O Marnoto Gafanhão — 11

Um texto inédito de Ângelo Ribau Teixeira


Que vida esta!



Começava mais uma época de trabalhos, que era exclusiva dos marnotos da Gafanha já que, os de Aveiro, não tendo terras, se limitavam a consumir o tempo, visitando de vez em quando a salina, acautelando alguma “cambeia” que as marés vivas tenham provocado, ou passeando debaixo dos arcos do Hotel Arcada, local soalheiro e abrigado dos ventos do nordeste, que no inverno enregelavam o corpo até aos ossos…
Enfim, cada qual nasce para o que nasce!
E para o Toino não era nada bom ser filho de lavrador, com terras! 
E lá foram na segunda-feira seguinte para os viveiros da “Corte do Paraíso” começar com a apanha do moliço. O pai do Toino com um ancinho e a gadanha ao ombro, o Toino com um ancinho, montam cada um na sua bicicleta e toca a andar em direção ao… “Paraíso”??!!!
Atravessaram a ponte de madeira que liga á estrada que dá a Aveiro e aí foram a caminho dos “moinhos”, onde se localizava o Paraíso. O vento norte corria de mansinho, mas frio como o gelo. As orelhas e as mãos sentiam-no bem. Pior seria quando tivessem, ao chegar ao viveiro, de tirar as calças, ficar em cuecas e entrar na lama. “Enfim, veremos…”, ia cogitando o Toino, tentando meter uma mão no bolso e conduzindo a bicicleta sem mãos.
Chegaram. Calças fora, cuecas arregaçadas e toca de descer para o viveiro.
— É pá! — diz o pai do Toino para um cunhado —  Está mesmo frio… Toca a gadanhar para aquecer. Enquanto nós cortamos o moliço, o Toino com o ancinho vai-o juntando em montes pequenos para depois serem “zurrados” para junto da estrada, d´onde mais tarde serão carregados para os carros de bois, que o conduzirão às terras, na Gafanha.
Com o correr do dia, e como o céu se encontrava límpido, o sol ia aquecendo o ar ambiente, mas não a lama onde se enterravam os trabalhadores. O corpo com o trabalho, aquecia. Mas as pernas e os pés, valha-lhes Deus, nem os sentiam…


Lá para o meio da tarde o sol começou a descer no horizonte, para os lados do mar. A temperatura começou também a descer, o ar ambiente ia ficando cego, uma espécie de pó finíssimo pairava no ar. Para o fim da tarde o ar já enregelava os ossos!
— Mau, mau! — diz o cunhado Zé — Se isto assim continua, amanhã vai ser o bom e o bonito! (Querendo com isto dizer que seria ainda um dia de mais frio). 
— Esperemos que o tempo não encubra, porque então vai ser frio de rachar…
A noite ia chegando e resolveram regressar a casa.
— Por hoje chega de trabalho — diz o pai do Tónio, que era o mais velho dos cunhados —, vamos até casa, que amanhã também é dia.
Lavaram a lama das pernas e dos pés, enfiam as calças e aí vão de abalada até à Gafanha.
“Porca de vida” — ia pensando o Tónio enquanto pedalava em destina à Gafanha. “Isto não é vida para mim. Isto não pode continuar, tenho de pensar noutro modo de vida. Não se passa fome, mas o trabalho é de escravo! Lá que o pai e os tios aceitem este modo de vida certamente por não terem alternativa, é lá com eles. Eu é que tenho, não posso aguentar este modo de vida. Não sei o que ganho. Só sei que trabalho que nem um escravo, embora os meus catorze anos!”
Chegados à Gafanha, cada um foi para sua casa, tendo combinado que no dia seguinte estariam nos viveiros lá para as oito horas da manhã!
“Oito da manhã no mês de Janeiro é ainda noite! Que Deus me ajude para eu poder aguentar… Tenho de me desenrascar. Tenho de arranjar outro modo de vida” — pensa o Toino. E naquela noite o Toino foi pensando no seu futuro.
Trabalhar com o pai, era demasiado castigo para o corpo e para o espírito. Disso tinha a experiência necessária. Isso estava fora de questão… Ir para uma oficina, como aprendiz de qualquer coisa? Talvez, mas o caso não se concretizou. Falta de vontade dos pais ou de “cunhas”… Imigrar para qualquer parte? Na altura era a Venezuela que “estava a dar”… Havia ainda Angola onde estava a ser acabada a construção de uma aldeia para emigrantes, no Norte, na zona do café, até já lhe tinham dado nome: era São José de Encoje.
Toino escreveu para o Ministério do Ultramar pedindo informações e também para a Embaixada da Venezuela. E aguardou!
Entretanto o dia seguinte tinha chegado. Levantaram-se, pai e filho, foram à bomba lavar a cara. A mãe já se tinha levantado e acabava de por o café na mesa, onde fez sopas de broa, que com o café quente souberam bem, já que a madrugada se encontrava extremamente fria. O sol ainda não tinha nascido.
Enquanto preparavam as bicicletas e as alfaias para se dirigirem aos viveiros do Paraíso (até parece mentira nós irmos para o Paraíso com aquela temperatura), o Toino diz ao pai:
— Espera um pouco que eu já venho.
— Onde vais? Não te demores…
Eu saí ao portão e dirigi-me à pia de dar água às vacas do vizinho Sarabando. Sabia que essa pia tem sempre água e tive curiosidade de saber como estava, com aquela temperatura. Tentei quebrar o gelo em que a água se tinha transformado e não consegui. Regressei, pensando como estaria a do viveiro…
— Vamos embora, que se faz tarde! — manda o pai, montando na bicicleta.
Também montei na minha e fomos andando, enquanto me dirigia ao meu pai, perguntando:
— A água do viveiro também estará gelada?
— Esteja que não esteja, temos de trabalhar…
Era de ferro este homem, só pele, ossos e nervos. Era só trabalhar. Também nunca o vi fazer outra coisa!
Chegados, era o que se esperava... O sol começava a raiar e o seu brilho mostrava um viveiro com uma superfície brilhando. Parecia um espelho sobre a água completamente gelada. O Toino encolheu-se todo pensando no frio que devia fazer…
— Vá, toca de tirar as calças, arregaçar as cuecas que temos de ir “zurrar” o moliço p´ra beira da estrada. E nada de se “dar ao frio”, que então é pior…
Todos cumpriram a ordem e eis três homens e um garoto de cuecas arregaçadas a entrar na água e a começar o serviço.
O pai do Toino foi o primeiro, para dar o exemplo. Encosta o ancinho ao primeiro monte de moliço, encosta a ponta do cabo no ombro e empurra!
— Porra! — diz, quando não conseguiu mexer o monte — Parece que está colado ao chão. O gelo colou-o à lama.
E foram precisos dois homens para descolar cada monte. Depois era arrastá-los, embora com muito esforço. Iam quebrando o gelo vagarosamente, e lá se chegava junto da estrada. E assim andámos uns tempos neste serviço.
Nisto ouve-se vindo dos lados da Gafanha vozeria de gente nova. Eram estudantes da Gafanha que se dirigiam ao Liceu e Escola Comercial, em Aveiro. Pareciam pardais à solta! Bem agasalhados, bem calçados. E eu ali… Um tio do Toino, que tinha uma certa propensão para chatear os outros, diz-lhe, enquanto ia empurrando o seu monte de moliço:
— Olha, olha Toino… Sabes quem vai ali? São os teus irmãos… Tu não quiseste estudar e agora andas aqui…
Senti vontade de lhe dar com o ancinho nas costas, mas fiquei-me pela intenção…
Continuar a empurrar os montes de moliço que, à medida que avançavam iam deixando um sulco aberto por entre o gelo, o que facilitava os que viriam a seguir, era a solução. 
Os que vinham atrás faziam menos esforço a fazer avançar o moliço, mas tinham de ter mais cuidado com o local onde punham os pés, pois se não fosse nos sulcos deixados pelo montes de moliço, corriam o perigo de o gelo duro lhes cortar as pernas enregeladas.
“Que vida esta!” Ia falando para si o Toino… Como é que o pai e os tios iam trabalhando sem uma lamentação sequer?! Ia-os observando, tentando imita-los. O cabo do ancinho apoiado no ombro, os pés “fincados” na lama, o tronco do corpo quase na horizontal para vencer a resistência dos montes de moliço. Ele lá ia andando conforme as suas forças. Era difícil pela sua pouca força, e doloroso pelo frio que fazia. Mas tinha de andar…



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