Balanço de uma viagem à Grécia

Crónica de viagens 
de Maria Donzília Almeida

Partenon
Capela de S. Paulo
Kalambaca - Mosteiro









Ilha de Hidra
Render da Guarda












«A democracia... 
é uma constituição agradável, 
anárquica e variada, 
distribuidora de igualdade 
indiferentemente a iguais e a desiguais.»

Platão

Viajar pela Grécia é uma aventura para qualquer forasteiro e uma desventura para os nacionais residentes, que veem o seu país nas bocas do mundo, pelas piores razões. Apesar de ter sido o berço da democracia, encontra-se hoje em maus lençóis, pois os gregos não têm sabido dar continuidade aos grandes vultos da antiguidade.
A Grécia foi o berço da cultura clássica que atingiu o seu apogeu no século V a.C. onde a democracia foi instaurada por Clístenes, na cidade-estado de Atenas.
Chegámos à capital, ao princípio da tarde e fizemos uma visita panorâmica à cidade, onde a guia ia destacando os edifícios mais importantes, como as embaixadas e o Parlamento grego. Aqui, assistimos ao ritual do render da guarda, com os trajes antigos dos soldados gregos, na famosa Praça Syntagma, palco das manifestações do povo.
Iniciámos o nosso périplo por Delfos, santuário fundado no 2º milénio a. C. cujo oráculo veio a ser o mais importante da Grécia Clássica, tendo-se mantido em funcionamento até ao séc IV d. C. 
Prosseguimos para kalambaka, onde subimos aos mosteiros de Meteora, uma atração turística de peso. A quase inexpugnabilidade dos penedos terá representado um fator adicional para a construção de vários mosteiros em lugares ideais para fortalezas. As preocupações com a defesa revelaram-se, assim, tão determinantes como os desígnios religiosos que entreviam naqueles eremitérios, uma circunstância propícia à requerida caminhada espiritual.
Fica a pergunta: Que meios usariam os construtores daquela época para içarem as pedras e outros materiais de construção até àquelas alturas descomunais? A engenharia civil tem muito a aprender com os nossos antepassados.
Continuámos viagem em direção a Filipos, por onde S. Paulo passou e onde a visita ao seu Batistério é paragem obrigatória. A sua população era formada em grande parte por Romanos, alguns Judeus, Sírios e Gregos. S. Paulo procurou o lugar de oração próximo do rio, onde nos viemos a reunir para uma pequena reflexão, à sombra de frondosa árvores. Sentimos o afago de uma suave brisa, como uma dádiva do céu, no meio daquele tórrido calor. Intercessão de S. Paulo? Acreditemos que sim. Os peregrinos da Vera Cruz… agradeceram…
Seguimos viagem para Tessalónica donde S. Paulo pregou e enviou as cartas aos Tessalonissences. Aí, a Igreja de São Demétrio, padroeiro da cidade, está classificada como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO.
Continuámos, para Corinto uma das cidades mais antigas da Grécia que surgiu em 6.000 a.C., na Era Neolítica. Foi uma das mais importantes do país, na época do Novo Testamento, continuando hoje a merecer o título, nomeadamente devido ao canal de Corinto. Este é, possivelmente, uma das obras de engenharia mais espetaculares do mundo, após o Canal do Panamá, não só pela beleza e dimensão, mas também pela história milenar. No imaginário das pessoas, especialmente das senhoras, há uma associação imediata às passas de corinto, que existem em profusão por estas paragens. Mesmo ali ao lado, numa lojinha de souvenirs, duas taças repletas de passas convidavam os turistas à sua degustação, para posterior aquisição. A visão de alcance dos nossos anfitriões gregos! As senhoras não se fizeram rogar e abasteceram-se ali, de um dos ingredientes do nosso bolo rei natalício.
O país também é conhecido pelas ilhas paradisíacas, que seduzem qualquer turista. Embarcámos no porto de Pireus, num cruzeiro para Hydra, Poros e Aegina que pertencem ao grupo das ilhas Argo-Sarónicas. Com animação a bordo por folclore grego, até eu dei um pé de dança, quando um jovem bailarino grego me arrebatou à assistência, numa envolvente interação com os turistas. 
Na amurada do navio, pude contemplar um azul marinho deslumbrante que só o Mar Egeu me pode oferecer, em tão grande extensão. Ficará gravado na minha retina.
Em Hydra abunda o pistache, considerado o mais famoso da Europa. Todos adquiriram o produto, exibido em quantidades industriais, em grandes bancas, ali mesmo aos nossos olhos.
Aqui, sem trânsito automóvel, os burrinhos são o único meio de transporte, desde as compras às malas dos turistas. A reabilitação dos equinos!
Na ilha, há cafeterias, bares e restaurantes, principalmente perto de Porto Hydra. Sentar-se confortavelmente num deles, com vista para o mar, beber um café grego, um copo de vinho ou ouzo como aperitivo… é uma antevisão do paraíso… Eu….tive essa visão…..
No domingo, fizemos a visita mais detalhada à cidade de Atenas. No sopé da Acrópole pudemos ver o local onde se encontrava o Aerópago, onde S. Paulo teve um eloquente discurso, ao anunciar ao povo ateniense a Boa Nova, tendo convertido o aeropagista Dionísio, mais tarde padroeiro da cidade. A Acrópole é um dos lugares mais famosos de toda a cultura universal, onde se podem admirar: o Partenon, o Erecteion, o templo de Atena Nike, Teatro de Dionísio e o Propileu.
Nesta visita, sob um sol escaldante e a sinfonia das cigarras como música de fundo, nesta velha Hélade, calcorreámos os córregos estreitos de pedras carcomidas pelo tempo. De tão polidas pela ação erosiva de séculos de história, representavam um perigo constante de derrapagem…tal como a economia deste país!
No fim, exaustos pela fadiga da longa caminhada, regressámos à parte baixa da cidade e percorremos o bairro turístico de Plaka. Por ruas e becos pejados de restaurantes típicos e esplanadas, por entre magotes de gente, almoçámos num deles. Para alimentarmos o corpo, já que o espírito abarrotava de informação e história. À noite, para terminar em beleza, o jantar foi servido, num restaurante típico, com show de folclore.
Com a alegria a chegar ao rubro, foram cantadas, pelo grupo da Vera Cruz, as mais representativas canções do nosso povo: o fado…Até o músico grego que animava o serão afinou a guitarra e dedilhou a toada “Cheira bem, cheira a Lisboa…” Foi apoteótico…Até as pedras da Acrópole estremeceram…
No final, partimos para o aeroporto de Atenas, onde as despedidas sabem sempre a saudade, mesclada com a nostalgia da pátria lusa.
Afinal…iríamos regressar a um país irmão onde a língua de Camões marca a diferença!

 (17 a 23 de agosto de 2015)

NOTA: Não é por acaso que edito, no meu blogue, crónicas e outros textos de Maria Donzília Almeida. Faço-o na certeza de que, para além do prazer que as leituras me proporcionam, haverá muitos leitores que comungarão das mesmas ideias, experimentando o mesmo gosto. Para além disso, as suas crónicas, de viagens ou outras, são sempre uma fonte de saberes que a minha amiga partilha com sentido e esperança num mundo mais fraterno. 
Não conhecia a Donzília, decerto pela notória diferença de idades. Mas um dia, um poema seu que ela colocou no espaço de comentários de uma mensagem, mostrou que havia nele alma poética com sensibilidade artística. Logo diligenciei para a conhecer e para a convidar a colaborar regulamente no meu sítio do ciberespaço. E foi até hoje. E continuará a ser. 
Um abraço amigo à Donzília pela forma como nos vai enriquecendo a todos, com a sua alegria, a sua arte, o seu otimismo e a sua franca amizade e disponibilidade. 

Fernando Martins

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