quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Texto Poético

Crónica de Maria Donzília Almeida 



"A poesia é a música da alma, 
e, sobretudo,
 de almas grandes e sentimentais."

Voltaire 

Levar os alunos a escrever na aula de Língua Portuguesa, afigura-se um quebra-cabeças para o aluno e simultaneamente para o professor de língua materna, a quem cabe a dura tarefa da motivação.
A palavra redação que povoou os anos da minha instrução primária, foi evoluindo semanticamente para composição, chamando-se agora, com certa pompa, produção de texto. 
Redigir é um trabalho que exige prática e dedicação. Não existem fórmulas mágicas: o exercício contínuo, aliado à leitura de bons autores e à reflexão são indispensáveis para a criação de textos. Saber escrever pressupõe, antes de mais nada, saber ler e pensar. Ler é fundamental para escrever. Mas não basta ler, é preciso entender o que se lê. Estruturar o pensamento e verbalizá-lo implica um esforço de concentração que não se coaduna com a impetuosidade e hiperatividade dos adolescentes. 
Quando se passa da prosa para o texto poético recrudescem as barreiras. Daí, a necessidade de aquisição de estratégias e ferramentas didáticas, por parte dos professores de língua materna, para colmatarem esta dificuldade.
É neste contexto pedagógico que se inserem as Ações de Formação, em que uma tertúlia de professores se reúne para discutir e inventariar práticas que conduzam a uma sensibilização à escrita, numa espécie de brainstorming (chuva de ideias).
Numa dessas atividades, foram apresentadas as marcas do texto poético que vão para além da rima, a mais evidente e mais percetível pela faixa etária que lecionávamos. Existe a prosa poética em que a poesia está subjacente no conteúdo, desvalorizando-se a forma.

“Às vezes ouço passar o vento;
 e só de ouvir o vento passar, 
vale a pena ter nascido. ”
 
Fernando Pessoa


A formadora, também docente de Língua Portuguesa, para ilustrar a exposição feita, relatou o seguinte episódio, ocorrido numa das suas aulas.
Após ter dado a explicação sobre o texto poético, pedi aos meus alunos que para trabalho de casa, escrevessem uma frase poética, como forma de aplicarem os conteúdos ministrados na aula.
No dia seguinte, a primeira tarefa da aula foi a correção do TPC. Assim, fui chamando os alunos que quiseram apresentar a sua criação poética. O primeiro a responder foi o Joãozinho.
Diz lá, qual foi a tua frase?

— O sol brilha e as flores abrem…
— Muito bem, menino Joãozinho, e tu…Arnaldinho, o que escreveste?
— O vento sussurra na ramaria…
— Sim senhor, muito bem!

Nisto, ouve-se um burburinho no fundo da sala. O menino Zequinha mostra-se muito inquieto, pois queria apresentar a sua frase.

— Diz lá!  — anuiu a professora.
— O canguru tem pelos no cu!

Estupefação geral na sala de aula. Os coleguinhas ficam em silêncio.

— Muito feio o que fizeste…quiseste ser engraçadinho e não tiveste graça nenhuma. Vais repetir o TPC para amanhã.

No dia seguinte, o menino Zequinha foi solicitado a apresentar a nova frase:

— O canguru tem pelos na beiça…

Já todos respiravam de alívio, quando surge o resto da frase poética…

— Só não tem pelos no cu 
Porque a professora não deixa!

Algo semelhante se passou comigo quando quis implementar as ideias e estratégias apreendidas na formação que tivemos.
Numa escola da Invicta, nas traseiras da Casa de Serralves, foi feita a compilação dos textos poéticos, produzidos por uma turma de 6º ano, em época natalícia.
Tudo o resto se varreu da memória, apenas ficou esta “pérola” da poesia, produzida nos anos oitenta do século XX.

É Natal, é alegria
Vamos comer bacalhau!
Anda daí, Donzília.
Se não levas com o pau!

1 comentário:

  1. O poema que foi apresentado, por último, merecia fazer parte do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende !!!
    * É uma quadra
    * Em redondilha maior(ou heptassílabo=verso de sete sílabas
    * Tem rima cruzada perfeita
    a)
    b)
    a)
    b)
    Logo...É um poema de "CATEGORIA" !!!!!

    ResponderEliminar

Publicação em destaque

PELA POSITIVA CHEGOU AO FIM

 Saudações especiais para todos os amigos leitores. Terei de seguir outros caminhos porque parar é morrer. Fernando Martins

Os meus blogues

Seguidores