século XX, realizaram a ideia do intelectual crítico, optou por quem sabia conjugar o sentido do local e global na análise crítica, na abertura de alternativas. O futuro não está escrito.

3. Para muitos dos autores apresentados, a religião desempenhou ou desempenha um papel importante, nalguns casos fundamental, como experiência pessoal, objecto de estudo, dedicação profissional, mas sempre numa perspectiva libertadora. Situam-se em referência a diversas tradições religiosas – judaica, muçulmana, católica, protestante, budista – mas não as seguem de maneira submissa ou apologética. Os não crentes também são de signo diferente quanto à religião: entre ateus e agnósticos, umas vezes, reconhecem a sua importância positiva, noutros casos, destacam a sua negatividade.



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