Ano novo, vida velha?

Crónica de Vítor Amorim


Quase sem darmos por isso, eis que o ano de 2017 já passou a fazer parte do nosso dia-a-dia, sem que a esta alteração cronológica corresponda um mundo com mais esperança, paz e amor, enquanto valores universais e fundamentos do bem comum de toda a humanidade.
O aprofundamento, a valorização e a dignificação destes princípios universais não passam pelas folhas dos calendários, mas pelos valores, vontade e consciência dos homens - de todos os homens –, enquanto corresponsáveis pelo bem-estar das sociedades e de toda a criação.
Nestes últimos tempos, não nos têm faltado palavras de “boas festas”, de um ano novo próspero e feliz, com boas saídas e melhores entradas, para além de muito amor, saúde e dinheiro. Se a felicidade de cada um de nós dependesse apenas destes desejos, por mais amáveis e sentidos que eles sejam, teríamos as portas do mundo abertas de par em par para podermos ser mais otimistas e confiantes.
No entanto, todos estes votos de “boas festas” e de bom ano, que ecoaram um pouco por todo o mundo, parece não se traduzirem em mudanças de atitude e de comportamento na vida e no quotidiano de cada um. Quase sempre, o entusiasmo inicial “de novo ano, vida nova” vai dando lugar ao desânimo e à descrença, bem à maneira de uma história trágica, cujo desfecho se afigura predeterminado e frustrante: ganham sempre os mesmos! Voltam, então, as velhas rotinas e os lamentos anestesiantes.
Correndo o risco de ser chamado de pessimista sem cura nem futuro, ocorrem-me duas ou três breves questões: 1. Quando desejamos “boas festas” a um amigo ou a um conhecido do que é que estamos exatamente a falar? Será que o meu conceito de “boas festas” se identifica com as “boas festas” do meu semelhante? 2. Será possível (e desejável) que as “boas festas” que se desejam a alguém possam depender do compromisso que cada um tem perante si e o seu próximo? 3. Este dizer “boas festas” não se está a transformar num ato mecânico, instintivo, banal?
Vivemos num tempo em que o transitório, o efémero, a banalidade, a tecnocracia estão na moda e não poupam quem os ousa enfrentar. De acordo com este calendário (o da “moda”) os caminhos que podem levar ao contínuo processo de crescimento e de humanização do ser humano tendem a ficar circunscritos a um mês por ano, mais parecendo um período temporal estabelecido para cumprir conveniências de ocasião.
Passada a desmesurada euforia festivaleira das ornamentações de todas as luzes e cores; dos presentes supérfluos; das festas em catadupa; das mensagens sem alma, sem ternura; das eternas promessas que nunca serão cumpridas; das canseiras sem conforto e sem beleza, fica-se com a sensação (provavelmente infundada) que cada um vai continuar a viver, no essencial, como sempre viveu: por sua conta e risco.
Uma coisa parece adquirida e pacífica: o “tempo oficial” do desejar “boas festas”, por agora, está a terminar. Tudo voltará a ser como era dantes: um mundo de pessoas “normais” com vidas “banais”. Um mundo onde muitos são atingidos por gigantescas e assustadoras anormalidades e constantes indiferenças diárias.
No próximo mês de Dezembro (nada de angústias, ainda faltam onze meses!) todo este processo, nas suas múltiplas expressões, irá repetir-se. Por agora, é tempo de retemperar forças. Sem compromissos – de preferência –, mas com as ilusões e as vãs promessas sempre prontas a servir!

Oliveirinha, 4 de Janeiro de 2017


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