Jesus recusa dar provas de ser filho de Deus

Reflexão de Georgino Rocha

Jesus no deserto
«A quaresma está em curso. 
A alegria da Páscoa já se pode saborear»

Recém-baptizado, Jesus encaminha-se para o deserto, lugar tradicional de grandes desafios, de êxitos e fracassos. Já o povo de Deus no regresso do Egipto o havia experimentado: percursos cansativos e longos, sede e fome, sensação de abandono, perigos de morte e tantas outras ameaças à vida e à confiança em Moisés, seu guia providencial. As provações da travessia proporcionam um tempo de paciente espera, de atenção solícita e de sentido dos pequenos passos na longa caminhada. Assumindo este “fio” histórico, Jesus vive no deserto uma experiência original: a de provar que é verdade o que declarou a Voz vinda do Céu, aquando do seu baptismo: “Tu és meu Filho amado, em Ti pus as minhas complacências”. (Mt 3, 17).

O tentador insiste por três vezes neste ponto crucial. Não o intima a deixar de ser Filho, mas a dar resposta a três provas vitais que dizem respeito aos meios a usar para fazer aquela demonstração. Seria tão fácil saciar a fome, transformando pedras em pão; credenciar-se na sua filiação, fazendo uma acção espectacular na esplanada do Templo; poder exercer o seu senhorio sobre o mundo, realizando um simples gesto de adoração. Tudo tão fácil e sedutor. Tudo apoiado na força da palavra da escritura. Tudo ao serviço da sua reconhecida missão. E a voz a segredar aos ouvidos da liberdade: “se és filho de Deus, se és”.

Jesus, homem inquebrantavelmente livre e libertador, assume o desafio diabólico e dá-lhe resposta convincente e definitiva: “Só a Deus, adorarás”. “Não tentarás o Senhor, teu Deus”. O homem vive não apenas de pão, “mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus”. A liberdade brilha na verdade. Outra opção triunfa. Os meios da missão de Jesus são diferentes: não ao milagrismo, sim à confiança filial; não ao espectáculo, sim à simplicidade discreta; não à ganância, sim à sobriedade e à partilha, à proximidade e ao serviço por amor.

O Papa Francisco alertou recentemente milhares de pessoas reunidas na Praça de São Pedro, no Vaticano, para as tentações do “dinheiro, prazer e poder” e apresentou Deus como Pai num “mundo órfão”. E exortou os presentes a fazerem opções: “Ou o Senhor ou os ídolos fascinantes, mas ilusórios: esta escolha que somos chamados a fazer repercute-se depois em todos os nossos atos, programas e compromissos. É uma escolha a fazer de forma nítida e a renovar continuamente, porque as tentações de reduzir tudo a dinheiro, prazer e poder são prementes”.

Mateus, o autor da narrativa, faz um relato genial do encontro de Jesus com o tentador e deixa a claro o valor da liberdade de opção que evidencia quem a pessoa é e a responsabiliza por aquilo que faz. Que maravilha e preciosidade, postas nas nossas mãos de barro, frágeis e oscilantes. Dostoievski, no romance «Os Irmãos Karamazov», faz o grande Inquisidor dizer a Jesus: “Porque vieste a transtornar-nos? Queres ir pelo mundo com as mãos vazias, pregando uma liberdade que os homens… não podem compreender; uma liberdade que os atemoriza, pois não há nem houve nunca nada mais intolerável para o homem e a sociedade que ser livres”. Desafio crucial que o Evangelho deixa em aberto a todas as gerações, sobretudo à nossa tão marcada pelo “gosto” da liberdade de ocasião, de catavento, de encarte e descarte conforme ass modas e as circunstâncias. Desafio a ser assumido por cada um de nós, pelos meios de educação da sociedade e pelos serviços da Igreja.

Jesus, na sua missão, é portador de uma mensagem que enche corações, liberta espíritos amarrados e dá sentido pleno à vida. Milhões e milhões acolhem esta mensagem e seguem o seu exemplo: preferem a sobriedade à opulência, o desassossego à acomodação, a simplicidade à ostentação, a cruz do amor de doação ao podium do aplauso exibicionista, o bem comum ao interesse pessoal, o serviço ao poder. Algumas destas pessoas fazem-se notícia pelo heroismo das suas atitudes e pelo valor simbólico da sua vida realizada e feliz. Outras ficam no coração de quem beneficia da sua generosidade exemplar e no registo do coração de Deus.

O medo à liberdade ocorre sempre que faltam convicções firmes e opções claras, fruto de uma educação integral enraizada na nossa comum humanidade, moldada por uma cultura de valores intergeracionais, espelho da dignidade pessoal de cada um e de todos. Educação aberta ao Trancendente que se faz humano em Jesus Cristo. É ele mesmo que, hoje, é boa notícia para o mundo, pois tentado na sua liberdade e, apesar de intimado três vezes, mantem firme a sua opção de ser livre nas suas escolhas e de reafirmar a sua identidade de Filho de Deus. Que alegria ser discípulo de tal Mestre!

Há dias, um amigo dizia em tom desabafo psicológico e espiritual: “De vez em quando é bom fazer uma limpeza ao coração. Há sentimentos que não valem o espaço que ocupam”. É mesmo assim. Experimenta. A quaresma está em curso. A alegria da Páscoa já se pode saborear.

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