sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

A estrela Guia: Jesus manifesta-se a quem o procura

Georgino Rocha

Ao sair do Templo, o Menino Jesus é tomado pelo velho Simeão e apresentado como Luz das nações e Salvador de todos os povos. Apresentação que é louvor a Deus, bênção para Israel e maravilha para Maria e José que ouve a oração profética do venerável ancião. Apresentação que abre novos horizontes ao reconhecimento feito pelos pastores na gruta de Belém.
Hoje, a gruta é de novo palco de outra apresentação feita aos Reis Magos, e constitui para nós o Evangelho da Festa da Epifania do Senhor, que a Igreja celebra.
Mateus, que escreve para Judeus, é o único evangelista a referir o episódio (Mt 2, 1-12). E fá-lo com beleza narrativa e grande alcance profético. Recorre a tradições bíblicas, como a de Isaías, hoje proclamada, e a outras fontes orais que trabalha com liberdade imaginativa. E faz o relato dos Reis Magos que constitui um autêntico itinerário de fé cristã. Vamos segui-lo de perto e “explorar” os seus pontos principais.
O primeiro passo deste itinerário surge na disposição interior dos Magos, na sua abertura ao mundo e atenção ao que acontece, na sua curiosidade e capacidade de percepção, na sua insatisfação com a sua religiosidade habitual. Sem esta disposição nem sequer se inicia o caminho. Vive-se na acomodação ou na indiferença. Semear a sã inquietação é ponto prévio de toda a iniciação cristã. 

Os Magos aceitam ser guiados por aquela luz que os atrai e instiga. Arriscam. Não têm outro GPS nem Google. E a estrela brilha no seu espírito e ilumina os seus passos. Chegam a Jerusalém, a casa de Herodes. Aqui recebem nova ajuda ao ser-lhes proporcionado o encontro com as Escrituras, encontro de comunicação e de orientação, fruto de conhecimento fiável de sábios reconhecidos. Sem o contacto com a Palavra de Deus, como se pode alicerçar a iniciação cristã? E sem dispor de pessoas “formadas” que confiança ter em tantas sessões de catequese ou outras, ainda que cheias da melhor vontade?
Com a informação recebida, os Magos fazem-se de novo ao caminho no qual volta a brilhar a estrela guia reconhecida. E surge a troca de impressões sobre a exortação de Herodes, a partilha do que tinham visto e ouvido, as surpresas e tantas outras coisas ocorridas. Dão largas à sua vivência pessoal. Confiam uns nos outros e saboreiam a experiência de peregrinos da esperança e da procura. E são para nós um apelo vivo a prosseguir a busca e a testemunhar a confiança, apesar de tudo o que vemos e ouvimos.
A luz da estrela sinaliza o local onde está Aquele que procuram. Finalmente chegam. José acolhe-os, como é natural. E guia-os ao local onde está o Menino e sua Mãe. Deixa-os entregues à sua livre iniciativa. E o encontro acontece... Com grande emoção e simplicidade. Com possível estranheza e espanto. Com enorme devoção e reverência. “Prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O”, diz o texto que comentamos. Que cena tão enternecedora e comovente! Que experiência tão envolvente e marcante!
A marca deste encontro é tão profunda que eles abrem as “mochilas” e fazem as suas ricas ofertas, carregadas de simbolismo. A marca é tão decisiva que lhes altera o rumo da viagem. Vêem um menino e reconhecem o rosto do Rei que procuram. Vêem um curral de animais e sentem-se num palácio. Vêem a pobreza de tudo e comungam o desvelo de Maria e de José. Vêem um ser humano frágil e intuem com a luz da fé o ser divino que, agora, preenche o espaço ansioso do seu coração. A raiz da fé e a sua seiva estão em encontros semelhantes. Como é urgente provoca-los!
Os Magos, símbolo de toda a humanidade e culturas, enriquecem o seu gesto de adoração com a oferta de ouro, incenso e mirra. Pretendem dizer o que significa tal gesto a respeito de Jesus: a realeza feita serviço, a divindade a quem se reza e invoca, a fragilidade vulnerável do ser humano. E eu, que ofereço ao Senhor que acaba de nascer? Todos/as gostamos de dar as boas-vindas aos recém-nascidos, de lhes desejar o melhor, de felicitar os pais e avós. Não ficamos insensíveis.
O Movimento de Oração Mundial com o Papa, vulgarmente conhecido, entre nós, por Apostolado da Oração, ao comentar este texto exorta cada leitor a que abra o cofre do seu coração e ofereça o que tem de mais precioso, a que viva a sua relação filial com Deus, a que valorize a sua humanidade, frágil e pecadora, amada e perdoada por Deus, nosso Salvador. E enumera as intenções de oração do Papa Francisco para os meses de 2019.
De forma breve, aqui as deixamos: Os jovens na escola de Maria; o tráfico de pessoas e o seu acolhimento generoso; o reconhecimento dos direitos das comunidades cristãs perseguidas; os médicos e seus colaboradores em zonas de guerra; a Igreja em África como fermento de unidade e sinal de esperança; o estilo de vida dos sacerdotes e a sua acção junto dos pobres; a integridade da justiça; as famílias como laboratórios de humanização: a protecção dos oceanos; a primavera missionária na Igreja, sobretudo na África e na Ásia; o diálogo e a reconciliação no Oriente Próximo; o futuro dos mais jovens.
Oferecer a nossa oração e dar o nosso contributo pois quem encontra o Deus Menino abre-se ao seu amor e faz-se missionário da esperança, agente de transformação libertadora, contemplativo da sua obra na criação e na harmonia do universo. A começar por si, o espaço mais próximo e acessível de intervenção.
São Leão Magno, na festa da Epifania, lembra aos cristãos que “a docilidade da estrela nos exorta a imitar o seu exemplo. Isto é, a servir na medida das nossas possibilidades esta graça que chama todos os homens para Cristo. Animados por este zelo, deveis empenhar-vos, caríssimos irmãos, em serdes úteis uns aos outros, a fim de que brilheis como filhos da luz no reino de Deus, no qual se entra, graças à integridade da fé e às boas obras”.
Os Magos não se deixaram ludibriar por Herodes. O encontro com Jesus proporciona-lhes uma nova sabedoria. Por isso, regressam às suas terras por outro caminho. Querem partilhar a experiência feita e anunciar na sua cultura o valor da Boa Nova, do Evangelho.
Que estímulos nos deixam! Que apelo nos fazem! Ousemos viver 2019 com esta atitude missionária assumida.

As “aparições” de Fátima

Crónica semanal de Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Nota introdutória Em 2017, a célebre revista CONCILIUM, que se publica em ...