Por Maria Donzília Almeida
Isabel Jonet
“A história da mulher é a história
da pior tirania que o mundo
conheceu:
a tirania do mais fraco sobre o mais forte.”
A mulher ocupou um
lugar subalterno, no seio da família e da sociedade, durante séculos, que a história
justifica pelo modelo de organização e subsistência, nas sociedades primitivas.
Homens e mulheres
viviam em grupos, em que os homens se dedicavam à caça, para suprir as necessidades
da alimentação. As mulheres, predestinadas à procriação, limitavam-se a colher
plantas, nas imediações do seu habitat. A caça era uma atividade nobre, pois
implicava argúcia e destreza, em oposição à colheita de plantas, sem qualquer
valorização. A partir desta dicotomia de funções, surgem as desigualdades. A
mulher fica confinada ao espaço do lar, cuida dos filhos e dos parentes. Com
base neste quotidiano, surgem extrapolações bem conhecidas: o homem
caracteriza-se pelo rigor do pensamento, pela capacidade do raciocínio, pela
força muscular...... o que lhe dá autoridade! À mulher, resta-lhe a intuição, a
paciência, a capacidade de dedicação aos outros, de sofrimento!
Enraízam-se,
assim, hábitos ancestrais e criam-se mentalidades apoiadas em códigos, interdições
e proibições, veiculadas pelas religiões, que influenciam o relacionamento
entre homens e mulheres.
Gradualmente, elas vão saindo do ambiente
doméstico para a vida ativa, põem à prova as suas capacidades, revelam
talentos, aprendem a viver em sociedade, afirmando a sua identidade e
autonomia.
Vivemos num mundo
complexo em constante mudança e com ele muda a condição feminina, mas as
mudanças não ocorrem de forma linear.
Há resistências a
vencer para alcançar a igualdade e isso justifica a criação de certos
movimentos feministas no século XX e particularmente o seu incremento nos anos
setenta. As mulheres recusam que as considerem parceiras menores, que pretendam
confinar as suas funções e procuram, em associações, resolver os seus problemas
e participar na vida coletiva.
A situação da
mulher portuguesa, condicionada pelas leis e pelos costumes era idêntica às das
mulheres da Europa e, tal como as suas congéneres, procurou melhorar as suas
condições de vida.
Em pleno século
XIX, segundo o Direito Português, a situação da mulher na família, era
precária. Só o marido exerce o poder, tendo autoridade para maltratar a mulher,
que lhe deve obediência! Só ao chefe de família, isto é ao pai, compete exercer
autoridade sobre os filhos. O código civil de 1867 melhora um pouco este quadro,
ao conceder à mãe, o poder sobre os filhos, quase em equivalência ao pai, mas
tudo o resto prevalece.
A mulher casada
não pode assumir qualquer compromisso, ao exercer uma profissão e no caso de
ter uma ocupação fora do lar, não lhe é permitido dispor do seu salário.
Os protestos
femininos são numerosos, corroborados pelas ideias dos movimentos feministas,
veiculados em grupos de reflexão, constituídos por algumas mulheres instruídas.
Neste ambiente
propício, tem início, já no século XX, o Conselho Nacional das Mulheres portuguesas,
que desenvolve uma ação notável, promovendo a emancipação feminina. Expõe as
suas ideias em Boletim próprio, “Alma feminina”, e consegue realizar com êxito
o “I Congresso Feminista e de Educação” em 1924, promove ainda em 1928 o II
Congresso Feminista já em pleno Estado Novo, muito contestado pelo poder
estabelecido.
Mais tarde o CNMP ressurge com nova
vitalidade, sob a presidência de Maria Lamas, que deu o nome, ainda em vida, a
uma escola do Porto, onde lecionei no meu périplo docente. Esta jornalista e
escritora promoveu a educação social das jovens, de todas as classes sociais e
desenvolveu ações de esclarecimento em várias zonas do país.
A Constituição de
1933 ao afirmar a igualdade dos cidadãos perante a lei, no artº 5º, abre uma
exceção para as mulheres “ pelas diferenças que resultam da sua natureza e do
bem da família”.
-As regras
estabelecidas colocam a mulher na dependência do homem, pai ou marido.
-A mulher deve
assegurar o futuro da raça no lar.
-A instrução é um
perigo e por isso suprime-se a coeducação, e a orientação do ensino primário no
concernente às raparigas, deve contemplar a economia doméstica e os cursos de
costura.
-O trabalho
realizado pelo homem, mesmo que seja penoso é sempre uma alegria (!!!) e existe
a melhor harmonia entre dirigentes e dirigidos. A mulher só é feliz, se estiver
à guarda do homem. (!?)
-No lar, o homem
detém a autoridade e a mulher deve receá-lo, servi-lo e obedecer-lhe!
O Código Civil de
1939 concede ao homem o poder de obrigar a mulher a regressar ao domicílio
conjugal.
A mulher não pode
ter passaporte nem viajar para o estrangeiro sem autorização do marido, mesmo
que estejam separados.
Os casados pela
igreja não podem separar-se (Concordata com a Santa Sé em 1940)
Apesar de tantas
restrições, a sociedade evoluiu e a promulgação do novo Código Civil em 1966
traz algumas melhorias: a mulher casada já pode exercer uma profissão liberal
sem autorização do marido e pode dispor do seu salário o que é um passo importante
para a sua autonomia. O marido pode denunciar o contrato de trabalho da mulher.
Em 1968 a mulher adquire a igualdade
política, podendo votar, desde que saiba ler e escrever, mas essa cláusula não
se aplica às eleições municipais. Os limites impostos pretendiam travar a
emancipação da mulher portuguesa, que das suas congéneres europeias era a que
detinha menos direitos.
Há 37 anos, deu-se
a Revolução de Abril, que teve repercussões, nunca antes vistas – a libertação
de uma longa noite fascista, em que a mulher foi grande vítima!
Com a instauração
da democracia foram conquistadas: a liberdade de pensamento e expressão,
liberdade de imprensa e foram reconhecidos os direitos e deveres, para homem e
mulher, em pé de igualdade.
Num curto espaço
de tempo, a mulher adquiriu conquistas legislativas de grande alcance.
Em 1976 adquiriu o
direito de voto, sem qualquer restrição e é abolido o direito de o marido abrir
a correspondência da mulher.
É reconhecido o
valor social da maternidade com direito a licença de parto e respetiva
remuneração, sem perda de regalias.
Com a reforma do
Código Civil de 1976, houve: o restabelecimento do divórcio; igualdade de
direitos e deveres dos cônjuges; a partilha do poder paterno, entre o marido e
mulher; a igualdade de tratamento no casamento em que homem e mulher estão
ligados pelos deveres de respeito, fidelidade, coabitação e assistência.
Nos nossos dias é
bem visível a presença da mulher em todos os níveis de ensino, em diferentes
categorias profissionais e na vida política.
Sabemos que ainda,
são as maiores vítimas de violência doméstica, que sobre elas continua a pesar
a grande carga das lides domésticas e dos cuidados do lar. Extrapolando para a
mulher das Gafanhas, todas as conquistas referidas atrás foram sendo
conseguidas, a par e passo. Longe vão os tempos em que a mulher cuidava da
família, em simultâneo com o amanho das terras. A expressão “ir para a terra”
tinha uma conotação meramente agrária e nada tinha do sentido que comummente
lhe é atribuído, do regresso à terra natal.
Remontando a
meados do século passado, num ambiente semi-rural, semi-piscatório, pouco
desenvolvido socialmente, a mulher vestia de forma muito modesta. Usava uma
indumentária característica: a saia pelo tornozelo, usada no tempo de Camões,
século XVI, subira um pouco e as cores eram escuras como convinha à condição de
mulher casada e mãe de família. Na cabeça, um “drapeado” que escondia quase a
totalidade do cabelo e penteado, era a burka muçulmana, transposta para terras
das gafanhas.
Dado que havia muitos homens embarcados para a
Terra Nova e Gronelândia, na pesca do bacalhau, ficavam em terra, muitas
mulheres que assumiam a liderança da família. Educavam os filhos e
transmitiam-lhes os padrões de uma moral tradicional, que impunha regras e rituais.
Assim, mulher casada com bacalhoeiro, devia primar pelo recato, no trajar e ser
comedida nas relações sociais. Qualquer gesto menos padronizado, colidia com os
ditames desse código de valores instituído e a mulher “era falada”! Hoje, numa
evolução semântica da palavra, perdeu-se o sentido pejorativo e “ser falada”
significa ter protagonismo no trabalho, na sociedade, na política. A Assunção
Cristas.....é uma mulher muito falada nos dias de hoje!
Se andava de cabeça descoberta e com garridice
na roupa, andava “para agradar” no linguajar popular. Era este o eufemismo
usado, correspondente ao termo atual, “oferecer-se”! Esta mentalidade imperava,
na época em que eu era ainda, menininha de liceu e ouvia com atenção e
cogitava, como iria ser a minha vida numa sociedade tão castrativa! No meu
íntimo e deixando, já, esboçar uma rebelião incipiente, eu projetava: Não vou ser”ovelha”!
No que concerne às
formalidades do luto, quando alguém morria, também se respeitavam regras muito
rígidas. Havia um período de tempo em que se tinha que vestir de preto e que
variava consoante o grau de parentesco, com o defunto. Lembro só, que passei
longos períodos da minha juventude, vestida de preto, em consonância com esses
ditames.
Hoje, houve uma
evolução de costumes e a mulher, finalmente, conquistou o seu lugar ao sol. A
saída para o mercado de trabalho, a não dependência do homem em questões
económicas, fizeram com que tivesse adquirido uma maior auto-estima, e tivesse
afirmado o seu papel na sociedade.
A mulher deixou de
ser subjugada por maridos tiranos ou obsessivos, ganhou a coragem de dar “o
grito do Ipiranga”, quando a situação se torna insustentável.
Em termos de
apresentação, a mulher das Gafanhas, não fica atrás de nenhuma das suas
congéneres, em qualquer parte do país. Os mass
media uniformizam o traje, os costumes e a forma de estar.
Independentemente
do seu estatuto social, a mulher “brilha” nas suas aparições sociais e, quase
não se distingue uma operária, duma técnica superior! A moda está ao alcance de
todas e os cuidados de beleza, hoje, são apanágio de sexo feminino. A sociedade
foi-se adaptando a estas exigências e basta constatar o número de esteticistas
que abundam no mercado, aqui na nossa terra!
Quase se perderam
as características regionais, a favor duma massificação de costumes, que
caracteriza a aldeia global.
01.07.2012