sexta-feira, 13 de abril de 2018

VÓS SOIS TESTEMUNHAS DE TUDO ISTO

Georgino Rocha

 Jesus aos discípulos 
“Ser pobre no coração: isto é santidade. Reagir com humilde mansidão: isto é santidade. Saber chorar com os outros: isto é santidade. Buscar a justiça com fome e sede: isto é santidade. Olhar e agir com misericórdia: isto é santidade. Manter o coração limpo de tudo o que mancha o amor: isto é santidade. Semear a paz ao nosso redor: isto é santidade. Abraçar diariamente o caminho do Evangelho mesmo que nos acarrete problemas: isto é santidade.” 
Papa Francisco 
Os discípulos de Emáus estão a contar o que lhes havia acontecido no caminho de regresso à sua terra, como sentiram o coração a arder enquanto ouviram a explicação das Escrituras dada pelo peregrino anónimo e como ao partir do pão reconhecem Jesus ressuscitado. Os outros, precavidos, encontram-se reunidos numa casa, em Jerusalém, e escutam com atenção e algumas reticências, apesar de notícias estranhas e cautelosas que já circulavam. (Lc 24, 35-48).
É neste cenário que Jesus aparece de novo; e, sem demoras, coloca-se no meio deles e saúda-os desejando-lhes a paz. Os discípulos não o reconhecem ainda. Uma série de sentimentos perturbava-lhes a lucidez, mas sobretudo faltava-lhes a compreensão das Escrituras no que se refere à morte e ressurreição do Mestre. Jesus capta o turbilhão interior em que eles se encontram e toma a iniciativa de lhes serenar o espírito e fazer despertar a alegria e a confiança. Realiza uma série de gestos e dá-lhes uma explicação complementar do que havia acontecido à luz das Escrituras. E depois atesta o alcance do que acaba de fazer dizendo: “Vós sois testemunhas de tudo isto”. Atestado este que fica como missão para todos os tempos da história da salvação. E, por isso, para nós, também.

Que alegria e missão! O Papa Francisco na sua recente exortação apostólica “Alegrai-vos e exultai” convida-nos a saborear a felicidade na vida quotidiana e a dar passos no caminho para a vivermos cada vez mais. No capítulo III apresenta uma bela reflexão, muito apelativa, sobre o que é ser feliz – ser santo – a partir das bem-aventuranças. Diz assim:
“Ser pobre no coração: isto é santidade. Reagir com humilde mansidão: isto é santidade. Saber chorar com os outros: isto é santidade. Buscar a justiça com fome e sede: isto é santidade. Olhar e agir com misericórdia: isto é santidade. Manter o coração limpo de tudo o que mancha o amor: isto é santidade. Semear a paz ao nosso redor: isto é santidade. Abraçar diariamente o caminho do Evangelho mesmo que nos acarrete problemas: isto é santidade.”
O P. Rui Osório introduz esta apresentação com o amável convite, que é também o meu: “Façam o favor de ser felizes!”
A vida feliz, em todas as tonalidades e cores, constitui o testemunho mais qualificado de Jesus Ressuscitado. E esta é a missão que entrega aos seus fiéis discípulos. Ser testemunha de tudo isto ou seja do valor da vida que não acaba com a morte, mas reveste o rosto da novidade definitiva, fruto da sua transformação radical; do alcance da boa compreensão das Escrituras que desvelam o sentido profundo dos acontecimentos, enquanto sinais da presença de Deus na história ou a sua ausência; da necessidade de reganhar a serenidade interior e saber discernir as situações complexas em que nos vemos envolvidos; da importância dos sinais que indicam uma realidade superior e para ela nos remetem; do sentido humano da refeição em comum, do estar juntos, do ser comensais e convivas, do partir o pão que vai ser repartido, da partilha solidária e fraterna. Também a nível da experiência pascal, do reconhecimento de Jesus ressuscitado. Como os discípulos de Emaús.
Que legado o Senhor nos deixa. E vale a pena assumi-lo com coragem. Ouçamos o seguinte testemunho, comovente, que foi posto no facebook e está devidamente identificado. Trata-se da disposição de uma pessoa adulta, casada, mãe de dois filhos. O marido trabalha em Aveiro. E é ele que quis cumprir a vontade da esposa até ao fim.
“Vou partir.
Chegou, finalmente, o dia tão ansiado em que contemplarei a face e o rosto do Senhor.
Gostaria que todos os que de qualquer forma entristeci me perdoem e que todos aqueles a quem algum dia alegrei me vejam partir com alegria, pois o que vos peço a todos é que não choreis por mim.
Hoje sinto-me livre e feliz como nunca.
Deixar aqueles que ama é difícil, mas sei que Deus nunca vos abandonará e que a Sua misericórdia é muito superior à nossa fraqueza.
Parto assim confiante e peço-vos que não choreis, mas alegrai-vos e esperai com confiança e alegria o dia deste grande encontro.
Quero o toque festivo dos sinos, repudio os trajos negros, escolho a alegria das cores claras.
Não quero as vossas lágrimas, mas o vosso perdão.
Percorri muitos caminhos, conheci muitas pessoas, lutei muito, falhei milhares de vezes, mas sempre desejei encontrar-Te.
Poderei finalmente contemplar o Teu rosto e apertar nas minhas as mãos que tantas vezes me ampararam!
Espero sinceramente que tudo isto seja um novo começo.
Um beijo grande àqueles que mais amei: levo-vos a todos no coração e a todos espero poder de novo abraçar. São (4 de agosto de 2011).
Esta mensagem foi lida na celebração da missa de acção de graças pelo dom da vida. Havia sido escrita após o conhecimento da grave situação. Não quis funeral, pois preferiu deixar o seu corpo/cadáver na anatomia do Hospital onde viesse a falecer. O marido respeitou religiosamente este desejo. Bem como os filhos. Mas houve Eucaristia. Em tom festivo, feliz, dos amigos que puderam estar presentes a dar graças ao Senhor pelo dom da vida, que no testemunho proclamado na celebração, brilha com inesquecível valor.
Somos testemunhas de tudo isto. Felizes seremos se o praticarmos. 

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