Ataques a Francisco e a sua fé e coragem

Crónica de Anselmo Borges 
no DN



Poderia Trump reunir-se com Francisco, 
aquando da cimeira do G7 na Sicília 
nos dias 26 e 27 de Maio?

1- Causa admiração o à-vontade com que Francisco está e fala. Ainda há dias foi a uma paróquia de Roma e deixou que crianças fizessem selfies com ele e lhe colocassem perguntas, do género: "Paga-se para ser Papa?" Resposta: "Os cardeais juntam-se, falam uns com os outros, pensam... falam entre si sobre as necessidades da Igreja... Todos votam e o que tiver dois terços dos votos é eleito Papa", acrescentando que "é um processo com muita oração" e que os "candidatos" ao lugar "não têm de pagar, não há amigos que empurram, não, não...". "No meu caso, quem pensais que era o mais inteligente do Conclave?", perguntou, divertido. "Você", responderam os miúdos. E ele: "Nem sempre os cardeais elegem o mais inteligente. Talvez o eleito não seja o mais inteligente nem o mais astuto ou o mais disposto a fazer o que é preciso. Mas é o que Deus quer para este momento da Igreja." Depois, "o Papa vai morrer como todos os outros ou retirar-se, como o grande papa Bento, e outro virá, que será diferente, talvez mais inteligente, ou menos, não se sabe".
E fez algumas confidências. "Passei por alguns momentos difíceis. Quando tinha 20 anos, estive à beira da morte com uma infecção, e tiveram de me tirar uma parte de um pulmão. Todos temos momentos difíceis na nossa vida. A vida é um dom de Deus, mas também tem momentos maus, que é preciso superar e seguir em frente", lembrou. "Na vida, há dificuldades, sempre. Mas não vos deixeis intimidar, porque as dificuldades superam-se com a fé, com a força e com a coragem."

2- Francisco continua com dificuldades? Muitas e graves, e têm-se agravado nos últimos tempos. Já neste mês de Fevereiro, apareceram, colados nos muros de Roma, cartazes com críticas que, em dialecto romanesco, lhe são directamente dirigidas: "Francisco: comissariaste congregações, removeste sacerdotes, decapitaste a Ordem de Malta e os Franciscanos da Imaculada, ignoraste cardeais; onde está a tua misericórdia?" Quem são os seus autores? Evidentemente, alguém a mando de poderosos que se sentem atingidos pelo Papa. Logo a seguir, apareceu um vídeo satírico intitulado That"s Amoris, aludindo, evidentemente, à Exortação Amoris Laetitia (A Alegria do Amor) sobre o amor e a família, na qual se abre a possibilidade da comunhão a católicos recasados; nele, ataca-se Francisco por não ter respondido à carta que quatro cardeais lhe dirigiram, pedindo esclarecimentos precisos quanto à interpretação da Exortação, criticando-o por "insultar todos os católicos e a Cúria romana" durante as suas homilias e chegando a perguntar: "Quando seremos libertados desta cruel tirania?"
Lidera a oposição a Francisco o cardeal americano R. Burke, que ousou levantar a questão da condenação de Francisco por heresia. Foi ele que tentou convencer M. Festing, grão-mestre da Ordem de Malta, a desobedecer ao Papa e a não se demitir. Segundo o New York Times, o cardeal ultraconservador e sectores fiéis a Donald Trump na Casa Branca, concretamente o conselheiro Steve Bannon, conspiram contra Francisco, temendo alguns que, com a vitória de Trump, o Papa fique um pouco isolado. Mas o padre jesuíta, A. Spadaro, um dos conselheiros mais próximos, não hesita: "Ele está a avançar, e a avançar muito depressa."

3- E Francisco? Continua a revolução do Evangelho e da ternura e também a denunciar "uma atmosfera mundana e principesca" nas estruturas eclesiásticas - "não é preciso ser cardeal para julgar-se príncipe, basta ser clericais, isto é o pior na organização da Igreja" - e a reconhecer que "no Vaticano há corrupção", mas que ele "vive em paz", clamando que é necessário "destruir esse ambiente nefasto"; "na Igreja, há muitos Pôncios Pilatos que lavam as mãos para estar tranquilos"; quanto às críticas, admite que "a vida está cheia de incompreensões e tensões e, quando são críticas que servem para crescer, aceito-as e respondo". Não quer rupturas e procura consensos. Mas não se assusta: ao jornal L"Avennire disse que "não perdeu o sono", continuando a dormir que nem um penedo, mas foi advertindo "os que não são honestos nas críticas, que agem de má-fé para fomentar divisões". Exigiu a demissão de Festing e nomeou um delegado para organizar "a renovação moral e espiritual da Ordem de Malta", a ponto de o Grande Chanceler da Ordem, A. F. Von Boeselager, ter esclarecido que como Patrono da Ordem Burke "está suspenso de facto".

4- O problema essencial de Francisco são os mediadores, isto é, que bispos e padres se convertam, para que sirvam precisamente de mediadores entre o que Francisco propõe e os fiéis, em ordem a evitar perigos reais de má interpretação, que pode levar à acusação do "agora vale tudo".
Note-se, entretanto, que o cardeal conservador Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, marcou distância em relação ao grupo dos quatro. Por outro lado, para os bispos alemães, por exemplo, "a exclusão da comunhão passou à história", vendo a possibilidade de os divorciados que voltaram a casar receberem a comunhão, no quadro de "soluções diferenciadas e apropriadas aos casos individuais"; abre-se a porta a um "novo começo" no sentido da possibilidade da comunhão também para os casais não casados, para os casais de diferentes confissões, e inclusivamente para pessoas homossexuais, sempre no respeito pela consciência e dentro do devido discernimento. Perante as críticas, o Conselho de Cardeais de todo o mundo, o célebre G9, está com Francisco: "em relação a acontecimentos recentes, o Conselho de Cardeais assegura a sua adesão e apoio plenos à pessoa do Papa e ao seu magistério."

5- Há uma pergunta que anda no ar: Poderia Trump reunir-se com Francisco, aquando da cimeira do G7 na Sicília nos dias 26 e 27 de Maio?

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