quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A sociedade está mais empobrecida e sem alma



Um apelo que frequentemente fica sem resposta 
António Marcelino 

António Marcelino


«Faltam educadores que sintam e tomem consciência de que, pela sua ação diária, passa o futuro de muita gente e a construção ou não de uma sociedade humanizada e fraterna. Há muitos educadores que sabem o caminho, lutam por segui-lo e se doem por verem que o muito que fazem é destruído por outros colegas, e, também, pela família, pela rua, pela comunicação social, que não olha a meios para conseguir quem compre os seus produtos viciados.» 


Sempre que nos chegam documentos importantes que se orientam para fomentar na vida das pessoas, valores humanos e morais, vem o apelo, explícito ou implícito, a que a mensagem passe a outros e se eduquem as novas gerações, com base nesses valores. Foi, assim, mais uma vez, com a mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial da Paz, que ele mesmo titulou “Bem-aventurados os construtores da paz”. 

Já a terminar, vem o apelo do Papa em ordem a uma educação a fazer nas famílias e nas instituições, para uma cultura da paz, acrescentando a proposta de uma pedagogia a seguir pelo construtor da paz. É este apelo final, a meu ver, aqui e noutros casos, que muitas vezes fica sem eco e resposta adequada. Deste modo, os melhores contributos educativos morrem nos próprios documentos ou servem apenas para quem os leu e depois arquivou, sem mastigar e sem ver como passar a palavra a quem a espera. Tudo, como se fosse uma carta pessoal e intransmissível. 

O proverbial individualismo e a indiferença pelo bem que se pode fazer e não se faz têm aqui uma forma clara de mostrar a sua face. 
A sociedade, cada vez mais carecida de uma educação que proporcione valores sólidos aos seus alicerces, está, por falta dela, mais empobrecida e sem alma. 

Faltam educadores que sintam e tomem consciência de que, pela sua ação diária, passa o futuro de muita gente e a construção ou não de uma sociedade humanizada e fraterna. Há muitos educadores que sabem o caminho, lutam por segui-lo e se doem por verem que o muito que fazem é destruído por outros colegas, e, também, pela família, pela rua, pela comunicação social, que não olha a meios para conseguir quem compre os seus produtos viciados. 

Muitas coisas básicas na educação não são hoje, para muita gente, consideradas como valores a adquirir. Estão neste rol atitudes comezinhas e normais, como o respeito pelo outro, o amor ao trabalho, a pontualidade, a verdade na vida, o gesto de gratidão, a capacidade de escutar, o pedido de desculpa, a saudação normal quando se chega ou sai… Estes gestos ajudam a tomar consciência de que ninguém vive só e não pode viver como se fosse senhor do mundo, anulando tudo e todos. A vida também é dependência mútua. Ao longo dela vamos vendo que todos precisamos uns dos outros. 

A educação é sempre um processo de mediação. É fruto de uma relação pessoal que ajuda a crescer, a descobrir, a ponderar, a escolher, a decidir. Não é uma imposição de fora, senão em ordem aos que ainda não têm discernimento para a apreciar aquilo que se lhes ensina ou se lhes ajuda a fazer. Porém, mesmo assim, não é um ato mecânico, mas pessoal que, através de pequenos gestos e atitudes, ajuda a criar hábitos sadios para viver em sociedade, como higiene, respeito, gratidão, relacionamento pessoal. 

O apelo da educação para a paz, traduz-se, já desde criança, em aprendizagens de convivência normal, no seio da família, na escola, na vizinhança. Esta educação inicial e em terreno normal, ajuda, mais tarde, a perceber que há valores em causa a respeitar e a praticar, e há objetivos que se impõem e dos quais se deve ter consciência como a relação sadia com conhecidos e desconhecidos, a procura do bem ao alcance de todos, a prática da justiça social, o combate a todas formas de descriminação e de guerra. Neste objetivo tem papal primordial importância a família. “Na família nascem e crescem, como sublinha o Papa, os construtores da paz, os futuros promotores de uma cultura da vida e do amor.” 

Para a Igreja, a educação para a paz está inserida na educação da fé. Uma fé orientada para Jesus Cristo, Príncipe da paz. O encontro com Cristo, sua Pessoa e mensagem, “plasma os construtores da paz, comprometendo-os na comunhão e na superação da injustiça”. Por aqui passa, ao mesmo tempo, “o renascimento pessoal e moral das pessoas e das sociedades”. Sempre que na história, a Igreja se gastou em guerras, mais pensou e se orientou pelo seu prestígio social, por demais efémero, que pela fidelidade a Jesus Cristo, Servo e Obreiro de paz entre todos e a favor de todos. 

A mensagem do Papa, pela sua atualidade e pelo mundo de injustiças e desavenças em que vivemos, merece, de imediato, que dela, nasçam, nas paróquias, instituições e movimentos apostólicos, programas educativos concretos para educar para a paz, a implementar nas diversas atividades. Se assim não for, será mais um apelo urgente que fica sem resposta.

Faleceu Senos da Fonseca

SAUDADES DE MIM MENINO Ai barcas, ai barcas Tão triste é vosso negror, Por onde ides navegar? Que espreita O olho que levais na proa? Ai amo...