Os bombeiros salvaram a imagem de Nossa Senhora da igreja de Paganica. O templo está em risco de ruína devido ao sismo e às réplicas que ocorreram na região de Abruzzo, Itália.
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Um escuna
Desde os primórdios da minha existência como ser humano racional, que me deslumbro com esta festa do calendário litúrgico. Festa sim, em toda a abrangência da palavra, pois se comemora, agora, não a natividade, mas sim a vitória da vida sobre a morte!
Desde miúda que observo como a natureza, nesta Primavera farta, se associa a este cântico de louvor ao nosso Criador, e a minha alma, que por vezes se vestiu de luto, enverga agora as cores mais garridas, numa alegria esfuziante e numa candura extemporânea. É para mim a festa da Primavera! Quando desço ao jardim, sou assaltada por um espectáculo verdadeiramente sinestésico. Os amores-perfeitos, os lírios, as prímulas, os ranúnculos, os goivos... presenteiam-me com a garridice das suas cores vivas... Os beijinhos de frade ainda estão a ensaiar os primeiros passos nesta aventura da floração! Mas... quando eclodirem, aparecerão aos magotes ou enfileirados como numa qualquer filinha indiana para beijar a mão ao pontífice! Ao tacto será experimentada a textura acetinada dos amores-perfeitos, que deixam uma sensação de aveludada fragrância!
E perante esta explosão dos sentidos, que me atestam toda a generosidade com que fui dotada pela herança genética... num acto de contrição, eu penitencio-me, nesta quaresma tardia, a espreitar já os laivos da libertação! Sim, prescindindo da confissão e penitência consequente, eu admito e condeno o meu pecado da ingratidão. Não para com alguns humanos, a quem já demonstrei que não sou sofro de amnésia, mas perante o Criador! Aqueles momentos de algum desalento perante as procelas da vida, aquelas dúvidas que me assaltam, sobre os desígnios que presidiram à minha peregrinação na terra, são a manifestação humana desse meu pecado da ingratidão.
Deus foi muito generoso para comigo, facultando-me uma riqueza incalculável, nos dons de que me dotou e de que eu sou altamente beneficiada. Não são um dado adquirido, não são! Quantos cegos adorariam contemplar a riqueza policroma do meu jardim primaveril? Quantos surdos-mudos não rejubilariam ao sentir a beleza dos acordes melodiosos da música, em tantas formas consubstanciada? E enumeraria uma panóplia de maravilhas que não estão ao alcance de todos. E... todos somos filhos de Deus, como desde menina me habituaram a ouvir!
Depois disto, fico verdadeiramente grata ao meu Senhor, pela maravilhas que em mim operou! E..são tantas, que não irei enumerar, pelo perigo de cair num narcisismo pretensioso.
Mas recordo aquela saída da garotinha que, perante um espectáculo de rara beleza, para ela, saiu-se com esta: - O céu estava tão azulinho, tão azulinho que até parecia um moranguinho!
E... viva a Páscoa, o Homem novo, a libertação interior e a natureza engalanada para proclamar a ressurreição de Cristo!
Eu... sou fã d'Ele! Do Homem... íntegro, sábio, maduro... que não condenou a Maria Madalena, antes lhe perdoou e a mandou ir em paz... como é apanágio das almas nobres!
Há anos, Vítor Cunha Rego, com a profundidade que sabia dar aos seus escritos, escreveu no DN, de que foi director, um comentário curioso sobre os feriados da Páscoa que, para muita gente, são apenas a ponte alargada que permite saídas mais longas. Ansioso, interrogava-se, procurando com sinceridade, o essencial que pudesse dar sentido à sua vida. E perguntava, então, qual a razão dessa tão desejada ponte que surgia, cada ano, a contento de toda a gente, crente ou não crente. Não deixou de lamentar, por fim, que tantos se aproveitassem dela sem irem até ao acontecimento, maravilhoso e único, da Páscoa de Cristo, que a todos a permitia gozar.
Na Páscoa evoca-se e celebra-se o mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo, Filho de Deus, com todo o seu significado, pessoal e social. Acontecimento único, com sentido definitivo para a história de cada cristão convicto e da própria humanidade.
Há vidas serenas, mesmo em momentos de tempestade, dor e incompreensão. Outras são vidas tumultuosas, sem razões válidas para tanta perturbação e instabilidade. Todos os dias o vemos em graus diferentes e em gente concreta e com a sua história.
Porque acontece assim? Causas profundas e subtis comandam a vida e suas reacções e escapam, frequentemente, ao olhar de quem vê de fora e, às vezes, até ao próprio.
Há na vida de cada um de nós coisas que nos condicionam. Fáceis de verificar se são exteriores e se tornam objecto das nossas críticas, louvores ou desculpas. Outras há que nos determinam, têm dentro de nós as suas raízes, cultivadas ainda que escondidas. Tudo isto se vai tornando claro, de harmonia com a atenção e o sentido que damos à vida, e o cuidado que prestamos às nossas acções e comportamentos.
Quem vive de exterioridades ou de emoções passageiras não percebe ou não dá atenção ao que se passa em si próprio ou à sua volta. Sabe da ponte para a aproveitar, mas não se debruça para lhe alcançar as margens, a força que nelas existe e o estímulo que pode vazar dentro de nós, mais importante que os dias feriados que proporciona. É este passar pelas coisas sem lhes descobrir o sentido, que faz escassear a esperança, empobrecer a vida e menosprezar as exigências que a comandam e as riquezas que contém.
Chegamos à Páscoa. Com ela, à possibilidade de uma nova ponte, que tanto dá para passear, como para, serenamente, vivenciar a experiência de se sentir amado, vivo e liberto, e de se poder saciar na Fonte inesgotável, de onde dimana felicidade e paz.
A Páscoa é, para os cristãos, a Festa por excelência. Não se resume a flores e amêndoas.Traz consigo energias renovadoras que dão sentido diário àqueles que celebram na fé a sua vida, e permanecem, unidos na esperança, a todos os outros crentes, para os quais Jesus Cristo, vencedor da morte, é a figura central da história humana.
Páscoa é “passagem da morte à vida”. Só o amor é capaz de a realizar em todos e em todas as circunstâncias. Diariamente. O amor de um Deus, rico em misericórdia, que nos dá o Seu Filho. O amor redentor de um Filho que se entregou à morte para a todos dar vida. Ele venceu a morte e, pela fé que n´Ele depositamos e pelo dom d´Ele que recebemos, nos torna, também a nós, verdadeiros vencedores.
Nesta certeza reside a nossa esperança. Ao cristão coerente, o único que está vivo como cristão, se pede que dê razões da sua esperança a uma sociedade que teme a verdade, não tem horizontes de vida e despreza os estímulos que a convidam a ir mais além.
Sem se descobrir e viver a Páscoa, não se saboreia a alegria e a paz que no Aleluia pascal se manifesta. A luz da Igreja é Cristo Ressuscitado. Sem esta luz, nada tem valor. A vida cristã ou é pascal ou não é vida. Apelo que não se pode iludir nem adiar. Uma vida pascal é o melhor contributo do cristão à sociedade. Só ele é consequente e carregado da esperança que pode ajudar a sua necessária e urgente humanização.