A Quinta da Ilha

Crónica de Maria Donzília Almeida

Altar 
Amélia
Bananeira
Cai o pano
Comensais
Kiwis 

Fontanário 
Lago
Marinho Marques - Faxina

Másculos
Com a chegada do verão, foram-se aproximando do fim as atividades escolares, nas instituições de ensino público e privado. 
Desde os tempos remotos em que era estudante, à estação quente, vinha associada a palavra que nos soava a lazer e cheirava a maresia — férias. 
Agora, noutra dimensão académica, nas US (Universidades Seniores) de todo o país, também se fazem planos e preparativos para uma merecida pausa. 
Para dar uma certa relevância ao encerramento do ano letivo, multiplicam-se as festas de despedida entre formandos e professores, que, invariavelmente, decorrem à volta de uma mesa num opíparo repasto. O descanso do guerreiro! Desfrutar é viver! 
Hoje, mais uma vez nos reunimos para um convívio de confraternização do grupo AF (Amigos da Fotografia) orientado pelo eminente fotógrafo Carlos Duarte, numa nova modalidade, um piquenique. 
Evoquei os meus tempos de juventude, em que adorava fazer piqueniques com as crianças, nos mais diversos lugares: numa mata, (do Buçaco) num parque de campismo, ou simplesmente debaixo duma árvore frondosa. É muito agradável comer ao ar livre, cozinhar em céu aberto, sentir o cheirinho da comida evolar-se na atmosfera… dir-se-ia que era um oásis, na turbulência da vida quotidiana. 
Toda esta ambiência foi recriada nos arredores de Ílhavo, na Quinta da Ilha, propriedade do Sr. Dias, nosso colega/amigo da US. 
Foi a minha primeira visita, pois como caloira na US apenas ouvira falar do espaço, sem poder imaginar as suas reais dimensões. 
Se a expressão “Não há palavras…” se banalizou e quase perdeu o sentido, ainda assim, apetece-me usá-la, neste contexto, prenhe de significado. 
Foi um deslumbramento, quando cheguei ao local e deparei com a grandeza que os meus olhos enxergavam. 
A Quinta da Ilha, ali para os lados da Carvalheira, é um espaço enorme a perder de vista, um verdadeiro paraíso para retempero de forças. Seguimos por uma vereda estreita, ladeada por densa vegetação, ora rasteira, ora trepadeira, até alcançarmos uma clareira, onde houve espaço para o estacionamento automóvel de dezenas de veículos.
No itinerário para a zona do piquenique, fui observando, na área circundante, uma das atividades da quinta: a agropecuária. Aí, convivem, lado a lado, os gansos que têm o seu recreio no lago, a competir com os patinhos bravos, de colorida plumagem. Na horta, com água farta, medram os melões, as couves, os pimenteiros, os feijões de trepa e outras espécies vegetais, constituindo um manancial de produtos hortícolas. 
As fruteiras bordejam os caminhos e uma pérgula de kiwis estende-se por cima dos visitantes que usufruem da sua larga frescura. Promessa de colheita farta, é o prognóstico! 
Fomos seguindo por córregos estreitos ou por veredas mais largas, contemplando o exuberante mundo vegetal que aí se dá como peixe na água… do lago. De tempos a tempos, deparávamos com um pequeno retiro, uma reentrância no renque de plantas. Um dossel natural, de trepadeiras, emoldurava um banco de jardim, ali colocado, talvez para uma paragem na caminhada. Era um nicho, em plena natureza, que convida à meditação, à contemplação… quiçá ao namoro… que também é um condimento da idade sénior… 
Estes retiros iam-se sucedendo, ao longo do percurso, cada qual com a sua identidade própria e uma decoração sempre diferente das anteriores. Mãos de artista e muitas horas de trabalho ali estavam bem patentes. Tudo obra do Sr. Dias! 
— Uma via-sacra! — alguém sugeriu. Aqui não se tratava de sacrifício, mas sim de um passeio prazeroso. 
Após uma longa caminhada, chegámos ao local do piquenique, onde várias mesas espalhadas pelo jardim convidavam a um caloroso repasto. As iguarias de entrada, dispostas sobre uma lauta mesa, foram aguçando o apetite e num ápice se passou à degustação. A ementa constou de grelhada mista, acompanhada de feijão preto e arroz branco, numa significativa demonstração de que ali não há racismo! Um excelente pitéu. 
Vários grupos se formaram aleatoriamente e um saudável convívio se estabeleceu entre os comensais. A conversa fluía, diretamente proporcional à desinibição que o néctar dos deuses nos proporcionava, fomentando a arte da comunicação. Aí ficou provado que “Bonum vinun laetificat cor hominum! (O bom vinho alegra o coração do homem). A meio do repasto, já todos riam a bandeiras despregadas, com os ditos jocosos (vulgo anedotas) que iam escorrendo como o néctar pelas gargantas! 
Num cômputo final, direi que foi uma tarde estival muito agradável, onde até houve lugar para homenagear dois aniversariantes. 
Como todos os seniores cultivam o dom da gratidão, pela sua já provecta idade, houve um momento de espiritualidade/religiosidade, na inauguração de um nicho/oratório dedicado à Nª Srª de Fátima. Houve o descerramento do pano que cobria a imagem, aqui simbolicamente representado pela t-shirt dos AF e que levou a uma ovação geral. 
Parabéns ao Sr. Dias pela obra extraordinária que criou neste ambiente bucólico, pela sua criatividade, o seu sentido de partilha e a amizade que nos envolveu a todos. 
No meu imaginário, visualizei a Aldeia de José Franco no concelho de Mafra, com a qual há uma grande similitude. 
Se algum dia me ouvirem dizer: — Quero ir para a ilha … não estou a delirar… apenas a recordar o meu “Paradise Lost” (Paraíso Perdido)… 



Mª Donzília Almeida 



22.07.2016

Comentários

Cometi um erro imperdoável ao esquecer-me de mencionar o nosso anfitrião da quinta: um robusto pastor alemão de seu nome Targa. Circulava por entre os visitantes, passei-lhe a mão pelo pelo lustroso e ele devolveu-me o sorriso com ar complacente...O meu fraquinho pelos alemães...