Um texto de Maria Donzília Almeida
As línguas
maternas têm um papel fundamental na nossa vida, pois são o meio pelo qual
verbalizamos o mundo pela primeira vez, sendo as lentes pelas quais começamos a
entendê-lo. O Dia Internacional da Língua Materna é o momento de
reconhecer a importância destas e de nos mobilizarmos pela diversidade
linguística. Como fontes de criatividade e meios para a expressão cultural,
elas também são importantes para a saúde das sociedades, além de serem fatores
de desenvolvimento e crescimento. Hoje conhecemos a importância do ensino na
língua materna para obtermos bons resultados de aprendizagem. Todos os saberes
a utilizam para veicular informação, como suporte da investigação e aliada da
ciência. A instrução em língua materna é uma poderosa forma de lutar contra a
discriminação e para que o conhecimento alcance as populações marginalizadas.
Como verdadeiros mananciais de conhecimento, as línguas também são o ponto de
partida básico na busca por maior sustentabilidade no desenvolvimento e para
criar relações mais harmoniosas com o meio ambiente As línguas maternas
convivem, pacificamente, com a aquisição de outras línguas. Um espaço
linguístico plural permite compartilhar a riqueza da diversidade, acelerando o
intercâmbio de conhecimentos e experiências. A partir da língua materna, a
aprendizagem de outros idiomas deve ser uma das altas prioridades da educação
no século XXI.
Esta comemoração
impulsionou, assim, os esforços dessa organização internacional para proteger
as quase seis mil diferentes línguas existentes no mundo e, ao mesmo tempo,
preservar a diversidade cultural.
A Unesco reconheceu
o papel que a língua materna tem, não só no desenvolvimento da criatividade,
capacidade de comunicação e na elaboração de conceitos, como também no facto de
que as línguas maternas constituem o primeiro vetor da identidade cultural.
Em relação à minha
língua materna, o Português, sempre pugnei pela sua preservação e defesa, sem
modismos e interferências políticas. Como sou uma criatura de pouca estatura(!?)
para contestar o (Des)Acordo Ortográfico,
atrevo-me, ‘inda assim a publicar o meu compromisso de honra em relação à minha
Língua Materna. Logo que adquiri consciência cívica, sentido de pátria, e
reconhecimento dos nossos órgãos de soberania, fiz este juramento: amar, respeitar
e guardar fidelidade até à morte, a esta língua que me viu nascer,
sempre me acompanhou e com a qual fiz uma aliança vitalícia!
Apesar da minha
atracão, por outras línguas, o que atesta a minha condição humana, de pessoa
que tem o fraquinho da comunicação, hei-de conviver, sempre, pacificamente com
as outras, sem nunca relegar a eleita, para um papel secundário. É ela que me
socorre sempre em qualquer situação de embaraço ou de dificuldade. É a mais
querida, mais amada, quase idolatrada!
Foi com emoção
genuína, patriótica que me deparei com a nossa língua, no oriente, em terras tão
distantes como Goa, na Índia, onde os descendentes dos colonizadores falavam o
Português com um orgulho misto de saudade! Apesar de estarmos tão maltratados
no panorama nacional, essas manifestações de cultura lusíada ainda conseguem
arrebatar-nos. No meu mais recente contacto com povos, além-mar, convivi, de
perto, com a comunidade S. Tomense, onde o Português continua a ser a língua
materna. Há uma sensação de proximidade, que nem as milhas de distância que se
interpõem entre nós, conseguem dissipar!
Para terminar, em
louvor à Língua Portuguesa, nada melhor que transcrever a pérola do classicismo
– o soneto.
Sorriso
Naquele fim de tarde tu
não viste
Nascer a madrugada no
meu peito
E, se o mundo era belo
e tão perfeito,
Tive o sol na mão
quando me sorriste.
Foi sorriso tão doce
que resiste
Ao vil correr do tempo
e ao seu efeito
E, então, de alma
curvada, eu rendo preito
Ao amor, que entre nós,
ainda existe.
Mas Deus, que quer
consigo quem Ele ama,
Levou-te do calor da
nossa cama
Que, em si, ficou seca
de alegrias.
Abriga-te num Céu sem
dor ou penas
Mas, sofrendo e
descrente, eu sei apenas
Que jazemos os dois em
campas frias.
Domingos Freire Cardoso
Tão perto de nós,
é um Ilhavense assumido, este poeta de craveira, que deve ser divulgado, para
bem da nossa língua materna. Trata-a, com muito carinho e desvelo e insurge-se
quando vê os atropelos que lhe fazem.
21 de Fevereiro de
2012