É em Sábado que vivemos

Crónica de Anselmo Borges 

Anselmo Borges


Foi condenado pela religião oficial como blasfemo e pelo poder imperial como subversivo social e político. Não por Deus. Porque Deus não quer a dor e o sofrimento, mas a alegria. Deus não precisa de sacrifícios nem de vítimas. Jesus foi vítima, porque Deus não quer vítimas. Entregou a sua vida por amor e foi crucificado, porque Deus não quer crucificados. "Deus é amor incondicional": este é o verdadeiro letreiro que encima a Cruz de Cristo.
Aparentemente, no horror daquela Sexta-Feira Santa, foi o fim. Mas, lentamente, reflectindo sobre a experiência que Jesus fez de Deus, sobre o modo como viveu, como agiu, como morreu, os discípulos fizeram a experiência avassaladora de que o Deus-amor, a quem Jesus se dirigia como Abbá, Pai-Mãe querido, não o abandonou nem sequer na morte. Jesus não morreu para o nada, mas para Deus. Na morte, não encontrou o nada, mas a plenitude da vida de Deus.
Esta é a mensagem de Páscoa, que os discípulos, outra vez reunidos, foram anunciar pelo mundo, e por ela deram a vida. E chegou até nós, cuja vida se passa em Sábado, entre a dor de Sexta--Feira Santa e a esperança do Domingo de Páscoa.


2. Sobre este tema, escreveu G. Steiner um texto poderosíssimo, que já uma vez aqui citei: "Sabemos que a Sexta-Feira Santa do cristianismo é a da Cruz. Mas o não cristão, o ateu, também a conhece. Significa que ele conhece a injustiça, o sofrimento interminável, a devastação, o brutal enigma do fim, que em grande medida constituem não só a dimensão histórica da condição humana, mas também o tecido quotidiano das nossas vidas provadas. Conhecemos, inevitavelmente, a dor, a falência do amor e a solidão que são a nossa história e o nosso destino pessoal. Também conhecemos o Domingo. Para o cristão, esse dia é o sinal, simultaneamente garantido e precário, de uma justiça e de um amor que venceram a morte. Se não somos cristãos ou se somos descrentes, conhecemos esse Domingo precisamente nos mesmos termos. Para nós, é o dia da libertação da inumanidade e servidão. Esperamos soluções, sejam elas terapêuticas ou políticas, sociais ou messiânicas. Os contornos desse Domingo carregam o nome da esperança (não há palavra menos susceptível de desconstrução). Mas a nossa longa jornada é a de Sábado. Entre o sofrimento, a solidão e o indizível desperdício, por um lado, e o sonho da libertação e do renascimento, por outro. Em face da tortura de uma criança ou da morte do amor que é Sexta-Feira, até a arte e a poesia mais sublimes se revelam vãs." Sim. É no Sábado Santo que os cristãos e, de certo modo, todos os seres humanos vivemos.

Boas Festas!

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