Trans-humanismo e pós-humanismo (3)

Crónica de Anselmo Borges 


As novas tecnologias, que têm que ver com as NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, informática, ciências cognitivas, isto é, ciências do cérebro e inteligência artificial), não deixam de nos surpreender constantemente, de tal modo que transformar e melhorar a espécie humana deixou de ser ficção. A identificação do processo CRISPR/Cas9 permite modificar o mapa genético, escrevendo a este propósito a investigadora Maria do Carmo Fonseca: "Pode ser que pela primeira vez o homem seja capaz de mudar o seu próprio código genético e a longo prazo concretizar o sonho de melhorar a nossa espécie. Não vamos ser imortais, mas poderemos ser super-homens." E criar uma nova espécie, com a bifurcação da humanidade?
Os êxitos da computação são igualmente estrondosos nas suas inovações. Assim, por exemplo, já se estreou o primeiro filme escrito por um robô e ninguém deu conta; um robô foi dando aulas online durante um semestre e ninguém se apercebeu; um computador bateu o campeão do jogo GO e outro, programado pela IBM, bateu o campeão de Jeopardy, um jogo no qual são apresentadas as respostas sobre os mais variados temas - história, literatura, ciências - e os concorrentes têm de formular as perguntas correspondentes. As capacidades dos computadores aumentarão incomensuravelmente a cada dia. Em Fevereiro de 2017, cientistas de vários países anunciaram que está em marcha uma nova revolução tecnológica, com o projecto de construção do computador mais poderoso de sempre, um computador quântico.
Aquele que é considerado o maior físico teórico da actualidade, Stephen Hawking, não tem dúvidas quanto a isso, perguntando apenas até que ponto isso trará benefícios para a humanidade, como disse em 2015: "A um dado momento, nos próximos cem anos, os computadores superarão os humanos graças à inteligência artificial. Quando isso ocorrer, temos de assegurar-nos de que os objectivos dos computadores coincidam com os nossos." Não é o único a prevenir. Luc Ferry e Jean Staune chamam a atenção para os avanços da computação, nomeadamente no domínio dos robôs, mas citam um conjunto de industriais visionários como Elon Musk, responsáveis de grandes sociedades informáticas como Bill Joy, matemáticos e especialistas em inteligência artificial, que escreveram uma carta aberta apelando ao estabelecimento de uma moratória sobre os progressos nestas matérias, pois o aparecimento de uma superinteligência poderia ser a grande ameaça para a espécie humana no século XXI. Hawking, de novo: "Conseguir criar uma inteligência artificial seria um grande acontecimento na história do homem. Mas também poderia ser o último" e, em Março de 2017, em entrevista ao The Times, chamou de novo a atenção, em ordem à sobrevivência, para a necessidade de controlo dos instintos agressivos da humanidade, e apelou à criação de uma "espécie de governança global", para conter os perigos da inteligência artificial. No mesmo sentido, Elon Musk advertiu que os seres humanos, para se não tornarem irrelevantes, vão ter de se fundir com a inteligência artificial. E Bill Gates: "Eu sou daqueles que se inquietam com a superinteligência. Num primeiro tempo, as máquinas realizarão numerosas tarefas em nosso lugar e não serão superinteligentes. Isso deveria ser positivo, se gerirmos a coisa bem. No entanto, algumas décadas mais tarde, a inteligência será suficientemente poderosa para pôr problemas. Concordo com Elon Musk e outros e não compreendo porque é que as pessoas não se inquietam."
Estão aí perigos consideráveis, como robôs inteligentes assassinos, a decisão de matar este ou aquele. E há toda uma nova zona de inquietações à volta de uma sexualidade robótica, como teorizou Ian Pearson no artigo "The rise of the robosexuals". Para não citar a urgência em rever toda a problemática do trabalho, devido à destruição de inúmeros campos de emprego por causa da robotização.
Evidentemente, temos de saudar os imensos benefícios que chegarão mediante o uso das novas tecnologias, em vários domínios, como o trabalho, a saúde: nanorrobôs que percorrerão o corpo detectando doenças, cirurgias com robôs, facilitação da vida das pessoas sós e incapacitadas, foi anunciado, já em 2017, que pacientes com esclerose lateral amiotrófica, por exemplo, conseguem comunicar mediante um computador capaz de "ler" os seus pensamentos...
Mas há questões imensas que obrigam a pensar e a intervir. Assim, o Parlamento Europeu quer propor uma lei no sentido de criar um estatuto legal específico para os robôs mais sofisticados, onde se prevê pagamento de impostos, se substituírem os humanos em funções de trabalho, seguros obrigatórios para cobrir danos que possam causar, inclusão obrigatória de um botão de destruição - um kill switch. "Cada vez mais o nosso dia-a-dia é afectado pela robótica. Para fazer face a esta realidade e garantir que os robôs estão e continuarão a estar ao serviço dos humanos, é urgente criar um quadro jurídico europeu robusto", disse a responsável pelo relatório referente ao tema, a eurodeputada luxemburguesa Mady Delvaux, que pensa também que se deve definir claramente normas éticas para não permitir que um robô se assemelhe demasiado a um ser humano, provocando "dependência emocional", como se pudesse "amar" ou manifestar "tristeza". "Os robôs não são humanos nem nunca serão", sublinhou Mady Delvaux. "Pode-se ser dependente deles para tarefas físicas, mas não se deve nunca pensar que um robô ama ou sente tristeza."

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

Comentários