Em Novembro, estórias de amor e morte

Crónica de Anselmo Borges 



Por influência dos celtas e questões de calendário - é Outono a caminho do Inverno, que evoca a noite -, mesmo nas nossas sociedades modernas é no mês de Novembro que os mortos são mais lembrados. Sim. Mesmo nas nossas sociedades que fizeram da morte um tabu - disso não se fala, é de mau gosto e mau tom. Vive-se como se a morte não existisse. É melhor esquecê-la. Mas há este alçapão: ela não se esquecerá de nós. Por isso, em todas as culturas e sociedades, há estórias, mitos, que tentam explicar o inexplicável, esse mistério da morte, a coisa mais natural - como diz a nossa palavra nada, do latim, res nata: tudo o que nasce morre -, mas que não devia ser, a ponto de, segundo os antropólogos, sabermos que na longa história da evolução há seres humanos quando encontramos rituais funerários.
Aí estão algumas dessas belas estórias míticas.

1. A primeira foi o filósofo Manuel Fraijó que ma relembrou. Um antigo mito melanésio conta que no princípio os humanos não morriam. Quando chegavam a uma certa idade, mudavam a pele e ficavam outra vez jovens. Mas, um dia, aconteceu o inesperado: uma mulher aproximou-se de um rio para o rito da mudança de pele; atirou à água a pele velha e regressou rejuvenescida e contente; aconteceu, porém, que o filho a não reconheceu: aquela não era a sua mãe. Desejosa de recuperar o amor do filho, voltou ao rio e voltou a pôr a pele velha, que tinha ficado enredada num arbusto. Desde então, os humanos já não mudam a pele, e morrem. Um belo mito que relaciona a origem da morte com a única força superior a ela: o amor, o amor de mãe.

2. Em África, encontramos o mito do "mensageiro fracassado". Deus mandou um camaleão a anunciar que os humanos seriam imortais e também enviou um lagarto com a notícia de que morreriam. Aconteceu que o camaleão fez o caminho lentamente e o lagarto chegou antes, e a morte deu entrada no mundo. A culpa não é de Deus, que, segundo outra estória, deu ao primeiro homem a possibilidade de escolher entre dois pacotes - um continha a vida, no outro estava a morte. O homem enganou-se e escolheu a morte, que ficou no mundo para sempre.

3. Quem nunca ouviu falar de Orfeu e Euridice? Quando Orfeu tocava a sua lira, até os pássaros ficavam tomados de encanto e deixavam de voar para escutar e as árvores curvavam-se. Apaixonado pela bela Euridice, casou-se com ela. Mas ela foi mordida por uma serpente e morreu. Orfeu caiu numa tristeza mortal. Mas, pegando na sua lira, convenceu o barqueiro Caronte e foi ao outro mundo, conseguindo, depois de adormecer Cérbero ao som da lira, chegar até à sombra da sua amada. Hades acabou por atender o pedido de Orfeu. Euridice podia voltar, com uma condição: não podia olhar para ela enquanto não chegasse à luz do Sol. Mas, claro, Orfeu olhou para trás, para ver se ela o acompanhava (quem não olharia?), e perdeu-a para sempre. A morte e o Sol não podem ser encarados de frente.

4. A mais velha epopeia da humanidade tem cinco ou seis mil anos ou mesmo mais. Chama-se a Epopeia de Gilgamesh, na antiga Suméria, actual Iraque. Gilgamesh era o rei de Uruk, um belo rei, mas que os seus súbitos temiam por causa da sua crueldade. A deusa Aruru ouviu as suas súplicas e formou um guerreiro brutal a quem foi dado o nome de Enkidu. Ele deveria enfrentar o jovem rei Gilgamesh. Depois de seis dias e sete noites de amor com uma prostituta, Enkidu desafiou Gilgamesh, e os dois lutaram numa longa e terrífica peleja. Por fim, como que por encanto, foram tomados pela amizade, abraçando-se como irmãos, e houve festas na cidade. Mas a deusa Ishtar quis Gilgamesh para amante. Tendo recusado, os deuses vingaram-se com a morte de Enkidu. E Gilgamesh chora inconsolável, deixa Uruk e empreende a longa e penosa viagem até ao outro mundo, entre perigos sem conta, na busca do amigo e da imortalidade. Seguindo o conselho do único sobrevivente do dilúvio, Utnapishtim, traz com ele a erva da imortalidade. Mas, esgotado como estava, parou no caminho para beber água e banhar-se. Aí, uma serpente roubou-lhe a planta sagrada da eterna juventude e Gilgamesh soube então que não há remédio para morte. E chorou a sorte do amigo e a de todos, num lamento sem fim em frente dos muros da sua gloriosa cidade de Uruk.

5. Para a eternidade vamos: a eternidade do nada ou a eternidade da vida plena em Deus. Uma das raízes essenciais das religiões tem que ver precisamente com o seu afã de salvação contra a morte, e concretamente o cristianismo foi e é, como diz Fraijó, o mais denodado combate contra "o nada como origem e como meta final da existência". Lá estão os grandes teólogos, também contemporâneos. Uma das irmãs perguntou a Hans Küng: "Acreditas verdadeiramente na vida depois da morte?" E a resposta continua a ser um "sim" espontâneo e sem hesitações. Depois da morte, confessa, "não me aguardará o nada". O grande Karl Rahner, que tenho a honra de ter tido como professor, também passou a vida a fundamentar o seu "não" ao nada.

Para lá ciência, da teologia e da filosofia, ficam aí estes versos do poeta indiano R. Tagore: "A morte é doce, a morte é uma criança que está a mamar o leite da sua mãe e de repente põe-se a chorar porque o leite acabou naquele peito. A mãe dá-se conta e suavemente passa-a para o outro peito para que continue a mamar. A morte é um choramingar entre dois peitos."

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