Francisco, o reformador

Crónica de Anselmo Borges no DN


«A reforma "continuará com determinação, 
lucidez e resolução, porque a Igreja tem 
de estar sempre em reforma"»


1 Foi um dos acontecimentos mais importantes do século XX. Pelas suas repercussões religiosas, políticas, sociais, geoestratégicas. Constituiu uma revolução. Refiro-me ao Concílio Vaticano II, cujo encerramento se deu fez no passado dia 8 cinquenta anos. O que seria a Igreja e, consequentemente, o mundo, se não se tivesse realizado o Concílio? O teólogo Juan Tamayo acaba de elencar algumas das transformações operadas.
Passou-se de uma Igreja, sociedade perfeita, à Igreja Povo de Deus; do mundo considerado inimigo da alma ao mundo como "espaço privilegiado onde viver a fé cristã"; da condenação e anátema contra a modernidade e as religiões não cristãs ao "diálogo multilateral": com o mundo moderno, a ciência, a cultura, as confissões cristãs, as religiões não cristãs, o ateísmo; da condenação dos direitos humanos ao seu reconhecimento e ao combate por eles; da condenação da secularização ao reconhecimento e defesa da autonomia das realidades terrestres; da Igreja "sempre a mesma", imutável, à Igreja em permanente reforma; da Cristandade ao Cristianismo; da pertença à Igreja, condição necessária para a salvação, à liberdade religiosa.

2 Muitas questões ficaram por resolver: por exemplo, manteve-se uma estrutura hierárquico-piramidal e o patriarcalismo, impediu-se o debate sobre o celibato obrigatório... Mas, no seu espírito, o Vaticano II constituiu uma abertura revolucionária, uma primavera de renovação. O problema é que se seguiu um longo inverno.
No dizer do teólogo Xabier Pikaza, havia duas leituras possíveis do Concílio: uma linha de fechamento, dos que pensavam que, passada a tormenta, se voltaria à situação anterior, insistindo na manutenção de estruturas de uma Igreja que tomou a sua forma actual na Reforma Gregoriana, no século XI. "Esta é a linha que triunfou com o Catecismo da Igreja Católica e com o Código de Direito Canónico, que não assumem na realidade o Concílio, pelo contrário, se opõem ao seu desenvolvimento, por medo, por falsa tradição (ou por desejo de controlo da Cúria Romana." Assim, as transformações e a evolução foram travadas.
A outra era uma linha de abertura, como exigiam os "sinais dos tempos". De facto, com as independências, estava-se no termo do colonialismo político, o que exigia, por parte da Igreja, o fim do predomínio do catolicismo europeu e ocidental. A Igreja tinha de passar de uma cultura única, "quase monolítica, de tipo greco-latino e europeu ocidental", a uma Igreja verdadeiramente universal, em diálogo com todas as culturas e assumindo a inculturação. O Concílio percebeu que a Igreja tem uma mensagem transcendente (a presença de Deus), mas também que essa mensagem é "inseparável da presença e acção dos cristãos no mundo", em ordem à justiça e à paz.

3 Não foi por acaso que Francisco, o "Papa misericordioso" (José M. Vidal), escolheu o dia 8 de Dezembro, para inaugurar o Ano Santo da Misericórdia. "Escolhi a data de 8 de Dezembro pelo seu grande significado na história recente da Igreja. Com efeito, abrirei a Porta Santa no quinquagésimo aniversário da conclusão do Concílio Vaticano II. Derrubadas as muralhas que durante muito tempo encerraram a Igreja numa cidadela privilegiada, tinha chegado o tempo de anunciar o Evangelho de um modo novo. Uma nova etapa. Um novo compromisso." Na inauguração, foi claro que quer a Igreja na linha da abertura: "O Jubileu obriga-nos a não esquecer o espírito do Vaticano II, o do samaritano".
Voltar ao espírito do Concílio implica retomar a inspiração do Evangelho, abrindo as portas e as janelas da Igreja. Por isso, Francisco chamou uma Auditoria Externa para que haja transparência nos dinheiros do Vaticano. Avançará, escreve Pikaza, com a reforma da Cúria Romana enquanto tal: "podemos supor que o Papa continuará em Roma, como sinal de unidade eclesial, mas sem Vaticano, no sentido estrito do termo, isto é, sem uma Cúria de poder religioso". Houve quem se apropriasse da Igreja como "sua quinta particular", mas Francisco quer "devolver" a Igreja aos cristãos. Uma vez que a Igreja é todos os cristãos e não uma "superstrutura clerical", os ministérios hão-de ser verdadeiros ministérios, serviços.

4 Há quem deseje para Francisco o que aconteceu a João Paulo I. Mas ele foi dizendo que "as resistências não travam..., impulsionam" e assegurou, há dias, perante a Cúria, que a reforma "continuará com determinação, lucidez e resolução, porque a Igreja tem de estar sempre em reforma". É expectável que na próxima Exortação Apostólica torne possível, como referiu recentemente o cardeal M. Sistach, a comunhão para os divorciados recasados; também admitiu que o preservativo "é um método para prevenir a sida"; há indícios de que o próximo Sínodo possa ter como tema os padres casados, revendo-se então a lei do celibato: este problema, já disse, "está presente na minha agenda".

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