“Defesa e Ilustração da Língua Portuguesa”

Um livro de Manuel Costa


Chegou-me às mãos um livro curioso de Manuel Costa, com título desafiante: “Defesa e Ilustração da Língua Portuguesa”. Trata-se de uma publicação da Estante Editora e nada diz do autor. De qualquer forma, é um trabalho que merece uma reflexão, sobretudo neste tempo de abundantes atropelos à Língua Pátria.
A pressa com que escrevemos e as liberdades que as redes sociais nos dão fazem crescer, como cogumelos em zonas húmidas e putrefactas, um Português sem lei nem roque. Vejo isso por todos os cantos, nas ruas, na publicidade, na propaganda, nos contactos pessoais, os chamados e-mails, nos jornais, revistas e até em livros. 
Quando caminhava hoje pela Avenida José Estêvão, com a calma de quem não pode apressar o passo, tive ocasião de confirmar o que disse. Flôr em vez de Flor, Estevão em vez de Estêvão, etc. 
Ora, este livro tem como finalidade «sensibilizar todos os que falam a Língua e todos os que a escrevem para as potencialidade e as virtudes múltiplas que possui e para as verdadeiras questões que se levantam a seu respeito e carecem de reflexão», lê-se no Prefácio, não assinado, presumindo-se, por isso, da autoria de Manuel Costa.
Na Apresentação, também sem sinal de autor, sublinha-se, em jeito de denúncia, que a Língua Portuguesa se encontra hoje «humilhada, tratada com negligência e desdém, sofrendo atentados à índole e ao funcionamento, pondo em risco a honra e a dignidade que a engrandecem». E mais adiante, em Advertência, afirma-se que sendo a Língua «uma entidade imaterial assente em suporte material, dotada de grande complexidade, é necessário torná-la acessível mas não confusa, pondo a descoberto, tanto quanto possível, os seus traços característicos dominantes e as suas possibilidades de modo a simplificar o que por natureza é complexo, sem lhe retirar a aura de mistério que a envolve e a torna tão familiar a todos os que a falam». 
Manuel Costa não segue o Acordo Ortográfico de que tanto se fala e escreve, mas não entra em polémica. Apresenta o seu trabalho abordando os mais diversos temas através de textos curtos e muito variados, desde o Aparecimento do acto linguístico até Língua e Cultura, passando, entre outros assuntos, por O carácter específico da Língua, A arte de dizer, O erro ortográfico, a Língua padrão, O estrangeirismo, O brasileirismo, etc. 
Em conclusão, penso que trabalhos deste tipo merecem uma leitura atenta,  principalmente numa altura em que anda tanta gente baralhada com o Acordo Ortográfico já oficialmente aprovado entre nós. E siga a rusga dos desacordos, até porque o Primeiro-Ministro, António Costa, não vai mexer no assunto: o povo é que  há de decidir, impondo as suas regras. 

Fernando Martins

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