quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Hum segundo dia de creação

30 de setembro de 1808


Luiz Gomes de Carvalho 
escreve uma carta ao futuro rei D. João VI

D. João VI


«Senhor

Tenho a honra de partecipar a V. A. R. o feliz exito da Commissão da Abertura da Barra de Aveiro, que V.A.R. foi servido confiar-me, honrando-me tanto nesta escolha, q.to a questão era diffícil, e até na opinião geral impossivel.
O dia trez de Abril deste prezente anno foi o venturoso dia d’Abertura da Nova Barra de Aveiro; elle foi, em certo modo, hum segundo dia de creação em que se operou, como por hum prodigio hua conveniente e necessaria separação das agoas, e dos terrenos, que estavão na mais fatal confuzão; e este Grande Beneficio, que V.A.R. preparava a estes Povos, desde muito tempo, fez despertar, como eu fui testemunha, a saudade constante que os Povos mais interessados nesta Obra consagravão ao Seu Legitimo Auzente Soberano quando gemia debaixo da escravidão e tyrania de que o Ceo, auxiliando os nossos proprios exforsos, e os dos nossos amigos, acaba de resgatar-nos.


A nova Barra de Aveiro he a melhor de Portugal depois da de Lisboa; ella fará duplicar o valor de toda a Provincia da Beira, e com o tempo a sua população: Por effeito della já estão enchutos, e restituidos á Lavoura campos que estavam submergidos, e outros, que hião perder-se para sempre, que podem produzir annualmente dous milhoens de alqueires de milho e feijão: As vastas Marinhas d’Aveiro, que estavão condenadas a hua perpetua submersão, são hoje das mais ricas do Reino.
Este paiz onde ha pouco a febre e a morte fazião o seu assento he hoje saudavel, e nelle se respira hum ar puro e sadio: Estes Povos desgraçados que noutro tempo tocavão de compaixão o Paternal Coração de V. A. R. quando mandou em socorro delles intentar a grande obra da sua regeneração, são hoje vassalos venturosos, e bem depreça serão opulentos: Emfim Senhor, este vasto paiz que os elementos tinham já uzurpado á Coroa de V.A.R. fica por esta feliz operação reconquistado para sempre.
Mas a Grande Obra que abrio a Barra e que he a mesma que deve segurar e perpetuar os seus grandes resultados, precisa ainda por algum tempo a Particular Protecção de V.A.R. assim como de todos os meus cuidados, para a consolidar, e ultimar como convem afim de segurar para as futuras geraçoens o resultado já obtido, e no maior gráo. Não tendo interrompido os meus trabalhos e cuidados relativos a esta obra senão pellas occupacoens, o obrigaçoens do honroso Posto que me foi confiado no Exercito que marchou a restaurar a Capital, e o Governo, hoje felizmente Restaurado, conservei contudo quanto pude com a mesma obra correspondência para a derigir quanto era possível de longe: Agora que pellas ordens de V. A. R. os Militares que compunhão este Exercito marchão a seus antigos destinos, conto voltar bem depreça ao meu posto e Comissão, o que farei com tanto mais gosto quanto eu estou persoadido de que he ali onde eu talvez por ora, possa fazer a V.A.R. o maior serviço.

Mafra, 30 de Setembro de 1808

Luiz Gomes de Carvalho»



Notas: 
1. Carta citada no livro “Gafanha da Nazaré — 100 anos de vida”;
2. Foi mantida, quanto possível, a grafia usada pelo autor da carta.

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