terça-feira, 5 de dezembro de 2006

NATAL - 5

UMA NOITE DE NATAL
Um dia, já lá vão 43 anos…
Foi no dia 24 de Dezembro de 1963, estou a recordar-me do silêncio da noite, como se fosse agora. Estava a nossa companhia de serviço ao “Cinturão Verde” – zona de protecção da cidade de Luanda, com arame farpado desde o aeroporto até aos “musseques” – e a nossa missão era identificar quem entrava ou saía da cidade. Tínhamos jantado isolados. Teria de haver cuidados redobrados, já que a noite seria propícia à entrada do “inimigo”. Os cigarros, únicos companheiros com quem conversávamos no silêncio da noite, eram consumidos rapidamente entre as mãos ou dentro do capacete para não podermos ser localizados. Cigarro atrás de cigarro, foram consumidos os três maços que eu tinha levado para esse dia. E agora? São 23 horas. É dia de ceia. Está tudo fechado. Como vou passar o resto da noite? Bem…pensei eu! Chamei o condutor do jipe. O “Tavira” apareceu meio ensonado: – Diga, meu Furriel. – Vamos ao “musseque”. Preciso de cigarros e pode ser que esteja por lá alguma tasca aberta. Fomos andando devagar vendo o estado do arame farpado. Tudo em ordem, menos a tal tasca que poderia estar aberta. Parámos. O silêncio parecia total, até que da loja do cabo-verdiano saíram dois pretos cambaleando de bêbados. Aproximámo-nos e os pretos fugiram conforme puderam e desapareceram na escuridão da noite. Entrei na loja e pedi dois maços de cigarros. Paguei e fiquei encostado ao balcão, aconselhando o homem a fechar a loja para evitar problemas como aquele a que tinha assistido e a ir consoar com a família. – Não tenho cá família, disse-me ele. Está na minha terra, em Cabo Verde. – Então o que faz aqui sozinho a estas horas? – Estou a ouvir esta música. E aumentou o volume do rádio para eu ouvir também… A Rádio Ecclesia transmitia músicas de Natal. A que comecei a ouvir foi “Noite Santa, Noite Serena”, cantada pelo conjunto coral “Os Pequenos Cantores de Viena”. Automaticamente a minha mente mudou-se para a minha terra: os meus filhos, a minha mulher, os meus pais, enfim, a minha família… Estavam todos tão longe e tão perto! Abandonei a loja, acenando com a mão ao cabo-verdiano sem o olhar, para não ser traído pelas lágrimas que me corriam pela face abaixo. Chegado à viatura, fiz sinal com a mão ao condutor para que seguisse. – O meu furriel está bem? – perguntou o “Tavira”. – Segue, acenei-lhe eu. Quando um homem chora tem com certeza uma razão muito forte para o fazer. Ângelo Ribau

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