sexta-feira, 20 de julho de 2018

Aprender a descansar e a servir

Georgino Rocha


Jesus acolhe os discípulos no regresso do trabalho missionário. Vêm exultantes. Querem estar uns com os outros e com o Mestre. Trazem boas notícias do que havia ocorrido. Nem era para menos! Sentiram-se com autoridade sobre as forças do mal que lhes obedeciam, sobre as doenças que eram curadas ou suavizadas. Sentiram a eficácia da mensagem que anunciavam. Agora, reconhecem que vale a pena o risco assumido e a pobreza de recursos usados. Agora reconhecem a sensatez dos conselhos dados de gerir bem o tempo face à reacção de quem os recebe. Agora reconhecem que o cansaço é o preço de tão bom desempenho apostólico. E nós, como nos sentimos após os trabalhos que Jesus nos confia e a Igreja, a paróquia ou movimento, reconhece? Com quem fazemos a partilha dessa experiência? Oxalá saibamos procurar e encontrar quem nos acolha, disponha de tempo para nos ouvir e para nos dar o eco da alegria da missão.
Jesus, enquanto ouve os relatos, presta mais atenção aos mensageiros recém-chegados. Dá conta que estão fatigados. E diz-lhes prontamente: “Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco”. Merecidas férias, diremos nós. Vamos ver de que estilo, segundo o Evangelho de Marcos 6, 30-30.
A seguir ao trabalho vem o descanso. É a lei universal do agir humano que conhece a verdade do seu ser e é coerente. Assim faz Deus ao dar início à criação. Descansa. Vê que tudo é bom e belo. Visita o casal humano a quem tinha confiado o cuidado da sua obra. Recria-se passeando nos jardins da humanidade, respira a brisa da tarde, relaciona-se com as criaturas, dialoga com os humanos. E aponta-lhes o descanso definitivo na sua morada eterna. Deixa assim impressa a sua marca na história, com o ritmo binário a alternar e a definir as regras do são funcionamento das pessoas em sociedade.
Respeitar e precisar estas regras ajuda a humanizar as relações humanas em todos os âmbitos. Hoje, de forma especial é preciso saber descansar, ter tempos para o repouso revigorante, dispor de locais apetecidos e regeneradores das energias depauperadas. Sobretudo para realinhar o sentido humano da vida, para auscultar a voz da consciência, para dar resposta aos apelos do coração “eterno peregrino” de Deus e do seu amor. Sobretudo para recarregar de energias espirituais “as baterias” que alimentam as razões da esperança que somos chamados a dar.
As pausas para descansar antecipam e ajudam a apetecer os “sabores” do repouso eterno. A Igreja recorda frequentemente este desejo do ser humano e pede ao Senhor a sua bênção de misericórdia. Este é o objectivo final de toda a vida humana que vai sendo realizada, dentro dos ritmos originais revestidos pelas tradições, culturas e religiões. E tantas vezes pelo ordenamento jurídico/legal de povos.
O grupo de Jesus acede imediatamente. Não pede explicações nem faz perguntas. Confia. Diz o nosso texto: “Partiram de barco para um lugar isolado, sem mais ninguém”. Finalmente libertos do “assédio” das multidões, com tempo para si, em viagem de recreio pelo mar de Tiberíades. Com o sonho posto no local onde iriam aportar. A sentir a desejada distensão nervosa e muscular. A usufruir do alívio que vai chegando e tende a envolver todo o seu ser. Tão concentrados vão que nem sequer dão conta que estão a ser acompanhados à-distância pelo olhar de tantas pessoas atraídas por Jesus.
O descanso faz parte da mensagem evangélica bem expressa pelo convite de Jesus também noutras ocasiões: “Vinde a Mim todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos darei descanso …porque sou manso e humilde de coração… e encontrareis descanso para as vossas vidas” (Mt 11, 28-29). Como é bom aprender a descansar na sua escola para amar a vida e irradiar mansidão e humildade, para se libertar de todas as opressões e fadigas, para estar atento aos outros e dispostos a ajudá-nos na busca do seu bem integral.
O Papa Francisco ergue a sua voz em defesa das multidões exaustas e de tantos que se arrastam na vida “sem pena nem glória”, que se sentem sós e cansados por dedicação de serviço. E aconselha os cristãos a terem uma intenção especial pelos que trabalham na missão pastoral, pedindo: “Para que os sacerdotes que vivem o seu trabalho pastoral com dificuldade e na solidão se sintam ajudados e confortados pela amizade com o Senhor e com os irmãos”. Como os padres, tantas outras pessoas que estão na mesma situação. Rezemos por elas. E, se possível, marquemos presença na sua solidão esquecida.
O barco do grupo apostólico aporta à outra margem. Os discípulos encontram a multidão em rebuliço. Agitada e atraída por Jesus que se compadece visceralmente e “esquece” do que ia para fazer. “Ele viu-os sem pastor e acompanhou-os, viu-os perdidos e liderou-os, viu-os desorientados e guiou-os” afirma Prat Cambra, na Homilética, 2018/4, p. 443. O grupo faz o descanso merecido. Outra missão o espera: A de se fazer solidário com esta multidão faminta, e com Jesus lhe dar de comer. Maravilha! Descansar para servir. Oxalá aprendamos nesta escola de sã humanidade.

Faleceu Senos da Fonseca

SAUDADES DE MIM MENINO Ai barcas, ai barcas Tão triste é vosso negror, Por onde ides navegar? Que espreita O olho que levais na proa? Ai amo...