domingo, 7 de fevereiro de 2016

Tirar o Evangelho da cadeia

Crónica de Frei Bento Domingues 

«Os Evangelhos não podem ser 
o arquivo morto das Igrejas

1. Com intenções diversas, dizem-se que já é tempo de me convencer de que faço parte de uma minoria religiosa em extinção. Alguns afirmam-no como um lamento: depois do desprezo laicista pelas raízes cristãs da cultura europeia, passando pelo esquecimento ecuménico do Vaticano II, podemos estar a caminhar, a passos largos, para uma Europa muçulmana de cariz revanchista. Portugal, depois de um longo interregno, estaria incluído numa explícita vingança.
Não sou nada bom em sociologia religiosa e já não tenho idade para chegar a ver o que será esse futuro. Espero que as novas gerações católicas consigam libertar a Igreja de certas formas religiosas e movimentos que a asfixiam, mas não para os trocar por algo que se pareça com a vida da maioria dos países dominados pela lei islâmica.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Um dia de chuva

O café tratado pelo MEC 
no Fugas
Miguel Esteves Cardoso


Este tempo, chuvoso e frio, propicia o prazer de estar em casa, olhando de soslaio a fogueira e sentindo o seu calor tranquilizante. E quanto mais olho o tempo escuro e molhado através da vidraça, mais reconfortante me sinto no aconchego da minha tebaida, com música hoje de Sibelius, alternando com silêncio absoluto, que só o crepitar da salamandra interrompe ligeiramente.
Leio as notícias do dia, manchadas aqui e ali por nuvens que deixam marcas indeléveis de futuros incertos e sombrios para alguns. Detenho-me na crónica de Miguel Esteves Cardoso do Fugas, sábado a sábado com recomendações gastronómicas ou culinárias. O conhecido escritor e cronista gosta mesmo desta arte de saber cozinhar e de saber comer, conseguindo transmitir aos seus habituais leitores pormenores de fazer crescer água na boca. 

Nazaré sem ondas

Nem sombras 
de garrettmacnamaras 
à vista


Nossa Senhora da Nazaré
Ontem, a famosa Nazaré da ondas gigantes, que Garrett-McNamara tornou mundialmente conhecida no universo do surf, estava sem ondas. Mar chão em dia de sol, sem grande frio, com alguns turistas a visitar a praia do norte. Foi ali, à vista de muitos, que McNamara bateu o record numa onda de uns trinta metros, quase metade da altura do nosso farol, o mais alto de Portugal.
Já não visitava a Nazaré há décadas. Ontem tive o privilégio de a revisitar, completamente diferente da que morava na minha memória. Igual, lá estava, porém, a ermida de Nossa Senhora da Nazaré, se calhar “mãe” da nossa padroeira. Marcas do tempo a manter viva  a lenda de D. Fuas Roupinho.

Com a minha Lita lá no cimo

Diz Ramalho Ortigão, no seu livro “As Praias de Portugal — Guia do Banhista e do Viajante”, que a capelinha foi edificada em 1370 pelo rei D. Fernando. A imagem, lembra o escritor, é «de madeira pintada, tem palmo e meio [o palmo corresponde a  22 centímetros] de altura e dizem que foi trazida de Nazaré para Mérida, onde esteve algum tempo, e de Mérida para o lugar em que actualmente se acha». Como é natural, eu não podia deixar de a visitar, até porque se diz que de alguma forma estamos ligados àquela imagem.

Nazarena em festa

A Nazaré estava a viver antecipadamente a festa do Carnaval, havendo sinais disso pelas zonas mais turísticas. Por aqui e por ali as nazarenas exibiam as sete saias. Questionei uma sobre o motivo de em dia de trabalho andar com um traje tão antigo. Veio como resposta que nas festas é uso obrigatório e da tradição apresentarem-se assim, começando nas antevésperas. E a jovem, quando lhe pedi autorização para a fotografar, de imediato procurou a pose ideal.
A visita à Nazaré foi apenas de algumas horas, mas deu para perceber que em dia de ondas gigantes, decerto anunciadas com antecedência, não faltarão visitantes curiosos para apreciar o Garrett-Mcnamara ou candidatos a heróis como ele. Nesse ponto, tivemos azar. Ficará para a próxima.

Fernando Martins

O grande enigma (2)

Crónica de Anselmo Borges 
no DN

«Teísmo e ateísmo são possíveis 
e podem ser construídos pela razão 
de forma legítima e honesta moralmente»

1- Ao longo da história, os homens, face ao enigma do universo, acreditaram numa Presença divina pessoal e transcendente, invocável, da qual esperaram a libertação para além da morte. Essa crença foi universal e impunha-se como quase evidente até do ponto de vista social. O número de ateus confessos era reduzido. Foi a partir da modernidade que a ideia de Deus se tornou problemática e o ateísmo, face ao teísmo dogmático, se afirmou a si próprio também dogmaticamente, num frente-a-frente de dogmatismos.

2- Aspecto essencial da obra já aqui citada no sábado, do jesuíta Javier Monserrat, O grande enigma. Ateus e crentes face à incerteza do Além, é afirmar uma "mudança crucial" na história do pensamento, concretamente nos últimos dois terços do século XX. Com o nascimento da nova ciência, da nova física, estamos colocados na consciência de enigma e de incerteza e, por isso, numa profunda inquietação quanto às perguntas e respostas pela ultimidade.

Confiar em Jesus, surpreende. Experimenta

Reflexão de Georgino Rocha


«A abundância foi caminho 
para o encontro com o Senhor. 
Que bela lição!»

Pedro acaba de chegar da faina da pesca. Amarra a embarcação, limpa e enrola as redes, olha mais um vez o mar tranquilo e, apreensivo e amargado, senta-se na proa, dando largas ao “ruminar” da experiência frustrante que está a viver. Com ele, certamente os companheiros da noite aziaga. Ele, que sabia da arte, não consegue nada. Ele, homem experiente na escolha das horas e das rotas, engana-se redondamente. Ele, chefe da companha, vê-se sem nada nem para si e nem para os trabalhadores contratados. E claro para as suas famílias e os cobradores de impostos. Dura e amarga decepção que se prolonga enquanto não surge outra oportunidade! Esta não tarda, mas tem um alcance especial, simbólico.
Chega Jesus rodeado da multidão. Senta-se na sua barca, pede-lhe que se afaste e começa o ensinamento desejado. Depois diz sem rodeios: “Avança para águas mais profundas e lança as redes para a pesca”. Grande desafio que, simultaneamente, é enorme provocação. Simão Pedro vence todas as resistências interiores, supera as dúvidas e os medos, esquece o cansaço, anima os companheiros e exclama: “Em atenção à Tua palavra, vou lançar as redes”. A confiança surge do abatimento consciente qual flor mimosa do charco pantanoso.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O descanso do guerreiro

Crónica de Maria Donzília Almeida



«Educar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais...Entendo assim a tarefa primeira do educador: Dar aos alunos a razão para viver»

Rubem Alves

Fui aluna quando era bom ser professor! Fui professora quando é bom ser aluno. Nesses remotos tempos, do Magister dixit…o professor cheio de direitos, contrapunha-se ao aluno cheio de deveres. Mudaram-se os papéis e, agora, o aluno está no centro das atenções.
Hoje em dia, os professores trabalham até à exaustão, sendo pouco reconhecidos socialmente. É das profissões com maior índice de burnout. 
A nossa profissão é um iceberg: uma parte visível, na escola, a lecionar e a fazer serviço burocrático; o trabalho de bastidores, que não se vê, em casa, mergulhado numa parafernália de papéis.
No início do ano, multiplicam-se reuniões, somam-se planificações, avaliações diagnósticas, preparação de dossiers, elaboração de grelhas, etc, etc

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A beleza antiga da nossa ria




Perdida nos meus arquivos, sem origem conhecida, encontrei há momentos esta imagem, autêntico retrato de uma época que se perde no tempo. Assim, de repente, não consigo identificar o local dos trabalhos, mas acredito na capacidade de alguns leitores do meu blogue para me ajudarem nesta tarefa. Fico a aguardar. 

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Postal Ilustrado — Salva-Vidas

O Instituto de Socorros a Náufragos 
precisa de ser mais conhecido 


Quem passa pelo Jardim Oudinot não pode deixar de apreciar, mesmo de fugida, uma embarcação que ficou na memória de muitos como o Salva-Vidas Almirante Afreixo. Não terá tido a eficiência que os novos meios de salvamento oferecem a quem, por razões variadíssimas, naufraga no mar ou na ria, mas cumpriu as suas obrigações como foi possível. As condições de há décadas evoluíram imenso e hoje as técnicas de salvamento estão devidamente modernizadas. Tudo na vida é assim.
Sou do tempo em que, perante qualquer naufrágio, uma embarcação como a da imagem teria muitas dificuldades em enfrentar o mar alteroso e socorrer quem se debatia numa tentativa desesperada de fugir à morte. Daí as críticas que na minha juventude tantas vezes ouvi, perante a incapacidade de salvar quem quer que fosse. Felizmente, nos dias de hoje é tudo muito diferente.
O Real Instituto de Socorros a Náufragos foi fundado, como instituição privada, por insistência da rainha Dona Amélia, em 21 de abril de 1892, ficando como presidente a sua fundadora, até à implantação da República. A partir de 5 de outubro passou a designar-se por Instituto de Socorros a Náufragos, com dependência e ligação à Marinha de Guerra. Era formado por voluntários, ao jeito de bombeiros.
Trata-se de um organismo com fins humanitários e exerce as suas funções em tempo de paz ou de guerra, assistindo igualmente qualquer indivíduo, independentemente da sua nacionalidade ou qualidade de amigo ou inimigo.
Presentemente, está equipado com os mais eficazes meios de salvamento, sendo notícia sempre que há desastres na ria ou no mar, como aconteceu, recentemente, quando se envolveu na busca de desaparecidos, eventualmente por afogamento. E, diga-se de passagem, tem outras e diversas competências, que uma busca no site da Capitania do Porto de Aveiro esclarece mais ao pormenor.

Fernando Martins

Fonte: Capitania do Porto de Aveiro

domingo, 31 de janeiro de 2016

Filinto Elysio com o povo das suas origens


"Filinto Elysio O Poeta Amargurado" 

Hoje, domingo, 31 de janeiro, no Centro Cultural de Ílhavo, Filinto Elysio encontrou-se com o povo das suas origens. Pelo que vi, o encontro foi de saudade, de justiça e de homenagem a uma personalidade grande da nossa literatura e do pensamento livre. Dele diz Almeida Garrett que «nenhum poeta, desde Camões, havia feito tantos serviços à Língua Portuguesa». Contudo, há muito que entre nós e no país havia caído no esquecimento.
Senos da Fonseca, inquietado com a situação de um filho da terra injustamente ignorado, pôs mãos à obra e trouxe até ao presente a vida de um poeta avançado para a época, em tempos da inquisição que não tolerava quem gostasse de pensar. E dessa inquietação, avançou para pesquisas a diversos níveis, leu decerto parte do muito que o poeta escreveu,  sentiu as amarguras que o abalaram em Paris, onde se exilou, e ofereceu-nos uma peça de teatro para deleite de quem gosta da Arte de Talma. 
Com encenação de José Júlio Fino, que muito bem trabalhou o Grupo de Teatro Ribalta da Vista Alegre, a peça foi à cena no Centro Cultural de Ílhavo, não faltando os aplausos dos povos de Ílhavo. E Filinto, de seu nome de batismo Francisco Manuel do Nascimento, filho de Manuel Simões, fragateiro, e da peixeira Maria Manuela, ambos de raízes ilhavenses, compreendeu, então, nesta tarde de um domingo aprazível, o porquê do seu amor à liberdade e da sua paixão pela poesia. 

Os meus aplausos vão, pois:

1. Para o Poeta Filinto que muitos havíamos esquecido e que, a partir de hoje, certamente, vai ser motivo de pesquisas e de leituras de muitos ilhavenses. 

2. Para Senos da Fonseca que levou a cabo uma tarefa porventura nunca sonhada por qualquer ilhavense. Tarefa que veio na sequência de outras, todas apoiadas nas suas e nossas raízes, que merecem sair do limbo do esquecimento.

3. Para o Grupo de Teatro Ribalta que teima em prosseguir, sem sinais de cansaço ou enfado, com a Arte de Talma, em nome da cultura de que todos bem precisamos. Aplaudo, igualmente, todos os artistas, técnicos e demais colaboradores, pelo empenho demonstrado no palco e fora dele. 

4. Para José Júlio Fino, um homem do teatro desde que o conheço, já lá vão bons anos, que soube levar à cena, com sensibilidade, arte e saber, o texto da lavra de Senos da Fonseca. 

5. Para os ílhavos que souberam apreciar e aplaudir um espetáculo feito por gente da terra, com carinho, justiça  e alegria. 

Fernando Martins