O Marnoto Gafanhão — 10

Um texto inédito de Ângelo Ribau

Entre sol e chuva, as terras foram todas margeadas 


Finalmente, entre sol e chuva, as terras foram todas margeadas e semeadas. 
Era um serviço relativamente leve. Espalhavam-se as sementes pela terra, atrelava-se o arado de margear aos bois, e aí íamos nós de um extremo ao outro da terra, voltava-se em sentido contrário tantas vezes quanto as necessárias, até que o terreno ficasse todo margeado. Os regos que separavam as margens ficavam à distância de cerca de um metro uns dos outros. Depois, com um ancinho era cobrir as sementes que tivessem ficado a descoberto, evitando assim que os pardais as comessem! Se o tempo fosse húmido e quente não tardaria um mês que pudéssemos começar a colher erva para o gado. 
Agora, enquanto não se arranjava outro trabalho, o tempo ia descansando o físico, a mente ia-se cultivando e até havia tempo para, de vez em quando, ir visitar um amigo que havia adoecido, doença que o obrigava a estar acamado. Conversávamos, jogávamos uma suecada quando calhava, e lá o ia ajudando a passar o tempo. 
A chuva parara. Havia possibilidades de o dia seguinte ser um dia de sol. Logo havia a ordem: 
— Se amanhã o dia estiver bom, vamos à marinha apanhar mais uma bateira de estrume! 
A ideia da cobra veio-me à cabeça e não me deixou nada descansado. Enfim o tempo começava a esfriar e possivelmente as cobras estariam metidas nas suas tocas, protegendo-se do frio. Era esta a minha esperança… 


O tempo estava na verdade melhor no dia seguinte e, manhã cedo, lá fomos nós, o pai de gadanha e engaço ao ombro e o Toino com as duas varas, em direção à bateira. 
O dia não era de chuva mas a manhã estava fria. Notou-se logo ao meter os pés na lama para alcançar a bateira. Solta esta do moirão, lá vamos nós para Esteiro do Oudinot. Salto para a margem com a cirga na mão, estico-a ponho-a ao ombro, e vá de puxar a bateira. São dois quilómetros de extensão, contra a maré. Chegado ao fim é recolhida a cirga, entro para a bateira, pegamos nas varas e vá de atravessar a cale, sempre com muita atenção, não vá aparecer algum navio que nos atrapalhe a manobra. Chegados ao fundão, vá de “paijar” com as varas como se fossem remos, dado que a cale era muito funda e as varas não atingiam o fundo. 
Passámos sem problemas e da outra banda voltámos na empurrar a bateira com as varas, até que chegámos à marinha, amarrámos a bateira e começámos a trabalhar. O pai a gadanhar o estrume e o Toino sempre com o olho à viva (não fosse aparecer outra cobra) ia-o juntando e enfeixando na corda. Quando o molho estava com a quantidade suficiente era amarrado. O Pai puxava a corda de um lado e o Toino do outro, apertavam-no, davam um nó, o pai ajudava a pô-lo na cabeça do Toino, e aí vai ele a correr com o molho de estrume à cabeça, sempre a pensar nalguma cobra… 
Este serviço repetia-se vezes sem conta, até que a bateira estivesse carregada. Depois era o regresso pelo Esteiro do Oudinot, o carro dos bois à espera, o descarregar da bateira… 
Este serviço era executado dias sem conta, sempre que o tempo o permitisse, até que houvesse estrume suficiente para as camas do gado durante o inverno. 
O tempo ia piorando. O vento e as chuvas anunciavam o tempo que aí vinha, a chegada do inverno. Já havia dias de chuva, que permitiam ao Toino ler uns bons pedaços do seu livro, até ser “acordado” do sonho que a leitura lhe provocava, por ordens do pai que dada a ordem continuava na sua leitura: 
— Ó Toino vai dar uma gabela de palha aos bois! — Ou —  Dá uma gabela de erva à vaca! 
O Toino deixava a leitura e ia confirmar a ordem junto do pai, não que não tivesse ouvido bem, mas para confirmar qual o livro que o pai estava a ler. Punha o olho de lado e ia cumprir a ordem. 
De regresso, ainda se atreveu: 
— Olha lá ó pai, quantas vezes já leram esse livro…? (era o Mártir do Gólgota) 
— Não sei, mas gosto muito dele. Tem aqui uma personagem que me faz pensar… — E continuou — era o cantor da Galileia e ia fazer serenatas a Madalena, a pecadora. Chamava-se Boanerges. Se um dia tiver um neto gostava que lhe dessem esse nome… 
E lá continuavam, cada um com a sua leitura, até que da casa do forno se ouviu a vós da mãe: 
— É pessoal, vamos à janta que o comer já está na mesa! 
Só nessa altura o Toino se lembrou de ter ouvido o meio-dia tocar no sino da igreja. E lá deixaram as leituras e foram para a mesa. O Toino olha para a comida e resmunga: 
— Mais uma vez caldo de feijões… 
— E é para quem quer! — Responde-lhe a mãe — Se não quiseres vai para a panela e fica para logo à noite. Nesta casa não se estraga nada… 
E como naquela casa só se falava o necessário, a solução era comer do que havia e bico calado! 
O tempo ia passando, sem o Toino fazer ideia do que aí vinha. Agora era tudo um mar de rosas. Ler, ir ao pasto para os bois, fazer qualquer outro serviço que fosse necessário e ler, ler! Começava a esfriar ainda mais. O vento assobiava por entre os ramos das árvores agora já nuas, sem folhas. O inverno estava a chegar e parece que iria ser de muito frio. 
— O futuro o dirá! 
Foi a resposta do pai do Toino à pergunta do filho sobre o assunto. Ele, que no verão previa o tempo, agora mostrava uma certa reserva, sobro o inverno que se aproximava. Parecia preocupado! 
— Comprámos o moliço dos viveiros da Corte do Paraíso e temos de o apanhar antes do fim de Fevereiro e transporta-lo para as terras. O tempo de o apanhar está a chegar. Comprei o moliço mais dois dos teus tios e domingo vamos combinar quando começamos a apanha-lo! Vai começar uma época de trabalho. 
“Com o frio que parece vir aí, deve ser bonito!”, pensa consigo o Toino. Ele que já tinha sentido o frio que a geada provocava nos pés, ao pisar a lama branca de geada. Só não compreendia que, no tempo em que andava na escola primária, quando geava, a sua mãe o obrigava a levar tamancos de sola de madeira, que eram normalmente comprados na feira dos treze, na Vista Alegre. No entanto, mal desaparecia das vistas da mãe, era vê-lo a pegar num tamanco em cada mão, e toca a correr, que para os lados da Escola da Ti Zefa já se ouvia a algazarra da malta a jogar a bola - tudo descalço - e não havia frio que se sentisse. Topada numa pedra sucedia de vez em quando; mas nada que um trapo ou um lenço amarrados no local ferido, logo ali, não resolvesse! Grandes tempos aqueles! 
Agora havia que trabalhar, e o que aí vinha não era trabalho “mole”… 
Chegou o domingo à noite e foi-lhe dado conhecimento da resolução da apanha do moliço. 
— Mas pai — diz-lhe o Toino — estamos em Janeiro e o tempo está tão frio! Podíamos ir um pouco mais tarde… 
— O frio não faz mal nenhum, cura… E o trabalho aquece! 
Foi a resposta… 
“Este homem tem sempre uma resposta!”, resmungou o Toino, pensando já no frio que iria passar…

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